Posts de abril \29\UTC 2011
Um Duo afinado
26/04/2011Poucas, muito poucas coisas me levam até a Barra, e a razão nem é a distância, mas o sempre possível trânsito que às vezes nos tira dura horas para fazer o trajeto entre as lagoas Rodrigo de Freitas e da Tijuca. Um bom restaurante é uma dessas razões que me movem. Estava há um bom tempo para visitar o restaurante Duo, comandado pelo Nicola Giorgio, que cuida do salão, e Dionísio Chaves, o homem dos vinhos, amigo de muitas degustações, ajuda preciosa para as minhas reportagens há uns bons oito anos.
Fui na festa de inauguração, no final do ano passado, e não consegui mais.
Até que aproveitei o trânsito mais que tranquilo do feriadão de Páscoa e, finalmente, no sábado consegui ir até lá, pegando um caminhbo livre, livre: coisa de 20 minutos, até um pouco menos, de Ipanema até o restaurante, na Érico Veríssimo, comecinho do bairro, bem mais fácil para quem sai da Zona Sul.
Na ilustre companhia da filha, tive um lindo almoço no começo da tarde ensolarada, mas já mais fresquinha, sinal do inverno que já se insinua para nós, deixando os dias claros e o mar lindo, limpinho.
O couvert empolgou a menina, e a mim também. Primeiro, a ciabatta crocante e saborosa, ainda quentinha, recheada com manteiga, que se derretia. Consegui convencê-la a provar uma versão da ciabatta com a linguiça afogada em molho de tomate, o meu item preferido no couvert saboroso, adequado. Ela gostou do sanduichinho, mas o que quis mesmo repetir foi o pão imerso no molho de tomate. Até pediu para o garçom reforçar a ciabatta. Foi quando o sujeito trouxe, ainda antes do primeiro antipasto, mais uma bandeja de madeira com focaccia de tomate, a tal ciabatta e a linguicinha, além da cumbuca de manteiga e o adorável biscoitinho típico do Sul da Itália, cujo nome me esqueço. Traçamos tudo.
- É duro mesmo – advertiu o Nicola, quando apresentou o couvert, no primeiro serviço, a respeito do biscoitinho.
É duro, não, é crocante, eu diria, e saboroso, bem saboroso, de modo que é difícil para de comer.
Cumpri um roteiro sugerido pelo Nicola. Escolhi, de fato, apenas um dos pratos, um polvo com batata, que foi o primeiro a ser servido.
Para o resto, acatei as sugestões do Nicola. Fiz bem.

Maria enquadrou com gosto o seu pratinho: também provei, e estava bem saboroso, com massa fresca e filé bem grelhado
E a Maria, também, se esbaldando com dois escalopinhos macios, macios, o que percebi só de cortar, além de um espaguete caseiro bem cozido, com molhinho simples de manteiga. Ela adorou.
Eu também me esbaldei. Depois do polvo, …
… acompanhado por esse Pinot Grigio leve, fresco e gostoso, …
…ataquei o ravióli de foie gras com uma espécie de pesto de amêndoas, servido com um molhinho branco de textura aveludada. Estava bom, com massa fresca cozida no tempo certo, molho em textura agradável, recheio saboroso. Mas essa não me disse muita coisa.
Então, mudei de vinho, novamente pedi “o da casa”. Também leve e gostoso, bom para acompanhar a comida, equilibrado e com boa acidez.
Em seguida, outro acerto: o bacalhau grelhado servido com risoto de rúcula com pimenta verde, prato equulibrado, com bacalhau dessalgado com perfeição, e grelhado também assim, acompanhado por um risoto diferente, no ponto certo, ótimo complemento. Quase foi o meu preferido. Quase.
Porque, por fim, não pude resistir à outra sugestão do maitre, um stinco de vitela acompanhado de uma polenta mole de pecorino aromatizada com sálvia, uma beleza. Foi o melhor da tarde. Carne muito saborosa, em cozimento perfeito, com um molho rico e pungente, uma dupla que recebia o carinho de uma polenta cremosa, um estofo mais que adequado, o complemento exato.
