Restaurante Astrodome: se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi

O cardápio não mudou nada desde 1980 e qualquer coisa, quando havia estado lá pela última vez com o avô

Enquanto vão chegando as sugestões de lugares para a nossa listinha (obrigado, obrigado) a gente aproveita para publicar um texto sobre o Astrodome, um restaurante antigão lá no Centro que me desperta fortes emoções.
É bem provável que você nunca tenha ouvido falar dele.

"A casa está precisando de umas reformas", diriam. É até verdade, mas torço para se conservar assim, como sempre foi

Este texto – que é longo e piegas, já te previno – precisa de uma breve introdução, de alerta e agradecimento. O alerta é para a Vovó Otília, que se emocionou e chegou até a chorar com o post sobre o Cesar Park. Se foi assim, para ler este é melhor que a senhora esteja ao lado de um cardiologista, vó. Sério mesmo. O agradecimento é para a Luciana Froes, que descobriu para mim que o restaurante Astrodome ainda funciona. Obrigado, Lu.
Não sei se precisaria dizer isso, me parece claro, mas esta crônica foi escrita entre lágrimas. Lágrimas de felicidade, de orgulho do avô e de imensa saudade dele. Lágrimas de lembrança. Deu pena dos primos, muito pequenos quando o avô morreu, em 1991. Não tiveram o prazer que eu tive de almoçar com ele no Astrodome, de aprender tanta coisa.
Obrigado, vovô.
Vovô Mário, sacana que só ele, dizia invariavelmente ao taxista: “Para a rua Anfilófio de Carvalho, por favor”. Se bobear, ao longo de quase meio século de trabalho neste endereço, nenhum motorista tenha acertado o caminho. Ninguém conhece a obscura rua, ninguém sabe onde ela fica. Pois eu lhes digo, é ali no Centro do Rio, nas proximidades do Palácio Gustavo Capanema. É uma mínima passagem de asfalto que liga a Rua Debret à Avenida Graça Aranha, uma única e pequena quadra. Fica paralela à Rua Araújo Porto Alegre. No número 36 desta última, endereço oficial, está o Edifício Aliança da Bahia, prédio construído pelo meu avô e no qual ele trabalhou por décadas. Eu não entrava ali desde 1990, quando pela última vez estive ali com o avô.  Na cobertura há 42 anos funciona o restaurante Astrodome. No dia em que saiu a reportagem da Luciana Froes, na sexta-feira passada, meu pai e minha avó me ligaram avisando – e por coincidência era Páscoa e comemos um belo bacalhau cá em casa. Nem precisava, já tinha lido. Quer dizer, precisava sim. Porque quando eles me falaram confirmei a importância daquele lugar para mim. E nem imaginava que poderia ainda hoje existir aquele restaurante – relativamente panorâmico – que tanto freqüentei com o vovô querido. É claro que na primeira oportunidade eu visitaria o lugar. Não demorou nem uma semana. Na quarta passada aproveitei que teria uma reunião no Centro no fim de tarde para ir mais cedo e almoçar.
Liguei para saber se chegando às 15h ainda pegaria a cozinha aberta. Tranquilamente, me responderam.  E lá fui eu, com aquela certa tensão que a saudade nos dá.

O pratos da casa têm uma grafia sensacional

E lá fui eu. Assim que vi o belo saguão envidraçado, com duas entradas, uma na Araújo Porto Alegre outra na Anfilófio, fiquei diferente. A partir dali deu um aperto no peito, um nó na garganta, uma sensação muito boa, mas estranha, muito estranha. Reconheci os belos azulejos que, se não são portugueses são inspirados neles. Muito lindos. Quando passar por ali entre e dê uma olhada – se puder almoce na cobertura. Meus olhos marejavam pela primeira vez naquele dia inesquecível por causa dessa experiência. Também fiquei com a firme sensação de que os ascensoristas são velhos conhecidos meus. Mas estava meio abestalhado de modo que seria incapaz de conversar com alguém, ainda que a pergunta que me interessasse fosse uma só: desde quando o senhor trabalha aqui? No térreo não consegui, minha máxima manifestação foi pedir a indicação sobre como chegar ao Astrodome. Evidentemente eu não me lembrava. Suba neste elevador e vá para o último andar. Dobre à esquerda, entre numa portinha que você verá uma escada. É só subir que chegou.
Parecia simples, mas para mim não foi. Quando vi a tal escada deu um troço estranho à beça. Subi, curiosa e corajosamente. Entrar no Astrodome, estar no edifício Aliança da Bahia foi mais que tudo um achado arqueológico de forte importância sentimental, familiar. Não tenho como fugir do clichê e deixar de dizer: subir aquelas escadas foi entrar num túnel do tempo. Não era eu, Bruno Agostini, jornalista, quem estava subindo as escadas. Era o Bruno Chaves, neto do dr. Mario, que era cumprimentado e admirado por todos naquelas cercanias – o ascensorista, o barbeiro, o garçom, o porteiro, o jornaleiro, a secretária. Entre tantas coisas que ele me ensinou, talvez a mais marcante seja o respeito pelas pessoas. Ele me fez entender que é preciso tratar da mesma maneira a empregada, o garçom, o motorista, o deputado, o senador e o presidente da República. Obrigado, vovô. Como eu dizia, não era eu, esse cara de cabelos ficando brancos aos 33 anos, subindo as escadas.  Era um menino de oito, nove ou dez anos, não estou muito certo – eram esses todos juntos, na verdade – que subia ao lado do avô que fazia questão de apresentá-lo a todos. O menino já era flamenguista, para desgosto do avô vascaíno que, eu sentia, era capaz até de torcer pelo Flamengo para me ver feliz, mas não perdia uma oportunidade de tripudiar das derrotas. Vovô era sacana, engraçado, piadista. Desde esta época admiro as pessoas sacanas, engraçadas e piadistas.
Quando entrei no salão foi fogo. Vi o terraço que não via há anos senão no porta-retratos da sala da casa do meu pai – vovô e vovó, trintões, ali naquele mesmo lugar. A mesma murada, a mesma cerâmica – só a paisagem do fundo mudou. Não havia quase nada que não fosse o céu e as montanhas. Agora há prédios, muitos prédios, mas conseguimos alcançar uma nesga da Baía da Guanabara, o cristo emoldurado no concreto. Temos os prédios, em destaque o Palácio Gustavo Capanema, imponente logo à frente, um dos mais importantes da arquitetura modernista no Brasil.

