¡Venga!: me voy

O ambiente é charmoso, com latões de azeite, pôsteres, castanhas e conservas de todo o tipo, lembrando um armazém

O balcão refrigerado da Adega Pérola, com suas dezenas de acepipes frios, era o que o Rio tinha de mais próximo dos bares de tapas da Espanha – conceito que, aliás, é uma febre mundial. Mas desde a última semana a coisa mudou. O que temos agora de mais parecido com a filosofia do tapear é o ¡Venga!. Parecido, não, praticamente igual. A simpática (e aguardada) casa abriu as portas na última terça-feira, na rua Dias Ferreira, no Leblon. O pequenino bar de tapas tem uma proposta que me pareceu muito acertada à primeira vista, da decoração ao cardápio e carta de bebidas.
Não fui só eu que fiquei curioso para conhecer o lugar. Na noite de sexta muita gente teve a mesma ideia. A porta e a calçada estavam lotadas de pessoas esperando mesa, tapeando e dando uns tragos. Tal como numa daquelas portinhas típicas da Espanha, seja em Barcelona, em Granada ou em Sevilha. O serviço, como costuma a acontecer nos primeiros dias de funcionamento, estava um tanto confuso, mas a simpatia dos garçons compensa essas falhas. Os sócios, pelo menos pareciam ser os sócios, ajudavam no trabalho, interessados em saber como estavam se saindo as coisas. Diante disso tudo, vejo um futuro muito promissor para eles, que podem desde já contar comigo como cliente. Lembrei até do Caymmi:: “Ustedes ya fuiste a España, chica? No? Entonces, Venga!”.

Pincho frio de sardinha com uma tacinha de Jerez: perfeito

O cardápio é bem autêntico, explorando os clássicos do tapeo, principalmente os da Andaluzia e da Catalunha. São quatro seções distintas: “Para empezar”, “Seguiendo”, “Y aún tienes que provar” e “¿Quieres algo dulce?”. No primeiro setor, azeitonas recheadas com anchova (R$ 5,80), jamón Pata Negra (R$ 38,50), queijo manchego (R$ 27,70), gazpacho (R$ 6), pão com tomate, azeite e flor de sal (R$ 5,90), o popular pan con tomate. A pedida para este circuito é uma taça de Jerez, que vai bem com tudo o que é salgado, acompanhamento mais popular na Espanha (leia mais neste post aqui). O gazpacho, receita dificíl que mesmo na terra de Cervantes às vezes se apresenta pesada, estava – na medida do possível – leve e fresco.

Seguiendo: as batatas bravas, um clássico apimentado

A segunda parte é a mais extensa do menu. A fidelidade às casas de tapas espanholas se confirma. Não há qualquer concessão a estrangeirismos.

Pulpo a la gallega: com batatas e páprica, um clássico espanhol

Pulpo a la gallega (com batatas e páprica picante, a R$ 15,90), croquetas de jamón (com presunto serrano e emmenthal, R$ 4), patatas bravas (picantes, como o nome leva a crer, a R$ 10,80), tortilla (R$ 8), espárragos a la plancha (aspargos grelhados com ovo poché, azeite trufado e crisps de presunto serrano, a R$ 12,80) e sardinhas em escabeche (R$ 10,40) compõem uma lista de 16 variedades de tapas bem autênticas.

No bar são listados os pinchos do dia. Pinchos são os primos catalães da bruschetta italiana: uma fatia de pão recebe coberturas variadas, que podem ser frias ou quentes

No balcão do bar, a cada dia, são listadas mais algumas – fique de olho no quadro.

Pincho de salada de ovo com uma presuntinho cru: lista muda todos os dias

Ali estão listados os pinchos, que são fatias de pão com coberturas variadas, como esta aí de cima, a salada de ovo…

Pincho de chistorra com cebola caramelizada: bonito de gostoso

… e esta outra, chistorra  com cebola caramelada.

A bomba (R$ 4), um bolinho de batata recheado com filé mignon picante, estava bom de sabor, mas com o recheio ainda frio, fruto de uma fritura inadequada. Os aspargos vieram em bom ponto de cozimento, assim como o ovo, com gema mole, mas a quantidade de presunto decepcionou a mesa. Penso que sejam problemas facilmente superáveis quando as engrenagens da casa estiverem azeitadas. Eu, pessoalmente, só senti falta dos chipirones a la plancha, que tanto me fizeram feliz nos bares de Sevilha e de Granada (chipirones são lulas atarracadas, gordinhas e pequenas, muito macias e saborosas, campeãs de público nos bares de tapas espanhóis, quase sempre servida com uma maionese caseira com ervas). No capítulo “Y aún tienes que probar” estão as poucas receitas que fogem, um pouco,  do tradicional. Provei o pincho moruno (R$ 12,90), um saboroso espetinho de filé de porco com chutney de acerola, de carne muito macia e um molho levemente cítrico e doce que caiu muito bem. A brocheta de gambas leva geléia de pimenta e hortelã (R$ 18) e a  flauta de salmón (R$ 17) remete aos nórdicos, misturando este peixe marinado, com ovo cozido, creme azedo e broto de trevo.

