
O Quadrifoglio reabriu com tudo, mantendo a tradição da casa no Jardim Botânico em receber duas estrelas do Guia Quatro Rodas, merecidamente, como antes
Nesta semana foi lançado o Guia Brasil 2010, que estou louco de curiosidade para manusear. Nesta edição tem uma matéria minha sobre bares que foi muito gostosa de fazer.
Mas isso é assunto pra depois. Daqui de Portugal o que quero falar é do Quadrifoglio, que foi reinaugurado com tudo. E o pessoal do Guia não deixou por menos: deu logo duas estrelas pros caras: merecidamente, acho eu. Só não acho certo o Gero ter só uma. Como diz sabiamente o Joaquim, o Gero é infalível. Merecia mais que ser botafoguense, uma estrela solitária.
Aproveito o ensejo para publicar um texto que fiz logo que o Quadrifoglio reabriu as portas.
QUADRIFOGLIO: NOVO E ANTIGO – Publicado em 3/6/09
Quando foi anunciada a saída da Silvana Bianchi do Quadrifoglio ficamos apreensivos. O Quadrifoglio sempre foi uma das cozinhas mais consistentes da cidade. Eu nunca havia escutado um relato de qualquer refeição ruim lá. Historicamente, o Quadrifoglio sempre conquistou duas estrelas no Guia Quatro Rodas – o que se sabe, não é pouca coisa. Era um daqueles endereços sempre certeiros. Pratos clássicos da casa, como o ravióli de pêra com gorgonzola e a panqueca de tangerina, regada pelo fogo num espetáculo pirotécnico, deram fama interestadual a este restaurante italiano, sempre listado entre os melhores do Brasil na especialidade. Quem conhecia o lugar não escondia o temor. O assunto tomou as conversas da turma chegada em gastronomia, escaldada pela irreparável perda do Le Saint Honoré: seria o fim do Quadrifoglio?
Quando foi anunciado que um grupo de ex-funcionários do grupo Fasano havia se unido para assumir o restaurante, veio um certo alívio. Depois da inauguração ouvi relatos animadores, incluindo do nosso nobre Joaquim, respeitável referência. Na segunda foi a minha vez. O que posso dizer, de maneira resumida, é que há males que vêm para o bem, e o novo Quadrifoglio está ainda melhor que o antigo. A começar pela aparência. Porque na minha última visita ao Quadrifoglio a comida estava incrível e minha única ressalva foi quanto ao ambiente: acho que o carpete tava meio velho, a casa um tanto escura, uma decoração pesada. Agora não, o piso é de madeira, o salão está mais claro. Uma linda adega domina parte do segundo andar, exibindo uma boa seleção de garrafas. A reforma rejuvenesceu a casa do Jardim Botânico. Já gostei. Mas não basta uma bela estampa, é preciso conteúdo, nós sabemos disso. Então, fiquei altamente entusiasmado com a primeira graça da noite, uns biscoitinhos de aliche. A massa estava leve e delicada, com o peixe apresentando o seu forte e característico sabor na medida exata. É uma espécie de mini-grissini, dos melhores que já comi. Achei aquilo muito divertido com uma tacinha de espumante. Com os biscoitinhos veio a cesta com bons e variados pães, tudo feito ali, além de uns grissinis – e três potinhos: azeite de primeira, manteiga idem e uma sardella bem pastosa, saborosa, intensa. Couvert italiano é isso aí, não há o que inventar, veja o Gero e o Fasano.
Agradável foi folhear o cardápio e constatar que o que mais importava foi preservado. As receitas mais conhecidas dos tempos da Silvana Bianchi permanecem. Estão lá o ravióli de pêra com gorgonzola, a panqueca de tangerina… Mas predominam os pratos criados por Kiko Faria, ex-Fasano al Mare. Como era a nossa estreia no novo restaurante, preferimos investigar as novidades. O camarão envolvido por massa fresca vinha escoltado por pedaços de tomate levemente desidratado que estavam incríveis. Mas acho que o cozinheiro se esqueceu de colocar sal no crustáceo que, em compensação, estava naquele ponto certo de cozimento raro de ver, resistente à mordida, explosivo. Equilibrado estava o polvo no molho de tomates, com igual acerto no tempo de panela, muito saboroso.
Não houve como resistir às sugestões do maitre: cavatelli com molho de coelho e favas e pernil de cordeiro com polenta e pecorino. Cozido lentamente, adensando o seu próprio molho, o cordeiro chegou perfumando a mesa. É um pernil preparado de maneira inteligente, fugindo do convencional. Eles tiram uma manta de carne da peça, temperam com ervas e enrolam, quase como um rocambole. De intenso sabor, duas altas fatias regadas pelo próprio molho buscam o equilíbrio na polenta com pecorino ralado à mesa. É um prato que praticamente exige um vinho maduro, potente e estruturado para se revelar por inteiro. Delicado era o cavatelli, uma massa de formato rústico, como um pequeno spätzle. Não era capaz de imaginar o quanto se dão bem o coelho com as favas. Hoje acho que nasceram um para o outro.
Confesso que no capítulo sobremesa quase mandei às favas, ops, quase me esqueci do plano de explorar os pratos novos do cardápio. Por um triz não pedi a panqueca de tangerina, um daquelas pratos que nunca me cansaria de repetir. Mas fomos em frente e pedimos o diamante alla variegato, que é uma boniteza só, e os profiteroles al gianduia. O primeiro é um chocolate (em forma de diamante) recheado com calda de avelãs e laranja, servido sobre uma espécie pão-de-ló. As carolinas também levam avelãs, o que as tornam mais interessantes.
Um café acompanhado por biscoitinhos nível Fasano e uma taça de vinho do Porto depois, fui embora feliz e despreocupado. O Quadrifoglio vai muito bem, obrigado.
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