Archive for the ‘Hotéis e pousadas’ Category

Um domingo frio e legal em Copenhague ao sabor de dogão, hambúrguer e pizza

09/12/2014

 
Depois de cinco dias de agenda intensa (sempre digo que viagem de trabalho é que nem rapadura: é doce, é bom, mas não é mole), acordei preguiçosamente no domingo. De tal modo que quase perdi o café da manhã do meu hotel em Odense, o Plaza. Cheguei às 10h30, e ao contrário do que acontece geralmente nos hotéis da Dinamarca, que interrompem o café no horário determinado, não importando se ainda tem alguém por lá, eles me perguntaram gentilmente se eu ainda queria algo mais, depois de ter feito um pratinho de salada de frutas com iogurte e granola, para compensar a esbórnia dos últimos dias. Com toda a preguiça que merecemos em um domingo chuvoso (depois do sábado de sol, a chuva voltou, com insistência), parti para a estação de trem, e ao meio-dia segui em direção a Copenhague.
Cheguei pontualmente na hora programada, às 13h15, pegando o trem que faz a viagem diretamente (depois da Estação Central ele estica até o aeroporto). Decidi, então, seguir a dica do Paulo André Pomerantzeff, gerente da marca Faxe no Brasil.
– Cara, tem um cachorro quente em frente à estação central de trem muito bom. Pode ir lá conferir, você que curte comida de rua vai gostar.

Copenhague 2
Dito e feito. Havia um movimento intenso, e não parava de chegar gente para um almoço ligeiro. Escolhi uma entre cerca de 10 opções de chachorro quente (e mais uns quatro hambúrgueres) – e ainda tem gente que come apenas a linguiça, com a mão mesmo, lambuzando em mostarda e ketchup.
– Vai querer completo, com tudo?

Copenhague 5
No melhor estilo podrão da madrugada, pedi a versão integral do sanduba. De fato estava muito bom o sanduíche, temperado com maionese, mostarda e ketchup, com picles de pepino, cebola picada e uma espécie de bacon, dando um crocante legal. Uma linguiça da melhor qualidade que transbordava do pão para os dois lado. Não sou fresco. Comi, gostei. Mas uma coisa me intrigou. O sujeito que preparava o sanduíche, trabalhador solitário naquele trailer – simpático até apesar de seu jeito rude – recebia o dinheiro, dava o troco, e com a mesma mão pegava as salsichas para meter no pão. Achei nojento. Mas que estava bom, isso lá estava…

Copenhague 7
Dali até a minha morada nas duas últimas noites em Copenhague, o ótimo Hotel Imperial, eram cinco minutos de caminhada. Mas com chuva e frio, pareciam 20.

Copenhague 8

Deixei as coisas no quarto, amplo, confortável e moderno, e fui decidir o que fazer. Com o clima hostil, frio e muito chuvoso, não era um dia para grandes explorações urbanas (ainda que o metrô, com estação bem em frente ao hotel, cubra boa parte da cidade). Então, decidi combinar duas coisas que ando muito apreciando ultimamente: cerveja, tema principal desta minha viagem, e hambúrguer). Seguindo orientação da concierge do hotel, escolhi a cervejaria Apollo, por quarto razões principais. Inaugurada nos anos 1990, foi pioneira na produção artesanal de cerveja no país. Especializada em carnes, tinha fama de fazer um ótimo hambúrguer.

Copenhague 11

E ainda por cima, ficava no Tivoli, com entrada independente, voltada para o lado de fora, sem precisar comprar ingresso. E o Tivoli ficava pertinho do hotel.

Copenhague 13
Aquele vento cortante me acompanhou até lá, com chuva suficiente para molhar a minha mochila. Ao chegar lá, bem ao lado da entrada principal, aquela sensação de acolhimento, ainda mais quando vi as duas caldeiras de cobre que ficam bem no meio do salão.

Copenhague 20

 

Lugar simpático, de decoração simples, com muita madeira, uns metais, vidro valorizando o céu e o trânsito das pessoas na rua, o que aumentava ainda mais a sensação de conforto vendo todo mundo bem agalhasado, e você ali, de camisa e casaquinho.

Copenhague 12
Tinha que escrever um texto, então, pedi uma Pilser para matar a sede (frio dá muita sede, porque o corpo gasta muita energia para manter a temperatura, o que também dá muita fome). Ah, se toda a Pilsen no Brasil fosse assim…

Copenhague 14

Depois, fui na edição natalina, em cartaz durante este mês, escura, encorpada, saborosa, estilo que passei a viagem inteira experimentando, de diferentes cervejarias.

Copenhague 18
Texto pronto (infelizmente não havia Wi-Fi), era hora de comer. Fui no hanburguér clássico, que foi devidamente escoltado por uma Red Ale bem lupulada, que eu classificaria como uma IPA em uma prova às cegas. Carne no ponto certo, muito saborosa. Um bom cheddar inglês derretido. Uma espécie de molho de tomate, de primeira. E ainda meti ali o trio maravilha, mostarda, ketchup e maionese. Já anoitecera completamente, e eram 17h, o que – como já escrevi – jamais vou me acostumar, do mesmo modo que com o sol da meia-noite, que ainda não tive o prazer de conhecer.
Como sobremesa, pulei o doce, e pedi uma (ótima) stout de encerramento, cheia de café, caramelo e chocolate.
Voltei para o hotel. Precisava de internet para responder e-mails (estar três horas à frente do horário brasileiro é uma vantagem e tanto para quem viaja com demandas de trabalho) e subir o post que escrevera no bar.

Copenhague 10
Simpatizei com o restaurante L’Apetitto, junto ao lobby. Sentei no bar e me pus a trabalhar, e trabalhar, e escrever, e editar fotos, e responder mensagens…

Copenhague 24
Os garçons eram todos italianos, e só se comunicavam entre si na língua natal, o que me soou muito simpático. Fui curtindo o clima, com direito a fotos em preto-e-branco: Marlon Brando me olhava de modo ameaçador.

Copenhague 21
Logo o salão começou a encher. Dei uma espiada no salão. Lotado, com direito a mesas grandes, com muitas famílias. Confesso que o Trip Advisor não está entre as minhas fontes, normalmente, mas dei só uma checada, para ver se meu jantar deveria ser mesmo ali, como me dizia minha intuição, e como praticamente me impunha o clima lá fora. Quase todos os comentários eram elogiosos: falavam das pizzas, das massas, das carnes, do serviço a la italiana (havia quem reclamasse da demora, e do estilo dos garçons). Bati o martelo. Decidi jantar ali mesmo. Terminei meus afazeres, e pedi uma mesa.
Cardápio atraente. Bem típico. Li inteiro, e terminei na dúvida: pizza marguerita ou lasanha à bolonhesa? Escolhi a primeira. Acho que domingo combina com pizza. Eu e a torcida do Flamengo, eu sei. Apesar de que uma bela lasanha à bolonhesa também combine. Aliás, cozinha italiana combina com qualquer dia.

Copenhague 23

Pedi um Montepulciano d’Abruzzo, bem simples, para acompanhar. Tive um jantar agradável. A pizza estava boa. Nada que tenha me emocionado, mas era tudo o que eu precisava naquela noite fria. Era grande, e nem consegui chegar até o final.
Subi para o meu quarto contente e satisfeito. Bati na cama, e apaguei na hora. Sonhei com a minha casa. bateu saudade inconciente na madrugada. Ainda bem que segunda seria o último dia. E este post, o penúltimo da série (será?), escrevo no avião da KLM que me leva de volta ao Brasil (fiz escala em Amsterdã, partindo de Copenhague). Amanhã, dia 10, encerro escrevendo sobre o dia de despedida, segunda-feira, já sob as bênçãos do Dedo de Deus, e temperado pela alegria de estar de volta ao meu aconchego serrano.
Então, vamos voltar a falar um pouco do Rio de Janeiro, assunto principal deste blog, e de vinhos, tema que acabou vindo para cá com o final da Enoteca.
Porque agora só pretendo voltar a viajar no final de janeiro, curtindo as festas de final de ano e as férias escolares na maior tranquilidade, e não faltam novidades por aí.

A chegada em Paris, e um inesperado almoço três-estrelas no Le Cinq

18/11/2014

Durante minhas viagens de trabalho é relativamente comum que eu coma duas vezes em uma refeição. Já cheguei ao cúmulo, num gordo exercício de reportagem que jamais repetirei, a visitar seis restaurantes em um mesmo dia, e comendo em todos eles (fazendo, inclusive, dois longos menus degustação, um no almoço, outro no jantar), durante uma viagem para Buenos Aires, para uma matéria sobre os melhores restaurantes da cidade (e para ler as matérias sobre os melhores lugares para se comer na capital argentina, clique aqui ou aqui).
Geralmente eu me planejo, de modo que controle os horários e também o que vou pedir em cada lugar, para que não haja exageros. Ontem, porém, almocei duas vezes, sem ter me programado para isso.
Começando do começo… Cheguei ao meu hotel em Paris, Le Bristol, dos meus preferidos. Subi ao quarto, tomei um banho e fui pedir indicações ao concierge. Queria um bistrô não muito longe dali, que fosse tradicional, e frequentado pelos moradores de Paris. Ele acabou me indicando três, e escolhi o Chez Savy, brasserie inaugurada em 1923, numa pequena rua transversal à Avenue de Montaigne.

Paris 1

Cheguei, gostei do lugar, e pedi um pichet de Borgonha genérico, para ir entrando no clima.

Paris 2

O couvert tinha tudo o que eu precisava: um patê sensacional, e um pão idem.

Paris 3
Para o prato, escolhi um pato confit com batatas, lamentando ainda não ser quarta-feira (ou seja, amanhã),…

Paris 4

… quando terá início da temporada de carnes de caça, com javali, veado, lebre e outros simpáticos bichinhos que estão começando a ilustrar os cardápios europeus.
Terminei de comer, e pedi a conta, junto com a senha do wifi para dar uma espiada nas mensagens, e ver se tinha algo urgente. E tinha, sim. Era uma mensagem da relações públicas da rede Four Seasons no Brasil. O relógio marcava 13h50, e o texto dizia o seguinte. “Bruno, você poderia almoçar no Le Cinq? Tenho uma reserva para vocês âs 14h, me confirma?”.
Confirmei, claro, pedindo para chegar às 14h15. E lá fui eu…
Em menos de dez minutos de caminhada, e  lá estava eu na porta do hotel George V. Pego de surpresa, não tinha paletó, que foi providenciado por eles.

Paris 5
Salão lotado, mesmo no almoço. Vi um casal de japoneses comendo com admiração e tranquilidade, e outro casal, festejando algo importante, muitos executivos também. Eu mal me acomodei na mesa, e chegou o garçom oferecendo uma taça de champanhe. Vai perguntar se macaco quer banana? Aceitei, e era um rótulo que eu ainda não conhecia, um rosé topo de gama da Lanson, o Noble Cuvée. Muito bom, fino e delicado.

Paris 6
Foi com ele em mãos que recebi contente o amuse bouche: um trio de delicadezas. Uma bola de textura macia, com sabor de gengibre e campari; um crocante de cebola com raiz forte e o melhor de tudo, uma combinação de foie gras com maracujá, algo muito usual, mas neste caso com um troque de café, que fez toda a diferença, causando surpresa e entusiasmo.

Paris 7

Mais amuse bouche. Um  jus de cèpe com ecrevisses e foi gras, e uma pétala de rosa com uma gota de mel ao lado.

Logo chegaram os pães, e as manteigas, com ou sem sal. Até lamentei ter comida o (delicioso) confit de canard… Queria ficar ali, revezando-me entre a baguete crocante e um pão escuro, meio integral. Mas achei por bem cessar esta irresistível degustação, para poder chegar com alegria ao final da refeição, que pelo o seu começo prometia ser incrível, como de fato foi (ninguém tem três estrelas Michelin à toa).
Já cheguei ao restaurante sem fome, de modo que para mim ficou mais evidente a qualidade da comida. Porque eu não tinha o melhor tempero, como se diz, que é justamente a fome.
Acatei todas as quatro sugestões do garçom, que me mostrou o menu indicando os pratos mais emblemáticos do chef Christian Le Squer.

