Enotria por Joachim Koerper: um dos melhores restaurantes do Rio (e uma pensata reflexiva sobre shoppings, preconceitos e outros temas)

Gastronomicamente falando, sou um sujeito de muitos preconceitos. Assumo. Tenho, por exemplo, preconceito contra restaurantes a quilo e bufês, de uma maneira geral, a não ser que sejam de saladas, queijos, frios, quiches, pães, com bons azeites e vinagres, legumes grelhados… Tenho preconceito em relação à paella, e foram poucas vezes na vida que um prato desses me comonveu, em ambos os casos eram do tipo negra, feitas com tinta e carne de lulas, com camarões e um toque de aioli, uma delas, em 2004, acho, na ilha de Menorca, em Mahon, onde teria nascido este tipo de molho (mahonesa, em espanhol), outra, bem recente, no Entretapas. Também tenho certo preconceito com salmão, e com truta salmonada: gosto apenas de salmão defumado, e eventualmente posso até comer um salmão cru – claro que a máxima não vale para salmão selvagem do Hemisfério Norte: Alasca, Escócia, Canadá, respeito os seus salmões, mas esses exemplares chilenos safados, que chegam aqui após dias de congelamento, isso quando não são trutas salmonadas, eu desprezo totalmente. Também não acho a menor graça nas tão famosas, badaladas e exaltadas ostras de Santa Catarina. Acho muito fraquinhas, falta sabor. O único mérito é conseguir uma boa distribuição pelo Sudeste, garantindo frescor, abastecimento diário. Mas falta gosto. Troco-as por qualquer ostrinha menor, e selvagem, seja de Cananeia, em São Paulo, seja dos mangues dos arredores de Jericoacoara. Passo batido quando vejo em um cardápio “Temos ostras de Santa Catarina”. Também acho, na maioria dos casos, o arroz branco uma bobagem, que sempre pode ser substituída pela farofa. Quando como uma feijoada não uso uma colherzinha sequer de arroz, só farofa, couve e torresmo, e uma laranjinha, para acompanhar o feijão e as carnes – quando adolescente, até quando pedia um estrogonofe o acompanhamento era farofa, acredite. Claro que isso não vale para um risoto, e mesmo para um arroz à piemontese, coisa que inexplicavelmente eu adoro. Tenho preconceito contra bares prostitutos, que se vendem às cervejarias, como fez o centenário Bar Luiz, abandonando a Brahma, parceira histórica, para vender chope da Sol: eu parei de ir, ainda que ainda seja deliciosa a salada de batatas, com as salsichas, o milanesa fininho, a língua, o kassler e o eisbein. Lamento, perdi o tesão de ir. Quando quero comer comida alemã, ali pertinho encontro o Bar Brasil, esse, sim, tradicionalista no abastecimento dos barris que molham a serpentina centenária, respeitoso ao chope.
Analisando a fundo a questão, acho que poderia passar um dia aqui escrevendo sobre preconceitos com a comida. Tenho preconceito, por exemplo, com toda a cozinha mexicana, da forma que ela se apresenta mundo afora, nessa denominação americana de tex-mex, uma gordureba desprezível. No México é outra coisa, mas esse modelo sem caráter, moldado em nachos, frijoles refritos, tacos, nachos e encilladas eu acho um horror… Tenho preconceito com restaurantes de pescados que não têm peixe do dia, e com lugares que vendem incontáveis variedades: liguado, cherne, badejo, atum, salmão, truta, tudo em um só cardápio só, tudo congelado, nada fresco. Tenho muitos preconceitos à mesa.
Mas, taí, quer saber um preconceito que não tenho? É com restaurantes de shopping. Antes ter um bom restaurante em shopping que só os medíocres. Para início de conversa, a melhor refeição da minha vida acho que foi no Per Se, em Nova York, que funciona  em um shopping. E, sem sombra de dúvidas, uma das melhores refeições do ano foi no Makoto, do Bal Harbour, shopping chique ao norte de Miami.
Eventualmente, por conveniência, como em restaurantes de shopping, e ainda bem que encontro um Ráscal, um Joe & Leo’s, uma Cavist, um Le Vin, um Antiquarius Grill, um Ct Brasserie, um Bazzar Café, um Alessandro & Frederico e mesmo um Outback nesses lugares. Imagine se não tivesse? O Chez Michou, e o Royal Grill, o The Fifities, uma Focaccia. São muitos lugares que prezo. Enfim…
Para mim, só existe um defeito inadmissível em um restaurante: comida ruim. O resto é possível admitir.

