Quando visitei a Argentina pela primeira vez, e voltei encantado com as achuras, como os harmanos chamam os miúdos, como chinchulines (intestino), molleja (timo) e riñones (rins), além de embutidos, como chorizo (linguiça) e morcilla (morcela) havia na cidade o restaurante El Patio Porteño, na Lagoa. Quando batia saudades desses cortes lamentavelmente raros por aqui, eu ia lá saciar o desejo. A casa fechou. Restou, nas viagens a Búzios, jantar na Estancia Don Juan, bastante irregular. Tempo depois, visitei o Uruguai, e logo na primeira viagem voltei seguro de que os parrilleros uruguais, e as carnes orientais (como os argentinos chamam os seus vizinhos do outro lado do Rio da Prata) são melhores, ao menos para o meu gosto, que já era fã desde a adolescência, dos sandubas do Uruguaio, no Posto 9, em Ipanema.
Assim, foi com infinita alegria que recebi a notícia, há cerca de dois meses, de que abriria as portas no Leblon uma parrilla uruguaya. Eis que o dia chegou, e é hoje que será inaugurado o Gonzalo. Estaria triste, por neste momento tão aguardado estar tão longe. Mas não estou, porque na semana passada eu tive o privilégio de ser o primeiro jornalista, e uma das primeiras pessoas, a conhecer a casa, ali na Bartolomeu Mitre, onde era o bar Associados.
Foi um almoço imensamente gostoso. Porque, além do prazer natural da novidade em primeira mão, comi e bebi muito bem, com o tempero de um papo muitíssimo agradável, com o chef uruguaio uruguaio Gabriel Mangini, que já virou um carioca, apesar de estar na cidade não faz muito tempo. Tinha até mate na bancada.
Posso dizer que gostei de tudo. Começando pela ambiente agradável, com uma decoração bastante original, e que remete mesmo ao Uruguai, país que adora umas coisas antigas, cheio de antiquários,…
…onde foram garimpadas as peças espalhadas pelas paredes, e por prateleiras próximos do teto.
Para beber, além de uma carta de vinho com ênfase nos vinhos uruguaios,

… encontramos cervejas do país, como a Norteña, além do…

… fresco e leve clericot, um clássico de Montevidéu, e de Buenos Aires também.
A adega, além de guardar os vinhos, abriga os potinhos de doce de leite. Lapataia, claro.

O Gonzalo é uma parrilla, claro. Mas está longe de ser uma casa de carnes unicamente. Pelo contrário. Os pescados me chamaram tanta atenção quanto o ojo de bife, a molleja etc etc etc.
Depois de um tomate assado, suculento, suculento, com um molho de ervas e azeite,…
… provei com imensa alegria um ceviche de corvina exemplar. Na verdade, era um misto de ceviche com carpaccio, uma vez que a carne do peixe era cortada fininha, e temperada também com azeite. Sei que deu samba esse encontro dos Andes com o Mediterrâneo.

- Só usamos corvina pescada na linha, em Cabo Frio – diz o chef uruguaio,Gabriel Mangini.

Depois provamos, ainda, uma pequena porção de lula e polvo grelhados, que realmente estava fantástica. Polvo macio, com aquela camada externa crocante que faz a alegria dos amantes deste molusco, tantas vezes servido inadequadamente, borrachudo.

Foi quando duas iguarias que adoro, tão raras no Brasil, chegaram, maravilhosamente. A molleja, à esquerda, e os chinchulines, à direita (esses últimos foram preparados como eu jamais tinha visto, crocantes, sequinhos, quase um bacon de intestino, uma maravilha).

Gotas de limão são necessárias, e quem quiser tem um belo chimichurri para regarm, ou quem sabe uma “salsa criolla”, que aqui no Brasil chamaríamos de molho à campanha, mas com tomate e cebola cortados em pedaços menores do que estamos habituados, o que é muito bom.

Então, eu disse que gostava de fazer empanadas em casa. Claro, não tardou para chegar um pratinho com eles, preparadas à maneira uruguaia, ou seja, fritas. O recheio estava igualmente muito bom. Mais um ponto positivo…

… entre outras razões, porque quando solicitei chegou à mesa uma pimenta da casa, nada de Tabasco, uma boa marinada feita in loco, como deveria ser regra em todos os lugares, mas infelizmente não é.
Logo em seguida, uma especialidade bastante típica do Uruguai, a pamplona, um peito de frango (ou lombo de porco) que deixa de ser sem graça ao ser assado quase como um rocambole, recheado com queijo, cebola, pimentão, tomate… Par dar um tchan, a casquinha crocante, resultado da pele tostada feito torresmo, revestimento untuoso e perfeito.

Os acompanhamentos são interessantes. Salada de feijão branco, purês de espinafre e cenoura, cebolas (bem miúdas) carameladas, alho assado…

Essas cumbuquinhas chegaram à mesa ao mesmo tempo em que o asado de tira, alto na mesa exata para se manter suculento. Asado de tira é das coisas mais difíceis de se preparar. Esse merecia aplausos.

Por detrás, repare, outros acompanhamentos: legumes grelhados ou assados, como abóbora, milho, pimentão vermelho, batata, cenoura…

Mais leve e saudável que as batatinhas fritas, que ali não são congeladas, e realmente valem a pena, não só como acompanhamento, mas também como aperitivo. Curti bastante os palitinhos…

… que fizeram boa companhia para as tirinhas de ojo de bife,…
… logo sucedidas pelas costeletas de cordeiro, de preparo exemplar, e eu não preciso explicar muita coisa, é só olhar pra foto.

Encerramos com uma panqueca de doce de leite, de fazer gemer.
Claro que visitei a casa antes da abertura, com o chef e a assessora de imprensa, ao lado dos sócios. Era só uma mesa para ser servida. As morcillas, e os chorizos, ainda não tinha chegado. A realidade, no dia a dia, pode ser outra. Mas eu duvido. Além de ter achado o lugar bonito e agradável, a cozinha estava excelente, e o cardápio, é enxuto, autêntico, e os ingredientes, de primeira.
Realmente, para um fã das parrillas platenses, a inauguração do Gonzalo é uma imensa alegria. Já virei cliente. Orgulhosamente, o primeiro cliente.
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