Paris 8
O primeiro prato foi um assombro, em forma de “hommard bleu”, a deliciosa lagosta azul, servida com um toque de pimenta, uma espécie de geleia rala de grapefruit, endívias e um molho cremoso de manteiga. E se o prato já estava lindo com o champanhe, imagine quando chegou o sommelier da casa, Eric Beumard, um dos melhores do mundo, trazendo o vinho sugerido para ele.

Paris 9

Um Risling alsaciano, de produtor que eu não conhecia, com ligeiro açúcar residual, difícil de se notar devido à acidez pontiaguda. Aí, sim!!!
– Eu não sei se o senhor vai se lembrar, mas nós almoçamos juntos, lado a lado, em 2006, no restaurante D.O.M., em São Paulo, quando visitou a cidade. Naquela época eu trabalhava na revista Viagem e Turismo, e vivia em São Paulo. Hoje moro no Rio – eu comentei.
– Ah, sim, eu me lembro. Bem que notei que seu rosto não me era estranho – respondeu ele, saindo da minha mesa e ainda fazendo um gestual relativo à passagem do tempo – 2006… Bah, muito tempo…

Paris 10
Logo chegou o segundo prato. Um pedaço alto, com sete centímetros de altura, como havia informado o tal garçom que fez a sugestão, de turbot selvagem. Era um dado de carne branca e delicada, com textura firme, que estava colocado sobre uma cama de batatas, em molho leve, mesmo que feito com creme de leite, aerado. Sobre tudo, um pedacinho de trufa negra em formato quadrado, montando o prato minimalista em preto e branco, lindo de se ver, e ainda mais de comer.

 

Paris 11
Aí, então, veio o grandioso Chassagne-Montarachet Clos Saint-Jean 1er Cru, do Domaine Michel Niellon, vinhaço este que – por coincidência – eu havia provado na minha última visita a Paris, em abril passada, durante outra refeição de gala, um jantar no restaurante comendado pelo chef Alain Ducasse no hotel Le Meurice (para ler a reportagem, clique aqui).
Este é o caso típico de harmonização que trai a lógica, e desfaz os conceitos matemáticos. 1 + 1 = 3. O vinho melhora a comida, e comida melhora o vinho. E, assim, fui economizando cada gole, cada garfada (na verdade, o talher para este prato era quase uma combinação de colher, quase chata, com garfo, já que na ponta havia uns dentinhos, para podermos saborear o caldo e espetar a carne).

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O prato prncipal, assim como o resto, entrou para uma espécie de galeria de honra que cultivo no meu peito: a de pratos preferidos de toda a vida. Sim, era um “ris de veau”, ou timo de vitelo, como se diz no Brasil, onde a iguaria (sabe-se lá por quais razões) é rara, ou sweetbread, em inglês, ou ainda molleja, como se diz na língua espanhola, mais familiar assim aos brasileiros que visitam a Argentina ou o Uruguai, dois povos loucos por este miúdo de sabor marcante, textura macia e muita untuosidade.
Eu, que sou apaixonado por “ris de veau” só havia comida uma vez a pela assim, inteira (tinha sido no La Cabrera, em Buenos Aires – aliás naquela mesma viagem das seis refeições que relatei no início do texto).
A carne vinha espetada por duas hastes de capim-limão, que lhe emprestavam um agradável sabor herbáceo, algo cítrico, além de uma inusitada beleza. Duas coisas me causaram ainda mais alegria (sem contar os nacos crocantes de alguma castanha que coroavam a carne).

Paris 12

A primeira: o vinho servido em cestinha de prata era um Gevrey-Charbertin desses de encanto, combinação de delicadeza e potência, elegância e profundidade, frutas e sabores terrosos. Era um exemplar ainda jovem, de 2009, mas delicioso de se beber, produzido pela pequena vinícola Sérafin Pére & Fils. A segunda: por debaixo do “ris de veau” havia cubinhos salteados de cogumelos, e um molho verde que quebrava qualquer resquício de monotonia.

Paris 14
Jamais recuso o carrinho de queijos. Pedi, como sempre faço, os mais intensos, de sabor marcante. Desculpem, mas não sou capaz de decorar os nomes dos queijos (o genial Charles de Gaulle, que entre outras frases brilhantes, como “O Brasil não é um país sério”, disse certa vez que é impossível governar um país que tem mais de 300 queijos diferentes, e ele se referia à França, claro – que, aliás, tem hoje mais de mil variedades distintas). Confesso que não estava animado a anotar, porque estava relaxado, curtindo o momento. Só me lembro que havia um camembert bem maduro e fedido, do jeito que a gente gosta.

Paris 15
Como se já fosse pouco isso, ainda veio o complemento perfeito à degustação dos queijos: um porto 1986…

Paris 16
POis, voilá, era hora da sobremesa. O pré-desert chegou em forma de um potinho de frutas cítricas com salsinha, para limpar a boca, além de pequenos bocados.

Paris 17

Em seguida, outro momento de antologia gastronômica, uma bem montada combinação de chocolate com caramelo e nougat. Ulalá!!!, como dizem os franceses, foi o que pensei quando, ao dar a primeira garfada, fui brindado ainda com o melhor Banylus que já bebi, de safra 1989.

Paris 18
Dispensei o café, mas numa ato de gentileza o garçom me trouxe uma bandeja com chocolatinhos, e também uma caixa com alguns petit fours. E essa massinha folheada, crocante que só ela, com amêndoas carameladas.
Agradeci, feliz, já imaginando a alegria da filha ao provar os docinhos, no próximo domingo, quando chego ao Brasil.
Caminhei muito ontem, como gosto de fazer em qualquer cidade, ainda mais em Paris, e para não dizer que foi tudo perfeito, ganhei uma baita bolha no calcanhar. Achei merecido. A felicidade, a alegria, para serem inteiras, precisam ter um bocadinho de tristeza.
Mas só um bocadinho mesmo. Porque no momento em que escrevo este texto estou no trem. A caminho da Borgonha, onde fico até sábado. Se não me perdi nas contas (se fosse bom em matemática não seria jornalista) vamos saborear nada menos que 12 estrelas Michelin, com direito a três restaurantes com o prêmio máximo da gastronomia mundial, as três estrelas do Guide Rouge. Caramba!!!