Todo esse manifesto é para dizer que o Enotria, agora chamado Enotria por Joachim Koerper, é hoje um dos melhores restaurantes do Rio. Está no CasaShopping, e eu seria capaz de ir até lá para almoçar mesmo que não estivesse interessado em comprar móveis ou objetos de decoração. Uma boa refeição é o que mais importa para mim.

Já acompanho o trabalho do chef Joachim Koerper há algum tempo. Primeiro lendo a respeito de sua casa portuguesa, o Eleven. Depois, me informando a respeito do restaurante, através de reportagens e relatos de amigos. E com a entrevista que ele deu ao Jô, simpatizei muito com este alemão casado com uma brasileira, que trabalhou na Espanha até chegar a Portugal. Hoje ele se divide entre a terrinha e o Brasil.

Fui me animando com as palavras positivas. Estava seguro de que a chegada do chef foi algo ótimo para a gastronomia carioca E fui visitar o restaurante seguro de que teria um lindo almoço.
Mas sabe que foi melhor do que pensei?
Começo de setembro. Era um lindo domingo desses de inverno. Sol. Temperatura agradável.
Tudo bem, estava lá convidado pela casa. Canso de visitar restaurantes a convite. Dá para ver quem é muito bom, quem é bom, quem é mediano e quem é ruim. No fim das contas, mesmo quando vou por minha conta a um restaurante, muitas vezes sou reconhecido. Conheço chefs, maitres e garçons. A rigor, mesmo pagando, seja a lazer, seja em almoços de trabalho, seja por curiosidade de visitar um lugar novo, dá no mesmo. Enfim, isso é outro assunto. E esse texto tá ficando demasiadamente autorreflexivo. Mas só queria falar da cozinha do Enotria, e de como gostei do restaurante.

O salão é claro, com muitas janelas, do jeito que eu gosto (apreço, em parte, devido à necessidade de fotografar). Logo à entrada existe uma espécie de lojinha, onde vemos os muitos produtos que carregam o nome do chef, de azeite e flor de sal até uma respeitável linha de vinhos, três alemães, de uma vinícola da região natal do chef, e três portugueses, produzidos no Alentejo, por duas vinícolas diferentes (para ler sobre os vinhos, clique aqui). Simpático.

Foi bom começar o almoço bebericando um bom espumante nacional, recebendo uma cestinha de pães quentinhos,…

…além de dois produtos da casa, uma garrafa de azeite e um potinho de flor de sal.

Foi divertido esperar o amuse bouche, que foi muito mais que um afago para a boca. Tartare de atum com sorbet de wasabi, vol-au-vent de frango, patê de salmão, creme de baroa. Bonito, gostoso, apropriado para se começar uma refeição.

Com um branco alemão na taça, um Riesling Spatlese 2007 com assinatura do chef (muito bom por sinal), que acompanhou de maneira sublime…

…o foie gras envolto em maçã verde com um toque de beterraba, e uma espécie de financier de especiarias. Bravo. Prato delicado. Vinho bem escolhido pelo sommelier português Jorge Nunes, que ao fim deste almoço já se colocou a meu ver entre os melhores da cidade. Na hora de se começar um almoço com foie gras eu não gosto muito de Sauternes e Tokaji, acho muito doces. Sempre digo: um Riesling desses alemães são perfeitos. O Jorge acertou na mosca.

Com o mesmo vinho na taça, tive a maior surpresa da tarde. Um prato lindo, alegre, colorido: uma sopa de pimentões vermelhos e amarelos com creme de abacaxi e cavaquinha. Brilhante. Além de bonito.

Em seguida, apresentando a influência lusitana de maneira clara, um belo lombo de bacalhau com risoto de vinho do Porto.

Bom, muito bom, ainda mais com o Syrah, novamente assinado por Joachim Koerper, produzido pela Herdade da Malhadinha Nova, ótima vinícola alentejana, com ótimo restaurante, que por sinal tem a consultoria do chef.

O bacalhau estava muito bom, e se entrosou perfeitamente com o vinho. Mas realmente formidável estavam as costeletas de cordeiro, macias e saborosas muito saborosas, servidas sobre uma espécie de polenta rústica. Estava bom demais,…

…ainda mais com o vinho, produzido por Paulo Laureano, dentro do projeto Chef’s Collection (a Mônica Rangel, do Gosto com Gosto, também tem o seu vinho feito em parceria com o grande enólogo português).

