O Le Vin é um restaurante que adoro. Inventou uma fórmula que foi muito bem sucedida em São Paulo: servir um cardápio clássico francês, com boa execução seguindo o receituário tradicional em ambiente simples, que remete aos bistrôs, com serviço eficaz. Quando chegaram ao Rio, incrementaram a sua própria experiência, e conseguiram um ponto raro para um restaurante, um casarão antigo em plena Ipanema. O que já era bom ficou melhor. Rio e Paris têm muito em comum.
Conheci o Le Vin em 2007, quando fui inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas, cobrindo as casas francesas, tanto do Rio quanto de São Paulo, entre outras categorias. Fui avaliar o Le Vin. Gostei.
Aproximadamente um ano depois, fui visitar a filial de Ipanema, inaugurada havia muito pouco tempo. Era uma tarde de outono. Daquelas lindas. Pedi um cassoulet na varanda, e um bom Bordeaux na escolta. Logo vi que a novidade era melhor que as casas anteriores. Nem vou dizer que o CEP ajuda, como sabemos que sim. O fato é que aquela casa é uma graça, e o restaurante é dos mais agradáveis do Rio. É gostoso. Tem uma carta de vinhos correta e coerente, com boa seleção de exemplares da França, e um punhado de garrafas de outras bandas, lista interessante, com preços justos (isso, é claro, para o infeliz nível brasileiro). Seria capaz de ir até lá mesmo que a comida fosse mais ou menos. Mas é boa. Acho muito boa. Entre outras razões, porque traz muitos pratos que adoro. Afinal, onde mais posso comer rins na mostarda aqui na cidade?
Vez ou outra, me perguntam sobre ele, aqui no blog, por e-mail (não façam mais isso, por favor, por e-mail, não) e pessoalmente. Sempre digo que gosto e recomendo. Por esses dias, me perguntaram sobre o tartar de lá. Por coincidência, ou não, eu que ando atrás dos tartares do Rio de maneira quase implacável, havia estado por lá não faz muito. O que me fez ter vontade de sentar para escrever sobre esse agradável lugar.
Fui para provar coisas novas. Assim, depois do couvert que é simples, gostoso e adequado, formado por pão rústico, patê bem feito e uma boa manteiga, e então fui pedir uma entrada.
Fui certeiro ao escolher os cogumelos refogados ao creme de foie gras, prato untuoso, saboroso, aromático, uma pedida ideal para essas noites frias que andam fazendo, ainda mais com um bom carmenere, chileno, naturalmente. Nessa hora, por favor, nunca que deixem levar o pão do couvert. Eu, pessoalmente, gosto de que ele fique por lá até a sobremesa, porque vai bem com muitos pratos (ah, como é bom o caldinho do rim na mostarda). E, dependendo da fome, um naco de pão com patê ou manteiga, ou com ambos, o que talvez seja ainda melhor que cada qual em separado, é sempre uma redenção.
Depois, claro, pedi o tartar, que jamais havia provado ali, sabe-se lá por quais razões (na verdade, repeti poucos pratos no Le Vin, e repetir pratos é algo que faço, porque ali tenho vontade de experimentar todo o cardápio, e posso dizer que nisso eu estou em estágio avançado).
Estava bom, cremoso, com bom tempero, usando bom filé, carne sem nervos, limpinha, como deve ser um bom tartar. Bom, mas eu prefiro as fórmulas finalizadas à mesa.
Não é um restaurante em que sinto fortes emoções, como no Oro, perguntando como o chef fez aquilo. O Le Vin segue sem restrições a linha clássica. Posso não saber fazer igual, mas sei como eles fazem cada um dos pratos. Não tem mistério. Tem ingrediente, tradição culinária, tem coerência com o que se propõe.
A emoção proposta pelo Le Vin é a mais pura: é comer bem, em boa companhia, num lugar bonito com uma taça de vinho. É trazer à mesa referências etéreas. Aconchego. Cassoulet é como um edredon.
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