Mais informações sobres os restaurantes nos sites do Chez Savy e do Le Cinq.

Gastronômade Brasil pela primeira vez no Rio de Janeiro: no próximo dia 22, sábado da outra semana, na Reserva Aroeira, em Piraí

13/09/2012

Antigamente, há muito tempo atrás, éramos nômades por obrigação. Andávamos em busca de comida.

Domesticamos os animais, desenvolvemos a agricultura, e conseguimos, então, nos estabelecermos em alguns lugares.
Nasceram as cidades.
Mas a busca pela comida, agora por puro prazer, continua sendo um comportamento humano fundamental, algo instintivo até. Hoje as pessoas viajam em busca de boa mesa: sejam os melhores restaurantes do mundo, sejam os ingredientes inusitados, sejam as receitas típicas de determinados lugares.
No próximo fim de semana o Rio de Janeiro recebe, pela primeira vez, uma edição do Gastronômade Brasil, que acontece na Reserva Aroeira, em Piraí, a partir das 13h.
 No ano passado foram mais de 80 edições, reunindo quase 10 mil pessoas em fazendas na América do Norte e da Europa. Aqui no Brasil já aconteceram eventos em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.
A ideia é criar um almoço em ambientes ao ar livre, no campo, perto de onde são produzidos os ingredientes, colocando em contato comensais e produtores rurais. Depois do Rio de Janeiro o Gastronômade Brasil acontece, ainda, no Rio Grande do Sul, no dia 23 de setembro, na Vinícola Luiz Argenta, em Flores da Cunha, com o chef  Carlos Kristensen e com vinhos da própria vinícola, claro; e em São Paulo, no dia 30 de setembro, no Mercado Municipal de São Paulo (ponto de encontro: Espaço Gourmet), com o chef Alex Caputo e vinhos da Cave Geisse.
Na etapa fluminese a chef escolhida não poderia ser outra: Roberta Sudbrack, que vai preparar um almoço para 120 pessoas, entre elas esse feliz blogueiro que vos escreve. Os vinhos serão da Cave Geisse. Custa R$ 470, e é possível comprar através do site www.gastronomadebrasil.com
Quem quiser pode ir por conta própria, se hospedando na região (na propriedade, a Reserva Aroreira, existe uma pousada, que faz parte do Circuito Elegante, que está vendendo pacote de hospedagem durante o evento, para o casal, de sexta a domingo,com preços entre R$ 1.260 e R$ 1.490, com café da manhã, ingresso no Gastronômade e almoço no domingo: www.reservaaroeira.com.br).
Outros, como eu, vão sair do Rio de van, voltando no mesmo dia, assim dá para comer e beber sem se preocupar. Custa R$ 36 a mais.

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Uma deliciosa viagem pelos sabores do Brasil segundo a ótica francesa do chef Demien Montecer, no restaurante Térèze

26/06/2012

O chef francês Demien Montecer está há dez anos no Brasil, quase cinco deles no Hotel Santa Teresa, à frente do restaurante Térèze.
É um dos mais belos da cidade. Arejado, rústico, com muita madeira, piso de cimento. Chique.
Para marcar a data ele criou um novo cardápio, que já vinha se desenhando há quase um ano, quando havia visitado pela última vez o restaurante, em Santa Teresa, bairro que, por si só transforma qualquer programa em algo mais legal.
O menu, anunciado como mon carnet de voyage des saveurs du Brésil…” é uma singela homenagem à cozinha brasileira. Ao mesmo tempo em que usa ingredientes nacionais para emolduras receitas e ingredientes tipicamente franceses, ele também faz o contrário, usando ícones gauleses, como o peito de pato tratado como picanha no espeto, e a trufa que condimenta o caldo de feijão. O resultado é um cardápio equilibrado e saboroso, com pratos bem bolados e de apresentação impecavelmente bela. Irreverente e lúdico. Um dos menus degustação mais interessantes atualmente no Rio de Janeiro.

Ainda mais se for assim, como a sorte que tive. Num desses lindos domingos ensolarados típicos do outono que acaba de passar, visitei o restaurante para almoço, na agradável companhia de sua assessora de imprensa, a doce Thais Genuíno.

Numa tarde agradavelmente fresca, começamos brindando o dia com agradáveis borbulhas.
Tim tim.


Com a flûte em mãos, uma tapioca crocante, tão delicada que foi batizada de “renda” envolvia como sanduíche um pedaço lindo de foie gras. Flor de sal, pimenta e uma folhinha fresca davam um relevo. Ao lado, um risco escuro de chutney de caju e um copinho de cachaça com cupuaçu. Que rufem os tambores. A festa vai começar.


Pois o passo seguinte, olha só, era o tal caldinho de feijão. Pois bem. O creme espesso, veludo, tinha farofa de castanha, um raviolizinho de cogumelos trufados. Voilá! Vive la France!


Passamos para um bom Bordeaux branco. Fresco como a tarde.


Sauvignon Blanc com queijo de cabra é daqueles casamentos perfeitos. É sempre bom tê-lo no início de uma refeição.

Sim, neste caso o delicioso queijo de cabra do Capril Genéve, em Teresópolis, vinha numa linda composição: um pedacinho seu, empanado em castanha-do-pará e servido com geleia de cupuaçu era um dos três montinhos, que vinha unidos por uma fina lâmina de palmito, tostadinho e crocante. Os outros dois?


Pelo ângulo reverso: saladinha de pupunha com jambu, e uma folhinha da planta amazônica que dá uma ligeira ardência na língua.


Prosseguimos com as costeletas de tambaqui na churrasqueira com vinagrete de vegetais ao maracujá doce, servidas com mousseline de banana d’água.


Havia um quiabo cortado ao meio, e grelhado, por debaixo do peixe. Repare que delícia. Se você não gosta de quiabo, deveria provar esse. Preconceitos morrem. E soam as trombetas!!!


O chef Demien está bem acompanhado. No salão a jovem sommelier Lívia Guerrante foge do trivial, propondo boas harmonizações. Como a para esta receita acima.


Que tal um Bordeaux tinto para um prato de lulas? Muito bem. Esse prato aí de cima é a lula lua cheia. O bicho é recheado com paçoca de carne-seca, servido sobre um delicioso e delicado creme de berinjela.
E fomos em frente.


Peito de pato, grelhado em forma que lembra uma boa picanha no espeto.

Servido com uma molho de açaí. Bom, muito bom.

Agora, sim, a picanha. Inverte-se os papéis, e a carne mais adorada pelos brasileiros para um bom churrasco vem ao lado de um irresistível naco de foie gras, em mais um capítudo dessa interessante trama de sabores e amores franco-brasileiros que Demien criou.


Para encerrar, um parque de diversões adocicados.

O chamado “menu expérience” custa R$ 260, e deve ser encomendado antecipadamente através de reserva. No cardápio, ele é definido como “uma viagem gastronômica imaginada pelo chef Demien Montecer inspirada na cozinha e nos sabores da terras brasileiras”. É isso aí. E a grande maioria dos pratos pode ser pedida separadamente no cardápio regular. O “menu du jour”, servido de segunda a sexta, no almoço, custa R$ 85 é uma boa possibilidade.

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Uma seleção de matérias para aproveitar o inverno serrano

25/04/2012

Agora que o friozinho está começando a ficar gostoso, e na total falta de tempo de atualizar o blog nesta semana, fiz muma seleção de reportagens do Boa Viagem e posts no blog Enoteca sobre as cidades da serra fluminense.

Que vontade de acender a lareira, abrir um bom tinto e fazer uma comidinha bem gostosa!

Durante a visita ao Capril Genève, em Teresópolis, as crianças podem alimentar as cabras

Teresópolis-Friburgo: um circuito perto do Rio cheio de paradas para comer, comprar e se hospedar

Villa St. Gallen, o templo cervejeiro em Teresópolis

A boemia sobe a serra em direção a Teresópolis

Um roteiro por Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo

Trufas e bons vinhos no restaurante Il Perugino, em Petrópolis

Os melhores restaurantes de Petrópolis

Vinhos em Visconde de Mauá

Um lindo almoço no restaurante Gosto com Gosto, em Visconde de Mauá

Um fim de semana em Visconde de Mauá, agora com acesso asfaltado

No Crescente Gastronomia, em Friburgo, vinho da casa é mesmo da casa

Um passeio imperdível pelo Capril Genève, em Teresópolis

Restaurantes russo e português na lista de bons endereços gastronômicos de Teresópolis

Petrópolis, cidade imperial e capital da cerveja

Inverno vintage e frio em família na Região Serrana

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E MAIS: alguns passeios por cidades de Minas Gerais e São Paulo, que podem ser feitos em viagens de carro, programas também ainda melhores nos meses de outono-inverno.

- Com lindas trilhas e cachoeiras, Aiuruoca festeja São João com boa comida e pousadas confortáveis

- Tiradentes, a capital da cozinha mineira

- Dona Licéia: sofisticação no Vale do Paraíba

- Semana Santa: Paixão de Cristo à moda mineira

- São Luís do Paraitinga: natureza é moldada para esportes de aventura como rafting e rapel

- Aparecida recebe oito milhões de fiéis por ano, mas há poucos bons hotéis

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Um brunch em família no Copa

02/08/2011

Na semana passada foi publicada a nona edição da revista Oh!. Escrevi uma reportagem sobre os brunches, essa instituição dominical americana, aquela mistura de café da manhã tardio com almoço que geralmente acontece entre 10h30 e 15h nos melhores hotéis e em alguns restaurantes.

São respeitáveis bufês com queijos, frios, embutidos, conservas, saladas, pães, ostras frescas e toda a sorte de comidinhas, incluindo alguns pratos quentes.

Brasileiro adora comer brunch nos EUA, e até na Argentina, vide o sucesso desses almoços no Four Seasons, no Alvear e em outros endereços portenhos, como o restaurante nórdico Olsen. Mas, por aqui, são poucos os brunches dignos de nota.

No Rio, só conheço um, o do Copacabana Palace. Porque brunch não é só uma refeição, mas um acontecimento. Entre amigos, em família. Assim, estive recentemente com mãe, filha e tia no Pérgula para um adorável e longo almoço…

… que começou com ostras frescas, ovas tipo caviar em três versões, com creme azedo e blinis (e a panquequinha fez o maior sucesso mesmo foi com a Maria).

Na taça, o bom espumante nacional Laurentia. Mas a ocasião também permite uma garrafa de champanhe. Tudo a ver. Borbulhas são a melhor companhia para um bom brunch.

Havia uma vistosa salada de frutos do mar, e de lá pesquei uns bons nacos de polvo. A Maria adora polvo, mas não curte a acidez dos tentáculos servidos em vinagre.

Então, quando se informou sobre isso, a equipe logo tratou de preparar, na hora, lá na cozinha, um polvo grelhado no azeite. Foi uma festa. Maria adorou a mordomia, e acabou ganhando, ainda, umas batatinhas fritas e até um waffle. Na foto aí de cima, a Denise, que é gerente do Pérgula, e mulher do Alves, maitre do Gero. Casal querido. O clique é da Maria, como dá para perceber pelo ângulo.

Vai um patê de foie gras aí?

À nossa frente, a piscina do Copa. Ao nosso redor, gringos despojados e cariocas emperequetados. E engraçado isso.

Prosseguimos ao sabor de salmão defumado de ótima cepa, e um hadoque idem.

Havia camarões de várias formas de preparo. Aspargos, presunto cru. No bufê de pratos quentes, a codorna me fez repetir umas três vezes.

E depois nos atracamos com os queijos.

E encerramos com os pecaminosos doces, uns 40 deles, em verrines, …

… tortinhas de frutas,…

bolinhos…

Petit fours (sempre maravilhosos ali) e o café, por favor.

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O segundo dia no Ponta dos Ganchos: parecido, e diferente do primeiro

05/07/2011

Com todo aquele frio de dez graus, com toda aquela chuva, o único remédio para o fim da manhã e o começo da tarde de sábado era me recolher aos meus aposentos para relaxar. Sauna e hidromassagem com muita espuma, hidromassagem e sauna com muita essência de eucalipto.

Piscina aquecida panorâmica para dar uma refrescada.

Televisão.

Sauna. E fiquei nesse motocontínuo por umas duas horas.

Claro que abriu o apetite. E descemos ao restaurante. Lá, uma senhorinha mostrava a técnica de um bordado que é tradição local, herença dos açorianos que colonizaram Santa Catarina.

Estea era a minha visão no almoço até a chegada do Josimar Melo…

… com quem dividi antes do almoço uma pinga da região, feita a partir do melaço, como o rum.

Nem de dia o frio dava trégua. Ainda bem mesmo no almoço a lareira dava uma esquentadinha no salão.

Primeiro, a boa cestinha de pães.


Depois, uma duplinha de ostras ao vinagrete, pescada do cardápio de petiscos da praia.

Com espumante, é claro. Não, não era champanhe, mas o agradável Chandon Brut, lá de Garibaldi.

Saladinha com folhas, tomate e palmito, para começar levemente a refeição.


Em seguida, arroz de siri, além de…


..  polvo e camarões grelhados com legumes, acompanhado de um molhinho de alho bem legal.

Encerrei com telhas de chocolate com mousse de maracujá.


Uma soneca e uma sauna depois… Subi para o bar, onde acontecia uma degustação dos vinhos que acompanhariam o jantar. Coisa fina, muito boa.
Primeiro, champanhe Pol Roger, que nunca é demais.


Depois, um branco de responsa, o  Muscadet de Sévre et Maine Sur Lie Royal Oyster 2006, seco e mineral, seguido pelo…


… ótimo Fixin Domaine Pierre Gelin 2006, fresco e aromas de frutas negras e especiarias. Fixin é uma denominação da Borgonha, vizinha a Gevrey-Chambertin, que tem ótimos vinhos, a preços mais razoáveis que a média da região.


Para encerrar, um Tokaji de colheita tardia, mais leve e menos doce que os Aszú, rico e aromático, com aromas de mel a abacaxi maduro. Bons vinhos, que me pareceram adequados ao menu delicado da chef Paola Carosella.


De lá, descemos uma vez mais para o restaurante, para mais uma refeição memorável sob o comando da chef argentina do restaurante paulistano Arturito. Primeiro, lâminas de peito de pato curado, quase um presunto de Parma, servido sobre um brioche, com brotinhos. Par perfeito para o Pol Roger.

Depois, mexilhões à provençal absolutamente perfeitos. Ainda mais com um bom Muscadet.

O ato final entre os pratos salgados foi uma massinha caseira com coelho assado lentamente, desfiado, com pinoles tostadinhos. A foto está ruim, mas a comida estava sublime, ainda mais com o Fixin.

A sobremesa eu classificaria com uma obra de arte: confit de pêras, queijo manchego espanhol, crocante de amêndoas e alecrim, saba com trufas brancas… Um espetáculo de sabor, hamonia e texturas. Pobre fotógrafo, incapaz de retratar a grande desse momento memorável.
Encerramos com portos e charutos na varanda.

Na manhã seguinte, quando já salivava para repetir as gostosuras do café da manhã do dia anterior, vi que teria um novo menu para começar o dia: suco de manga com linhaça e água de coco, iogurte com papaia, granola e quinua e gomos de laranja com coco ralado. Variar é muito bom, mas ao menos o ótimo shot de couve, maçã e gengibre estava lá novamente. E eu, que sempre gostei de xote, fiquei a cantar:
“Cendo um cigarro de vez em quando,
Pra esquecer de pra alembrar,
Que só me falta uma bonita morena,
Pra mais nada me faltar,
Que só me falta uma bonita morena,
Pra mais nada me faltar….”

No caminho para o café, rejeitei o convite para a trilha: chovia e fazia frio. Não, obrigado.

Assim, o domingo começou cedinho, às 9h30, ao sabor de…

… sanduíchinhos de ervas e cenoura, presunto cru e até croque monsieur.

Eis que chega o café. :-)

Depois, uma repetição da infalível fórmula ovos & ovas, dessa vez em forma de ovo molo com caviar. E, importantíssimo, uma bela torradinha. Ai ai ai.

Para terminar, tapioca com canela e doce de leite. Precisa explicação?

Voltei para o quarto. Acabou a preguiça. Dia de voltar para casa. Muito trabalho. Um cafezinho para dar um gás. A Sauna saideira. Mais um mergulhinho na piscina, mais uma sessão de hidro. A despedida.

O primeiro dia.

Fotoblog: 24 horas deliciosas no hotel Ponta dos Ganchos em 31 imagens

03/07/2011

Existem hotéis ruins, existem hotéis bons, existem hotéis ótimos e existem os extraordinários. O Ponta dos Ganchos é um desses hotéis fora de série, especialmente os bangalôs 21, 22, 23, 24, 25 e 26, que têm sauna no quarto, imenso, além de adega, hidromassagem, piscina aquecida e uma cama incrivelmente confortável.

O meu é o 21. Maravilha.

Logo que cheguei na tarde de sexta, com três horas de atraso, porque o Santos Dumont passou a manhã fechado, fui almoçar. O restaurante fica ao lado da prainha quase particular, com águas calmas, claras e frias, especialmente nesta época do ano, que tem muitos dias frios e chuvosos (daí eles criarem, entre outros eventos, o Ciclo dos Chefs) – mas a verdade é que, embora seja um resort de praia, nem dá vontade de sair do bangalô. É impressionante como o lugar é lindo, mas nos dias feios.

O salão é gracioso, com mesinhas de madeira, uma toalha feita pelas rendeiras locais, flores…

Estava interessado em comer pescados. Pedi um vinho em taça. O sommelier sugeriu que eu provasse os três disponíveis na ótima carta do hotel. Boa ideia.

Tinha um gostoso rosado provençal, um representante local, o Villa Francioni Sauvignon Blanc, produzido em São Joaquim, na Serra Catarinense, e também…

… o Viognier La Violette, de Jean-Luc Colombo. Difícil escolher.

Acabei prestigiando o rótulo brasileiro, dessa vinícola que gosto bastante.

 

No almoço, são dois cardápios, criados com a consultoria de Laurent Suaudeau. Um varia diariamente, trazendo sugestões do chef, outro é fixo, apresentando receitas de inspiração regional, como o arroz de siri e o camarão na moranga. Misturei os dois. Pedi as três entradinhas do menu do dia: uma deliciosa lula com salada de quinoa, …

… um caldinho de feijão preto com granité de limão verde, couve e farofinha e…

… um crab cake com iogurte e folhinhas da horta (aliás, as folhas são muito boas e frescas aqui, boa parte delas vinda da hortinha orgânica própria).

Do cardápio do dia local, pesquei o camarão da moranga, por sugestão da garçonete. Bem saboroso.

Encerrei com uma realmente muito delicioso cheesecake com calda de goiaba. Nham nham nham. Demais.

Voltei para o quarto para aproveitar o conforto: fiz uma sauna, mergulhei na piscina e encerrei a sessão de relaxamento imerso na espuma da hidromassagem. É claro que precisei cochilar depois.

Acordei e fui direto para o coquetel, no bar. Com champanhe Pol Roger, tudo o que já é bom fica ainda melhor.

Havia uns canapés para acompanhar.

Descemos para o restaurante, que – ao menos nesses dias frios e chuvosos – parece ainda mais agradável à noite, com a lareira acesa e as velas sobre as mesas. Romântico é pouco.

Foi o primeiro dos dois jantares da chef Paola Carosella. Ela logo mostrou o seu talento ao servir uma sopinha de abóbora com queijo de cabra, brotos e uma torradinha de nozes. Foi servido com o Moët & Chandon Brut Imperial. Imagine só…

Depois, salada de figos bem maduros com mussarela artesanal de búfala, hortelã, rúcula, tomates crocantes (fabulosos, finos e delicados), limão siciliano e amêndoas. Uma beleza, uma gostosura, ainda mais…

…  na ilustre companhia do Michele Chiarlo Gavi.

Depois de provar esse polvo  na grelha com aioli, batatas ao murro , tapenada de azeitona preta e rúcula selvagem, me peguei a pensar se já havia alguma vez na vida comido um molusco melhor. Não me lembrei de outra ocasião.
Para harmonizar foi o escolhido o Quinta dos Roques Encruzado, vinhaço que adoro. Mas um casal do Pará, que comemorava aniversário de casamento, fez a gentileza de me servir uma taça do Chateau Grand-Puy-Lacoste 2000, que escolheram para brindar a data, um sensacional Bordeaux, que fez o polvo ficar ainda melhor. Quem disse que vinho tinto encorpado não pode se dar bem com frutos do mar?

Para a sobremesa, mais uma combinação leve e delicada, reunindo morangos, blueberries, mascarpone, vinho argentino Torrontés, baunilha e pistaches. Fómula infalível, servida com vinho à altura, o Sauternes Chateau Gravas.
O meu Bordeauxzinho, claro, ainda estava ali. Terminei a refeição com ele, levando o seu sabor até o quarto. Sonhei com os anjos.

Na manhã seguinte o tempo continuava feio ao mesmo tempo em que o lugar continuava lindo.

O café acompanha o alto nível do hotel. Começa com manteiga, requeijão, geleia, umas torradinhas e um pergaminho, sugerindo as atividades do dia, e trazendo informações, no caso pouco animadoras, da meteorologia.

A primeira refeição do dia no Ponta dos Ganchos é uma sucessão de delicadezas, um café da manhã equilibrado e saboroso, que varia todos os dias. Meu sábado começou com shot de maçã com couve e gengibre, tartar de frutas com lâminas de coco e mel…

…suco de cenoura com laranja, e um pratinho de iogurte com pêssego, mel e mix aromático, que continha, entre outros, gergelim e cardamomo. Uma beleza, leve e saudável.

Em seguida, hora dos quentes, muito aconchegantes: sanduichinhos de brie e geleia e de salaminho, pão de queijo recheado com peru e requeijão e uma cestinha de pães quentinhos, com croissant, pão francês e brioche de chocolate, além de pães de queijo simples. Ui ui ui.

Para acompanhar os carboidratos, as proteínas, servidas em bandejinha de vidro: queijo brie, minas, peito de peru, presunto, salaminho…

Tá pensando que acabou? Rá rá rá. Ainda teve ovo mexido com bottarga (catarinense, claro) e…

… um trio de irresistíveis bolinhos de chuva, com creminho e doce de leite (escondido por debaixo deles), só para acompanhar em grande estilo mais uma xícara de espresso.

Estamos cercados de fazendas de mariscos, com ostras, mexilhões e vieiras. Que só vim a provar no sábado. Amanhã eu conto.

O segundo dia.

Fim de semana com Paola Carosella em Santa Catarina, as obras no Cipriani e a inauguração da Fogo de Chão no Rio de Janeiro

01/07/2011

Lá se vão aí uns cinco anos que tenho vontade, e muita, de conhecer o hotel Ponta dos Ganchos, no município de Governador Celso Ramos, perto de Florianópolis, para onde embarco daqui a pouco. Da mesma maneira, há pelo menos quatro anos desejo imensamente visitar o restaurante Arturito, em São Paulo.

Pois então fiquei bastante feliz quando me convidaram a passar um fim de semana por lá durante a edição de 2011 do Ciclo dos Chefs, quando são chamados alguns dos maiores cozinheiros do país para um fim de semana com programação voltada aos comes e bebes. A Paola Carosella, chef do Arturito, é uma das participantes. Aproveitei, então, para escolher o fim de semana dela. Que é exatamente esse, começando hoje.

E é para lá que eu vou para passar a sexta, o sábado e parte do domingo.

Essas, e ostras, de Santa Catarina, é claro, eu vou contando por aqui.

No mais, os últimos dias reservaram duas notícias importantes. Enfim foi inaugurada a churrascaria Fogo de Chão, muito bem instalada em Botafogo, escancarada para a Baía da Guanabara, uma beleza. E o restaurante Cipriani, do Copacabana Palace, fechou as portas para dois meses de resforma (e, como vai ficar a casa, eu contei lá na Enoteca).

Sobre a Fogo de Chão, estive lá na tarde de segunda-feira, aproveitando a folga. O carioca esperou muitos anos para a chegada da churrascaria. Agora, esperamos para que o as carnes sejam preparadas à perfeição, como em São Paulo.

Cheguei lá às 15h15, e pedi uma mesa pertinho da varandona. Linda a paisagem, valorizada pelas portas de vidro que ocupam toda a “parede” voltada ao mar.

O lugar está lindo, e o serviço, até muito invasivo e cordial demais para o meu gosto. Mas tudo bem. O problema não é esse.

Comi cortes que estavam ótimos. Outros, nem tanto. Isso é até aceitável, mesmo numa churrascaria de alto padrão. O que não dá para engolir, literalmente, foram os pedaços servidos no fim do meu almoço, já no apagar das luzes do turno da tarde (teoricamente, de segunda a sexta a casa funciona do meio-dia às 16h). O filé mignon, a costela e o cupim estavam incomíveis. As costeletas de cordeiro, ora vinham tenras e saborosas, ora gordurentas e passadas demais. Menos mal que, num rodízio desses, tudo o que vem ruim para o nosso prato volta. Devolvi uns quatro pratos quase intactos para a cozinha.

Apesar disso, gostei da visita. Acho que tudo isso vai melhorar, talvez a partir do momento em que eles entenderem que carioca gosta de restaurante aberto do almoço ao jantar, sem intervalo. Pausa das 16h às 19h não é recomendável por aqui, ainda mais para restaurantes desse gênero. Fica dada a dica.

Também ainda está sendo preparado o tal fogo de chão, que batiza e é a marca registrada do grupo, enfeitando a porta de todas as casas.

Então, como dizia, apesar dos deslizes, mais recorrentes no fim do almoço, foi uma bela refeição. Primeiro porque consegui pegar uns bons espetos, especialmente com o tal do shoulder steak (na foto), um corte da parte dianteira do boi, algo bastante raro. Também curti pedaços de bife ancho e picanha, além de um ótimo corte de maminha com alcatra, coisa dos churrascos de antigamente.

Também merecem aplausos os acompanhamentos dispostos no bufê: aspargos, queijo grana padano, bom presunto cru, carpaccio (de carne e de um tipo de abóbora, que adorei), fundo de alcachofra, cogumelos refogamos, palmito fresco em sua casca, burrata da boa, legumes grelados, saladinhas frescas e variadas, azeites, muitos azeites, de primeira…

Também provei dois dos vinhos com rótulo da casa. Gostei mais, bem mais, do Cabernet Sauvignon chileno do que do Malbec argentino.

Não pedi sobremesa. Continha salgada, mais de R$ 200.

 E agora você me pergunta: Mas e o que tem a ver um fim de semana com Paola Carosella em Santa Catarina, as obras no Cipriani e a inauguração da Fogo de Chão no Rio de Janeiro?
Nada.

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A torradinha Petrópolis com ovo “escondidinho” do hotel Quinta da Paz: memorável

10/06/2011

O resultado final é esse aí: o ovo, acomodado debaixo da tampinha, é como se fosse a cereja no bolo de um café da manhã muito gostoso

Ontem publiquei no Boa Viagem uma matéria sobre a Região Serrana, tratando basicamente das áreas afetadas pelas chuvas em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, como o Vale do Cuiabá. Passei um fim de semana em cada cidade, começando por Petrópolis, onde me hospedei na Quinta da Paz. Gostei muito do lugar. O hotel fica num platô com vista privilegiada para as montanhas. Tem quartos confortáveis e espaçosos. E um time de funcionários muito simpáticos e eficientes. Mas o que me conquistou, e que me fará sempre lembrar de lá, foi algo que parece bobagem: uma simples torradinha Petrópolis, um clássico da cidade adorado pelos cariocas deve haver cerca de um século.

Acho que todos sabem do que se trata: um pão de forma com massa leve e fofa no estilo brioche é cortado em fatia alta, coisa de dois ou três dedos de espessura e preparado na manteiga, polvilhado de parmesão. Loucura total.

A prepraração: saca-se um pedaço redondo do miolo, espeço perfeito para encaixar o ovo, veja só

A receita é preparada na hora no café da manhã do hotel, que é ótimo por vários aspectos: é servido numa sala pequena, com linda vista para o jardim com pássaros coloridos e cantarolantes, tem uma boa variedade de pães, frutas, bolos, cereais e frios – e até um espumante para quem quiser abrilhantar a manhã – e tem uma estação na qual são feitos na hora – por uma moça muito simpática – ovos, sanduíches e a tal torrada Petrópolis. Sem contar – detalhe importante – que a louça é toda da cerâmica Luiz Salvador. Pelo conjunto da obra, um despertar sensacional.

Sábado de sol: um café com torradas especial, inclusive por conta das cerâmicas com assinatura de Luiz Salvador

Mas, como dizia, foi a tal torradinha que me enfeitiçou. Logo que chegamos para o café de sábado, o melhor dia da semana, a copeira cordial perguntou se queríamos uma torradinha Petrópolis. Estado na cidade, a oferta se torna ainda mais irrecusável. Aceitamos, e ela perguntou se queríamos a versão tradicional ou a “escondidinha”.

Então, ela explicou que essa era a especialidade da casa, feita com um ovo colocado dentro de miolo de pão. É tirada uma tampinha redonda, onde o ovo – caipira, claro – é acomodado. Ele vai endurecendo ali, com o calor. Mas chega à mesa com uma redondora gema mole, que causa aquele efeito fenomenal quando se junta aos carboidratos (pode ser arroz, massa etc).

Essa manhã, que poderia ser banal como quase todas, acabou sendo uma ocasião memorável.

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