Pensava na vida e me distraí vendo o sommelier usar um aparelho que trouxe de Portugal para facilitar o uso do tenaz,…

… uma ferramente portuguesa para tirar a rolha de vinhos do Porto com parte do gargalo, através de choque térmico.

Era um Graham’s Quinta dos Malvedos Vintage 1999. Um Porto Vintage é sempre um Porto Vintage, a glória engarrafada, uma bênção líquida.

Olha como fica a garrafa.

Em seguida, um pratinho que abrilhantou a apreciação do vinho: um brulée de queijo dos Açores, um pouco de queijo da serra, damasco, goiabada, nozes, frutos secos.

Estava perto do fim. Quando achava que não poderia haver nada tão grandioso quanto o Porto, eis que chega um Ortega Beerenauslese 1999, novamente assinado pelo chef. Delirei. Vinhaço-aço-aço-aço. Realmente muito bom.

Olha só a cor. Linda demais.

Depois, a pré-sobremesa: o savarignan com sorbet de abacaxi, para limpar a boca. Assim resumi na minha caderneta o lugar depois de receber esse prato: “Um restaurante que pensa nos detalhes, que usa boa matéria-prima, e que as trata com criatividade e boa técnica.”

Tão bom era o vinho que até ofuscou a etapa seguinte, um macarons de caramelo, um sorvete cremoso e uma espécie de pamonha brulée (desculpe, mas não tomei nota, e essa refeição já tem mais de um mês para eu conseguir resgatar esses detalhes do fundo da memória).

Quando eu pedi o café ele veio acompanhado do ato final da cozinha, um divertido pratinho com telha de amêndoas, bombons, uns biscoitinhos e até uma balinha embalada em palha.

Saí de lá certo de que o Enotria é um dos melhores restaurantes do Rio, especialmente para os que querem uma refeição que fuja do óbvio.

Achei realmente sensacional. No nível das grandes cozinhas cariocas. Parabéns ao chef. Parabéns ao sommelier. Foi um lindo almoço.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

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8 Respostas to “Enotria por Joachim Koerper: um dos melhores restaurantes do Rio (e uma pensata reflexiva sobre shoppings, preconceitos e outros temas)”

  1. Renata Almeida Says:

    A melhor crítica sobre o melhor restaurante, na minha opinião: Enotria por Joachim Koerper. Que bom ler sábias palavras sobre um sábio da cozinha.

  2. Mariana Baleeiro Says:

    Concordo plenamente com sua critica sobre o Enotria por Joachim Koerper !!! Já fui lá jantar algumas vezes e sempre saio com a sensação de q foi o melhor jantar que já tive na vida !!! Pratos espetaculares e surpreendentes e serviço impecável , e os vinhos ??? Sempre perfeitos e bem harmonizados !!! Já indiquei e levei amigos que tb ficaram impressionados !! Vale a pena experimentar e voltar !!! Mariana Baleeiro

  3. Léo Says:

    esse Ortega Beerenauslese é o que? alemão de colheita tardia?

    • brunoagostini Says:

      Sim, Leo. Ortega é a uva. Beerenauslese é uma designação de vinhos doces não simplesmente de colheita tardia, mas também afetados pela chamada podridão nobre.

  4. Léo Says:

    legal, não conhecia

  5. yara xavier Says:

    Tirando os restaurantes de shopping – talvez por São Paulo não ter nenhum que valha a pena, compartilho de todos os seus preconceitos. Todos me olham como se eu fosse uma louca quando como feijoada sem arroz! Melhor do que não me sentir sozinha é estar acompanhada de um grande conhecedor.

  6. Camping Hostel Says:

    Não mora no Rio de Janeiro, mas quer conferir essas e outras sensacionais maravilhas que o Rio tem? Encontre aqui onde se hospedar e aproveitar: http://www.camping-hostel.com/busca/cidades/rio-de-janeiro

  7. Maysa Alexandrino Says:

    Olá Bruno!
    Recentemente fui ao Enotria e fiquei bastante decepcionada… Tanto o meu prato quanto o do meu marido não estavam nada demais. Totalmente dispensáveis. O meu foi um dourado com cenoura. O dele uma carne, que estava totalmente sem sabor, como se estivesse congelada e tivesse perdido toda sua maciez e seus sucos.
    Diante de tudo que já tinha ouvido falar do Enotria, foi triste passar por isso… Uma pena…
    Bjs

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