Favela by jeep

Turista fotografa a favela: maior visual

Conforme prometido, não sem atraso, ta aí o texto do meu passeio pela Rocinha, para fazer uma materia para a VT. O texto é do fim de 2007.

“Até hoje, não levei mais de dez brasileiros”, conta o guia, logo à minha primeira pergunta. Os R$ 70 cobrados pelo tour de quatro horas certamente ajudam a fazer dos gringos, europeus principalmente, os principais interessados no chamado Favela Tour. O roteiro passa por duas comunidades cariocas, a Rocinha, a maior favela da América Latina, e a Vila Canoas, pequeno aglomerado de casas no alto do Parque da Cidade, onde começa a visita.
Em inglês, começa a falar sobre as favelas. Lembra das chacinas, do tráfico de drogas, dos gatos de energia. Um ou outro gringo não esconde o temor, como quem pensa que diabos faz ali.
“Vamos andar por aí?”, pergunta assustada a senhora de cabelos loiros, nitidamente pintados.
“Sim, mas não há perigo algum. Fazemos este passeio há 15 anos e nunca tivemos problemas. Pode ficar tranqüila”, rebate o guia, fumante inveterado, que praticamente acende um cigarro no outro, para incômodo geral de todos.
Na Vila Canoas, passamos rapidamente. Uma parada estratégica numa birosca abastece de cerveja o casal alemão e os amigos franceses. Um saquinho de plástico garante o consumo posterior. Muito simpático, aliás, o tal botequinho, limpinho e colorido.
A pé chegamos à rua, onde já nos espera o jipão militar da Jeep Tour, cujo carro-chefe é este passeio pelas favelas. Às vezes vemos verdadeiros comboios, com 10, 15 carros andando pela cidade. Só com gringos, naturalmente.
Antes de seguirmos viagem, visitamos a lojinha de artesanato de associação de moradores local. É o Espaço Artístico e Cultural Comunitário Arte Parque. Peças bem bonitinhas, criadas a partir de material reciclado, são vendidas ali. Barato não é. Os fantoches custam cerca de R$ 40. Há quadros e chapéus feitos com sacos de supermercado. Ali na frente, um vistão da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Floresta da Tijuca e do Corcovado.
Seguimos viagem. Entramos na Rocinha por cima, pelo alto, pelo caminho percorrido pelos ônibus. Pausa para conhecer um grupo de artesãos que produz peças bem bacanas: tem camisas pintadas a mão (onde se lê: “Welcome to Rocinha” ou “Smile, you are in Rocinha”), ímãs de geladeira e outras lembrancinhas de muito bom gosto. Os gringos compram. E ficam boquiabertos com os capoeiristas que ficam ali esperando os estrangeiros. Fazem uma exibição digna dos reais que recebem. Atrás deles, mais um panorama dos mais lindos do Rio. Montanha e lagoa, mata e água.
O guia chama todos para uma conversinha.
“Bom, a partir de agora peço a vocês para não fazer fotos, ok?”.
“É que ali à frente começam a se posicionar os traficantes”, explica.
“Agora sim, teremos alguma emoção”, pensei. Já estava preocupado. Nos foi prometido um tour de três horas. Estamos já quase no fim do passeio e não tinha visto uma pistolinha sequer…
A pé vamos subindo a ladeira. Passa o primeiro traficante, uns 14 anos, exibindo sua pistola cromada a quem quisesse. Entrega uma sacola a outro menor, ainda menor que ele – que deve estar ainda abaixo na hierarquia: portava um revólver na cintura e, ao contrário do colega, não parecia mostrar orgulha da arma. Parecia velha e dava para ver a tinta descascada.
Andamos mais um pouco e o nosso guia cumprimenta um guia mirim. Era ele quem nos abria os caminhos da favela. Ia na frente, como que a garantir nossa segurança.
Se escangalhando de rir, uma dupla lustra um fuzil daqueles sinistrões. “Deve ser um AR-15”, penso.
Entramos em vielas minúsculas e o nosso guia nos chama a atenção.
“Reparem numa coisa: vejam como as fachadas são muito feias, sem acabamento. Mas olhem para dentro das casas. Vejam como são arrumadas”.
De fato, é impressionante o cuidados dos moradores com seus lares.
Topamos com um, que varria sua sala pequenina, que me lembrou o cenário colorido do filme O Auto da Compadecida. E o cara parecia o Matheus Nachtergaele…
“Bonita a sua casa”, digo, tentando manter algum contato.
“Pra viver aqui, só assim mesmo”.
Continuamos a nos embrenhar no emaranhado de fios e concreto empilhado. Vejo uma mancha no chão. Pergunto ao guia o que seria, já desconfiado.
“Ah, é que mataram um cara aí há uns dez dias”, responde com a naturalidade de quem conta uma piada.
Entendi.
Chegamos a uma mansão de quatro andares. Por estreita escada, vamos ao terraço. Não é uma casa apenas, mas uma espécie de condomínio, percebemos. Passamos pelos apartamentos impecáveis, tudo bonitinho. Do terraço, podemos ver todo o bairro de São Conrado.
Tarde limpa, ao longe vemos asas-deltas bailando próximas à Pedra Bonita. O alemão pede mais uma cerva: “São R$ 5, informa o dono da casa”. Acho que é a latinha de cerveja mais cara do Rio. Depois de uma seção de fotos lá do alto, hora de ir embora.
Na descida, cruzamos com mais alguns grupos de traficantes. Mas o que mais chama a atenção são os botecos animados, as pizzarias de boa aparência, as lojas de eletrônicos, o Bob’s, sim, o Bob’s.
Mototáxis sobem e descem as ladeiras. Cobram R$ 1 para te levar lá em cima. E não faltam passageiros. Chegando à Via Ápia, uma das ruas mais movimentadas da Rocinha, paramos. É, tem trânsito na Rocinha. Depois de meia hora parados no mesmo lugar, tomamos o caminho de volta. Retornamos pelo caminho por onde entramos. Ainda estava lá o menino de revólver. E os capoeiristas. E os artesãos. E a vista de babar.
Dá para entender muito do Rio freqüentando as suas favelas. E ver como é bela a cidade do alto. E como são lindos os seus moradores. E, quando a polícia não entra atirando nem há guerra de quadrilhas rivais, como é animada a vida no morro. E ver beleza onde as pessoas não vêem.
Vai lá ver.

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