Terraço com vista para a Biblioteca Nacional

A Luciana Froes se queixou da decoração. Ela tem mesmo razão, está ultrapassada. Mas, não fosse ela, não teria o mesmo peso para mim a visita. É a mesma decoração dos meus tempos, talvez seja a mesma desde a inauguração. O cardápio eu não tenho a menor dúvida de que está ali desde os primeiros dias. Não só por estar com preços datilografados, mas pela fonte ser antiga – e a nomeclatura dos pratos, nem na minha primeira infância era assim. Temos bisque de crevette, svenska sjomannsbiff,gigot d’agneau, choux farci, sauerbraten mit kartoffelkloesse e outros pratos impronunciáveis, muitos bastante familiares quando descritos pelo garçom.
Eu fui na sugestão da própria Luciana, o filé ao poivre. Estava, de fato, muito bom. Mas isso nem me importava. Pedi um vinho.
Perguntei ao garçom o seu nome e há quanto tempo ele trabalhava ali.
– Célio Marinho, muito prazer. Trabalho aqui há 41 anos. O restaurante faz 42 em junho, e eu completo 41 anos de casa.
Não pude resistir a assuntar.
– Então o senhor conhece o meu avô, Mário Chaves.
– Claro, mas ele comeu a vida inteira aqui comigo. Ele, quando vinha sozinho, ficava naquela mesa ali. Comia a carne assada, a carne ensopada com legumes. Lembro também da dona Otília.
– Pois ela está muito bem, toda serelepe, com uns 90.
Me lembrei do Willy, que meu pai mandara procurar.- Teve um problema de saúde e está em São Paulo. Volta na próxima semana.
– Que bom, da próxima vez, então, eu me encontro com ele.

Filet au poivre: "Comi feliz um prato bem feito, com um molho denso, preparado à moda antiga"

Comi feliz um prato bem feito, com um molho denso, preparado à moda antiga. O filé veio bem grelhado, em bom ponto. A batata rosti complementou bem a coisa, apesar de meio queimadinha. Mas eu mal conseguia me concentrar nisso. Lembrava de tudo, de toda a vida, ao mesmo tempo. Agora. Terminei de comer. E desabei de chorar.
Foi uma catarse. O guardanapo sujo teve que ser trocado pelo da mesa ao lado, que virou lenço. Minhas duas últimas recordações do avô eram no hospital e no caixão (desculpem-me por esta certa morbidez, mas é isso mesmo). Desde aquele dia no Astrodome só tenho as boas. A gente brincando, a gente comendo no Astrodome. Eu me divertindo conhecendo o escritório dele – que teve um dos primeiros computadores do Rio. Hoje só me lembro da gente na piscina, da gente no Antiquarius, da gente em Teresópolis, da gente em Nova Ipanema, da gente na Disney, da gente comendo o tender assado no suco de laranja de todos os Natais – que ele fazia questão de preparar, condição que eu herdei. Como aquela biografia chamada “As amargas, não”.

O doce: "As amargas, não"

Terminei com um apfelstrudel com creme.

Acho que vou voltar algumas vezes no Astrodome. Sexta tem o Nasi Goreng. Boa pedida.

O outro lado do terraço tem vista para a Baía

Este almoço foi uma das coisas mais emocionantes da minha vida. Se eu tivesse o Adriá, o Ducasse, o Thomas Keller, o Boulud, o Robuchon, o Troisgros, todos eles juntos, cozinhando só para mim, provavelmente não causaria tanto efeito.
No fim eu aceitei o apfelstrudel sugerido pelo Célio. Enquanto terminava o almoço fiquei fitando o Cristo Redentor, que tava logo diante da minha mesa. Agradeci por ter conhecido o Astrodome com o meu avô e por poder visitá-lo agora. Enxuguei as últimas lágrimas, ainda com o guardanapo.Para conseguir parar de chorar liguei para as pessoas, os amigos, vi o e-mail. Então saí do transe.
Neste dia em que tá todo mundo falando dos 50 anos de carreira do Roberto Carlos, que a minha avó tanto adora, não tive como evitar.
Se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi.

Publicado em 17/4/2009

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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4 Respostas to “Restaurante Astrodome: se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi”

  1. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Astrodome […]

  2. Cris Beltrão Says:

    Que lindo este post! Chorei junto.

  3. Astrodome fecha as portas « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] das refeições mais emocionantes do ano passado foi, sem dúvida, o almoço no restaurante Astrodome.  Foi até gostosa a comida. Mas a emoção não veio daí, sim das lembranças do avô, que comia […]

  4. É a vida: um almoço no terraço « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] na mesa do restaurante. Escrevi um post em casa (e mais um quando o lugar […]

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