Feijão dá samba: a relação entre o carnaval carioca e o mais brasileiro dos pratos

Linguiça e rabinho: combinação perfeita

Poucas palavras estão tão associadas ao Rio de Janeiro quanto carnaval e feijoada. É verdade que tanto o samba quanto o feijão com carnes salgadas ficam em cartaz ao longo do ano todo. Mas é no inverno, como se sabe, é a melhor época para traçar uma feijoada, fisiologicamente falando, vamos dizer assim. De longe, os mais altos índices de consumo e as feijoadas mais badaladas coincidem com a festa de Momo. A união do batuque com o feijão é antigo, vem desde os quilombos. As agremiações carnavalescas mais tradicionais, Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro, promovem as suas feijoadas, em fins de semana e dias alternados, todos os meses. Não faltam referências ao prato em composições de todos os períodos do ritmo. Feijão dá samba.
Comer uma feijoada, principalmente aos sábados, é um programa carioca por natureza, praticado igualmente por nativos e forasteiros. A receita é servida em quase todos os lugares, dos mais chinfrins botecos, nos mais sórdidos recantos, aos restaurantes dos hotéis mais estrelados. Numa cozinha a quilo do Centro, dessas que preparam a feijoada às sextas–feiras porque não abrem aos sábados, um prato de tamanho razoável pode custar uns R$ 6 ou R$ 7 apenas. Já para se nutrir com os panelões de ferro do Copacabana Palace é preciso investir R$ 100 no programa, a feijoada mais cara da cidade, sem dúvida.
Em praticamente todos os hotéis sábado é dia do prato, servido em bufês suntuosos, com direito a batidas e caipirinhas e, muitas vezes, uma roda de samba para animar (será?). Sem falar nas saladas, no bobó de camarão, nos acarajés – e nas bancadas de doces e nas intermináveis mesas de saladas.
A feijoada do Ceasar Park, em Ipanema, é uma das melhores da cidade por algumas razões que não só as gastronômicas. O feijão é bem-feito e há boa oferta de carnes. A vista da praia de Ipanema da cobertura é espetacular (embora eles estejam cada vez mais fazendo a feijoada no restaurante do segundo andar). E a roda de samba é muito boa, o que é raro nesses casos. No sábado de carnaval, para melhorar a coisa, o Império Serrano anima a comilança.
O Sofitel, sempre francófilo, convocou a Grande Rio para balançar o caldeirão da feijoada carnavalesca que rola sábado. Estamos em pleno Ano da França no Brasil. E a data não poderia passar batida pelo carnaval. Com o enredo, quilométrico, diga-se, “Voilá, Caxias! Para sempre Liberté, Égalité, Fraternité, merci beaucoup, Brésil! Não tem de quê!” a escola da Baixada foi uma das poucas que conseguiu fazer o carnaval com a grana prevista. Está rica, ainda mais como a queridinha da Globo. A crise atingiu todas as outras escolas, mas o governo francês compareceu com seus euros. Pode pintar o primeiro título para Caxias, depois não digam que não avisei. Além da bateria, passistas, ritmistas, mestre-sala e porta-bandeira participam da feijoada no deck da piscina, com bela vista do Posto 6.
OPestana, em Copacabana, e o Sheraton Barra também realizam os seus feijões de sábado. No carnaval a unidade do Vidigal vai promover uma feijoada carnavalesca. E, como sempre, o Ricardo Amaral vai fazer a sua feijoada de Momo também, que anda meio caidinha – nos tempos em que o carnaval de rua andava agonizante, o evento mais importante off-Sapucaí era a Feijoada do Amaral, assim mesmo, com caixa alta. As camisas eram disputadíssimas, todos personalizam os seus modelitos, era sucesso em revistas como Caras e Playboy. De uns dez anos para cá foi decaindo a ponto de eu mal escutar falar dela. Eu sei que este ano tem, mas não me pergunte onde.
Fora do circuito turístico-hoteleiro-carnavalesco, há muitas, talvez dezenas, de feijoadas clássicas no Rio. Pode ser a do restaurante Botequim, em Botafogo, ou a do Jobi, no Leblon. O Garden, em Ipanema, de frente para o Jardim de Alah, também serve o prato em bufê aos sábados.
Feijoada é a pura democracia culinária. Podemos encontrar nos subúrbios, na Zona Sul, na Zona Norte, na Zona Oeste. Chega a ser besteira tentar descobrir a melhor.
Há ainda as variações do tema, como a feijoada portuguesa do Casual, e a lentilha garni do Bar Brasil, uma feijoada alemã legítima – com kassler, salcichas e eisbein. Sem falar em contravenções como a feijoada de legumes e afins, do Vegetariano Social Club – e algumas feijoadas de frutos do mar que surgem e desaparecem por aí, não vi pegar em qualquer parte. A novidade da temporada é a feijoada com cassoulet, do Troisgros, já apresentada aqui em primeira mão. A calhar em tempos de invasão francesa no Brasil.
Há muita feijoada boa por aí. Mas ultimamente a melhor que tenho comido tem sido aqui em casa mesmo. Em segundo lugar, aparece a da Casa da Feijoada (que é uma opção legal para se pedir em casa, através de sua extensão, o bar Brasileirinho). O restaurante é muito freqüentado por gringos bem informados. Pagam ali por volta de R$ 55 e comem o melhor feijão que um restaurante pode servir no Rio.
Mas, são as feijoadas realizadas pelas escolas de samba, para mim, o melhor investimento. É o programa mais completo e autêntico, que inclui um passeio pelos subúrbios, coisa que pouco turista faz, mas é tão importante para entender a alma do Rio. Funciona assim: Portela (primeiro sábado do mês), Mangueira (todo o segundo sábado do mês), Salgueiro (segundo domingo do mês) e Império Serrano (terceiro sábado de cada mês).

De olho nesta gostosa dobradinha samba e feijão há dois programas não muito falados, mas sensacionais para a tarde de domingo. A Casa Rosa e a Tia Elza, no Horto (este só a cada 15 dias). O espírito é parecido. Ali pelas 16h, 17h horas começa uma rodinha de samba, do tipo fundo de quintal mesmo, ao redor da mesa. Noutras mesas o pessoal acompanha o batuque. E na maior mesa de todas, ao menos na mais importante, você se serve com a feijoada. O programa (R$ 20 na primeira e R$ 30 na segunda) custa um troco, levando-se em conta que show e almoço estão incluídos. Vale conferir.

Publicado em 18/2/2009

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5 Respostas to “Feijão dá samba: a relação entre o carnaval carioca e o mais brasileiro dos pratos”

  1. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    [...] Feijão dá samba: a relação entre o carnaval carioca e o mais brasileiro dos pratos [...]

  2. Feijao-da-samba-a-relacao-entre-o-carnaval-carioca-e-o-mais-brasileiro-dos-pratos : Sysmaya Says:

    [...] http://riodejaneiroadezembro.wordpress.com/…-carioca-e-o-mais-brasileiro-dos-pratos/ [...]

  3. André Paranhos Says:

    Olá Bruno, concordo com vc sobre a democracia culinária da feijoada, suas variações na composição e ambientes que a acolhem. Por puro prazer, nosso blog Feijoadas Cariocas visita semanalmente um local diferente, pé-sujo ou limpo, restaurante, casas de eventos, quadras das escolas de samba ou hotel (estes mais raro por não termos patrocínio), sempre em busca de relatar de maneira simples os recantos e encantos da Cidade Maravilhosa. Já são mais de 100 posts e o tema parece infindável. No Rio, todo dia é dia de Feijoada ! Quem sabe vc não aparece numa próxima ? Aquele Abraço, André

  4. Casa da Feijoada: o lar do melhor feijão do Rio « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    [...] menos nos fins de semana, quando tem fila na porta… Para ler um post sobre feijoada e samba, clique aqui.   Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui. [...]

  5. Um pouco de carnaval « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    [...] Feijão dá samba: a relação entre o carnaval carioca e o mais brasileiro dos pratos [...]

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