O Gonzalo chegou: finalmente o Rio ganha uma casa de carnes uruguaias (e muito mais), que abre as portas hoje, no Leblon

24/08/2012

Quando visitei a Argentina pela primeira vez, e voltei encantado com as achuras, como os harmanos chamam os miúdos, como chinchulines (intestino), molleja (timo) e riñones (rins), além de embutidos, como chorizo (linguiça) e morcilla (morcela) havia na cidade o restaurante El Patio Porteño, na Lagoa. Quando batia saudades desses cortes lamentavelmente raros por aqui, eu ia lá saciar o desejo. A casa fechou. Restou, nas viagens a Búzios, jantar na Estancia Don Juan, bastante irregular. Tempo depois, visitei o Uruguai, e logo na primeira viagem voltei seguro de que os parrilleros uruguais, e as carnes orientais (como os argentinos chamam os seus vizinhos do outro lado do Rio da Prata) são melhores, ao menos para o meu gosto, que já era fã desde a adolescência, dos sandubas do Uruguaio, no Posto 9, em Ipanema.

Assim, foi com infinita alegria que recebi a notícia, há cerca de dois meses, de que abriria as portas no Leblon uma parrilla uruguaya. Eis que o dia chegou, e é hoje que será inaugurado o Gonzalo. Estaria triste, por neste momento tão aguardado estar tão longe. Mas não estou, porque na semana passada eu tive o privilégio de ser o primeiro jornalista, e uma das primeiras pessoas, a conhecer a casa, ali na Bartolomeu Mitre, onde era o bar Associados.

Foi um almoço imensamente gostoso. Porque, além do prazer natural da novidade em primeira mão, comi e bebi muito bem, com o tempero de um papo muitíssimo agradável, com o chef uruguaio uruguaio Gabriel Mangini, que já virou um carioca, apesar de estar na cidade não faz muito tempo. Tinha até mate na bancada.

Posso dizer que gostei de tudo. Começando pela ambiente agradável, com uma decoração bastante original, e que remete mesmo ao Uruguai, país que adora umas coisas antigas, cheio de antiquários,…

…onde foram garimpadas as peças espalhadas pelas paredes, e por prateleiras próximos do teto.

Para beber, além de uma carta de vinho com ênfase nos vinhos uruguaios,


… encontramos cervejas do país, como a Norteña, além do…


… fresco e leve clericot, um clássico de Montevidéu, e de Buenos Aires também.

A adega, além de guardar os vinhos, abriga os potinhos de doce de leite. Lapataia, claro.


O Gonzalo é uma parrilla, claro. Mas está longe de ser uma casa de carnes unicamente. Pelo contrário. Os pescados me chamaram tanta atenção quanto o ojo de bife, a molleja etc etc etc.

Depois de um tomate assado, suculento, suculento, com um molho de ervas e azeite,…

… provei com imensa alegria um ceviche de corvina exemplar. Na verdade, era um misto de ceviche com carpaccio, uma vez que a carne do peixe era cortada fininha, e temperada também com azeite. Sei que deu samba esse encontro dos Andes com o Mediterrâneo.


– Só usamos corvina pescada na linha, em Cabo Frio – diz o chef uruguaio,Gabriel Mangini.


Depois provamos, ainda, uma pequena porção de lula e polvo grelhados, que realmente estava fantástica. Polvo macio, com aquela camada externa crocante que faz a alegria dos amantes deste molusco, tantas vezes servido inadequadamente, borrachudo.


Foi quando duas iguarias que adoro, tão raras no Brasil, chegaram, maravilhosamente. A molleja, à esquerda, e os chinchulines, à direita (esses últimos foram preparados como eu jamais tinha visto, crocantes, sequinhos, quase um bacon de intestino, uma maravilha).


Gotas de limão são necessárias, e quem quiser tem um belo chimichurri para regarm, ou quem sabe uma “salsa criolla”, que aqui no Brasil chamaríamos de molho à campanha, mas com tomate e cebola cortados em pedaços menores do que estamos habituados, o que é muito bom.


Então, eu disse que gostava de fazer empanadas em casa. Claro, não tardou para chegar um pratinho com eles, preparadas à maneira uruguaia, ou seja, fritas. O recheio estava igualmente muito bom. Mais um ponto positivo…


… entre outras razões, porque quando solicitei chegou à mesa uma pimenta da casa, nada de Tabasco, uma boa marinada feita in loco, como deveria ser regra em todos os lugares, mas infelizmente não é.

Logo em seguida, uma especialidade bastante típica do Uruguai, a pamplona, um peito de frango (ou lombo de porco) que deixa de ser sem graça ao ser assado quase como um rocambole, recheado com queijo, cebola, pimentão, tomate… Par dar um tchan, a casquinha crocante, resultado da pele tostada feito torresmo, revestimento untuoso e perfeito.


Os acompanhamentos são interessantes. Salada de feijão branco, purês de espinafre e cenoura, cebolas (bem miúdas) carameladas, alho assado…


Essas cumbuquinhas chegaram à mesa ao mesmo tempo em que o asado de tira, alto na mesa exata para se manter suculento. Asado de tira é das coisas mais difíceis de se preparar. Esse merecia aplausos.


Por detrás, repare, outros acompanhamentos: legumes grelhados ou assados, como abóbora, milho, pimentão vermelho, batata, cenoura…


Mais leve e saudável que as batatinhas fritas, que ali não são congeladas, e realmente valem a pena, não só como acompanhamento, mas também como aperitivo. Curti bastante os palitinhos…


… que fizeram boa companhia para as tirinhas de ojo de bife,…

… logo sucedidas pelas costeletas de cordeiro, de preparo exemplar, e eu não preciso explicar muita coisa, é só olhar pra foto.


Encerramos com uma panqueca de doce de leite, de fazer gemer.
Claro que visitei a casa antes da abertura, com o chef e a assessora de imprensa, ao lado dos sócios. Era só uma mesa para ser servida. As morcillas, e os chorizos, ainda não tinha chegado. A realidade, no dia a dia, pode ser outra. Mas eu duvido. Além de ter achado o lugar bonito e agradável, a cozinha estava excelente, e o cardápio, é enxuto, autêntico, e os ingredientes, de primeira.
Realmente, para um fã das parrillas platenses, a inauguração do Gonzalo é uma imensa alegria. Já virei cliente. Orgulhosamente, o primeiro cliente.

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Uma lembrança, uma despedida, um almoço no Garden, um picadinho: é a vida

21/08/2012

O picadinho do Garden, casa que frequento desde que nasci: ela mudou, eu também

Como jornalista eu adoro ser entrevistado. Especialamente por me colocar em situação contrária à habitual. Ser alvo de perguntas, para mim, que vivo de averiguar, tem múltiplos sentidos. Além da sensação gostosa de ser tema, fonte ou personagem existe o prazer de aprender a fazer o que fazemos estando em nova condição. É como médico ser paciente; e o piloto, passageiro; e o advogado, réu. É como o leitor escrever. O salva-vidas se afogar. O calouro virar jurado. Ou o pescador virar peixe.
Por conta do Guia do Gosto Carioca vivi essa situação muitas vezes. Adorei ser entrevistado nessas circunstâncias, ser personagem, bater papo sobre o mundo da cozinha carioca, refletir sobre a vida.
Recebi perguntas engraçadas, outras estranhas, e até aquelas sem sentido. Algumas, nem entendi. Imagino que aconteça o mesmo com as pessoas que entrevisto. Entre tantas, uma das mais recorrentes foi: “Quando você começou a fazer o livro?”.
A questão não é fácil. Porque, embora pareça simples, já que em termos práticos o livro começou a ser escrito no meio do ano passado, quando acertei os trâmites e as datas de fechamento com a Editora Senac-Rio, a pergunta não é tão fácil assim. E a resposta mais precisa é que este livro someçou a ser feito há uns 30 anos.
Quando eu tinha uns seis ou sete anos comecei a prestar atenção na comida, que deixou de ser apenas alimento para se transformar, também, em fonte de prazer. Comecei, ainda menino, a reparar nos restaurantes. Nos cardápios, na execução dos pratos, nos acompanhamentos, nas louças e nos garçons. Circulava pelas mesas. Pedia para visitar a cozinha. Jamais imaginava que, algum dia, escreveria sobre comida. Mas sabia que gostaria de cozinhar. Minha mãe cozinhava bem, e tratou de me ensinar muitos macetes.
Neste fértil período infantil, quando me alfabetizei nas letras e nos ingredientes, nos temperos e nos acentos, nos verbos e nas massas, aprendi muita coisa.
Então, quando me perguntam quando o Guia do Gosto Carioca começou a ser feito a resposta mais correta de todas é que foi há uns 30 anos. Há uns 30 anos, no momento em que comer deixou de ser uma necessidade fisiológica para ser encanto.
Acabei me lembrando disso hoje. Tô embarcando à noite para o Canadá, país que na verdade não tem nada a ver com essa história. No momento, escrevo do Galeão. Acabo de chegar à sala de embarque. Escrevo, na verdade, porque fui almoçar no Garden, ali no Jardim de Alah. Por algumas razões escolhi o lugar. É perto de casa, e eu tinha muito pouco tempo. E também porque tem uma cozinha descomplicada. E gostosa. E barata. Bem, barata não é a palavra, mas menos cara que estamos habituados a pagar em Ipanema, e no Rio, e no Brasil, de uma maneira geral.
Mas fui almoçar ali no Garden, sobretudo, porque acabei me recordando da infância nesses últimos dias. Por conta das conversas ao redor do Guia do Gosto Carioca. O Garden está entre as minhas mais antigas referências de restaurantes no Rio. Entre os que eu frequentava quando criança, é dos poucos que ainda existem, ao lado do Antiquarius, do La Mole, do Alvaro’s, aqui no Rio, e do Dona Irene da Taberna Alpina, em Teresópolis. E do Luigi, em Petrópolis. Parece incrível, mas são lugares que frequento desde que nasci, praticamente. O Le Coin acabou. O Jangadeiros acabou. O Rio Napóles acabou. A Carreta… O Nino… O teresopolitano Café Ângelo acabou. Restaram as memórias, saborosas lembranças, da inocência do gosto, dos sonhos a respeito do que seríamos, os prazeres da boca, o beijo…
Tudo bem que muita coisa mudou no Garden. Como em Ipanema. Como no Rio. Como no Brasil. Como nas Américas e no mundo, no universo. Mas continua sendo o Garden. O nome é o mesmo, a disposição física da casa também. O que hoje é o salão com parede envidraçada era uma varanda. O que hoje é o espaço mais reservado na parte da trás era o salão. Ali eu comia uma lasanha verde à bolonhesa que ainda hoje é referência… para mim. E tascava queijo ralado, a meu ver, moído, daqueles que enchiam potinhos sobre as mesas. Coisa sem graça, aos olhos de hoje, uma delícia sob os padrões gastronômicos de antigamente.
Fato é que lá fui eu almoçar hoje. O Garden é um restaurante de bairro, frequentado pelos locais, o que é sempre um bom indício.
– Tô indo pra minha mesa – diz a senhorinha elegante, que chega para almoçar só.
Como se vê na foto, o bar é cheio de garrafas de uísque etiquetadas com o nome dos seus donos, os vinhos habituês.


Hoje eu queria algo simples, brasileiro. Com tom de despedida. Tendo em vista que só volto em dez dias praticamente, resolvi pedir algo bem carioca. Do menu de almoço, escolhi o picadinho ao poivre, uma linda ideia, que mescla essa receita típica carioca à pimenta, dando um toque especiado, um ardor delicioso, uma persistência de sabor.
Uma composição rica: carne picadinha em molho gostoso, batatinha frita (infelizmente, congelada), arroz, couve frita, e um potinho com caldo de feijão. Para caprichar ainda mais na potência, joguei uma boa malagueta, que é item indispensável em restaurantes carioca, apesar da recente ditadura do Tabasco, algo tão lamentável quanto peixe que não tá fresco, pão bolorento e vinho azedo.

O tal picadinho estava gostoso. Foi um almoço agradável. Ligeiro, na medida da necessidade.

Estava bom. Muito gostoso. Mas nada demais.
Não foi o prato da minha vida.
Mas, sim, foi o prato da minha vida.

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Rio Gastronomia: comes, bebes, aulas, feijoadas, bate-papos e muito mais

18/08/2012

Começou ontem o Rio Gastronomia, que está cada vez maior, reunindo mais de 500 restaurantes, e uma rica programação que inclui aulas de cozinha – vai ter até Alex Atala no Complexo do Alemão – concurso de feijoada – para saber mais, clique aqui -, festival de cinema e uma série de bate-papos com autores de livros sobre comida, entre outros eventos deliciosos (aliás, no domingo que vem, dia 19, às 15h, eu participo de um bate-papo na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, falando do Guia do Gosto Carioca, e dos lugares mais gostosos do Rio de Janeiro, com a mediação do minha querida Deise Novakoski. Na segunda sou o feliz medidor do encontro entre Alice Granato e Sergio Paganos, autores, respectivamente, de textos e fotos do lindo e delicioso livro Sabor do Brasil, tema do nosso bate-papo, que começa às 19h na Livraria Cultura do Shopping Fashion Mall).
Para saber da programação completa, e encontrar um monte de matéria legal sobre gastronomia no Rio, clique aqui.

Azumi: o japa que é velho conhecido, mas sempre é capaz de surpreender

16/08/2012


O Azumi é um velho conhecido, mas sempre me surpreendo. Apesar de repetir muitos pedidos, com frequência vou provando coisas novas, invariavelmente. Porque além do menu vasto, que muitas vezes sou incapaz de entender sem a ajuda das garçonetes, há sempre receitas sazonais. Mais que sazonais, diárias, de acordo com a pesca do dia. Sim, o Azumi tem um barco ali no Posto 6, em Copa, que sai diariamente para pescar nas primeiras horas do dia, para abastecer o japa da rua Ministro Viveiros de Castro, não muito longe ali da colônia de pescadores.
Entendeu o segredo do frescor dos pescados de lá?


Fazia um bom tempo que não ia ao Azumi. Quase dois anos. A novidade da última visita foi lagostim quase cru, fresco, delicado e intenso ao mesmo tempo. Tapa com luva de pelica, na língua. Delícia demais. A pureza do mar, a simplicidade, o êxtase. Olha que beleza. Porque os pratos do Azumi, como reza a tradição nipônica, são lindos de morrer.


Melhor ainda, e também inédito para mim, foi o formidável tartare de sardinha, Sabe quando a gente come, e fica com vontade de ficar gargalhando? Pois é. Fiquei bobo assim, feliz, com sorriso de Monalisa no canto do rosto.
Ah, então é você que não gosta de sardinha. Vai lá provar e me diz se sardinha não é sensacional, quando fresca e gorda, quando preparada corretamente, valorizando o seu caráter marinho intenso, sua gordura saudável, sua textura cremosa. Vai lá provar, vai, e me conta. Se pode ser uma maravilha para os que não gostam de sardinha, imagine para os que adoram, como eu. Ah ah ah ah, mas eu tô rindo à toa.


O trio de sushi traz à mesa o que a rede do barquinho Azumi encontrou. Fugimos, assim, da obviedade, da ditadura do salmão e do atum. Na mesma intensidade do lagostim e da sardinha, vibrei ao palitar com os hashis os delicados cortes de olho-de-boi, do vermelho e do xerelete. Sensacional.

Quando provei a cavala marinada, com direito a quiabo delicioso no prato, eu quase saí pulando pelo salão, dando cambalhotas e aplaudindo, resultado de tamanha alegria que me fez sentir como criança no circo, como atleta no lugar mais alto do pódio, como pinto no lixo. Não fiz isso por razões óbvias: iam achar que sou doido…


Mas, ainda que sejam os pescados a principal referência, o cardápio não se resume a isso. No inverno, por exemplo, é servido o rico caldo, que é derramado sobre a cumbuca que abriga ovo cozido, macarrão, carne de porco cozida, cebolinha cortada…

Mais uma novidade pra mim? O ika no kakiage, que vem a ser uma espécie de tempurá de lula com cebolinha em forma de bolinho, servido em porções de três.


Para encerrar doce e levemente, pedacinhos de laranja, cortesia da casa, e um copo de licor de ameixa, feita na cozinha dos donos, lá no apartamento da Barra, curtido com carinho por alguns meses, até ser servido pra nós, encerrando o jantar que ali é sempre divino.
Arigatô.

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Feijoada completa: receita de bambas

15/08/2012

A feijoada do Salgueiro: tradição do samba

Quando um estrangeiro pensa no Brasil, as primeiras imagens que vem à cabeça dele são samba, feijoada, caipirinha, praia e futebol.
As três primeiras referências se encontram semanalmente nas quadras das escolas de samba do Rio de Janeiro, que realizam as suas feijoadas, para reunir a comunidade e arrecadar um dinheirinho. Cada agremiação promove o seu feijão sambista num fim de semana alternado, umas aos sábados, outras aos domingos, de maneira que sempre tem festa.
É um programa essencial no Rio de Janeiro ir a uma dessas feijoadas.
Anteontem, domingo, visitei o Salgueiro, para ser jurado da Feijoada Nota 10, um dos tantos eventos que fazem parte do rechonchudo e delicioso calendário do circuito Rio Gastronomia, do jornal O Globo, que começa esta semana (aliás, no domingo que vem, dia 19, eu participo de um bate-papo na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, falando do Guia do Gosto Carioca, e dos lugares mais gostosos do Rio de Janeiro).
Para poder votar fiquei pensando o que faz uma feijoada ser ótima.
Há valores bastante subjetivos, como a trilha sonora: a feijoada perfeita deve ser embalada por um samba de primeira linha, como acontece nas quadras das escolas, que também por isso são tão fundamentais para se entender o que é o Rio de Janeiro, e a grandeza da feijoada, e do nosso cancioneiro popular. Cartola, Noel, Monarco, Ismael Silva harmonizam com feijão e cachaça.
Além disso, uma boa feijoada deve ser amparada por uma boa caipirinha, ou batida de limão, que não sejam muito doce, mas que apresentem uma boa acidez do limão. Pode haver, e é desejável, uma boa seleção de frutas, como lima-da-pérsia, e o brioso limão-galego, coisa tão nossa, para variar os sabores. Boa cachaça, para ser apreciada pura, também vai bem. Dependendo da ocasião, vinhos espumantes, e alguns tintos, também podem ser servidos, mas não é necessário. Tudo bem, tudo bem: vale até umas cervejas (as especiais, escuras, com notas defumadas, podem ser uma escolha certeira). Mas a verdade é que caipiras, batidas e pingas bastam em termos etílicos para embalar um bom feijão.
Com relação à comida propriamente dita, existem as questões técnicas, e as filosóficas. Em termos técnicos as carnes devem estar dessalgadas, mas não tanto: devem ainda estar um tom acima neste quesito, e são os acompanhamentos, com pouco sal, que vão equilibrar isso. O cozimento precisa ser preciso: a carne-seca, o lombinho e costelinha salgados devem estar se desmanchando ao toque do garfo, mas os pedaços, nem muito grandes, nem muito pequenos, precisam se manter íntegros; enquanto o paio e a linguiça devem ter reduzido a gordura, diluída no caldo. Outro ponto importante: ainda que exista um imenso preconceito, uma boa feijoada deve ter orellha e rabinho, e é recomendável que tenha, também, pé de porco, e quem sabe uma língua defumada.
Para dar certa leveza, guardar o feijão na geladeira, para retirar a gordura que se acumula na parte de cima, é algo a se pensar. Caso haja tempo, é sempre bom tirar o peso do prato, para comermos mais e melhor.
O tempero é simples: folhas de louro, e um bom refogado, com alho tostados e finos anéis de cebola. Só. O sal é o das carnes.
O ideal é que cada carne seja servida em panela separada, e indentificadas individualmente. Também é bom que, além das panelas das carnes, haja pelo menos mais duas: uma com o feijão, apresentando os grãos inteiros, e outra com um caldinho já batido, que pode perfeitamente ser usado como entrada, para abrir os trabalhos, mas também mais encorpar o nosso prato, dando volume. Mas é claro que uma estrutura como essa só pode ser feita para muita gente. Uma boa panela de barro cozinhando esses ingredientes todos em equilíbrio já é o bastante para uma turma de até umas 10, 12 pessoas.

Outro fator importante é o ponto do feijão. O caldo deve ser espesso, nunca ralo, mas não seco demais também. Os grãos deve estar inteiros, mas com interior macio, quase cremoso.
Vale a pena, aqui, servir uma cumbuca separada, com boa pimenta diluída em caldo de feijão. Facilita o manuseio do tempero.
Aliás, uma boa pimenta é fundamental, assim como o samba: não existe feijoada boa sem pimenta forte, malagueta.
Agora, os acompanhamentos. O torresmo deve estar crocante, bem dourado, em tamanho mediano, de modo que possa ser jogado no caldo de feijão, comido com as mãos, como pipoca, e também usado na hora de montar o prato, para dar aquele croc croc untuoso. A farofa deve estar tostadinha, e é melhor que não tenha nenhuma carne, seja o mais puro encontro de manteiga com boa farinha de mandioca. A couve, puxada no alho, precisa ser cotada o mais fino possível, com delicadeza. Deve ser preparada na hora. O arroz com tempero nulo, para equilibrar o sal do conjunto, precisa estar soltinho, e deve ser usado com moderação. Por fim, a laranja, bahia ou seleta, como já alertou o Chico Buarque em seu samba, Feijoada completa, no qual exalta o prato clássico do Brasil.
Neste contexto, eu recomendo, para encerar, um bom queijo minas, com alguns doces, como goiabada, doce de leite e compotas.

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O menu de inverno do Q Gastrobar

13/08/2012

Ando numa fase informal, não o bar, mas o adjetivo. De maneira que tenho preferido restaurantes neste perfil: Irajá, Entretapas e Aconchego Carioca estão entre os que mais gosto de frequentar atualmente.


Desde que o Q Gastrobar foi inaugurado, há cerca de um ano, eu decretei, logo na primeira visita: prefiro o filhote do Quadrucci, na mesma Dias Ferreira, do que a matriz (mas a casa de Búzios, naquele deque fantástico, de frente pro mar, ao lado do mangue, é imbatível: é um dos restaurantes mais agradáveis do Rio de Janeiro, considerando o estado todo. Sem dúvida.

Em comum às duas casas cariocas, a varandinha debruçada sobre a calçada da Dias Ferreira, e o comandante da cozinha, o chef Ronaldo Canha. Ele lançou, recentemente, no Q Gastrobar um novo menu de inverno.

Fui lá provar.

Primeiro, sentei no bar, para começar com um dry martini, que virou uma paixão recente em minha vida.

Com azeitona, claro. Estava bem bom, à altura de um lugar que aposta nos drinques.

Para acompanhar, o couvert.


Fiquei tentado a pedir o mix de entradas que traz a linda coxinha de pato confit, mas estava ali para ver os novos pratos, e resisti à tentação. Com dificuldade. Fiz isso não só para provar as novidades do cardápio, mas também o steak tartare do chef, que já era servido anteriormente, mas eu ainda não havia experimentado nas duas visitas anteriores (as carnes cruas picadas e temperadas estão entre as especialidades da casa, que lista três opções na seleção de entradas). Estava bem saboroso, com bom tempero, sem tantos ingredientes, algo mais simples e direto, com predominância de boa mostarda, dando uma agradável textura.


Antes dele, porém, provei outro tartare: de salmão com maçã verde e vinagrete de ovas de massago. Além desses dois podemos pedir, ainda, o tartare de atum com guacamole. Nham nham: atum se dá muito bem com abacate.

Na taça, o Montes Classic Series Sauvignon Blanc Reserva.


Meu prato preferido veio em seguida aos dois tartares: o ravióli aberto de queijo feta com abóbora tostada, sálvia, mel e pinoles. Uau. Simples, bem executado, harmonioso e muito saboroso. Quero repetir. Vou repetir.


Em seguida, risoto de rabada com broto de agrião e “torresmo” de castanha-do-Pará.

Na taça, o Avondale Pinotage.


O cordeiro assado estava bom. Era uma belo naco de paleta de cordeiro, assada lentamente durante sete horas. Poderia estar muito bom se a carne não estivesse bem ressecada.


Para encerrar, o abacaxi assado e caramelizado com creme de baunilha e baba de moça.

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Agora, o cardápio (para ampliar as fotos, basta clicar na imagem).

As entradas.

Saladas, massas e risotos, e os pratos principais, divididos em “peixes” e “carnes”.

Por fim, as sobremesas.

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Leitãozinho assado e a nova adega da Gruta de Santo Antônio, em Niterói: uma deliciosa tarde de sábado cruzando a Baía de Guanabara

09/08/2012

Era sábado. Linda manhã de sol. No inverno.
Clima perfeito para ir a Niterói almoçar na Gruta de Santo Antônio, sob as bênçãos da cozinha portuguesa. Embarco no metrô em direção ao Centro. Salto na estação da Carioca, e caminho tranquilo em direção à Praça XV, com tempo para ver as barraquinhas da feira de antiguidades que se instala debaixo da Perimetral aos sábados. Não compro nada. Só o bilhete das barcas. Cruzando a Baía da Guanabara a coisa começa, de fato, a ficar divertida. São 15 ou 20 minutos de contemplação.

O Santos Dumont. O Pão de Açúcar.


Os prédios do Centro. Minha cidade ficando pra trás.

O Redentor. Que lindo. Quero a vida sempre assim…

O casal passeando pela baía, no maior romantismo.

Os barquinhos dos pescadores.
Desculpe a arrogância. Ou a pretensão. Mas o Rio é a cidade mais linda do mundo. Pelo menos no inverno.


Estamos chegando. O programa, só até aqui, já seria suficiente para me alegrar. Para justificar um post. Apesar de toda a ineficiência da Barcas SA, cruzar a Guanabara é sempre delicioso. Mas ainda faltava a melhor parte, com todo o respeito à paisagem, ao balanço do mar.

Salve, Niemeyer! Desculpe o horizonte torto. Mas sabe como é… Barco, onda…
Desembarcando logo pego o táxi que me leva até o bairro chamado Portugal Pequeno. Programa delicioso: andar de barco, almoçar em um dos restaurantes de que mais gosto.


Fui até lá para conferir duas novidades que atiçaram a minha curiosidade: visitar a nova adega, inaugurada há cerca de dois meses, com capacidades para mais de 2 mil garrafas, recheada de belos rótulos, e experimentar o leitãozinho assado, recém-incorporado ao cardápio.
Primeiro uma visita à adega, bonita e bem abastecida.
Depois, vamos à mesa.


O pão feito na casa é uma tentação, com manteiga.

E mais ainda com os azeites…


Em Portugal um dos pratos mais apetitosos que há, especialmente quando temos bom pão á mão, são as ameijoas à Bulhões Pato, feitas no azeite, com limão, alho, pimenta e coentro. Na falta desses mariscos por aqui, eles fazem a receita usando vistosos camarões, de modo que eu em nada sinto falta do ingrediente original. E finalizo limpando o prato com o pão, sem deixar uma gotinha só de molho.

Depois, uma panelinha de lagostins com cogumelos e abobrinha, fugindo um pouco do receituário clássico português a que estamos habituados nos restaurantes do gênero.


Na taça, um bom branco.


Eis que o grande momento chega: o leitãozinho, só ele, já justifica irmos até lá.

Carne delicada, com pele crocante, e tempero exato: nem mais, nem menos. Assim como fazem na Bairrada, onde o pequeno suíno é a estrela dos cardápios, o molho que reúne os temperos com os sucos do animal, resultado do cozimento, são servidos ao lado, para quem quiser dar um tapa no sabor, e umidificar o prato, que é servidos com louváveis batatinhas fritas e, genial toque de brasilidade, uma farofinha esperta. Só de ver a foto, só de escrever, dá vontade de voltar lá…


Para encerrar, um pratinho de queijo manchego, devidamente escoltado por um bom Madeira. Encerrar?

Mas e que tal um bom pata negra? Vamos em frente.

Sem deixar de reparar na beleza do presunto, na delicadeza do corte.


Quando pediram uma porção de bolinhos de bacalhau, subverti a lógica, e fiz do petisco uma pré-sobremesa. Deliciosa. Com azeite. Pimenta, e tudo.


Para acompanhar o café, um pastel de natas.


Depois, pudim.
Hora de partir.
Dessa vez, chamei um táxi.

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Chef boliviano Checho Gonzales lança menu Experimente, no MInimok, mesclando Japão com Amazônia

08/08/2012

Bolívia, Japão e Amazônia se encontram com roupagem moderna no Rio de Janeiro.
Sendo mais específico, o chef Checo Gonzales, nascido no país andino mas há três anos vivendo em São Paulo depois de alguns anos no Rio de Janeiro, cidade que continua frequentando, acaba de criar um menu especial para o restaurante nipõnico contemporâneo Minimok, com lojas em Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca.
Os ingredientes da Amazônia foram a inpiração, e são o fio condutor dessa divertida jornada gastronômica de várias línguas, no menu Experimente, que entrou em cartaz este fim de semana.

Para começar, um saquê.

No caldo de tucupi, com jambu desmaiado, boia o lamen, coroado com dois nacos de filhote.

As patinhas de caranguejo empanadas em farinhha d’água chegam com creminhos variados, com o toque picante do wasabi, um deles com gergelim.

O salmão grelhado, com pele crocante e interior cru, rosadinho, sobre uma linha de missô de graviola.

Já a costelinha de tambaqui vem sobre um refogado de folhas, tipo yasai itame, com castanha-do-Pará.

Por fim, uma duplinha de sushi de filé: um cru, outro grelhado como rosbife: o menu diz se tratar de wagyu, mas o garçom informa que é um mignon comum.

Sei que saí contente.

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Agora, o cardápio.

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Vem aí mais um restaurante (muito promissor) na rua Conde de Irajá, em Botafogo, que será comandado pelo chef carioca Rafa Costa e Silva, ex-Mugaritz

03/08/2012

Conseguir um lugar para abrir um restaurante no Rio de Janeiro não é fácil. Mas quem quer, consegue.
Em breve o chef Rafa Costa e Silva, que voltou à cidade este ano, depois de alguns anos vivendo e trabalhando na Espanha em locais como o Mugaritz, inaugura a sua casa, que vai consolidar de vez a rua Conde de Irajá como um dos principais polos gastronômicos da cidade, reunindo em um curto espaço, além dele, o Oui Oui, o Entretapas e o Irajá, listando por ordem de chegada os ótimos restaurantes vizinhos.
Conheci o chef em um jantar há cerca de dois ou três meses no Venga, quando estava sendo lançado o menu especial do bar de tapas em Ipanema, criado por ele (para ler, clique aqui).
Pedi para ele ir me mantendo informado a respeito do restaurante que planejava abrir. Ontem chegou em minha caixa postal a boa notícia.
Diz aí, Rafa.

“Olá Bruno,

Tudo bem com você? Espero que sim……
Escrevendo só para dar um update sobre a situação do restaurante.
Assinei o contrato de uma casa no Botafogo, na rua Conde de Irajá. Uma casa tombada de 1902, a fachada é super legal mas tenho que recuperar.
A idéia é começar obras em duas semanas quando volto de Londres, onde vou fazer uns eventos. Quero recuperar a fachada e o telhado exatamente como eram antes, a cor também.
Por dentro, vamos fazer uma reforma completa, com um clima de região serrana total. Seria como estar na serra, com ambiente cheia de hortas no meio da cidade do Rio de Janeiro. Se tudo der certo, será muito interessante. Muita madeira, pedra, vidro e tijolos aparentes……verde, muito verde.
A maioria dos produtos que vou usar será das minhas duas hortas fora do restaurante(uma em Araras, em Petrópolis, e a outra no Itanhangá), além das hortas de dentro do restaurante e de alguns produtores da região serrana do Rio.
Em Londres, querem que eu faça um menu super tradicional, com pratos do dia-a-dia. Seria para promover as Olimpíadas do Rio e mostrar um pouco da real tradição culinária da Região Sudeste, basicamente.
Bom, é isso, quando tiver mais notícias te aviso. Quando começar as obras vou te rmais detalhes, ainda estamos fechando os projetos…”
Muito legal. Estou seguro de que vai dar certo, e que o chef escolheu um ótimo lugar para trabalhar.

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Uma década de Aconchego Carioca, um boteco que virou um dos melhores restaurantes do Rio

02/08/2012


Em um desses concursos gastronômicos para os quais sou convidado a dar os meus pitacos, eu votei no Aboim como melhor boteco (ou seria pé-sujo?) da cidade. Uma amiga me interpelou:
– Mas você não gosta do Aconchego Carioca? Para mim, é o melhor boteco do Rio.
Ao mesmo tempo vi a Katia Barbosa comemorando a conquista de um prêmio similar.
Lamento discordar. Mas o Aconchego Carioca, que aliás está completando 10 anos de vida esta semana, não é um boteco. Muito menos, um pé-sujo. É um dos melhores restaurantes do Rio de Janeiro. Entre os dedicados à cozinha brasileira, é hoje o melhor. Não posso votar nele como boteco. É um restaurante, dos bons.
A Katia Barbosa é uma espécie de Roberta Sudbrack. Autodidata, intuitiva, autêntica. Sou fã das duas.


Ela é uma visionária. Muito antes de as cervejas especiais entrarem na moda ela já tinha uma geladeira cheia delas. Muito antes de a Praça da Bandeira virar, digamos, polo gastronômico, ela já tinha apostado na região para abrir o seu bar. E, além disso, ela inventou o bolinho de feijoada, que não tenham dúvidas: é uma das maiores invenções da cozinha brasileira de todos os tempos. Uma glória.


Atualmentetodo mundo faz bolinho de feijoada. A receita está se espalhando pelo Brasil inteiro. UM dia, vai acontecer como aconteceu com a Academia da Cachaça, onde foi criado o escondidinho. Hoje, é um prato nacional. Ninguém se lembra que nasceu ali, no Leblon. Pode anotar, há de acontecer o mesmo com o bolinho de feijoada. A difusão da receita não é uma usurpação, mas uma homenagem. Viva a Kátia!!!



Ela tem a virtude de jamais estar satisfeita. Assim, se mudou para o outro lado da rua, para um espaço maior, há uns três anos.

Aos poucos, foi lançando novidades no menu, como os bolinhos de feijão branco com rabada, para muitos (não eu), ainda melhor que o de feijoada, o pudim de cachaça, e tantas novas receitas (ontem, ela me disse que vai lançar novos pratos em breve, e que vai me convidar para ser “cobaia”… adoro ser cobaia de cozinheiros). Foi multiplicando os espaços da casa, primeiro abrindo um terraço delicioso, depois, uma cozinha na cobertura. Agora, vai abrir filial em São Paulo.

Ontem almocei lá. Como sempre, sublime. Comi bolinhos de feijoada, é claro. E também essa preciosa costelinha de porco com molho de goiabada. Obra-prima, ainda mais com esses pastéis de angu com queijo. Ai ai ai… Foi só para inspirar esse texto, e apresentar a casa a uma amiga.
Porque esse post é para parabenizar a casa pelos seus 10 anos de vida. Viva, viva!

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