Ainda comi feliz uma sobremesa leve, que tinha panacotta com molho de frutas vermelhas e uma espécie de mil folhas escultural, também de frutas vermelhas.
Maria se comportou de maneira exemplar, e adorou a comida, assim como ficar brincando no computador no qual são anotados os pedidos, com uma das simpáticas garçonetes.
Comi couvert, quatro pratos e sobremesa (e ainda espetei umas coisinhas no prato da filha). Ainda assim, saí leve, leve.
P.S. – Só não sei dizer porque as formatação das fotos ficou tão estranha. Tá muito esquisito este publicador.
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Rio de cinema
14/04/2011Depois da imensa tristeza que senti lendo à distância as notícias sobre a tragédia de Realengo, ao menos as ruas de Paris me devolveram algum orgulho de ser carioca.
Por toda a cidade podemos ver os cartazes do filme Rio: no metrô, na carroceria dos ônibus, em diversos letreiros.
Essa é a hora da virada. O Rio, depois de anos de maus tratos, impostos pelo descaso federal com a cidade, volta a brilhar. Porque o Rio é o Rio, o resto são apenas cidades.
O Rio está brilhando como nunca.
Ao mesmo tempo leio sobre o lançamento de outro filme que tem a cidade como Cenário: Velozes e Furiosos 5.
Vejo pessoas reclamando que o filme trata a cidade como violenta. Mas e não é? As coisas melhoraram, mas o Rio ainda é uma cidade violenta, bem menos do que já foi, certamente.
Essa coisa de filmar crime organizado no Rio ainda vai dar muito pano para a manga. Não faltam bons enredos. E o Rio é um cenário naturalmente espetacular. Para onde aponte a câmera, temos uma imagem linda.
Fico imaginando quantas biografias de traficantes poderiam render belas bilheterias: a história de Esacadinha, ou do Meio Quilo. E do Brasileirinho, o menino franzino que aos 13 anos era um dos chefs do tráfico da Rocinha, morto pela polícia no fim dos anos 1980. Ou Fernandinho Beira-Mar, ou Marcinho VP. São tantos bons enredos. Só a Ilha Grande poderia render uma trilogia, contando-se as histórias de seus presos ilustres, como Graciliano Ramos, que escreveu Memórias do Cárcere sobre os tempos em que ficou encarcerado naquele paraíso. Ou, ainda, as fugas espetaculares de Escadinha, de helicóptero, ou do Lúcio Flávio, a nado.
O Rio sempre foi uma cidade cenematográfica. Agora parece que os cineastas, incluindo os estrangeiros e produtores de animações, descobriram isso.
O último rango em Paris
12/04/2011
O último dia da viagem, para mim, é sempre importante. São muitas as razões. A principal delas é que, por melhor que tenha sido a jornada, estou sempre transbordando de alegria por voltar para casa. Adoro o regresso, prefiro mil vezes a volta do que a partida, e já escrevi sobre isso aqui. Mas, além disso, busco sempre me dar alguns luxos no último dia, como um grande jantar, ou, então, uma noite num hotel superior. Dessa vez eu nem busquei nada: reservaram para mim uma senhora suíte no Le Bristol. Gosto é de dormir bem, e cedo, para estar descansado para encarar um voo, que é sempre chato, a não ser que a gente esteja na executiva, ou na primeira classe, aí é até tolerável, e certamente esses é um investimento que vale a pena aos que podem pagar, o que não é o meu caso.
Hoje acordei às 5h30 para pegar meu voo às 10h30 no Charles de Gaulle. Dormi feito um anjo. Também, pudera: tive uma noite de gala, numa das suítes do Le Bristol, que é quase do tamanho do meu apartamento, imenso, com sala,…
… quarto com poltrona e cama imensa, e um banheiro daqueles de filme. Estou pronto, poderia voar até o Japão descansado assim.
Tudo conspirou para um fim de viagem perfeito.
O dia rendeu bastante. Andei, fotografei, comi e conversei muito. Boas histórias, ótimas descobertas, fotos bonitas. Fico feliz quando o trabalho corre bem. O almoço no restaurante Hotel Du Nord, bistrozinho simpático, com paredes de azulejos, chão quadriculado e comida boa e barata, foi ótimo.
Voltei para o hotel exausto, e vi que não pude confirmar o meu jantar no Ducasse. Em compensação, aqui no Le Bristol estava acontecendo uma degustação de vinhos de Bordeaux.
Entre outros belos rótulos, provei esse aí, nada mais nada menos que um Chateau Tour Du Pas St-Georges 1982, um espetáculo. Estava sublime, evoluído, macio e complexo – e foi, disparado, o melhor vinho dessa curta viagem. Uma jóia.
Sente só a cor.
Depois, jantei no Restaurant 114 Faubourg (levando comigo o Chateau Tour Du Pas St-Georges 1982). Também foi a melhor refeição da viagem, isso se considerarmos apenas a comida, porque o encontro com a Cris Beltrão, na noite anterior, quando abrimos muitas garrafas, e pedimos muitos acepipes no bar Glou, uma ótima dica, foi sem dúvida o momento mais divertido de todos, afinal, não há boa comida que supere a companhia de um bom amigo – e ainda encerramos a noite com um bom Bordeaux em outro bar das redondezas, cujo nome não me lembro, e isso não tem nenhuma importância.
Mas, voltando a ontem, o jantar foi divino. Tudo começou com um ovo recheado de carne de siri, e uns temperos que não identifiquei, mas que formaram um delicioso conjunto de sabores.
Ele abriu o caminho para um extraordinário atum levemente selado, temperado com uma pastinha de gengibre, e umas sementinhas crocantes de gergelim, com vistosa saladinha ao lado.
Delirei, até porque, a sommelier conseguiu melhor o que já era ótimo, ao servir um Bordeaux branco e um rosé de responsa, escolhas acertadas para valorizar o prato.
Depois, uma carne de porco de preparo exemplar, com a carne entremeada à gordura, um arraso, na companhia de uma rara sobrassada, além de uma tortinha de legumes bonita. Fiquei sem palavras,…
…até porque, me dediquei também a apreciar os vinhos, dois Bordeaux bem escolhidos, muito bons.
Para encerrar, um mil folhas de tirar o chapéu, de caramelo com baulhilha, massa ultracrocante, seguido por um macaron de pistache que, meu Deus do céu, não fica nada a dever ao Pierre Hermé – tinha ainda uma balinha de caramelo com maracujá que vou te contar um negócio.
Pulei o café, queria dormir cedo, e antes da meia-noite estava fazendo isso, me sentindo um anjo deitado nas nuvens, no caso, o edredon macio, felpudo.
No Vale do Loire, um almoço campestre com pé de porco, tarte tatin de canard com chévre e baba ao rum
10/04/2011Já estou em Paris (merci, merci, merci). Cheguei hoje do Vale do Loire, e o almoço de despedida, no restaurante l’Auberge de La Boulaye, em Athée-su-Cher, um lugar lindo, foi delicioso. Comida ótima, preparada por três cozinheiros jovens e simpáticos.
Uma experiência incrível, com vista para o campo, ao sabor de dois belos vinhos acompanhando duas receitas bem inusitadas , para mim: a primeira, uma carne de pé de porco desfiada e bem temperada, que foi ao forno envolvida em bacon, uma delícia, sensacional, servida com uns feijões brancos em vinagrete, uma telha de parmesão e uma saladinha verde da horta (aliás, como são boas, frescas e variadas as folhas aqui). Ao seu lado o leve e fresco Amboise Closerie de Chateloup 2009. O prato é um clássico da casa, bem como da região de Touraine.
Agora por outro ângulo.
Depois, uma tarte tatin bem diferente: além da maçã que se carameliza o prato tinha ainda tiras de peito de pato e queijo St. Maure. Lindo, saboroso, criativo, ainda mais delicioso ao lado do Chinon Domaine du Colombier 2003.
Agora mais de perto, para ver as camadas sobrepostas, as texturas: não é lindo?
Para encerrar, baba ao rum com banana assada, um espetinho de abacaxi na fava de baunilha e um caramelo (que eles chamam de tofee) e Voilá.



































