O Rio de helicóptero

O cristo visto do helicóptero, com a Lagoa e o mar ao fundo: o que dizer?

Aproveito para republicar aqui no blog uma matéria sobre passeio de helicóptero no Rio, que fiz para a Viagem e Turismo este ano. É muito oportuno, aliás, o assunto. Porque o Rio se candidatou neste 2009 a Patrimônio Mundial da UNESCO numa nova categoria: Paisagem Cultural. Nela não bastam as belezas naturais, mas é preciso haver as intervenções humanas. Poucas cidade do mundo foram tão mexidas. A Floresta da Tijuca, por exemplo, foi totalmente replantada. Boa parte da orla de Copacabana e do Aterro do Flamengo foram áreas tomadas do mar. Quase toda a orla da cidade passou por aterros e redesenhos, a Lagoa ganhou a forma de coração que se vê do alto depois de perder parte do espelho d’água – para quem não sabe, ela ia quase até o Jardim Botânico, toda aquela área foi aterrada. Muitos morros, como o do Castelo, foram derrubados. Assim, o Rio foi moldado pelo homem em cima de um cenário incrível Muito da beleza (e também das mazelas) do Rio tem a mão do homem. Não há lugar melhor para observar como esta cidade é bonita, como ela foi modificada ao longo dos tempos, do que do alto. O passeio de helicóptero nos ajuda a compreender o Rio – e a amá-lo cada vez mais.

Vamos ao texto?

“Chegou a minha vez. É bastante animador ver a cara, meio abobalhada meio incrédula, dos passageiros que descem do pequeno helicóptero, com capacidade para quatro pessoas, incluindo o piloto, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. O motor nem é desligado e as hélices não param de girar. Corremos com a cabeça abaixada. Dá uma emoção. Atrás de mim sobe um casal de portugueses. Ao meu lado direito, o piloto Leandro Monçores, que é a cara no atacante Nilmar, do Internacional.     
Apertamos o cinto. Desgarramos rapidamente do chão e logo estamos no meio da lagoa, quase sobre a Árvore de Natal então recém-inaugurada – era uma manhã ensolarada de dezembro. A subida vertiginosa dá um friozinho na barriga, talvez medo, talvez deslumbramento, mais provável a combinação dos dois sentimentos. Com tanta cara de bobo quanto os turistas que vi sair momentos antes, tenho o Rio aos meus pés. O piso de acrílico, embora distorça e embace um pouco as fotos, favorece a apreciação da cidade. Tenho praticamente 90° de visão, à esquerda e à frente – e também para baixo e para cima. Não é preciso mais que isso. Me senti, por instantes, mais importante que o Lula, o Sergio Cabral e o Eduardo Paes juntos: sou o Rei do Rio.     
Vamos acompanhando o traçado reto do canal do Jardim de Alah, voando exatamente sobre a linha divisória do Leblon e de Ipanema. Ao longe vemos as montanhas de vegetação luxuriante que cada vez mais dão espaço aos barracos das favelas. Do alto percebemos que a Rocinha, o Vidigal, a Chácara do Céu e a favela Parque viraram um só complexo, gigantesco, amedrontador. Já alguns metros mar adentro, tornamos à esquerda num movimento agradável que inclina a aeronave. À medida que aumenta a velocidade o mesmo acontece com a beleza do cenário. À direita, as Ilhas Cagarras, o farol e os navios que esperar a hora da traçar na Baía da Guanabara. À esquerda, Ipanema, seus prédios, areias e favelas na divisa com Copacabana. Abaixo de nós, uma dezena de traineiras pescando lulas. Dessa vez não deu inveja dos que tomam sol na piscina do hotel Fasano. Rá rá rá. O único incômodo é o barulho que, na verdade, nada atrapalha.      
Invadir Copacabana pelo alto é um momento triunfal. Primeiro o Arpoador e suas pedras ficam para trás, depois o Forte e seus canhões prateados que apontam o oceano. Então somos os senhores da Princesinha do Mar. Sei que ninguém reparava em mim, mas acenei para banhistas, jogadores de vôlei e surfistas. Não estávamos tão alto, as pessoas não eram formiguinhas. Tentei identificar conhecidos – em vão, claro. Achei que fiquei meio narcotizado pelo que via. Estava abestalhado mesmo. Olhava um pouco, fazia uns cliques, dava um sorriso feliz. Olha ali as mesinhas da Confeitaria Colombo do Forte. Os barquinhos da colônia de pescadores do Posto. Ih, até a estátua do Drummond deu para ver, como sempre rodeada de turistas fotógrafos. Do alto o calçadão do Burle Marx fica ainda mais belo – e só dessa maneira podemos perceber os contornos modernistas do canteiro central, geralmente privilégio dos que moram nos andares mais altos dos prédios da Avenida Atlântica. O ruim é que tudo passa muito rápido – nem com o zoom da câmera consegui ver quem era a moça que tomava sol na piscina da cobertura do Copacabana Palace. Se lá embaixo há trombadinhas, prostitutas e camelôs, do alto Copacabana é a imagem da perfeição, uma riviera tupiniquim.      
Para tirar fotos lanço mão da abertura na porta. Nem dá para chamar de janela, mal cabe a lente da câmera – em voos especiais eles podem tirar a porta para filmagens, trabalhos fotográficos e mesmo para fazer uma chuva de pétalas de rosa, me informa o piloto ao ouvir minha queixa. Foram as fotos mais fáceis da minha vida, apesar do empecilho. Para onde apontasse a câmera a imagem ficava bonita, lembrando aquelas panorâmicas das novelas do Gilberto Braga e do Manoel Carlos. Ser fotógrafo assim é fácil. Mas uma foto é só uma foto, um recorte. O barato do voo é ter o todo. A foto não dá a dimensão do voo. Eu já tinha visto tantas. Mas nunca antes tinha ficado daquele jeito – melhor que isso só mesmo o voo de asa-delta partindo da Pedra Bonita.      
Quase sem que eu reparasse, ocupado em ver, colamos no Pão de Açúcar. Contornamos a pedra nua do Morro da Urca e pousamos no heliponto. “Vamos abastecer rapidamente. Vocês devem descer por razões de segurança”, disse Leandro.     
Pulamos do helicóptero e passamos agradáveis momentos a observar a vista, de um lado Copacabana que momentos antes era toda nossa. Do outro, a Enseada de Botafogo, nosso próximo passo, imaginei. Obrigado pela surpresa, não sabia do abastecimento. Se puder escolher um vôo com ou sem abastecimento, escolha o primeiro. Os turistas que subiram de bondinho ficam em polvorosa, tiram fotos de mim como se eu fosse um astro de cinema. Até acenam. Vão sair dali, garanto, direto para o guichê da empresa. Se vão voar, não sei, porque não é barato. Mas que a paradinha para reabastecimento é uma bela ferramenta de marketing para eles, isso é.      
Dali viajamos pela primeira vez por sobre a cidade de concreto depois de passar pela Lagoa, pelo canal e então o mar. Ganhamos a Baía da Guanabara para, depois, passarmos sobre os prédios do Centro deixando para trás o Hotel Glória (Eike, compraste um belo imóvel, heim. Já vi até o seu heliporto lá na cobertura a garanto que você curtir chegar ao trabalho voando). Depois o Outeiro, o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra e o MAM e o Santos Dumont. Fazemos um traçado quase que exato sobre as duas vias principais do Centro. No sentido contrário ao trânsito caótico lá embaixo, atravessamos a Avenida Rio Branco, começando pela Cinelândia. À altura da Candelária mais ou menos seguimos a Presidente Vargas. Passamos ao lado da Central do Brasil. Agora é o Maraca, que já se pode ver ao fundo. Para um flamenguista, o templo maior do futebol. Nos aproximamos pelo lado da Mangueira, a estação primeira, seguindo uma hipotética linha de trem aérea. Não resisti e cantei, em pensamento, Cartola e alguns gritos de guerra do Flamengo. Damos um giro completo no estádio – como deve ser isso num dia de jogo (sim, eles voam nos dias de jogos). “Ó, meu Mengão, eu gosto de você…”.         
E então iniciamos uma outra subida, quase tão vertiginosa quanto a decolagem. Como que num roteiro de cinema, o clímax acontece perto do fim, uma reviravolta total que nos desperta da narcose que a paisagem causa. Vamos subindo pelas encostas, alcançamos a corcova da montanha (daí vem o nome Corcovado, sabia?), que perde a cobertura vegetal para exibir a pedra, o famoso dorso rochoso. Num movimento rápido alcançamos o cume. Como uma cortina que se abre para baixo, o cenário se apresenta: é o nosso ponto de partida, a Lagoa, Ipanema, Leblon, o arquipélago das Cagarras, Jardim Botânico, a Pedra da Gávea, ao longe.     
Estamos na altura da coroa do Redentor. Um outro helicóptero está no lado oposto (dá para ver no canto superior esquerdo da foto), cara a cara com o monumento. Logo estaremos como eles, mas temos que esperar – pois é, tem engarrafamento no céu, isso eu não sabia. Mas, neste caso, esperar é bom, muito bom. Porque dá tempo de respirar e refletir – o que, diante da paisagem, não acontecera até então. É tudo tão bonito que você não pensa em nada. Dá para perceber como a cidade cresceu ganhando espaço do mar e das lagoas, em parte aterrados, e derrubando morros.
Ainda pensando sobre o urbanismo carioca contornamos a estátua, temos a cidade inteira escancarada por todos os lados. Nada impede a nossa visão do todo. Niterói, a ponte, as lagoas da Barra, vemos tudo. É um triunfo. Quando temos em primeiro plano o Cristo e ao fundo a Zona Sul, estamos ao vivo e a cores no principal cartão-postal da cidade, talvez a imagem mais emblemática do Rio e do Brasil. Para deleite as manobras são lentas, para apreciarmos com calma os mais belos momentos do passeio. Olhando nos olhos do Cristo, como só se pode fazer dali, agradeci.      
Só quando começamos a descida aceleradamente me dou conta que já estamos perto do fim. Ainda rodo a cabeça procurando novos ângulos. Dou o último suspiro, faço o último clique. Num movimento rápido, mas macio, tocamos o chão. Acabou.  
 No fim passaram-se apenas 15 minutos, talvez um pouco mais por conta da parada no Morro da Urca.       
Foram, talvez, os momentos mais incríveis da minha vida. Os mais longos, certamente. E os mais lindos também. O Bruno que desceu do helicóptero acha o Rio bem mais bonito que aquele que subiu. Do alto, a cidade ainda é maravilhosa. Mas dá um certo medo. Não do helicóptero, tudo me pareceu muito seguro. Dá medo da cidade acabar. Ali no alto, descendo em direção ao fim do passeio, sabendo que tudo estava acabando, bateu uma sensação estranha. Não era só o meu voo que estava acabando, mas muito da beleza do Rio também. O crescimento desordenado das favelas, visto daquele ponto, no alto das montanhas, é assombroso. É impressionante até onde chegam os barracos, dependurados nas encostas, e como pode alguém viver neles. Por outro lado é animador observar que ainda há muita floresta de pé. Os contornos da cidade, suas montanhas, praias e lagoas. Basta deixá-la assim que ainda está muito bom. Só não podemos continuar a torturar esta cidade.  

O QUE DIZEM OS TURISTAS
“A geografia da cidade, com os morros cobertos de vegetação luxuriante, as entradas no mar e as lagoas formam uma paisagem única no mundo, singular. Do alto as favelas são impressionantes, de perto é que é triste”.
Pedro de Moura Reis, português
“Do helicóptero temos uma visão macro. É impressionante, conseguimos entender a geografia da cidade”.
Patrícia de Lorena de Moura Reis, portuguesa   “Sou estudiosa do urbanismo da cidade. Fico encantada com a forma como o Rio se formou, os aterros que ganharam área do mar, os morros que foram derrubados, o reflorestamento do Maciço da Tijuca. O Rio é uma cidade criada pela mão do homem, embora todos achem que é tudo obra da natureza”.
Verena Andreatta, brasileira residente em Barcelona
“É absolutamente emocionante. O contraste da floresta com a cidade e o mar, ver as pessoas na praia”.
Elisenda Castellón Blanco, espanhola 
 
 SERVIÇOS ESPECIAIS     
Além dos nove roteiros apresentados pela Helisight, a empresa – que opera desde 1991 no Rio e desde 1972 em Foz do Iguaçu – também pode fazer alguns serviços especiais. Filmagens e “chuvas” de pétalas de rosa estão entre os mais procurados. Também tem fiel clientela o serviço de transfer para cidades como Búzios e Paraty e o transporte de executivos. “Já houve um turista que ficou uma semana com o helicóptero. Foi para Búzios, Foz do Iguaçu e Pantanal”, lembra Luis Carlos Munhoz, sócio da empresa O valor cobrado nesses casos é por hora: R$ 2.400. O transfer até Paraty, por exemplo, sai a R$ 4.800 e, para Búzios, R$ 4.400. Já a chuva de pétalas de rosa, se puder ser feito em vôo de meia hora, custa R$ 1.540.
Também é possível voar à noite: os helicópteros operam até 22h.  
 
HISTÓRIAS CURIOSAS     
“Muitos artistas e personalidades nos procuram: Pelé, U2, Romário, Dolph Lundgren. Em eventos corporativos e de incentivo o passeio de helicóptero é o ponto alto. Um dos nossos clientes é o Silvio Santos. Certa vez ele e a esposa voaram conosco. Estava acontecendo um Fla x Flu e cada um voou separadamente até o Maracanã. Primeiro o Silvio Santos, que é tricolor. Quando ele estava justamente sobre o estádio o seu time fez um gol. Em seguida o helicóptero voltou e pegou a mulher dele. Quando ela chegou lá em cima, pronto, gol do Flamengo, o seu time”, lembra Luis Carlos Munhoz.      
Pedidos de casamentos frente a frente com o Cristo são relativamente comuns. “Teve até casamento gay”, diz Luis Carlos. “Depois de casar na frente do Corcovado foram direto para o Morro da Urca”.     
Bebidas alcoólicas são proibidas a bordo. Mas há casos em que os turistas são recepcionados com champanhe. Muitas vezes os roteiros podem ser combinados com outros programas bem cariocas. “Faz enorme sucesso com os estrangeiros um roteiro que começa cedo. Os turistas saem de bicicleta do hotel e tomam café num quiosque da Lagoa. Depois pegam o helicóptero e voam até o Mirante Dona Marta, com voltinha no Cristo e tudo, o ponto alto de qualquer roteiro. Ali estão esperando os jipes que levam para um tour por Santa Teresa e o Corcovado”, diz Luis Carlos.   
 
SERVIÇO
São nove roteiros diferentes com preços entre R$ 150 (seis minutos) e R$ 875 (uma hora). “Se me perguntam digo que o de melhor custo-benefício é o número 6”, diz Luis Carlos Munhoz. Foi o passeio feito por esta reportagem. Custa R$ 350.
Todos os preços são por pessoa para grupos de no mínimo três passageiros.
São quatro helipontos: Lagoa, Morro da Urca, Mirante Dona Marta e Píer Mauá (só na temporada de cruzeiros).
Helisight – www.helisight.com.br; (21) 2511-2141 e (21)2542-7895; C.C: todos; CD: todos.”

Publicado em 6/5/2009

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7 Respostas to “O Rio de helicóptero”

  1. Lagoa Rodrigo de Freitas: o que fazer « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] da Árvore de Natal. Que bobagem. Neste mesmo pedaço está o heliponto, de onde decolam os helicópteros para sobrevoar a cidade. Lindo demais, vale o investimento (pelo menos uns R$ 250 por cabeça). Também perto dali está a […]

  2. nuno Says:

    Bruno
    alguma sugestão legal para jantar do dia 24/12?casal nos seus 40 e duas filhas adolescentes…coisa descontraida…
    Valeu

  3. nuno Says:

    Não Bruno, mas como somos de SP, algo do Rio mesmo, estaremos no Copa e de carro.
    Obrigado.

  4. MIGUEL ANGELO Says:

    GOSTARIA D OBTER INFORMAÇÕES SOBRE VOO D HELICOPTERO PELO RIO D JANEIRO

  5. O Rio de Janeiro e a Cidade do Cabo: (quase) nada a ver « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Eu gostei demais da Cidade do Cabo. Fiz um voo de helicópeto lindo, mas que não se compara com o que podemos fazer no Rio (como já tratado neste post aqui). […]

  6. deborah Says:

    Um espetáculo, uma experiência emocionante. E todos os milhares de habitantes que tiveram seu sono perturbado, seu descanso perturbado, suas conversas interrompidas, seu silêncio violentado?
    Há pessoas aqui em baixo!!

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