Arquivo da categoria ‘Crônicariocas’

Exaltação ao outono (e um fim de noite na Adega Pérola)

26/04/2013

Piscininha no Arpoador

Ok. Outubro é um mês bem agradável, as escolas de samba estão começando a bombar, com as quadras cheias, e o Rio vai lançando as novidades da temporada que vem. Novembro é muito legal. Vem chegando o verão, o calor no coração, topless na areia, coisa e tal. Mas é um mês abafado, úmido, muitas vezes chuvoso, e infernalmente quente. Dezembro também, e ainda tem o caos do Natal. Janeiro é aquela maluquice. Milhares de turistas. Muito calor. Cidade lotada, noites animadas, na Lapa, e por toda a parte. Eu curto, mas vou sempre achar janeiro um mês estranho. Até porque, pe o mês de meu aniversário. Janeiro é um mês estranho no Rio de Janeiro. Eu amo e odeio ao mesmo tempo. Vá entender… Em fevereiro, tem carnaval, tem carná, eu tenho um Fusca e um violão, sou Flamengo e tenho uma nega chamada Teresa. Bem, fevereiro é uma espécie de continuação de janeiro. São dois meses que se fundem, e condundem. Fevereiro, propriamente dito, só começa depois do carnaval. isso pode ser logo no começo do mês, como algumas vezes acontece. Mas também pode ser nos primeiros dias de março, anulando inteiramente fevereiro do calendário. Março. Depois são as águas de março fechando o verão, é promessa de vida no meu coração. Tudo bem, as águas de março lavam a alma. Adoro as tempestades, mas existe o problema das enchentes e desmoronamentos. Enfim.
Então, chega abril, e a promessa de vida no meu coração se concretiza. Sempre digo: entre abril e setembro, quando estamos na temporada de outono-inverno, o Rio vira o lugar mais incrível e agradável do planeta. Viva o Gil: o melhor lugar do mundo é aqui, e agora. A foto que abre este post, feita ontem, não me deixa mentir. Que coisa, fico abismado ainda com essa beleza outonal do Rio de Janeiro.
Outono no Rio significa dias lindamente ensolarados, e com temperaturas amenas. Podemos caminhar pela cidade sem ficar pingando de suor, mesmo usando roupas de trabalho, com calça, sapato, camisa social. Até terno dá para encarar, embora este traje, definitivamente, não combina com a cidade, e deveria ter uma lei proibindo a sua utulização no balneário. Ou, pelo menos, proibindo qualquer evento a pedir passeio completo. Quem quiser botar terno, que coloque, mas obrigar, não pode. Não deveria poder. Enfim… Este post é sobre calendário, e não sobre a Câmara de Vereadores, ainda bem…
Enfim, chega abril, e o Rio se transforma. A primeira quinzena nem é tão boa assim, porque pode ainda chover muito. Mas a segunda metade do mês é sublime. Como esta semana que estamos vivendo agora. O mesmo vale para as outras cidades do Estado: é muito melhor turistar na Região Serrana, no Vale do Café, na Costa Verde e na Região dos Lagos entre abril e agosto. Ok, subir a serra, fugindo do calor, no verão, tem o seu valor. Mas no inverno é mais gostoso, curtir uma lareira, beber bons vinhos, cozinhar, comer, namorar, se esconder, ver bons vinhos, ler bons livros, pegar um solzinho fresco… É tudo mais gostoso no inverno.
As ondas sobem de tamanho, e há campeonato de surfe no Arpoador. A água fica m ais limpa, em temperatura que pode ser classificada como perfeita. Nem fria, como às vezes se parece no verão (eu adoro), nem quente, como acontece nas praias do Nordeste (eu detesto).

Tutti-frutti na Polis Sucos
Ontem, o dia estava assim, maravilhosamente outonal. E eu esperava um telefonema importante. E fui caminhar na praia com o celular. Primeiro, uma parada no Polis Sucos, na Praça Nossa Senhora da Paz, Visconde de Pirajá esquina com Maria quitéria, coração de Ipanema. E pedi uma vitamina de tutti-frutti, minha preferida desde a mais tenra infância.
E lá fui eu em direção ao Arpoador. Que lindeza de quinta-feira.

Canteiro em Ipanema

Os canteiros ficam mais belos. Inclusive por conta da luz, mais suave e oblíqua, que nos ilumina neste período.

Arpoador com o Dois Irmãos ao fundo

Pois chego no Arpoador, e vejo isso. Olha essa água. Olha esse cenário.

Ipanema

Mergulhei em frente ao Caesar Park.

Espírito Santa

Subi Santa Teresa, e almocei no Espírito Santa. Delícia. Comi, entre outras delícias, trouxinha de couve com vatapá e bolinhos de tapioca com jambu e molho de graviola. Além de um inesquecível e inusitado xinxim de chuchu, simplesmente sensacional. Mas este post nasceu para ter apenas fotos de Instragan, e vou fazer apenas essa exceção, já que acabei não fotografando o almoço com o celular, só com a câmera mesmo. Então, fica prometido para breve o post do Espírito Santa.

Adega Pérola - polvo

Depois de uma longa tarde de trabalho, saio bem de noite. E vou direto para a Adega Pérola. Chego às 22h. Gosto muito de lá, não só da comida. Gosto do lugar, dos frequentadores, e o imenso balcão de acepipes me dá felicidade só de olhar para tantas gostosuras. Gosto das pessoas que frequentam, um público variado que é a cara do Rio, que é a cara de Copacabana. O polvo á vinagrete, desconfio, é o melhor do Rio.

Adega Pérola - sardinhas à escabeche

Também sou fão incondicional da escabeche de sardinha. Algo que já é bom, esse peixinho à milanesa, fica ainda melhor no tempero com vinagre, pimenta, cebola, salsinha e sei lá mais eu o que.

Outro hit feito com o mesmo peixe são os rollmops, enroladinhos de sardinha crua, com uma pedaço de cebola dentro, marinado em vinagre e temperos.

- Uma espécie de ceviche – explicou o atendente a um turista.

- É o sushi de português – emendou uma outra.

Adega Pérola - rollmops

Para mim, não é nem um, nem outro. É o rollmops. Antes de comer qualquer ceviche na vida, antes de provar qualquer sushi, eu já curtia um bom chope com rollmops na Adega Pérola, de modo, então, que o ceviche é uma espécie de rollmops, ou o sushi é rollmops de japonês. E ponto final.

Adega Pérola - berinjela

Outras estrelas daquela incrível vitrine de delícias são a berinjela,…

Adega Pérola - trutas

… a truta à escabeche, que acho que é ainda melhor que a sardinha, …

Adega Pérola -azeitonas pretas

… e as azeitonas pretas ricamente temperadas, além…

Adega Pérola - lula ao vinagrete

… deste clássico vinagrete de lulas.

Adega pérola - linguiça e morcela

Pois, para mim, amante da morcela, e do vinho, outras iguarias da categoria imperdível são o tal embutido de sangue, e também a deliciosa linguiça preparada no tinto. Demais.

Adega Pérola - lagosta

Esses aí eu não conhecia, talvez sejam novos. Outro dia eu provo. Salmão defumado? Lagosta? Cavaquinha? A cara está boa, e lembra outras boas preparações do gênero na casa.

Também curto petiscos quentes, como o caldo de feijão, os bolinhos de bacalhau e o caldo verde. Com pimenta, sempre, e azeite, claro. Mas a verdade é que o balcão refrigerado é mesmo o que me seduz.

Considerando que o chope vem sempre na pressão, e gelado, e que agora a casa ostenta uma ótima lista de cervejas, a Adega Pérola é um dos grandes botecos do Rio. Está no primeiro time, junto de poucos outros endereços. É tão bom, mas tão bom, que tem cacife para ser o encerramento de um dia perfeito no outono carioca. Como foi ontem.

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Temporada de Pato no Garden, terceira edição: bom, bonito e barato

21/04/2013

 

 

O  Garden, em Ipanema, é um desses que fazem parte de minha vida desde a infância, um dos representantes de uma pequena lista que tem, ainda, o Antiquarius, o Alvaro’s e a Taberna Alpina, em Teresópolis, além da Casa do Alemão, na Rio-Petrópolis (e do árabe Baalbeck, na Galeria Menescal, em Copacabana). Desde que sou capaz de me lembrar, já frequentava esses lugares, e continuo frequentando até hoje, porque gosto da comida, e por todo o simbolismo que existe nessa história de me acompanharem por toda a vida.

Já escrevi sobre o assunto aqui, tratando de um almoço no Garden através de um texto que fazia essa menção ao passado (para ler, clique aqui). Depois daquela refeição inspiradora ainda voltei ao restaurante mais três vezes. A última delas, foi na noite de sexta, a convite da casa, para provar alguns pratos da terceira edição da Temporada de Pato (o restaurante faz vários festivais do gênero ao longo do ano, servindo vários pratos feitos com um mesmo ingrediente, e conseguindo preços bem convidativos com isso: no caso do pato, são 15 receitas diferentes, todas a R$ 39,50). A Temporada de Pato fica em cartaz até o fim do outono, no dia 21 de junho, durante o almoço e jantar.

Desta vez a estrela é o pato, ave que adoro. Logo me animei ao papear com o maitre.

- Nosso pato bem de um produtor de Sapucaia.

Isso me animou, e o assunto continuou, quando eu perguntei se ele me recomendava o pato ao molho pardo (adoro receitas ao molho pardo, mas não é fácil encontrar, e nem que sejam bem-feitas).

- Com certeza. O sangue é de pato também, conseguimos com eles.

Assim, não tive muitas dúvidas para escolher o pato principal, quer dizer, o prato principal: a escolha foi ao molho pardo.

Garden - Couvert

Conversamos enquanto eu curtia o couvert da casa, daqueles á moda antiga, sempre enriquecido com uma sopinha, o que sempre cai bem, ainda mais quando o outono-inverno vem chegando.

Mas,para escolher o primeiro prato, tive que refletir para escolher uma entradinha, servida em porção menor, para eu poder provar uma receita diferente.

Garden - Vinho Carmen

 

Para ajudar a clarear as ideias, uma taça do chileno Carmen Cabernet Sauvignon 2011. Difícil eleger entre as 14 opções restantes:  sorrentini de pato com funghi (massa recheada, servida ao molho de natas); salada de magret defumado (salada de peito de pato defumado com folhas verdes, croutons de hortelã e molho de frutas vermelhas); magret da estação (peito de pato defumado, aromatizado com funcho e servido com croquetes de batatas e risoto de aspargos); pato com mostarda (coxa de pato ao molho de mostarda com nhoque na manteiga de sálvia); pato folhado (coxa de pato ao forno, servida com risoto de pato sobre massa folheada, gratinada com farelo de pão); peito na brasa (servido fatiado com molho de damasco e cuscuz marroquino); arroz de pato (servido bem molhadinho na caçarola com chips de paio); pato ao Porto (coxa preparada ao molho de vinho do Porto, guarnecida de purê de maçã e arroz de ameixas); pato com laranja (coxa assada ao molho de laranja e servida com arroz branco); pato com azeitonas (coxa ao molho de azeitonas verdes, acompanhada de purê de batata temperado); risoto de pato (preparado à moda italiana, com arroz arbóreo); cassoulet de pato (coxa à moda francesa, servida em caçarola com feijão branco, paio e linguiça, acompanhado de arroz branco); confit com baroa (coxa confitada, servida com purê de batata baroa); e pato ao tucupi (coxa preparada à moda amazônica, servida com farinha d´água e arroz branco).

Garden - sorrentini de pato com funghi

Fiquei com o sorrentini de pato com funghi, servido com molho cremoso, que estava bem bom. Massa fresca, feita na casa, com recheio saboroso.

Garden - Pato ao molho pardo

Mas bom mesmo foi apreciar o pato ao molho pardo, com molho denso e de sabor delicado, com a carne bem cozida, se soltando com o garfo, mas mantendo a integridade da peça. O arroz branco, que nem de longe é algo que me encanta, foi inteiramente consumido, sendo repetidas vezes umedecido com o molho, de modo que eu seria capaz de comer só isso, sem o ingrediente principal. Arroz e molho. Um ovo frito, claro, cairia muito bem.

Sei bem que, assim como uma feijoada, um prato ao molho pardo não é dos mais lindos. Mas esse, vou te dizer, depois de ter sido tão bem apreciado, me parece lindo. Tem a beleza da comida bem feita, com virtudes que vão além das aparências.

Voltei para casa me prometendo retornar ao Garden para provar outras receitas que me apeteceram bastante, como a salada de magret defumado, o magret da estação,  o pato com mostarda (coxa de pato ao molho de mostarda com nhoque na manteiga de sálvia);  o arroz de pato, o pato com laranja , o cassoulet e o confit com baroa. Não tenho dúvidas: vou sofrer para escolher… Mas não para pagar.

 

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Coccinelle Bistrô: o feliz encontro da França com o Japão no Centro antigo do Rio de Janeiro

21/03/2013

 

 Coccinelle Bistrô - fachada - quadros - vertical

Fiquei realmente impressionado com a qualidade da cozinha francesa que encontramos no Japão, e com a quantidade de restaurantes dedicados a essas especialidades em Tóquio, sem falar nas padarias, nos confeiteiros. Fui em restaurantes realmente formidáveis (e como esses dois que trato neste post que escrevi para a Enoteca, há outras dezenas). Da mesma maneira, uma das culinárias mais expressivas em Paris, fora a francesa, claro, é justamente a nipônica.

Coccinelle - Fachada

À mesa, França e Japão se entendem muitíssimo bem, obrigado, e já vem lá dos anos 1970, pelo menos, o cruzamento de receitas e ingredientes dos dois países. A viagem recente a Tóquio me fez lembrar do muito simpático Coccinelle Bistrô, cuja graça se deve, em parte, à localização, na Travessa do Comércio, cruzando o Arco do Telles, um dos locais mais aprazíveis da cidade.

Coccinelle - salão
A decoração também me agrada bastante. Paredes antigas de tijolinho aparente, mesinhas de madeira, garrafas vazias decorando o salão,…

Coccinelle - salão - quadro negro 2

… quadros negros com o mapa da França, e apresentando os pratos do dia, ou o festival em cartaz no momento, porque há sempre um menu especial acontecendo. Algumas mesinhas, veja só, são carretéis de fiação elétrica (acho que é isso).

Coccinelle - mesa - detalhe

Sobre elas, vasinhos acomodam flores, ramos de hortelã, folhas de pequenas palmeiras… Uma graça o lugar.

Coccinelle - bar
Além do ambiente, e da localização, curti a proposta do Coccinelle Bistrô, em toda a sua filosofia de usar ingredientes locais e orgânicos (as hortaliças chegam da Região Serrana, as salsichas, idem, são do Alemão da Serra) e de servir vinhos biodinâmicos franceses. Os pães são feitos ali, e as torradinhas que podem escoltar o foie gras, o brioche e o chamado “cake” de azeitona ficam na memória, pelo sabor, delicadeza, textura.
Quando visitei a casa estava em cartaz um festival alsaciano, com comidas e bebidas desta região francesa de ascendência alemã.
E é na hora do serviço do almoço que percebemos o feliz encontro entre o Japão e a França, espelhando os donos da casa, Yves e Maya de Roquemaurel, ele francês, ela japonesa.
A casa tem menu de inclinações francófilas, enquanto os pratos são servidos em bandejas com caixinhas, cada qual com um certa comidinha, seguindo o estilo nipônico dos bentôs. Temos bentôs de peito de pato, alcatra, linguiça, bacalhau e omelete, e mais as versões sazonais, de acordo com os ingredientes disponíveis, e o festival em cartaz no momento.
No cardápio enxuto encontramos, ainda, além de entradinhas, como carpaccio e saladinha orgânica, uma seleção de sanduíches (como o tentador cheeseburguer, servido no brioche, com gruyère, saladinha, mostarda de Dijon e cebolas carameladas) e saladas.

Coccinelle - foie gras 1
Como dizia, quando visitei o lugar havia um menu alsaciano, muito bem executado pela chef Maya. O foie gras, servido com as tais torradinhas, além de compotas de beterraba e de manga, além de temperinhos como flor de sal e pimentas, estava impecável.

Coccinelle - foie gras 2

Agora, visto de cima.

Coccinelle - Paaul Blanck Pinot Gris 2009
Na taça o delicioso Pinot Gris 2009 de Paul Blanck, uma belezura de vinho, que tão bem se casa com o fígado gordo.

Coccinelle - vinhos da Alsácia

Estava um dia quente, e o vinho, fresquinho, servido em balde de gelo, caiu como uma luva, também para aplacar o meu calor.

Coccinelle - salsichas etc 2
Ainda com ele em mãos, pedi uma espécie de combinado alemão, com salsichas, kassler, saladinha de batatas e chucrute.

Coccinelle - salsichas etc 3
Tudo servido graciosamente na bandeja-bentô, com saladinha de folhas, mostarda…

Coccinelle - torta de maçã
Para encerrar, torta de maçã, no caso ainda seguindo a linhagem alsaciana, com sorvete de canela artesanal…

Coccinelle - mousse de chocolate
e mousse de chocolate, aerada, leve e com boa matéria-prima, uma das melhores que provei recentemente.

 

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Ecos do carnaval: notícias, análises e confetes a respeito do tríduo momesco

13/02/2013

O carnaval pegou fogo e a Quarta-Feira de Cinzas faz jus ao seu nome. Distante da folia momesca, acompanhei de perto a situação.  E concluí: o carnaval do Rio está muito chato, acho que Veneza é o canal.

Primeiro, os blocos.

Vi um pessoal fazendo macumba no Posto 8. Era a Umbamda de Ipanema.

Nesta mesma área, um grupo de drag queens mijões foi pego com as mãos na massa, e com a boca na botija.

O Céu na Terra virou um verdadeiro inferno.
O prefeito Paes, acertadamente, porque isso aqui não é Bahia, proibiu cordas nos blocos. Mas, ufa, os cordões estão liberados. Bola Preta e Boitatá agradecem.

Me Beija que sou cineasta só é frequentado por assistentes de câmera, e olhe lá.

O Monobloco está muito grande, carregando multidões. Mesmo assim, acho que não devia usar cárter de som.

Agora, uma análise da Sapucaí.

A comissão de frente está claramente em baixa. Bundas brilharam mais do que peitos na Avenida.

A Mangueira brochou.

A Beija-Flor vai ficar chupando néctar, e a Ilha vai morrer na praia.

Com desfile fracassado, Paulo Barros tá na lama.

O bom e velho Salgueiro, guerreiro, e sua bateria furiosa, não deu as Caras na Sapucaí.

Notícia de bastidores: Com Viradouro, Porto da Pedra e Cubango, Niterói planeja lançar o seu desfile independente. Niemeyer já foi contactado, e assina o projeto da Passarela do Samba Araribóia.

Também fiquei atento ao carnaval em outras partes do país.

Como é triste ver o desfile da Mocidade Alegre.

Em São Paulo, o MEC estuda fechar as escolas de samba, que não ensinam adequadamente.

O carnaval de Recife é mais legal em Olinda.

E em Salvador, a pipoca é um saco…

Falando sério, um pouquinho, para encerrar.

A Mangueira fez bonito, e o tempo é relativo, como se sabe.

Se a Vila Isabel, desfile impecável e único samba verdadeiramente bom deste ano junto com o da Portela, não ganhar a Liesa deveria ser interditada.

A Portela falando de Madureira foi um desfile histórico, e lindo.

De alguma forma, os enredos patrocinados deveriam ser banidos.

E foi um acerto da TV Globo passar os defiles da Série A, antigo Grupo de Acesso, para o Rio de Janeiro. Império Serrano, Viradouro e outras agremiações tradicionais mexem com o coração dos cariocas, e fazem desfiles melhores que os paulistas. Não fazia o menor sentido a transmissão dos desfiles do Tietê, sexta e sábado. Até que enfim, bom senso.
Afinal, quem quer ver Mocidade Alegre, Gaviões da Fiel, Rosas de Ouro e companhia, Vai-Vai para o Anhembi. Ou não gosta de samba.

Evoé.

Mas e o Papa, hein. Conseguiu emplacar manchete e foto principal n’O Globo mesmo na edição de Terça-Feira Gorda. Não me lembro de outra vez que o alto da primeira página de um jornal carioca não tinha foto de carnaval neste dia.

Malandrinho o pontífice.

Uma carioca no metrô

08/02/2013

Nunca imaginei que, um dia, poderia viajar de metrô admirando a paisagem. Mas, hoje, para meu espanto e alegria, fui da General Osório à Cinelândia, admirando um lindo cenário.
Orientado pelos governantes, deixei o carro na garagem, e vim para o Centro de metrô. Sentei-me na primeira fila, lendo as notícias no celular. Tirei os olhos da tela. Olhei para ela. Antes da partida do trem, com uma amiga, ele se recostou docemente na parede do vagão, exibindo sem querer toda a sua formosura. Sem saber, ela alegrou o meu dia.
Contive a vontade de olhar insistentemente, por respeito. Tentando ser o mais discreto possível, alternava a retina entre o telefone e a moça. Usei subterfúgios como o rabo de olho. Fechava as pálpebras, algumas vezes. E abria olhando para ela.
Nem alta nem baixa. Nem magra nem gorda. Nem loira nem morena. Mesmo no traje executivo, tinha a graça de uma gata. Uma elegância espontânea admirável. Calça escura, camisa cáqui sem charme algum. Mas os braços de fora, e a voz macia, no tom perfeito, harmônico, formam um conjunto bonito e equilibrado. Se ela fosse uma escola de samba, ganharia nota 10 em evolução. Falava de carnaval e do trabalho com a amiga.
As unhas, pintadas num rosa claro discreto e raro, e as mãos, eram de uma delicadeza bailarina. Ela falava com as mãos. Poesias corporais, o movimento macio dos braços. Beleza cinética.
Às vezes, mexia no cabelo. O gesto, esse sim, era propositalmente sedutor, mesmo que involuntário, quase. Tira dos ombros as mechas, passa para trás. Pende o pescoço para a frente.
A composição para na Cinelândia. Ela se despede da amiga, não de mim. Mas eu me despeço dela, apenas movendo os olhos, circunspecto. Adeus, eu disse calado.
Acho que nunca mais a verei. E, se acontecer, pode ser que não reconheça. Mas nunca uma viagem de metrô foi tão agradável, nem quando li nos vagões os contos de Borges, ou a poesia de Pessoa, ou os sonhos e devaneios de Dom Quixote, ou as crônicas de Rubem Braga. Jamais viajar de trem foi tão lindo. Porque o Rio é assim. As cariocas o enfeitam.

Nunca imaginei que, um dia, poderia viajar de metrô adomirando a paisagem. Mas, hoje, para meu espanto e alegria, fui da General Osório à Cinelândia, admirando um lindo cenário.
Orientado pelos governantes, deixei o carro na garagem, e vim para o Centro de metrô. Sentei-me na primeira fila, lendo as notícias no celular. Tirei os olhos da tela. OLhei para ela. Antes da partida do trem, com uma amiga, ele se recostou docemente na parede do vagão, exibindo sem querer toda a sua formosura. Sem saber, ela alegrou o meu dia.
Contive a vontade de olhar insistentemente, por respeito. Tentando ser o mais discreto possível, alternava a retina entre o telefone e a moça. Usei subterfúgios como o rabo de olho. Fechava os olhos, algumas vezes. E abria olhando para ela.
Nem alta nem baixa. Nem magra nem gorda. Nem loira nem morena. Mesmo no traje executivo, tinha a graça de uma gata. Uma elegância espontânea admirável. Calça escura, camisa cáqui sem graça. Mas os braços de fora, e a voz macia, no tom perfeito, harmônico, formam um conjunto bonito e equilibrado. Sem ela fosse uma escola de samba, ganharia nota 10 em evolução. Falava de carnaval e do trabalho.
As unhas, pintadas num rosa claro discreto e raro, e as mãos, eram de uma delicadeza bailarina. Ela falava com as mãos. Poesias corporais, o movimento macio dos braços. Beleza cinética.
Às vezes, mexia no cabelo. O gesto, esse sim, era propositalmente sedutor, mesmo que involuntário, quase. Tira dos ombros as mexas, passa para trás. Pende o pescoço para a frente.
A composição para na Cinelândia. Ela se despede da amiga, não de mim. Mas eu me despeço dela, apenas movendo os olhos, circunspecto. Adeus, eu disse calado.
Acho que nunca mais a verei. E, se acontecer, pode ser que não reconheça. Mas nunca uma viagem de metrô foi tão agradável, nem quando li nos vagões os contos de Borges, ou a poesia de Pessoa, ou os sonhos e devaneios de Dom Quixote, ou as crônicas de Rubem Braga. Jamais viajar de trem foi tão lindo. Porque o Rio é assim. As cariocas o enfeitam.
E eu só posso agradecer. Obrigado, moça bonita.
Porque o Rio é uma cidade verdadeiramente maravilhosa, não pela Praia de Ipanema, mas pelas garotas de Ipanema. Não pelo Corcovado, o Pão de Açúcar, a Lagoa, e a Floresta da Tijuca. Nada disso. O Rio é um lugar extraordinário porque nele residem as cariocas. Essas são as maiores belezas naturais.
Porque o Rio é uma cidade verdadeiramente maravilhosa, não pela Praia de Ipanema, mas pelas garotas de Ipanema. Não pelo Corcovado, o Pão de Açúcar, a Lagoa, e a Floresta da Tijuca. Nada disso. O Rio é um lugar extraordinário porque nele residem as cariocas. Essas são as maiores belezas naturais.

O croquete e a crônica

13/01/2013

Croquetes da Casa do Alemão

Um croquete, por incrível que pareça, tem a receita da crônica: redimir as sobras. Mais do que apenas a primeira sílaba, a crônica e o croquete compartilham a transformação dos restos. A carne assada, moída, vira croquete no dia seguinte. A vida passada, triturada, espremida, vira crônica nos anos depois. A relação entre a crônica e o croquete me parece tão óbvia e clara que tenho  a certeza de que alguém já escreveu sobre o assunto. Uma crônica, claro, e não um poema ou romance. Porque o croquete é a crônica comestível. E a crônica é o croquete gramatical.
À crônica pode até faltar assunto, não podem faltar as palavras, as letras. Do mesmo modo, o croquete não pode ser servido frio. Deve estar quente e crocante. A crônica fica melhor quando fria, cromada pelo relógio, que marca o espaço em que passa o tempo. Mas a crônica não tem tempo, nem pretérito, nem gerúndio, nem futuro. A crônica não tem receita, o croquete tem várias.
O croquete alimenta, mata a fome do corpo. A crônica arrebenta, dilacera as entranhas. Da alma. Ou conforta, alegra e faz rir. Depende da crônica, e principalmente, do leitor. Pra fazer croquete escolhemos a carne, os temperos, o óleo para fritar. A crônica acontece. Não escolhemos os ingredientes. É o assunto que escolhe o autor.
O gênero do croquete é masculino, acepipe de ascendência germânica, massa de carne e temperos. O gênero da crônica é feminino, categoria literária que se encontra entre o nada e coisa nenhuma, o que por sua vez pode ser tudo. Croquetes podem ser pequenos, tipo coquetel, médios ou grandes. A crônica não tem tamanho. Se for pequena, é uma croniqueta, croquetinho de vida, coquetel de pensamento, miúdos, mas que podem ser imensos. Porque ideias podem ser mais que grandes, infinitas. Assim como a boa crônica, que é imortal. O croquete estraga, azeda, mesmo se congelado, com o passar do tempo. A crônica apura. Não que ela melhore com o tempo. Nós é que melhoramos com o tempo, e se nós melhoramos, melhora a crônica. Porque quem lê não apenas engole a literatura. Mas deglute. Rumina. Vomita. E volta a comer, de garfo e faca, e se quiser jogando mais mostarda, na crônica. Porque o texto é de quem lê. O croquete é de quem come. Só um pode comer cada croquete. A crônica alimenta muitas pessoas. Mas só as que querem ler.
A crônica é o croquete de vida, moída, empanada e frita, exposta na vitrine, com o tempero do tempo.

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E o Catupiry, quem diria, volta a ganhar destaque nos restaurantes pelas mãos de chefs como Felipe Bronze e Fabio Battistella

07/12/2012
O meu primeiro encontro com  o Catupiry foi memorável, de tal maneira que até hoje não me esqueço. Aconteceu no comecinho dos anos 80, na Rua Teixeira de Melo, em Ipanema, numa antiga lanchonete chamada La Rosé, finada há mais de 20 anos, segundo meus cálculos. Uma das especialidades do lugar, além de doces bastante bons, eram os salgadinhos, com destaque para uma coxinha de frango com Catupiry, cuja genialidade da receita era a utilização desse requeijão, não no recheio, com a carne da ave, como é tão comum, mas servindo como massa, empanada levemente numa crostinha quase milanesa. Sacou? Imagine só isso.
Catupiry, houve um tempo, era um ingrediente caro. Lá em casa só aparecia em ocasiões especiais. Nos restaurantes, os pratos com Catupiry eram os mais caros. Camarão com Catupiry, por exemplo, era uma fortuna… Festas chiques, a certa altura, tinham receitas variadas com ele: frango com Catupiry chegou substituindo o estrogonofe, também servido com arroz e batata palha. E, apesar de ter sido criado na Academia da Cachaça, usando requeijão na receita, o escondidinho se proliferou pelo Brasil, quase sempre usando Catupiry (ou imitações) por cima, escondendo o recheio. Dando-se bem com camarão, carne-seca e frango, virou estrela, a ponto de várias marcas tentarem imitar o queijo, produzindo “falsificações”, tentando o mesmo sabor, formato da embalagem e, em alguns casos, até a programação visual do rótulo. Mas Catupiry só tem um.
Acontece que, partir da famosa abertura do nosso mercado aos importados, da era Fernando Collor, começaram a chegar queijos de qualidade de fora, e mesmo a produção nacional também melhorou muito.  Com o interesse crescente dos brasileiros pela gastronomia, o Catupiry, de uma hora para a outra, virou produto desprezível para muita gente: já vi chefs arrasando a qualidade do produto, e muita gente dizendo que odeia.
Mas, como sabemos, o mundo vive dando voltas. Com o Catupiry acontece o mesmo. Hoje vejo chefs jovens e talentosos, como Felipe Bronze e Fabio Battistella, apostando em receitas produzidas com ele.
oro - carioquices
Primeiro, foi o Bronze, que já no menu passado criou uma degustação de receitas inspiradas em botecos cariocas, e o clássico bolinho de camarão com catupiry da Alaíde era um dos escolhidos (para ler mais sobre este cardápio, clique aqui). Agora, ele vai além. No próximo menu ele fará uma releitura do camarão na moranga, com Catupiry. Tô louco para provar.
Barzinho - bar
Já o Fabio Battistella, em seu novo Barzinho, na Lapa, aposta em várias receitas com o requeijão. Curti muito o lugar, e fiz uma – digamos – degustação dirigida de receitas com Catupiry.
Barzinho - caipirinha de caju e limão
Para começar, caipirinha de caju e limão.  Tim tim! Saúde!
Barzinho - bolinhos de arroz com carne-seca
Primeiro, os bolinhos de arroz com carne-seca, com um toque de Catupiry, uma espécie de arancini verde-amarelo, uma adaptação da receita que faz sucesso no Meza Bar.
Barzinho - fritas com queijos
Depois, a porção de fritas coberta com queijos derretidos (incluindo Catupiry, claro, além de provolone, muçarela e parmesão).
Barzinho - frango à passarinho
Em seguida, o prato que despertou a minha vontade de escrever sobre Catupiry, e o Barzinho: uma reinterpretação do frango à passarinho, outro clássico botequeiro. Só que, ali, a receita leva a carne da ave levemente temperada no alho, e depois empanada com parmesão. Para acompanhar, uma cumbuqinha com Catupiry derretido. Muito bom.
Barzinho - escondidinho de baroa com carne assada
Continuamos o tour temático com o mais delicioso entre todos os pratos da noite: o escondidinho de batata baroa com carne assada e cebola caramelada, coberto com uma caprichada camada de Catupiry. Comeria uns três. Ou quatro. Dependendo da fome, cinco ou seis até…
Barzinho - croquete de mortadela
De quebra, ainda provei o croquete de mortadela, muito bom, ainda mais com mostarda. Pegou o croquete, clássico dos botecos cariocas de acento alemão, e misturou com o mortadela, clássico recheio de sanduba de botequim (mais ainda em São Paulo, terra do chef). Ficou bem bom.
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Enotria por Joachim Koerper: um dos melhores restaurantes do Rio (e uma pensata reflexiva sobre shoppings, preconceitos e outros temas)