Helado de turrón: para encerrar o circuito adocicando a vida

Nas sobremesas quatro opções 100% espanholas: helado de turrón R$ 14,80), chocolate com churros (R$ 11,50) e crema catalana (R$ 11,50), além de um chocolate com azeite e flor de sal (R$ 12), explosiva união de sabores fortes, apresentado como que uma homenagem aos grandes chefs do país, como Ferrán Adrià, chegados nessas subversões.
Falando no mentor do El Bulli, que promoveu – ao lado de muitos compatriotas – uma revolução na gastronomia mundial, ele é um dos tem destaques da carta de bebidas. Entre as cervejas espanholas figura a Estrella Damm Inedit, que tem espírito (e preço) de vinho, desenvolvida pelo catalão. A garrafa de 750 ml custa R$ 53 e é servida em taças especiais. Sangrias tinta (R$ 36) e branca (R$ 32), água de Valencia (R$ 25), uma combinação de espumante, suco de laranja e licor de laranja, carregam nas tintas espanholas as bebidas. No outro lado da carta, os vinhos. Com duas exceções (os brasileiros Maximo Boschi Merlot 2000, a R$ 58, e o branco Cavalleri 2007, de R$ 48), são todos espanhóis, com sugestões não tão óbvias, como a Cava Juvé y Campus 2005 Brut (R$ 148), um exemplar safrado da melhor estirpe. Entre os tintos, o Infinitus 2006, de Castilla, e até um rótulo do Priorato, a região vinícola mais falada na Espanha neste momento, o Perinet 04/05, a R$ 298. Teoricamente deveria haver uma boa seleção de vinhos em taça, oito no total. Mas nos primeiros dias de funcionamento você sabe como é, né? Na sexta havia muito poucos disponíveis. Mas a gente sabe que com o tempo as coisas se  ajustam. E também faria um bem danado haver mais alguns rótulos de Jerez, que são a melhor companhia para as tapas, na minha opinião.
Essa coisa de tapas chegou com força ao Rio.  A turma do Miam Miam também acaba de inaugurar um bar de tapas, ali onde Botafogo encontra o Humaitá, chamado Oui Oui. E o ¡Venga!, com uma proposta muito bem amarrada, tem toda a pinta de que vai virar franquia. Espero que sim. Ipanema bem que podia ser a próxima investida. É só colocarem a luminária vermelha com o nome ¡Venga!, que eu me voy…

Publicado em 3/5/2009

Leia aqui o post do Leonardo Azevedo.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Anúncios

6 Respostas to “¡Venga!: me voy”

  1. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Venga! […]

  2. Léo Says:

    Fui! gostei? sim e não, mas não do que sim, rsrsrsr. Fiquei nessa mesa que aparece na foto…

    bem, fui pensando num bar de tapas, mas não poderia esperar algo muito diferente num “bar de tapas” na dias ferreira. Bonitinho pacas, clima leblon de ser e caro, beeeeeeeeem caro. Principalmente levando-se em conta o tamanho mínimo micro ultra pequeno das porções.
    Vamos ao que comi:

    pan tomate – fraco fraco.
    Queso manchego – o melzinho que acompanhava era legal…mas o preço era de queijo serra da estrela e o tal manchego está longe disso.
    pincho de sardina- como o pessoal do “quebicho” já tinha comentado, como é que sardinha vai ser sem gosto? Pensei que talvez fosse só aquele dia da vista deles…mas a sardinha segue sem gosto.
    pulpo a la grega -gostoso, o melhor da noite, e a porção era até pequena, e não mínima, ufa…
    aspargos -sim! bem bacana! 4 aspargos bem frescos com dois avos poche derramados por cima…e com uns naquinhos de jamon pra temperar a coisa toda. bacana!
    porção de chistorra, linguicinha bacana, mas fica ai…
    croquetas de jamón – bacaninha, mas fica ai…como o pessoal do bicho, achei molenga e mal frita.
    Tortilla – bacaninha…
    bem, como entornamos (um casal – eu e minha mulher) uma garrafa de cava e uma de jerez, talvez tenhamos comido alguma coisa a mais, mas não lembro bem, rsrsrsrs…mas depois da continha de 318 reais, saimos com aquela sensação que poderiamos ter comido melhor com tanta grana investida.

    abraços e realmente aconselho o lugar para depois do trabalho, nesse calorão que anda fazendo, tomar uma cava na varanda acompanhada de um polvo…

    mas tapa por tapa, ainda sou mais a adega pérola.

    • brunoagostini Says:

      Valeu, Leo.
      Vou até transformar o seu comentário em post, ok. E concordo contigo: a Adega Pérola é ainda melhor. Um abraço

  3. Uma noite no Venga!: Por Leonardo Azevedo « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] O Leonardo Azevedo é um dos amigos deste blog, e também da Enoteca, sempre comentando, sugerindo assunto, nos visitando. Desta vez ele se animou e conta para a gente a sua experiência no Venga! […]

  4. Marcelo Paulos Says:

    Valeu Léo…. A Adega Pérola agradece o comentário e lhe convida para um chopp.
    Um grande abraço
    Adega Pérola

  5. Santo de casa não faz milagre (#dia11) | Quase Quarenta Says:

    […] Tapear no Venga; […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: