O Albamar (será que agora vai?)

A vista do restaurante da Praça 15: impagável

Há alguns dias li feliz a notícia: deram uma guaribada no Albamar, este restaurante símbolo do Rio de Janeiro. Boa ocasião para republicar este texto, escrito há quase dois anos atrás.
A sugestão de passeio continua valendo, mas agora sem o ranço melencólico do risco de fechamento do lugar.
Agora, fico devendo uma nova visita à casa, que é sempre um prazer, pela vista, pelo prédio charmoso e, tomara que continue assim, pela comida.

Sugiro que se faça assim. Antes do destino final, um restaurante de passado glorioso e presente agonizante, vamos curtir um pouco do Rio antigo. Porque o passado é o motivo deste passeio que lhes vou propor.
Chegar à esquina da Primeiro de Março com a Rua do Ouvidor é um bom começo. Saiba que, ali quase defronte, estão praticamente prontas as obras da Antiga Sé, igreja da corte de Dom João VI, cenário de alguns dos mais importantes episódios da História do Brasil. Quem fizer o roteiro a partir de março poderá conhecer o prédio, em fase final de reformas. Cante o refrão do samba de 1991 do Salgueiro: “Da Primeiro de Março/ Falta um passo/ Pra Ouvidor/ E no samba faltava/ Esse traço de amor”. Se não souber a letra, aprenda aqui.
Siga pela Rua do Ouvidor, talvez a única rua a ter sido enredo de escola de samba. Se tiveres tempo, pare na livraria Folha Seca. Procure livros de fotos e gravuras sobre o Rio. É fácil, há tantos. Folheie as páginas, sinta o clima. Siga em frente.
Se quiser refrescar a garganta num legítimo botequim, sem grife nem logomarca, entre na Toca do Baiacu. A garrafa de 600 ml vem no grau. Servida no copo, desce fácil. Mais alguns passos e estamos na esquina da Rua do Ouvidor com a Travessa do Comércio. Caso o calor esteja insuportável, uma nova pausa, agora no Boteco Casual, bem ali, resolve o problema com os seus chopes bem tirados.
Continuando pela Travessa do Comércio, resista à tentação de se sentar nas mesinhas para apreciar as executivas, estudantes e outras beldades que enfeitam as calçadas. Deixe pro fim da tarde, quando a coisa esquenta ali no meio do casario antigo, vai por mim. Atravessando o Arco do Telles a Praça 15 se mostra. Aprecie o chafariz de Mestre Valentim, à esquerda, e repare no que restou do cais que recebeu a família imperial, coberto por um dos tantos aterros que mudaram radicalmente a geografia litorânea do Rio de Janeiro.
Desvie um pouco da rota para entrar no Paço Imperial. Quem estiver com pressa pode apenas atravessar o prédio de um lado a outro sabendo que ali foi a residência dos nossos monarcas. O Dia do Fico, sabe? Aconteceu ali. A Lei Àurea foi assinada sob aquele teto. Quem tiver mais tempo pode dedicar alguns minutos a conhecer a construção. Vez ou outra rola uma mostra interessante nos outrora aposentos reais.
Saindo do prédio, de frente para o Palácio Tiradentes, vire à esquerda. Adiante está a bonita Estação das Barcas que levam a Niterói e Paquetá. Dobre à direita e prepare-se para o pior trecho do percurso. Quase debaixo do horrendo elevado da Perimetral, caminhe até um grande estacionamento, com cuidado para não tropeçar em buracos, mendigos e lixos.
Pronto, é só virar à esquerda que a coisa melhora. Tá vendo lá longe? É a Ilha Fiscal mesmo. Que beleza. Chegando mais perto do mar, vemos as canoas dos pescadores. Eu não podia imaginar haver tantas bem no Centro da cidade. As barcas e aerobarcos se cruzam sem parar. Por detrás da inconfundível Ilha Fiscal, a Ponte Rio-Niterói. No fundo disso tudo, a Serra dos Órgãos (onde estão Petrópolis e Teresópolis) esparramada num de seus melhores ângulos. Olhe para a direita. Estamos quase lá.
Reparou num prédio verde-desbotado, um torreão em estilo art nouveau?  Pois é esse o nosso destino. Noutros tempos, outros quatros torreões formavam com esta única construção remanescente o Mercado Municipal, que funcionou no antigo Cais Pharoux, exatamente ali, do início do século passado até 1963. Hoje, entrar nessa beleza de construção dá uma pena danada, uma sensação de jóia abandonada. Antes lastimar que ignorar. Por isso, faça como eu e uns poucos gatos pingados: vá até lá.