03/10/2012

Gastronomicamente falando, sou um sujeito de muitos preconceitos. Assumo. Tenho, por exemplo, preconceito contra restaurantes a quilo e bufês, de uma maneira geral, a não ser que sejam de saladas, queijos, frios, quiches, pães, com bons azeites e vinagres, legumes grelhados… Tenho preconceito em relação à paella, e foram poucas vezes na vida que um prato desses me comonveu, em ambos os casos eram do tipo negra, feitas com tinta e carne de lulas, com camarões e um toque de aioli, uma delas, em 2004, acho, na ilha de Menorca, em Mahon, onde teria nascido este tipo de molho (mahonesa, em espanhol), outra, bem recente, no Entretapas. Também tenho certo preconceito com salmão, e com truta salmonada: gosto apenas de salmão defumado, e eventualmente posso até comer um salmão cru – claro que a máxima não vale para salmão selvagem do Hemisfério Norte: Alasca, Escócia, Canadá, respeito os seus salmões, mas esses exemplares chilenos safados, que chegam aqui após dias de congelamento, isso quando não são trutas salmonadas, eu desprezo totalmente. Também não acho a menor graça nas tão famosas, badaladas e exaltadas ostras de Santa Catarina. Acho muito fraquinhas, falta sabor. O único mérito é conseguir uma boa distribuição pelo Sudeste, garantindo frescor, abastecimento diário. Mas falta gosto. Troco-as por qualquer ostrinha menor, e selvagem, seja de Cananeia, em São Paulo, seja dos mangues dos arredores de Jericoacoara. Passo batido quando vejo em um cardápio “Temos ostras de Santa Catarina”. Também acho, na maioria dos casos, o arroz branco uma bobagem, que sempre pode ser substituída pela farofa. Quando como uma feijoada não uso uma colherzinha sequer de arroz, só farofa, couve e torresmo, e uma laranjinha, para acompanhar o feijão e as carnes – quando adolescente, até quando pedia um estrogonofe o acompanhamento era farofa, acredite. Claro que isso não vale para um risoto, e mesmo para um arroz à piemontese, coisa que inexplicavelmente eu adoro. Tenho preconceito contra bares prostitutos, que se vendem às cervejarias, como fez o centenário Bar Luiz, abandonando a Brahma, parceira histórica, para vender chope da Sol: eu parei de ir, ainda que ainda seja deliciosa a salada de batatas, com as salsichas, o milanesa fininho, a língua, o kassler e o eisbein. Lamento, perdi o tesão de ir. Quando quero comer comida alemã, ali pertinho encontro o Bar Brasil, esse, sim, tradicionalista no abastecimento dos barris que molham a serpentina centenária, respeitoso ao chope.
Analisando a fundo a questão, acho que poderia passar um dia aqui escrevendo sobre preconceitos com a comida. Tenho preconceito, por exemplo, com toda a cozinha mexicana, da forma que ela se apresenta mundo afora, nessa denominação americana de tex-mex, uma gordureba desprezível. No México é outra coisa, mas esse modelo sem caráter, moldado em nachos, frijoles refritos, tacos, nachos e encilladas eu acho um horror… Tenho preconceito com restaurantes de pescados que não têm peixe do dia, e com lugares que vendem incontáveis variedades: liguado, cherne, badejo, atum, salmão, truta, tudo em um só cardápio só, tudo congelado, nada fresco. Tenho muitos preconceitos à mesa.
Mas, taí, quer saber um preconceito que não tenho? É com restaurantes de shopping. Antes ter um bom restaurante em shopping que só os medíocres. Para início de conversa, a melhor refeição da minha vida acho que foi no Per Se, em Nova York, que funciona  em um shopping. E, sem sombra de dúvidas, uma das melhores refeições do ano foi no Makoto, do Bal Harbour, shopping chique ao norte de Miami.
Eventualmente, por conveniência, como em restaurantes de shopping, e ainda bem que encontro um Ráscal, um Joe & Leo’s, uma Cavist, um Le Vin, um Antiquarius Grill, um Ct Brasserie, um Bazzar Café, um Alessandro & Frederico e mesmo um Outback nesses lugares. Imagine se não tivesse? O Chez Michou, e o Royal Grill, o The Fifities, uma Focaccia. São muitos lugares que prezo. Enfim…
Para mim, só existe um defeito inadmissível em um restaurante: comida ruim. O resto é possível admitir.

Todo esse manifesto é para dizer que o Enotria, agora chamado Enotria por Joachim Koerper, é hoje um dos melhores restaurantes do Rio. Está no CasaShopping, e eu seria capaz de ir até lá para almoçar mesmo que não estivesse interessado em comprar móveis ou objetos de decoração. Uma boa refeição é o que mais importa para mim.

Já acompanho o trabalho do chef Joachim Koerper há algum tempo. Primeiro lendo a respeito de sua casa portuguesa, o Eleven. Depois, me informando a respeito do restaurante, através de reportagens e relatos de amigos. E com a entrevista que ele deu ao Jô, simpatizei muito com este alemão casado com uma brasileira, que trabalhou na Espanha até chegar a Portugal. Hoje ele se divide entre a terrinha e o Brasil.

Fui me animando com as palavras positivas. Estava seguro de que a chegada do chef foi algo ótimo para a gastronomia carioca E fui visitar o restaurante seguro de que teria um lindo almoço.
Mas sabe que foi melhor do que pensei?
Começo de setembro. Era um lindo domingo desses de inverno. Sol. Temperatura agradável.
Tudo bem, estava lá convidado pela casa. Canso de visitar restaurantes a convite. Dá para ver quem é muito bom, quem é bom, quem é mediano e quem é ruim. No fim das contas, mesmo quando vou por minha conta a um restaurante, muitas vezes sou reconhecido. Conheço chefs, maitres e garçons. A rigor, mesmo pagando, seja a lazer, seja em almoços de trabalho, seja por curiosidade de visitar um lugar novo, dá no mesmo. Enfim, isso é outro assunto. E esse texto tá ficando demasiadamente autorreflexivo. Mas só queria falar da cozinha do Enotria, e de como gostei do restaurante.

O salão é claro, com muitas janelas, do jeito que eu gosto (apreço, em parte, devido à necessidade de fotografar). Logo à entrada existe uma espécie de lojinha, onde vemos os muitos produtos que carregam o nome do chef, de azeite e flor de sal até uma respeitável linha de vinhos, três alemães, de uma vinícola da região natal do chef, e três portugueses, produzidos no Alentejo, por duas vinícolas diferentes (para ler sobre os vinhos, clique aqui). Simpático.

Foi bom começar o almoço bebericando um bom espumante nacional, recebendo uma cestinha de pães quentinhos,…

…além de dois produtos da casa, uma garrafa de azeite e um potinho de flor de sal.

Foi divertido esperar o amuse bouche, que foi muito mais que um afago para a boca. Tartare de atum com sorbet de wasabi, vol-au-vent de frango, patê de salmão, creme de baroa. Bonito, gostoso, apropriado para se começar uma refeição.

Com um branco alemão na taça, um Riesling Spatlese 2007 com assinatura do chef (muito bom por sinal), que acompanhou de maneira sublime…

…o foie gras envolto em maçã verde com um toque de beterraba, e uma espécie de financier de especiarias. Bravo. Prato delicado. Vinho bem escolhido pelo sommelier português Jorge Nunes, que ao fim deste almoço já se colocou a meu ver entre os melhores da cidade. Na hora de se começar um almoço com foie gras eu não gosto muito de Sauternes e Tokaji, acho muito doces. Sempre digo: um Riesling desses alemães são perfeitos. O Jorge acertou na mosca.

Com o mesmo vinho na taça, tive a maior surpresa da tarde. Um prato lindo, alegre, colorido: uma sopa de pimentões vermelhos e amarelos com creme de abacaxi e cavaquinha. Brilhante. Além de bonito.

Em seguida, apresentando a influência lusitana de maneira clara, um belo lombo de bacalhau com risoto de vinho do Porto.

Bom, muito bom, ainda mais com o Syrah, novamente assinado por Joachim Koerper, produzido pela Herdade da Malhadinha Nova, ótima vinícola alentejana, com ótimo restaurante, que por sinal tem a consultoria do chef.

O bacalhau estava muito bom, e se entrosou perfeitamente com o vinho. Mas realmente formidável estavam as costeletas de cordeiro, macias e saborosas muito saborosas, servidas sobre uma espécie de polenta rústica. Estava bom demais,…

…ainda mais com o vinho, produzido por Paulo Laureano, dentro do projeto Chef’s Collection (a Mônica Rangel, do Gosto com Gosto, também tem o seu vinho feito em parceria com o grande enólogo português).

Pensava na vida e me distraí vendo o sommelier usar um aparelho que trouxe de Portugal para facilitar o uso do tenaz,…

… uma ferramente portuguesa para tirar a rolha de vinhos do Porto com parte do gargalo, através de choque térmico.

Era um Graham’s Quinta dos Malvedos Vintage 1999. Um Porto Vintage é sempre um Porto Vintage, a glória engarrafada, uma bênção líquida.

Olha como fica a garrafa.

Em seguida, um pratinho que abrilhantou a apreciação do vinho: um brulée de queijo dos Açores, um pouco de queijo da serra, damasco, goiabada, nozes, frutos secos.

Estava perto do fim. Quando achava que não poderia haver nada tão grandioso quanto o Porto, eis que chega um Ortega Beerenauslese 1999, novamente assinado pelo chef. Delirei. Vinhaço-aço-aço-aço. Realmente muito bom.

Olha só a cor. Linda demais.

Depois, a pré-sobremesa: o savarignan com sorbet de abacaxi, para limpar a boca. Assim resumi na minha caderneta o lugar depois de receber esse prato: “Um restaurante que pensa nos detalhes, que usa boa matéria-prima, e que as trata com criatividade e boa técnica.”

Tão bom era o vinho que até ofuscou a etapa seguinte, um macarons de caramelo, um sorvete cremoso e uma espécie de pamonha brulée (desculpe, mas não tomei nota, e essa refeição já tem mais de um mês para eu conseguir resgatar esses detalhes do fundo da memória).

Quando eu pedi o café ele veio acompanhado do ato final da cozinha, um divertido pratinho com telha de amêndoas, bombons, uns biscoitinhos e até uma balinha embalada em palha.

Saí de lá certo de que o Enotria é um dos melhores restaurantes do Rio, especialmente para os que querem uma refeição que fuja do óbvio.

Achei realmente sensacional. No nível das grandes cozinhas cariocas. Parabéns ao chef. Parabéns ao sommelier. Foi um lindo almoço.

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O celestial cozido servido aos domingos no Antiquarius em uma palavra: amém

01/10/2012

Resumo da ópera: três travessas repletas de delícias, o ambiente fino, uma refeição dominical gloriosa e que custa menos que churrascaria rodízio

O cozido do Antiquarius merecia tombamento como Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro. Do Brasil. Da Humanidade, pela Unesco. Rabada, joelho de porco, língua defumada, morcela, paio, farinheira, peito bovino, costelinha suína salgada… E arroz puxado no caldo. E grão-de-bico al dente. E pirão, glorioso pirão. E mais meio repolho, tiras de cenoura, batata baroa, folhinhas de hortelã. Pimenta malagueta. Vinho tinto. A glória. Amém.
Já sabia desde muito que o prato é servido no restaurante do Leblon aos domingos, como reza a liturgia semanal na tradição carioca. Sábado é dia de feijoada, domingo, de cozido. Mas foi numa visita recente, ao lado do amigo Pedro Mello e Souza, sentado no balcão do bar, petiscando, e saboreando a vida, algo tão bom de se fazer ali (noite que rendeu este post aqui) que a vontade de provar o cozido do Antiquarius bateu forte pela primeira vez. Sou fã desta receita de raízes portuguesas. Mas foi o meu camarada que fez cair a ficha, mostrando certa indignação.
- Mas como você nunca provou o cozido daqui? Tem morcela e farinheira, língua defumada. É um clássico – disse ele, certamente usando um discurso muito mais refinado, como sempre, do que essa sentença pobre que minha memória permitiu lembrar.
Ele falou com tamanho entusiasmo, isso eu me lembro bem, que logo decidi: no meu próximo domingo livre no Rio eu iria visitar o restaurante, e já sabia o que pedir. Acabei me rendendo a duas novidades, porque jornalista também não resiste a uma novidade (o bollito misto do Gero, e o bufê da Mamma do Stuzzi). Hoje, enfim, estive lá.

Claro que aceitei o couvert, porque jamais vou rejeitar aquele conjunto de petiscos, com rissóis de camarão impecáveis, bolinhos de bacalhau idem, para serem lambuzados em bom azeite da Fundação Eugênio de Almeida, o pratinho de queijo de ovelha cremoso aquecido, o queijinho frescal, o patê, e o pratinho de berinjela cujo nome não sei, além das torradinhas.


Depois, ainda chegou o pão de alho, e o garçom ofereceu uma cesta de pães.
Pedi um Paulo Laureano, em homenagem ao grande enólogo, com quem já estive ali no próprio Antiquarius, casa sempre visitada por ele, como fazem tantos português, quando visitam o Rio de Janeiro. Custou R$ 87. Diante do que se vê por aí, vinho de categoria como esse, por esse preço, aqui no Rio, é coisa rara de ver: em muitos lugares sequer existem garrafas a menos de R$ 100, e muitas vezes não há nada realmente digno por menos de R$ 150.
Embora já soubesse o que pedir, claro que dei uma olhada no cardápio: só de curiosidade (aproveitei e tirei fotos, que estão lá no fim do post).
Vi coisas apetitosas, como o pato à bigarrada, ou seja, com laranja, e não me pergunte o porquê, e o arroz de garoupa com lagostins e hortelã da horta. Bochecha de porco com favinhas é covardia. Quase pedi um camisa 10, ou seja, o camarão à Zico, com crustáceos grandes, afogados na tijelinha de barro fervente, com pimentões e alho frito: show de bola. Havia muitas tentações. Sabendo que a porção do cozido era farta, resisti a todas, e fui direto ao ponto.


O vinho descia redondo. O couvert dava o prazer de sempre. Pedi até uma porção extra de rissóis.


Eis que chega o cozido. Na verdade, chegava apenas a primeira travessa, com os vegetais: meio repolho, baroa, aipim, tirinha de cenoura, e algo que fui incapaz de identificar, mas que parecia abobrinha. Folhinhas de hortelã: toque de gênio, dando frescor, temperando o conjunto. Demais.

Depois, mais uma panela, desta vez contendo o filé, na minha opinião: morcela, farinheira, língua defumada, peito de boi, rabada. Acredite, ainda chegou um terceiro continente de comida.
- Aqui são as carnes brancas.


Meus Deus. Obrigado. Eram costelinhas de porco salgadas, joelho de porco, frango… Senti um frio na espinha, um prazer. É a travessa que aprece bem no meio da foto.
Nos três casos, aquele caldo perfumado e rico, que eu sempre usava para regar o prato, que dava sabor ao pirão.


Logo, então, o garçom voltou. Primeiro, ofertando o arroz, saboroso, sensacional, puxado aparentemente no próprio caldo do cozimento. Servido de maneira elegante e certeira, em caçarola de cobre. Depois, trouxe grão-de-bico, cozido bem al dente, como manda a regra. Enfim, em seguida, chegou o pirão. Perfeito.


Quando comecei a provar as carnes e vegetais, suas diferentes texturas, cores e sabores, fiquei pensando. Só falta uma boa pimenta. E logo veio o pote de malagueta.
Hummmm, mas bem que podia ter um ovo cozido picadinho (ou passado no espremedor de batatas, como na incrível pizza carbonara da Bráz, uma técnica simples, que abrilhanta uma receita: pode provar aí e me diz). Pensei isso como exercício de imaginação, de como aquelo que estava parecendo perfeito poderia melhorar. Bem, em se tratando de Antiquarius, caso eu queira, sei que basta pedir, que eles atenderão o pedido, e quando voltar lá, talvez, assim farei.
Depois do primeiro prato montado, continuei a me servir: mais língua, mais morcela, mais farinheira, mais peito, mais cenoura, mais batata baroa. Mais pimenta.
Como dá para ver lá embaixo, custa R$ 89. Você ainda acha mesmo que o Antiquarius é caro? Ah ah ah ah. Faça-me rir.
Não sei bem como, mas resisti bravamente às sobremesas. Também sequer pedi café, e os biscoitinhos amanteigados que me lembram a infância. Enquanto isso, o Flamengo perdia para o Fluminense. Ainda bem que troquei o futebol pelo almoço. Fiz muito bem. Botinelli batendo pênalti é indigestão na certa. Almoço no Antiquarius é felicidade na certa.

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Agora, o cardápio (para ver as fotos em tamanho maior, para facilitar a leitura, especialmente as “Sugestões do chefe” basta clicar nelas).

A primeira página.

A segunda página.

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Gastronômade Brasil: o amor à comida em um almoço campestre com Roberta Sudbrack em Piraí

24/09/2012


O Gastronômade, como o nome indica, é algo gostoso e itinerante.
Mudam as cidades.
Mudam os chefs.
Mudam as mesas.


E os cenários, e as pessoas…


… os cavalos e as palmeiras…


os lagos e as ninfeias.
Pode até mudar a gente.
Será que existe poesia na comida?


Cavar buraco no chão pra assar batatas é algo romântico


Servir tartar de abóbobra com gengibre é rima


Vamos pra cima
Da palavra
Da comida
Da letra


Descemos as mesas com medo da chuva
Armamos o almoço à margem do Rio
Ao lado do lago


Desce a brandade
De bacalhau


Desce a torrada
E o licuri


Desce a taça
A Cave Geisse


Que dá um gás
Na guela


Broa de porco


Nevada de pó
De banana
Travessa insana
Branca
Pintada na cor

Troca o copo
Nature
A natureza agradece
Desce o vinho


Desce o peixe
Marina a tilápia

Enfeita o prato
Com a comida


Tira a pele
Do filé
O Saint Pierre
Nome chato
Lombo marinado
Coberto do amargo
Da rúcula
E do perfume
Da folha
De manjericão


Vem o feijão
Com tesão


Da pimenta
Aguenta

A lindeza da flor
Amor


Que venha o lombo
Do cordeiro


Quase inteiro
Por partes
Pele de cana
Rapadura
Batata e alecrim
Azeite e fogo

Um tinto pinta a alma


E vem o Moscatel
Melhor deixar
Espaço


Para brilhar o bolo
De chocolate
Com caramelo
Salgado
Molhado
Escuro
No leito branco
Do prato
Retrato da vida
Comida
O prato do amor
Comer
Ardor
Pimenta
Aguenta
A vida
Bebe
A água
Ardente
Bebe a prosa
Embriaga a alma
Vive sem calma
E chega
À linha vermelha
E à Lagoa
Do peito
Do corpo
E dorme
No som do mar
Pra balançar
O corpo
No banco
Do bar

 

 

 

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