Galetos, uma instituição carioca

Galeto Central: franguinho assado, arroz, fritas e farofa no shopping de informática

Muito se fala que o mais interessante numa viagem é vivenciar o cotidiano dos moradores das cidades, comer onde eles comem, usar os meios de transporte que eles usam, fazer os programas que eles fazem. Concordo plenamente. Exatamente por isso, nunca entendi muito bem porque as galeterias do Rio nunca receberam a atenção devida dos guias de viagem (nem aqueles restaurantes tipo uisqueria, com paredes de madeira e estofados em couro, como o Le Coin, o Álvaro’s e o Degrau, todos no Leblon). As galeterias são a cara do Rio, adoradas pelos cariocas, mas ignoradas pelos turistas. Esse post de hoje é dedicado a desvendar qual é o melhor galeto do Rio. Galeto entenda-se por galeteria, ok? Ou seja, não vamos ficar só na qualidade do franguinho servido. Podemos avaliar o chope, as outras carnes, o acompanhamento, o serviço e tudo o mais que contar pontos para você na hora de julgar um lugar.
As galeterias são emblemas do Rio. E estão por toda a parte, embora o Centro e Copacabana, os dois bairros mais cariocas por natureza, tenham os mais elevados índices de concentração dessas casas – acho que há mais de uma por quadra, em média. O esquema é sempre o mesmo. Uma grelha ardente é envolvida por um enorme balcão, quase sempre de fórmica e com bancos redondos de couro, daqueles da pior qualidade, onde os clientes se sentam. Os garçons circulam ali por dentro, sacando rapidamente pratos, talheres, copos e porta-guardanapos, e até paliteiros e saleiros de plástico, raridade hoje em dia. A cozinha é mínima, e são raríssimos os endereços que dispõem de mesas. Todos jogam no ar uma fumaça que ao mesmo tempo pode ser perfumada ou fedorenta, depende mais do seu estado de espírito (é perfumada quando você está com muita fome, e fedorenta em todas as outras ocasiões).
Os acompanhamentos clássicos são apenas batata frita, farofa (que pode ser de ovo), arroz e molho à campanha, que saem em ritmo industrial. Daí a cozinha poder ser pequena. A lingüiça, em geral vendida por unidade, é a melhor maneira de começar a refeição. Corações de galinha costumam fazer bonito também. Pãozinho francês, molho á campanha e pimenta são bem-vindos nessa hora. A relação custo-benefício é ótima: uma refeição individual custa na casa dos R$ 10.

Uma curiosidade é que o elemento principal do prato nem sempre é a ave que generaliza o nome desses endereços. Sim, há galeto (e também frangos) em profusão pelas mesas, quer dizer, balcões – é claro. Mas também são campeões de pedidos e idolatria os contra-filés, as picanhas, as bistecas, as costelinhas de porco… Os churrasqueiros, sempre suados (…), manuseiam com habilidade todos esses cortes. Porque galeto, no Rio, na verdade é uma churrascaria de balcão, estilo “bunda de fora”, uma denominação genérica de botecos cariocas que, de tão apertados, os freqüentadores exibem a derrière aos transeuntes. Reza a lenda que quem criou o nome foi Leila Diniz (grande Leila) inspirada num boteco da Gávea que ela adorava. Em tempos de censura militar, o letreiro exibia: “Bar b… de Fora”. E a moda pegou, com a expressão se tornando denominação desse tipo de lugar.
Um dos melhores galetos da cidade não é “bunda de fora”, embora seja apertado.  Tem sempre fila na porta (sim, tem porta) na hora do almoço (a foto foi feita na happy hour: sim, tem happy hour), às vezes para entrar, às vezes para pagar. Fica no terceiro andar do Edifício Avenida Central, entre dezenas de lojas de eletrônicos e bem ao lado do melhor restaurante japonês da cidade em minha opinião, o Shin Miura – dia desse escrevo sobre o “esqueminha” recém-visitado, degustação de pequenos pratos criados por Nao Hara. Mas voltemos às penas. O endereço em questão é o Galeto Central, sempre cheio. A pele da ave vem crocante, fazendo um torresminho delicioso (o meu cardiologista que não me ouça), e a batata frita tem colesterol acima da média, mas é gostosa mesmo assim. O arroz vem soltinho, o molho à campanha tem tomate e pimentões frecos, e a farofa é campeã, tostadinha. De que mais preciso?
Há galetos em toda a parte, como já disse. Em Copacabana sou fã do Sat’s, do Crack dos Galetos e do Quick Galetos, quase defronte ao Beco das Garrafas. Curto também o Galeto do Leblon. Em Ipanema, na esquina da Farme de Amoedo com Visconde de Pirajá, abriu há uns 10 anos o Galitos Grill (um dos poucos, talvez o único, a ter sítio na internet), uma releitura dessas casas, com mesinhas na calçada e um balcão pouco utilizado pela freguesia. Faz tempo que não como ali, mas adorava o galeto com tempero picante. Vou voltar lá dia desses… porque escrever este post me deu uma vontade de comer um galetinho com fritas e farofa irresistível.

Vai aí a minha lista de galetos favoritos:

Sat’s – Rua Barata Ribeiro, 7 – loja D, Copacabana. Tel.:  (21) 2275-6197.
Crack dos Galetos – Av. Rio Branco, 156, lojas 327/328, Centro. Tel.: (21 ) 2220-2336.
Galeto do Leblon – Rua Dias Ferreira ,154, Leblon. Tel.: (21) 2294-3997.
Rei dos Galetos  – Em vários endereços como: R. Rodrigo Silva, 36; Senador Dantas, 8, subsolo, entre outros.
Quick Galetos – Rua Duvivier, 28-A, Copacabana. Tel.: (21) 25412897.
Galeto Central – Av. Rio Branco, 156, Centro. Tel.: (21) 2262-7098

Faça a sua listinha também. E mande pra gente.

Publicado em 17/3/2008

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10 Respostas to “Galetos, uma instituição carioca”

  1. Dri Says:

    Quick Galetos é O MELHOR GALETO DO MUNDO!!!!!!!!!!!! Eu sempre disse isso, mas ninguém nunca me escuta… Tudo bem que ele é um galeto meio roots, onde a ave é a principal estrela, acompanhada da batata frita sequinha. O ambiente não é lá essas coisas, mas ao comer o franguinho, tudo isso se apaga. Ok, eu tenho o agravante de sempre pedir pra viagem, há 20 anos… Mas desconsiderem meu bairrismo que vcs não se arrependerão!

  2. Dri Says:

    Esqueci de dizer que eu não curto o estilo do Gallitos, com o dito cujo preparado sem molho, pra vc regar com o seu depois…

  3. Juliana Amorim Says:

    Postar sobre o Galeto de dentro do Oasis of the seas!!! Muito bom!!! Já estou esperando o caderno do Globo da próxima quinta!

    • brunoagostini Says:

      Pois é, cá estou. Queria fazer uns posts lá para a Enoteca e para o Diário de Bordo, do Globo, mas não tô conseguindo subir aqui do navio.

  4. Ricardo Says:

    Bruno, e o Braseiro da Gávea, não gosta? Abs.

    • brunoagostini Says:

      Olá. Gosto, sim, tem até um post (tá no fim desta página, é só descer, mas é o último, quando eu escrever o próximo ele vai para a página seguinte). Mas, para mim, o Braseiro é sinônimo de chope. Abraços

  5. eduardo sato Says:

    Olá Bruno.
    Me diga uma coisa, o Braseiro de Copacabana (Domingos Ferreira) deixa a desejar comparativamente à esses que você cita?

    Abraços!

  6. marcio Says:

    Bruno, vc tem que ir ao Galeto Viva Flôr em Copacabana, na Rua Paula Freitas quase esquina com Barata Ribeiro, te garanto que vc não vai perder a viagem. Abs.

    • brunoagostini Says:

      Já fui e gosto bastante. Foi recomendação da Marina, uma amiga que vez ou outra aparece por aqui. E valeu pela dica. Abraços

  7. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Galetos […]

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