Todo o dia é dia. Apesar da falta de movimento, uma faixa amarela avisa a quem possa duvidar: “Restaurante Albamar. Aberto diariamente das 11h30 às 18h”. Entre e repare na decadência elegante do restaurante especializado em peixes e frutos do mar. Foi sempre uma referência no quesito. E ainda é. Quem sabe, sabe: peixe fresco mesmo no Rio você encontra no Albamar e em mais uma meia dúzia de endereços como o Rio Minho.
Suba as escadas até o primeiro piso só para ver o salão que hoje está fechado ao público. Vale a pena. Aprecie a vista, mas não se deixe levar, como eu, pela tristeza. Reflita por alguns instantes. Imagine o salão lotado, os garçons para lá e para cá. É, os bons tempos não voltam. Essa frase que se aplica a tanta coisa cai como uma luva ao se estar no Albamar.
Em vez de subir um lance, desça novamente as escadas até o térreo para chegar ao restaurante, no segundo andar, como se deve: pelo elevador. Garçons vão lhe receber com cordial “boa tarde, senhor”. Não vai ser difícil se acomodar numa mesa junto às janelas (viu a foto lá em cima? Nem vou falar mais nada). Quase sempre há uma disponível. As voltadas para a Ilha Fiscal são as melhores.
Peça uma casquinha de lagosta para acompanhar a cerveja. Entre as entradas, é o clássico da casa. A minha, com textura que está mais para suflê do que para casquinha, veio saborosa, mas carente de lagostas, de quem senti apenas o perfume. A pimenta mostra-se essencial para saborear a receita, assim como os bolinhos de bacalhau, outro campeão de audiência. Entre os pratos principais, é famoso o badejo à moda da casa, cozido com vinho branco, creme de leite, camarão e mexilhões, que é servido acompanhado de purê de batata.
O cardápio é bem extenso. Há receitas com hadoque, bacalhau e ovas de peixe – que já me garantiram ser as melhores do Rio. Mas o polvo frito ao alho com brócolis e o robalete grelhado também gozam de boa fama entre os freqüentadores.
Feche com uma compota de figos com creme, um merengue glacê ou um mineiro de botas (há quanto tempo você não vê um cardápio de sobremesas tão retrô?). E não se esqueça de voltar um outro dia para curtir a vista no finzinho da tarde.
Espalhe para os amigos. Convoque os colegas para uma happy hour. Leve a família para almoçar com esse vistão todo depois de fazer o agradável passeio de barco à Ilha Fiscal. Marque ali o seu almoço de negócios. Vá, nem que seja só para aquela cervejinha no fim de tarde. Ela vai cair tão bem com os bolinhos de bacalhau que você nem imagina. Quem sabe, assim, o Albamar, aberto em 1933, não fecha as portas. Porque, se nada fizermos, esse parece ser o destino da casa num futuro não muito distante. A sensação que me deu foi de fim do expediente. Espero que esteja enganado. Lembrem-se: o prédio é tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. Mas o restaurante, não.Vamos salvar o Albamar? Eu, que já perdi o Penafiel no último mês, não estou preparado para outra tamanha perda.
O endereço certinho é Praça Marechal Âncora, 186, Centro. E os telefones são 21/2240-8378 e 2240-8428. Liga, vai.
Vamos salvar o Albamar!
E me desculpem pelo título, pobre e lacônico. Aceito sugestões de melhora.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Anúncios

3 Respostas to “O Albamar (será que agora vai?)”

  1. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Albamar […]

  2. O novo Albamar « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] SERVIÇO – Albamar: Praça Marechal Âncora, 186, Centro. Tel: 2240-8378. (Para ler um outro texto sobre este restaurante, clique aqui) […]

  3. paulovienas Says:

    Prezado e Querido BRUNO AGOSTINI, MUITO BOM DIA! Parabéns pelo Artigo-Crônica sobre o OCTAGENÁRIO ALBAMAR, PONTO ALTO DA GASTRONOMIA CARIOCA!!! Já que V. Pediu, aqui vai minha sugestão de Título alternativo, em colaboração na formação de “SLOGANS” ou “VINHETAS”, PRÓ-ALBAMAR: ” A PERIMETRAL VAI… MAS O “ALBAMAR” FICA!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: