Archive for dezembro \20\UTC 2009

Adega Pérola: Espanha em Copacabana?

20/12/2009

Acepipes expostos no balcão: basta apontar o seu

Outro dia falamos aqui do Venga! Mas o que há de mais parecido com um bar de tapas aqui no Rio ainda é a Adega Pérola. Isso por causa do espírito. Parece Espanha e Catalunha. No balcão há umas cinqüenta variedades de petiscos frios. Sem exagero. De coisas mais óbvias, como o inesquecível e picante vinagrete de polvo e sardinhas marinadas a extravagâncias como a morcela no vinho tinto. Da cozinha também saem petiscos quentes – mais uns 15, 20. O bolinho de bacalhau bate um bolão. No total, são umas 70 variedades de tapas. A escoltá-las, chope bem tirados. Há mesas que ora são ocupadas por amigos, ora por desconhecidos que engatam um papo. Para mim, a Adega Pérola é o lugar no Brasil que melhor carrega o espírito de um dos esportes mais gostosos praticados na Espanha: tapear.
Na boa: se você chamasse chope de canã, bacalhau de bacalao, polvo de pulpo e morcela no vinho de morcilla al vino, pronto. Você está na Espanha. Num bar de tapas bem pé-sujo, freqüentado pelos locais, de comida honestíssima.
A Adega Pérola, que fecha à meia-noite, coisa chata que no fim dá charme ao lugar, não é cara. Com uns R$ 50 um casal petisca e toma uns chopes. É também cenário sensacional também para se tatear o Rio, ver suas pessoas, sentir a cidade. Vez o outra o Fausto Fawcett e outra figuras carimbadas de Copacabana se debruçam no balcão. Uma puta pode aparecer ali antes de seguir para o trabalho, para beber um chope e, no inverno, pedir um vinho de garrafão na caneca. Madames e patricinhas da Zona Sul, famílias, grupos de amigos. Todos freqüentam a Adega Pérola. Eu também.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Anúncios

Porque eu adoro o verão carioca

18/12/2009

Só esse pôr-do-sol em Ipanema, exclusividade do verão, já me basta. Mas, para isso, é preciso haver um dia de sol, ao menos um fim de tarde

Falta poucos dias para o verão. No fim de semana publicamos o resultado da eleição dos 69 melhores lugares para amar no Rio de Janeiro. Enquanto isso, republico um textinho de quase um ano atrás, falando da estação mais quente do ano no Rio de Janeiro.

No que diz respeito à  meteorologia, não há o que acrescentar ao que se sabe. Me lembro de um post que o Ric escreveu, e eu não consigo encontrar, falando do tempo no Rio de Janeiro nos meses de calor, tese corroborada pelo Leandro, que deixou na caixa de comentários (lá do Viaje Aqui) o seguinte texto: “Boas festas para todos, mas não vejo a hora do verão ir embora, gosto mais do outono e em alguns anos até do inverno pelos seguintes motivos: 1- Fora do verão o sol é mais firme e os dias mais bonitos, e para melhorar o sol queima bem menos. 2- As praias ficam mais limpas (menos gente e menos chuva). 3- A água do mar fica menos gelada, no outono às vezes fica até quase morna. 4- Menos agito e confusão.  Fora outros que esqueci.”  

Estão certíssimos. Leandro, concordo em gênero, número e grau com você. 
 O verão carioca tem muita chuva e nuvem, lamentavelmente. Em bons anos, o sol aparece quase todos os dias, interrompido por chuvas de verão que lavam a cidade e as nossas almas. Nos anos ruins há mais dias nublados que ensolarados. Mas mesmo nesses, sempre dá para pegar uma corzinha, desde que você esteja de prontidão para correr à praia ao menor sinal de sol. É bom ficar alerta caso esteja no Jardim Botânico, Gávea, Humaitá ou para lá do Túnel Rebouças, longe das praias. Muitas vezes chove nos bairros mais próximos do Maciço da Tijuca, mas não em alguns pontos da orla. Um amigo que mora no Humaitá vez ou outra me liga: “E aí, tá sol por aí”. Da mesma maneira, saiba que, se estiver batendo aquele sudoeste em Ipanema e Leblon, dá para pegar uma prainha fantástica ali no Posto 6, em Copa, protegido dos ventos fortes pelos prédios.  
 (Enquanto escrevo cai uma chuva fina e triste, que é um horror, parece que não vai terminar nunca) 

 O simples fato de suceder a primavera faz do verão um momento especial no Rio de Janeiro. Porque setembro, outubro, novembro e parte de dezembro são meses insuportavelmente chuvosos. Junto com dezembro e as festas, geralmente o tempo dá uma melhorada. Uma das frases mais comuns é “Ainda bem que saiu o sol, não agüentava mais aquela chuva”. Todos os anos escuto isso, da mesma maneira que todos os anos falo isso. Meteorologicamente falando, o verão é muito melhor que a primavera – mas o outono e o inverno são invariavelmente sublimes, a melhor temporada no Rio. 
O que me seduz – e a tanta gente – no verão carioca não é como se porta o tempo, mas as pessoas.   
 Eu nasci em janeiro e, das duas, uma: ou eu odiaria o mês e a estação, ou seria um eterno fã do mais carioca dos meses. Entre os 12 do calendário, o mês mais identificado com o Rio é janeiro – e não apenas por fazer parte do nome da cidade, mas porque é quando seus habitantes são mais cariocas: vão mais à praia, sambam mais, bebem mais chopes e sucos, comem mais peixes e saladas, dão mais beijo na boca, falam mais bobagem, andam mais de chinelo, passam mais tempo na rua, dormem mais tarde e acordam mais cedo.  
É tempo de acasalamento. Parece algo instintivo. Um certo clima de libertinagem toma conta dos lugares. A libido está em alta. As pessoas exibem mais os corpos malhados durante o ano para estarem no auge no verão. Casais se desfazem e outros nascem no verão. É comum, entre jovens e adolescentes, principalmente, terminar uma relação em dezembro para retomá-la após o carnaval. É o famoso “dar um tempo”. Pode reparar, geralmente os casais dão um tempo no verão.   
 Outra coisa importante para aumentar a pressão da cidade é a invasão de turistas. Claro que isso tem os seus aspectos negativos – preços sobem, praia mais cheia, bares mais cheios, alguma farofa etc etc etc. Mas os forasteiros contribuem decisivamente para alegrar a cidade, com o seu samba desajeitado, o seu interesse em mergulhar na alma carioca, sua descontração deslumbrada. E esse pessoal vem cheio de amor para dar. É sempre divertido conhecer uns gringos e brasileiros de outros estados. E isso acontece repetidamente a cada verão.  
 Tem festa de segunda a segunda, as ruas ficam cheias de gente. A Lapa entra em ebulição. Os bares vendem chope como água.  
 Também tem papel relevante nesta animação o carnaval que se aproxima. O clima vai esquentando. Em janeiro as quadras das escolas de samba já estão lotadas. As festas dos blocos de carnaval, quando muitas vezes são escolhidos os sambas, começam a bombar.  Ninguém se livra do contágio festeiro. 
 Até os patrões são um pouco mais tolerantes com os atrasos. “A noite foi boa, hein”, é uma repreensão corriqueira.  
 O verão é um tempo de novidades em todas as áreas. Surgem novos músicos e cantores, restaurantes, lanchonetes e bares, drinques, cangas, biquínis, bermudas, atores, casas de show. Muita coisa fica para a posteridade, outros fenômenos são efêmeros e terminam junto com o verão, afogados pelas águas de março. As novidades da estação são combustível para profundas discussões de botequim. Verão é tempo de mudança, de reflexão, de estréias. Qual o melhor samba? Quem vai ser campeão carioca? Como atuará o novo prefeito? Qual é o melhor chope da cidade? Quem é a musa do verão? O que será da economia? O que será de mim?    
Tem mais coisas, muito mais. Poderia exaltar os dias mais longos, o sol se pondo no mar de Ipanema, os novos sorvetes do Mil Frutas…  Mas se eu fosse gastar uma frase para explicar cada ponto que faz do Rio um lugar incrível para passar o verão, tornaria este texto infinitamente longo. 
Publicado em 27/12/2008

Feijão dá samba: a relação entre o carnaval carioca e o mais brasileiro dos pratos

17/12/2009

Linguiça e rabinho: combinação perfeita

Poucas palavras estão tão associadas ao Rio de Janeiro quanto carnaval e feijoada. É verdade que tanto o samba quanto o feijão com carnes salgadas ficam em cartaz ao longo do ano todo. Mas é no inverno, como se sabe, é a melhor época para traçar uma feijoada, fisiologicamente falando, vamos dizer assim. De longe, os mais altos índices de consumo e as feijoadas mais badaladas coincidem com a festa de Momo. A união do batuque com o feijão é antigo, vem desde os quilombos. As agremiações carnavalescas mais tradicionais, Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro, promovem as suas feijoadas, em fins de semana e dias alternados, todos os meses. Não faltam referências ao prato em composições de todos os períodos do ritmo. Feijão dá samba.
Comer uma feijoada, principalmente aos sábados, é um programa carioca por natureza, praticado igualmente por nativos e forasteiros. A receita é servida em quase todos os lugares, dos mais chinfrins botecos, nos mais sórdidos recantos, aos restaurantes dos hotéis mais estrelados. Numa cozinha a quilo do Centro, dessas que preparam a feijoada às sextas–feiras porque não abrem aos sábados, um prato de tamanho razoável pode custar uns R$ 6 ou R$ 7 apenas. Já para se nutrir com os panelões de ferro do Copacabana Palace é preciso investir R$ 100 no programa, a feijoada mais cara da cidade, sem dúvida.
Em praticamente todos os hotéis sábado é dia do prato, servido em bufês suntuosos, com direito a batidas e caipirinhas e, muitas vezes, uma roda de samba para animar (será?). Sem falar nas saladas, no bobó de camarão, nos acarajés – e nas bancadas de doces e nas intermináveis mesas de saladas.
A feijoada do Ceasar Park, em Ipanema, é uma das melhores da cidade por algumas razões que não só as gastronômicas. O feijão é bem-feito e há boa oferta de carnes. A vista da praia de Ipanema da cobertura é espetacular (embora eles estejam cada vez mais fazendo a feijoada no restaurante do segundo andar). E a roda de samba é muito boa, o que é raro nesses casos. No sábado de carnaval, para melhorar a coisa, o Império Serrano anima a comilança.
O Sofitel, sempre francófilo, convocou a Grande Rio para balançar o caldeirão da feijoada carnavalesca que rola sábado. Estamos em pleno Ano da França no Brasil. E a data não poderia passar batida pelo carnaval. Com o enredo, quilométrico, diga-se, “Voilá, Caxias! Para sempre Liberté, Égalité, Fraternité, merci beaucoup, Brésil! Não tem de quê!” a escola da Baixada foi uma das poucas que conseguiu fazer o carnaval com a grana prevista. Está rica, ainda mais como a queridinha da Globo. A crise atingiu todas as outras escolas, mas o governo francês compareceu com seus euros. Pode pintar o primeiro título para Caxias, depois não digam que não avisei. Além da bateria, passistas, ritmistas, mestre-sala e porta-bandeira participam da feijoada no deck da piscina, com bela vista do Posto 6.
OPestana, em Copacabana, e o Sheraton Barra também realizam os seus feijões de sábado. No carnaval a unidade do Vidigal vai promover uma feijoada carnavalesca. E, como sempre, o Ricardo Amaral vai fazer a sua feijoada de Momo também, que anda meio caidinha – nos tempos em que o carnaval de rua andava agonizante, o evento mais importante off-Sapucaí era a Feijoada do Amaral, assim mesmo, com caixa alta. As camisas eram disputadíssimas, todos personalizam os seus modelitos, era sucesso em revistas como Caras e Playboy. De uns dez anos para cá foi decaindo a ponto de eu mal escutar falar dela. Eu sei que este ano tem, mas não me pergunte onde.
Fora do circuito turístico-hoteleiro-carnavalesco, há muitas, talvez dezenas, de feijoadas clássicas no Rio. Pode ser a do restaurante Botequim, em Botafogo, ou a do Jobi, no Leblon. O Garden, em Ipanema, de frente para o Jardim de Alah, também serve o prato em bufê aos sábados.
Feijoada é a pura democracia culinária. Podemos encontrar nos subúrbios, na Zona Sul, na Zona Norte, na Zona Oeste. Chega a ser besteira tentar descobrir a melhor.
Há ainda as variações do tema, como a feijoada portuguesa do Casual, e a lentilha garni do Bar Brasil, uma feijoada alemã legítima – com kassler, salcichas e eisbein. Sem falar em contravenções como a feijoada de legumes e afins, do Vegetariano Social Club – e algumas feijoadas de frutos do mar que surgem e desaparecem por aí, não vi pegar em qualquer parte. A novidade da temporada é a feijoada com cassoulet, do Troisgros, já apresentada aqui em primeira mão. A calhar em tempos de invasão francesa no Brasil.
Há muita feijoada boa por aí. Mas ultimamente a melhor que tenho comido tem sido aqui em casa mesmo. Em segundo lugar, aparece a da Casa da Feijoada (que é uma opção legal para se pedir em casa, através de sua extensão, o bar Brasileirinho). O restaurante é muito freqüentado por gringos bem informados. Pagam ali por volta de R$ 55 e comem o melhor feijão que um restaurante pode servir no Rio.
Mas, são as feijoadas realizadas pelas escolas de samba, para mim, o melhor investimento. É o programa mais completo e autêntico, que inclui um passeio pelos subúrbios, coisa que pouco turista faz, mas é tão importante para entender a alma do Rio. Funciona assim: Portela (primeiro sábado do mês), Mangueira (todo o segundo sábado do mês), Salgueiro (segundo domingo do mês) e Império Serrano (terceiro sábado de cada mês).

De olho nesta gostosa dobradinha samba e feijão há dois programas não muito falados, mas sensacionais para a tarde de domingo. A Casa Rosa e a Tia Elza, no Horto (este só a cada 15 dias). O espírito é parecido. Ali pelas 16h, 17h horas começa uma rodinha de samba, do tipo fundo de quintal mesmo, ao redor da mesa. Noutras mesas o pessoal acompanha o batuque. E na maior mesa de todas, ao menos na mais importante, você se serve com a feijoada. O programa (R$ 20 na primeira e R$ 30 na segunda) custa um troco, levando-se em conta que show e almoço estão incluídos. Vale conferir.

Publicado em 18/2/2009

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Adonis procura endereço na Zona Sul (e um sábado em Benfica)

17/12/2009

Chopes os caras sabem tirar, olha só. E fazer bacalhau também.

Esta semana li por aí que o Adonis, um dos melhores bares da cidade, em Benfica, está procurando por um ponto na Zona Sul para abrir uma filial. Tomara. Eu morro de medo da abertura de filiais de empresas familiares, mas acredito no sucesso. Eles servem para mim um dos melhores chopes do Rio, no nível do Bar Brasil. E, mais que isso, fazem o melhor bacalhau da cidade, melhor que o Antiquarius, o Alfaia, o Adegão Português, que, dizem, anda em franca decadência. As postas que os caras te servem não se encontram nem mesmo lá no restaurante do sr. Perico. Altas, com lascas enormes, uma coisa. E por uns R$ 100 vem um travessão que sá para três.Então, a gente republica mais um textinho.

Este blog, como se sabe, gosta muito de Ipanema e do Leblon. Adora jantar no Le Pré Catelan e pegar o almoço executivo do Fasano al Mare. Não dispensa uma caminhada na praia nem nos dias nublados. Mas um dos grandes prazeres desta cidade tão linda está nos seus subúrbios. Acontece que as pessoas, inclusive os prórpios cariocas, ignoram isso. Tenho muitos conhecidos que nunca foram além da Tijuca. O Grajaú já lhes é uma incógnita. Se o próprio carioca da Zona Sul mal frequenta os bairros da Zona Norte, imagine os turistas. Não devia ser assim. Para conhecer o Rio de verdade a Zona Sul e o Centro não bastam. É preciso ir além do Túnel Rebouças e investigar os bairros populares: Benfica, Maria da Graça, Braz de Pina, Caju. Aos sábados um dos programas mais autênticos do Rio é a festa portuguesa da Cadeg, em Benfica. Este bairro, próximo a São Cristóvão, como o nome indica, é desde muito um reduto de imigrantes portugueses e seus descendentes. Lembre-se que o Vasco está logo ali.
Ao som das músicas lusitanas o bacalhau circula pelas mesas com fartura. Bolinhos e postas generosas assadas na brasa, além de concorridas sardinhas, embalam as conversas. Vinho verde tinto (sim, daqueles vendidos em garrafas de um litro) e a cerveja gelada tratam de molhar a goela.
Eu sempre pego leve no Recanto das Concertinas, nome do bar epicentro da festa. Porque ir até Benfica exige uma passada no Adônis, um dos melhores bares da cidade, pertinho da Cadeg. É certo que nas tardes de sábado você vai ter que esperar por uma mesa, porque a casa fica lotada, com muitos egressos da Cadeg, inclusive. Desde que cheguem logo uns bolinhos de bacalhau e um chope, a espera é até agradável. Repare no tirador de chope, como maneja bem o equipamento. Lança o líquido com pressão no copo do tipo schinitt. Com precisão cria a espuma na medida certa, cremosa. Para comer, o mesmo da Cadeg, bolinhos de bacalhau e postas do legítimo gadus morhua preparadas em várias maneiras. Os pratos custam umas 200 pratas. Acredite. Em compensação, servem uma família inteira – o garçom me garante que dá para seis pessoas. Se for em menor número, não desanime. Peça em meia porção que eles fazem. E um casal come muito e ainda sobra

Publicado em 11/4/2009

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Restaurante Astrodome: se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi

16/12/2009

O cardápio não mudou nada desde 1980 e qualquer coisa, quando havia estado lá pela última vez com o avô

Enquanto vão chegando as sugestões de lugares para a nossa listinha (obrigado, obrigado) a gente aproveita para publicar um texto sobre o Astrodome, um restaurante antigão lá no Centro que me desperta fortes emoções.
É bem provável que você nunca tenha ouvido falar dele.

"A casa está precisando de umas reformas", diriam. É até verdade, mas torço para se conservar assim, como sempre foi

Este texto – que é longo e piegas, já te previno – precisa de uma breve introdução, de alerta e agradecimento. O alerta é para a Vovó Otília, que se emocionou e chegou até a chorar com o post sobre o Cesar Park. Se foi assim, para ler este é melhor que a senhora esteja ao lado de um cardiologista, vó. Sério mesmo. O agradecimento é para a Luciana Froes, que descobriu para mim que o restaurante Astrodome ainda funciona. Obrigado, Lu.
Não sei se precisaria dizer isso, me parece claro, mas esta crônica foi escrita entre lágrimas. Lágrimas de felicidade, de orgulho do avô e de imensa saudade dele. Lágrimas de lembrança. Deu pena dos primos, muito pequenos quando o avô morreu, em 1991. Não tiveram o prazer que eu tive de almoçar com ele no Astrodome, de aprender tanta coisa.
Obrigado, vovô.
Vovô Mário, sacana que só ele, dizia invariavelmente ao taxista: “Para a rua Anfilófio de Carvalho, por favor”. Se bobear, ao longo de quase meio século de trabalho neste endereço, nenhum motorista tenha acertado o caminho. Ninguém conhece a obscura rua, ninguém sabe onde ela fica. Pois eu lhes digo, é ali no Centro do Rio, nas proximidades do Palácio Gustavo Capanema. É uma mínima passagem de asfalto que liga a Rua Debret à Avenida Graça Aranha, uma única e pequena quadra. Fica paralela à Rua Araújo Porto Alegre. No número 36 desta última, endereço oficial, está o Edifício Aliança da Bahia, prédio construído pelo meu avô e no qual ele trabalhou por décadas. Eu não entrava ali desde 1990, quando pela última vez estive ali com o avô.  Na cobertura há 42 anos funciona o restaurante Astrodome. No dia em que saiu a reportagem da Luciana Froes, na sexta-feira passada, meu pai e minha avó me ligaram avisando – e por coincidência era Páscoa e comemos um belo bacalhau cá em casa. Nem precisava, já tinha lido. Quer dizer, precisava sim. Porque quando eles me falaram confirmei a importância daquele lugar para mim. E nem imaginava que poderia ainda hoje existir aquele restaurante – relativamente panorâmico – que tanto freqüentei com o vovô querido. É claro que na primeira oportunidade eu visitaria o lugar. Não demorou nem uma semana. Na quarta passada aproveitei que teria uma reunião no Centro no fim de tarde para ir mais cedo e almoçar.
Liguei para saber se chegando às 15h ainda pegaria a cozinha aberta. Tranquilamente, me responderam.  E lá fui eu, com aquela certa tensão que a saudade nos dá.

O pratos da casa têm uma grafia sensacional

E lá fui eu. Assim que vi o belo saguão envidraçado, com duas entradas, uma na Araújo Porto Alegre outra na Anfilófio, fiquei diferente. A partir dali deu um aperto no peito, um nó na garganta, uma sensação muito boa, mas estranha, muito estranha. Reconheci os belos azulejos que, se não são portugueses são inspirados neles. Muito lindos. Quando passar por ali entre e dê uma olhada – se puder almoce na cobertura. Meus olhos marejavam pela primeira vez naquele dia inesquecível por causa dessa experiência. Também fiquei com a firme sensação de que os ascensoristas são velhos conhecidos meus. Mas estava meio abestalhado de modo que seria incapaz de conversar com alguém, ainda que a pergunta que me interessasse fosse uma só: desde quando o senhor trabalha aqui? No térreo não consegui, minha máxima manifestação foi pedir a indicação sobre como chegar ao Astrodome. Evidentemente eu não me lembrava. Suba neste elevador e vá para o último andar. Dobre à esquerda, entre numa portinha que você verá uma escada. É só subir que chegou.
Parecia simples, mas para mim não foi. Quando vi a tal escada deu um troço estranho à beça. Subi, curiosa e corajosamente. Entrar no Astrodome, estar no edifício Aliança da Bahia foi mais que tudo um achado arqueológico de forte importância sentimental, familiar. Não tenho como fugir do clichê e deixar de dizer: subir aquelas escadas foi entrar num túnel do tempo. Não era eu, Bruno Agostini, jornalista, quem estava subindo as escadas. Era o Bruno Chaves, neto do dr. Mario, que era cumprimentado e admirado por todos naquelas cercanias – o ascensorista, o barbeiro, o garçom, o porteiro, o jornaleiro, a secretária. Entre tantas coisas que ele me ensinou, talvez a mais marcante seja o respeito pelas pessoas. Ele me fez entender que é preciso tratar da mesma maneira a empregada, o garçom, o motorista, o deputado, o senador e o presidente da República. Obrigado, vovô. Como eu dizia, não era eu, esse cara de cabelos ficando brancos aos 33 anos, subindo as escadas.  Era um menino de oito, nove ou dez anos, não estou muito certo – eram esses todos juntos, na verdade – que subia ao lado do avô que fazia questão de apresentá-lo a todos. O menino já era flamenguista, para desgosto do avô vascaíno que, eu sentia, era capaz até de torcer pelo Flamengo para me ver feliz, mas não perdia uma oportunidade de tripudiar das derrotas. Vovô era sacana, engraçado, piadista. Desde esta época admiro as pessoas sacanas, engraçadas e piadistas.
Quando entrei no salão foi fogo. Vi o terraço que não via há anos senão no porta-retratos da sala da casa do meu pai – vovô e vovó, trintões, ali naquele mesmo lugar. A mesma murada, a mesma cerâmica – só a paisagem do fundo mudou. Não havia quase nada que não fosse o céu e as montanhas. Agora há prédios, muitos prédios, mas conseguimos alcançar uma nesga da Baía da Guanabara, o cristo emoldurado no concreto. Temos os prédios, em destaque o Palácio Gustavo Capanema, imponente logo à frente, um dos mais importantes da arquitetura modernista no Brasil.

Terraço com vista para a Biblioteca Nacional

A Luciana Froes se queixou da decoração. Ela tem mesmo razão, está ultrapassada. Mas, não fosse ela, não teria o mesmo peso para mim a visita. É a mesma decoração dos meus tempos, talvez seja a mesma desde a inauguração. O cardápio eu não tenho a menor dúvida de que está ali desde os primeiros dias. Não só por estar com preços datilografados, mas pela fonte ser antiga – e a nomeclatura dos pratos, nem na minha primeira infância era assim. Temos bisque de crevette, svenska sjomannsbiff,gigot d’agneau, choux farci, sauerbraten mit kartoffelkloesse e outros pratos impronunciáveis, muitos bastante familiares quando descritos pelo garçom.
Eu fui na sugestão da própria Luciana, o filé ao poivre. Estava, de fato, muito bom. Mas isso nem me importava. Pedi um vinho.
Perguntei ao garçom o seu nome e há quanto tempo ele trabalhava ali.
– Célio Marinho, muito prazer. Trabalho aqui há 41 anos. O restaurante faz 42 em junho, e eu completo 41 anos de casa.
Não pude resistir a assuntar.
– Então o senhor conhece o meu avô, Mário Chaves.
– Claro, mas ele comeu a vida inteira aqui comigo. Ele, quando vinha sozinho, ficava naquela mesa ali. Comia a carne assada, a carne ensopada com legumes. Lembro também da dona Otília.
– Pois ela está muito bem, toda serelepe, com uns 90.
Me lembrei do Willy, que meu pai mandara procurar.- Teve um problema de saúde e está em São Paulo. Volta na próxima semana.
– Que bom, da próxima vez, então, eu me encontro com ele.

Filet au poivre: "Comi feliz um prato bem feito, com um molho denso, preparado à moda antiga"

Comi feliz um prato bem feito, com um molho denso, preparado à moda antiga. O filé veio bem grelhado, em bom ponto. A batata rosti complementou bem a coisa, apesar de meio queimadinha. Mas eu mal conseguia me concentrar nisso. Lembrava de tudo, de toda a vida, ao mesmo tempo. Agora. Terminei de comer. E desabei de chorar.
Foi uma catarse. O guardanapo sujo teve que ser trocado pelo da mesa ao lado, que virou lenço. Minhas duas últimas recordações do avô eram no hospital e no caixão (desculpem-me por esta certa morbidez, mas é isso mesmo). Desde aquele dia no Astrodome só tenho as boas. A gente brincando, a gente comendo no Astrodome. Eu me divertindo conhecendo o escritório dele – que teve um dos primeiros computadores do Rio. Hoje só me lembro da gente na piscina, da gente no Antiquarius, da gente em Teresópolis, da gente em Nova Ipanema, da gente na Disney, da gente comendo o tender assado no suco de laranja de todos os Natais – que ele fazia questão de preparar, condição que eu herdei. Como aquela biografia chamada “As amargas, não”.

O doce: "As amargas, não"

Terminei com um apfelstrudel com creme.

Acho que vou voltar algumas vezes no Astrodome. Sexta tem o Nasi Goreng. Boa pedida.

O outro lado do terraço tem vista para a Baía

Este almoço foi uma das coisas mais emocionantes da minha vida. Se eu tivesse o Adriá, o Ducasse, o Thomas Keller, o Boulud, o Robuchon, o Troisgros, todos eles juntos, cozinhando só para mim, provavelmente não causaria tanto efeito.
No fim eu aceitei o apfelstrudel sugerido pelo Célio. Enquanto terminava o almoço fiquei fitando o Cristo Redentor, que tava logo diante da minha mesa. Agradeci por ter conhecido o Astrodome com o meu avô e por poder visitá-lo agora. Enxuguei as últimas lágrimas, ainda com o guardanapo.Para conseguir parar de chorar liguei para as pessoas, os amigos, vi o e-mail. Então saí do transe.
Neste dia em que tá todo mundo falando dos 50 anos de carreira do Roberto Carlos, que a minha avó tanto adora, não tive como evitar.
Se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi.

Publicado em 17/4/2009

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

69 lugares para amar no Rio de Janeiro (parte 1)

15/12/2009

Hidro, poltronas de frente para a lareira, edredon quentinho e macio, na pousada Tankamana, em Petrópolis: sair para quê?

Ontem a Cris Berger lançou aqui na bar Londra, no Fasano, o livro 69 Lugares para Amar, como bem disse o Ric, “um dos melhores títulos de livro dos últimos tempos”.
Eu fui lá comprar o livro e conversar com ela.
Das 69 viagens, em pelo menos uma eu estive com ela: foi para Bento Gonçalves, quando colhemos uvas na Miolo.

A capinha do gostoso livro, que serve para inspirar viagens a dois

Inspirado pela sugestão dela, comecei a pensar nos lugares do Rio de Janeiro que poderiam estar ali.
Quando vi, já estava no meio da confecção de uma lista. No meio, literalmente. Fiz só metade, amanhã completo o resto (será que teremos mais 34 pousadas e hotéis de charme no Rio? Nem garanto…). Para a tarefa, que não me parece tão fácil assim, conto com a ajuda de vocês.

As fotos são lindas. E a arte foi feita pela querida Elaine Ianicelli. Por isso, o livro está uma graça.

1 – Copacabana Palace – Precisa explicar por que?
2 – Fasano – Com aquela vista, com aquela comida…
3 – Hotel Santa Teresa – “Amour” no Marais carioca.
4 – Tankamana (Petrópolis) – Edredon, ofurô, fondue: fazer o quê?
5 – Sofitel – Jante no Le Pré Catelan, peça um champanhe e suba pro quarto (com vista pro mar)
6 – Casas Brancas (Búzios) – Aproveite a paisagem.
7 – Terras Altas (Visconde Mauá) – Peça o quarto com ofurô e sauna. E nem saia de lá.
8 – Casa Turquesa (Paraty) – O filé mignon do Centro Histórico.
9 – Pousada Arte Urquijo (Paraty) – Arte, amor e charme.
10 – Le Gite d’Indaiatiba – Pela ordem: sauna, cachoeira, cherne com manga e gengibre, cama
11 – Vip’s – Pegue uma daquelas suítes especiais e o melhor motel do Rio passa a valer a pena
12 – Le Relais Marambaia – Aposto que ela nunca ouviu falar nesta pousada carioca
13 – Marina All Suites – Leblon, design, modernidade, sabor, luxo: tudo junto
14 – Bromélia, Sabiá e Companhia (Teresópolis) – Com esse nome, só pode ser romântica
15 – Pousada Toca-Terê (Teresópolis) – No meio do mato, lareira, sauna, hidro…
16 – Fazenda das Videiras (Petrópolis) – Escolha um chalé/região (Loire, Champanhe), o vinho e nada mais
17 – Tambo los Incas (Petrópolis) – Uma gracinha de lugar
18 – Mauá Brasil (Visconde de Mauá) – Simplesmente o melhor de Mauá
19 – Frontera (Visconde de Mauá) – Arte, conforto, visual
20 – Locanda della Mimosa (Petrópolis) – Aproveite enquanto o Danio ainda está por lá.
21 – Casa Bonita (Visconde de Mauá) – Donos simpáticos, com dons artísticos, que adoram receber
22 – Villa Rasa Marina (Búzios) – Melhor comida de lá, na beira da praia…
23 – Insólito (Búzios) – O mais incrível de Búzios, com vista linda
24 – Sitio do Lobo (Ilha Grande) – Escondidinha no esplendor da Ilha Grande, quase uma casa de amigos.
25 – Estrela da Ilha (Ilha Grande) – Cercada pela mata, na Enseada das Estrelas (porque reflete o céu)
26 – Pedra da Laguna (Búzios) – Hidro junto à cama, vista para a Ponta da Lagoinha…
27 – Vivenda Les 4 Saisons (Eng. Paulo de Frontin) – Bom restaurante, muito charme
28 – Mama Ruissa – Pequena joia em Santa Teresa.
29 – Solar do Império (Petrópolis) – Sim, há pousada romântica e charmosa no Centro Histórico de Petrópolis.
30 – Pestana (Angra dos Reis) – Se diz resort, mas está mais para pousada de (muito) charme
31 – Parador Lumiar (Friburgo) – Um lago, ofurôs, travesseiros, lençóis: tudo conspira a favor
32 – Pousada Serra da Índia (Penedo) – Acredite: há vida charmosa e elegante em Penedo
33 – Pousada Enseada das Graças (Sã Pedro d’Aldeia) – Nem parece São Pedro d’Aldeia…
34- Sankay (Ilha Grande) – Para casais-mergulhadores (ou não)
35 – Rio 180º Suites e Cuisine – “Amour” no Marais carioca (parte 2)

69 lugares para amar no Rio de Janeiro (parte 2: as sugestões doa amigos do blog)
69 lugares para amar no Rio de Janeiro (parte 3)

Índice de posts de cidades no estado do Rio de Janeiro: clique aqui.

Prazer em conhecer, C&A: Chico e Alaíde, no Leblon, um boteco-boteco

15/12/2009

Caricatura da dupla por Chico Caruso

Pode ser que alguém não goste. Não tem hostess à porta. O Chico & Alaíde é o que se pode chamar, parodiando o Wanderlei Luxemburgo, de boteco-boteco. Com a vantagem de aceitar cartões de crédito. E de ficar no Leblon, bairro de grandes botecos. O Chico & Alaíde chegou para se juntar ao Jobi, ao Clipper, ao Cantinho do Leblon (você me permite chamar o Cantinho de boteco, né?), ao Azeitona, à Academia da Cachaça e ao Bracarense, é claro, que aliás deu origem ao C&A (eu já batizei assim a casa). O C&A tem um quê de Fla-Flu. É uma dissidência do Braca, como o futebol do rubro-negro nasceu de uma dissidência do tricolor. Se for assim, não vai demorar para superar a matriz, não é, Julio?
Sábado estive lá à tarde. Mesas lotadas, porta lotada. As grades que envolvem a varanda, estrategicamente planas e não arredondadas, serviam de apoio para o chope de quem estava do lado de fora. O papo fluía entre todos, de dentro para fora, de fora para dentro. Gostei do que vi. Estava temeroso. Confesso que quando fui ver como estava o bar, no dia da inauguração, já que eu viajaria, não gostei muito da decoração. Azulejos bonitinhos, lustres redondos dependurados do teto, placas da AmBev imitando cartazes clássicos. Fiquei mesmo com medo. Parece com esses tantos botecos arrumadinhos que, à medida que foram infestando o Brasil, me fizeram desenvolver uma grande implicância pela categoria. Criei um mantra, repita comigo: “Boteco arrumadinho nunca mais, boteco arrumadinho nunca mais, boteco arrumadinho nunca mais”.
E, à primeira vista, o Chico & Alaíde estava arrumadinho demais. Mas, claro, era um boteco novo, ainda nem inaugurado. Não poderia, então, ter cara de boteco velho, entende? Aos poucos, as paredes vão encardir um pouco, os clientes cativos vão ter as suas contas e garrafas de uísque, e o chão vai perder o aspecto de salão de baile das antigas. Até o banheiro, breve, vez ou outra vai entupir e, então, homens e mulheres dividirão a mesma portinha.  Mas hoje, ainda cheirando a novo, o C&A tem espírito de boteco que é, afinal, o que importa mesmo.
Foi bom eu emendar duas viagens seguidas. Porque, sem tempo de ir lá logo nos primeiros dias de funcionamento da casa, cheguei com as engrenagens aparentemente mais azeitadas. E o que isso significa? Um caos organizado, onde a confiança impera. Ouvi algumas queixas dos primeiros freqüentadores. Eu não posso me queixar, até porque, gosto desse tipo de caos.
Voltemos ao sábado. Quando vi o movimento logo desisti de lutar por uma mesa. Queria só provar os bolinhos, só ver como estavam. Porque boteco não é como restaurante. O pessoal fica horas. Para almoçar num restaurante até que dá para encarar uma fila, em boteco não recomendo. Nunca se sabe a que horas a turma vai desistir de comer e beber. Ainda mais num sábado modorrento, de mormaço muito chato e chuvinha fina, como neste último aqui no Rio. Ainda mais no Leblon, onde a rapaziada gosta de gastar a tarde, ainda mais de sábado, na mesa de um bar.
Primeiro chamei o garçom e perguntei se podia pedir uns bolinhos e chopes dali de fora mesmo. Claro que sim. Já me animei. Em bom boteco, você come e bebe onde quiser, até do outro lado da rua, como no Bar Urca. Ele trouxe primeiro os bolinhos e os chopes. Na hora do segundo pedido, sugeriu que eu fosse até o balcão e pedisse, seria mais rápido. Bastava dar o meu nome que eles comandavam de lá mesmo. Também gostei disso. Gosto de boteco honesto. E, além disso, em boteco que é boteco o cara também tem que se virar – caso contrário ele teria ido a um bar temático. Quer coisa mais chata que o garçom vir acender o teu cigarro num boteco? Ou puxar a cadeira para a tua namorada? Se eu quisesse garçom puxando a cadeira para a minha namorada não tinha ido a um boteco, ora bolas!
E lá fui eu ao bar. À minha esquerda estava o ator Antonio Pedro tomando a sua Brahma Black. Hummm. Brahma Black, ainda mais naquele copinho tipo sundae, com logomarca e tudo, coisa de barzinho arrumado… Tudo bem, no C&A eu deixo.

Chico no comando da chopeira

Confesso que fiquei feliz quando o Chico, comandando a chopeira, me viu e acenou: E aí, rapaz, beleza?. Aproveitei a intimidade e, diante de uma vitrine cheia de salgadinhos, fui elegendo o que queria. Me dá esse, esse, esse, esse também. “E esse aí, é de que?”, perguntei sobre um, que para mim era novidade (todos os outros eu já conhecia do Braca). “É a almofadinha de frutos do mar”, responderam. “Dá duas”. Com uma massinha delicada e arredondada, tinha recheio cremoso, com polvo predominando. Delicado, uma delícia. Custa R$ 3,50.
No mais, os clássicos do Bracarense preparados por quem os criou, Alaíde. E o Chico comandando a chopeira e o serviço. Não tinha como dar errado. Os famosos bolinhos de camarão e catupiry, que deram fama universal ao Braca, ali são chamados de bolinhos da Alaíde, muito justamente, e custam R$ 2,50. É para comer uns 10. Provei ainda o bobozinho de macaxeira, a R$ 3,20, a maravilhosa de camarão (acho que é maravilha de camarão, mas na nota fiscal veio escrito maravilhosa), a R$ 3,80, a empada de camarão e catupiry, de R$ 2,80. Gostei demais de tudo.

Uma das especialidades é o tôtivendo, uma espécie de escondidinho aparecido, sem recheio escondido, sacas? Tem de vários sabores.

Jogue um pouquinho de azeite, muitas gotas de pimenta e seja feliz

De camarão com catupiry…

Feijoada em forma de escondidinho: um novo olhar sobre um velho conhecido

… de feijoada

Na minha primeira visita nem consegui pegar a boa pimenta da casa. Só da segunda fez recebi uma garrafinha, e a pimenta é muito boa, obrigado, digna de um boteco-boteco, porque bar que se preza tem malagueta – tabasco, que me desculpem os adeptos, mas é coisa de restaurante mexicano ou americano.

Tranqüilo, tranqüilo mesmo, para chegar com calma à mesa, só ali pelas 16h, 17h de um dia de semana, que não seja quinta e sexta, me avisou a caixa. Tudo bem, seguirei o conselho da moça. Das modernidades que permito a um boteco está trabalhar com cartões de crédito e débito. E o C&A trabalha. Ótimo assim, até porque eu estava sem um puto no sábado. Só uma moedinha de R$ 1 pro guardador e três pacotinhos de figurinha pra filha – e olhe lá..
No mais, o ideal é fazer como se fazia antigamente no Bracarense, quando mesas não havia e tanto o Chico quanto a Alaíde ainda eram celebridades apenas de bairro: leve a sua cadeira de praia e pronto. Ou, então, torça para que o banquinho do tipo praça da pizzaria ao lado esteja vago. Eu dei essa sorte.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Publicado em 25/3/2009

La Goulue: Paris em Copacabana

14/12/2009

Não dá mais para segurar, explode coração...

No fim da noite um casal, como que contratado pela casa para reforçar o caráter romântico do lugar, usou o palco para trocar juras de amor. Ele, um francês, ajoelhou-se. Disse algumas palavras, emocionado. Ela, brasileira, sentada na cadeira ocupada anteriormente pela cantora, fazia sinal de negativo com a cabeça, como que atordoada. Choraram. Abraçaram-se, beijaram-se. Foi bonito de ver. Pelo que entendi o rapaz volta pra França. A moça fica. Parece que vão se casar.
Se aquilo é teatro eu não sei. Mas se for verdade eles escolheram o lugar certo para a despedida – ainda mais em se tratando de algum francês. O restaurante La Goulue, em Copacabana, forma com a creperia Le Blé Noir, logo defronte, um dos enclaves mais franceses do Rio. Dá mesmo para se sentir um pouco na França em plena Xavier da Silveira – dos dois lados da rua.
O restaurante tem algumas particularidades. O chef Patrice Reignault, francês, é claro, desfila um repertório do cancioneiro popular de seu país em algumas noites. Noutras, músicos convidados sobem ao simpático e pequenino palco, com capacidade máxima para duas pessoas, acredito eu – bateria não cabe. A decoração tem um quê de cabaré, com pesadas cortinas vermelhas, velas, espelhos e quadros retratando a boemia parisiense.
Patrice chegou não faz muito tempo ao Brasil. Deixou para trás a sua estrela no Guia Michelin, adquirida no restaurante Des Peintres, que manteve até dois anos atrás, em Cagnes sur Mer, na Côte D’Azur. Coisa fina. Ele bolou o cardápio e eventualmente deve até manejar as panelas. Mas a cozinha hoje é comandada por uma jovem e muito simpática chef, que tem por hábito ir à mesa dos clientes saber o que achamos. Mostra boa técnica, alcançando um ponto correto nas carnes e equilíbrio nas receitas. O cardápio tem ícones franceses, a começar pelos patês do couvert, com pães caseiros quentinhos. Omeletes e suflês podem satisfazer os que estão com pouca fome. Para uma investida maior, há uma boa variedade de pratos, embora a lista não seja muito grande (ainda bem). Há peixes, cordeiro, pato, coq au vin, boeuf bourguignon… Patrice prefere controlar o salão, o que faz com cordialidade, agradavelmente.

O palquinho: Toda a noite é um tal de Charles Aznavour para cá, Ne me Quite pas para lá

Nem precisa dizer que o repertório musical é de clássicos franceses – seja lá quem se apresente. Toda a noite é um tal de Charles Aznavour para cá, Ne me Quite pas para lá. A cantora daquela noite, sensível, ficou visivelmente emocionada ao cantar Ne me quite pas. Depois confessou que foi por causa das carícias que tomaram conta do pequeno salão ao momento.
A carta de vinhos não é muito extensa, mas bem adequada à proposta da casa, o que significa o foco nos rótulos franceses, próprios para serem combinados com os pratos.
Saí com vontade de voltar. Queria ver o chef em ação. No palco, mas também na cozinha.
Nunca estive em Paris. Talvez seja até por isso. Mas por uma noite me senti num bistrozinho típico de Montmartre ou do Marais. Até porque o garçom, francês, mal falava português. Eu que tampouco falo a língua dele tive a mesma dificuldade em me comunicar com ele como teria em Paris. Será que ele fala português e, assim como o casal, estaria só criando um clima? Pode ser, pode ser.

Publicado em 26/4/2009

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Escola do Pão: o melhor café da manhã do Rio (e mais cinco bons lugares para se começar o dia)

13/12/2009

Sanduíches, fondue de queijo, ovo mexido, requeijão, geléias, pães e uma espécie de cocada: isso é só o começo

Há muitos bons lugares para começar o dia com um belo café da manhã no Rio de Janeiro (fiz até uma listinha lá no fim deste post). Mas nada se compara à Escola do Pão, no Jardim Botânico.  O desjejum só é servida aos sábados, domingos e feriados. Custa uns R$ 50 por cabeça.. Mas vale, viu?
A sequência começa com iogurte batido com frutas (delícia), coalhada com granola caseira e mel. Depois vem a cestinha de pão, com manteiga, requeijão e geléia, além de um fondue de queijos incrível. Quase no mesmo instante é servido o pratinho de sanduíches: ciabatta com queijo e blanquete, pão de leite com brie e damasco, cachorro quente em pão fofinho… Em seguida vem o curau delicioso e, se não me falha a memória, vem até um ovinho mexido.

Cachorro quente, o preferido da Maria Luisa: “ô, delícia”.

Nisso a Clécia Casagrande passa pela mesa, pergunta se queremos algo mais. Pedimos mais uns cachorros quentes, o preferido da Maria Luisa.

Bolinhos no encerramento: mais um café, por favor

Café e suco de laranja são servidos novamente. Nisso, chegam os bolinhos, petit fours, biscoitinhos e afins. Com os docinhos, encerramos o café da manhã. E só vamos pensar em comida de novo à noite.

E, para terminar, mais lugares em que vale a pena tomar café da manhã no Rio de Janeiro:
Da Casa da Tatá – Lojinha charmosa na Gávea, serve um café com jeito de roça: bolos caseiros, pamonha, café passado no coador, pão de queijo, geléias…
Garcia & Rodrigues – Já foi mais barato, mas a ótima seleção de pães, e a possibilidade de turbinar a brincadeira com os frios especiais e também com as pastas, conservas e outras coisinhas da rotisserie da casa, fazem o café do Garcia um dos mais legais do Rio.
Talho Capixaba – Alguns dos melhores pães da cidade daquele deste forno. Há pouco temo ganhou um mezanino, o que melhorou bastante a estrutura para quem quem tomar café ali. O problema é que todo mundo se tocou disso…
Café Botânica – Dentro do Jardim Botânico, tem aprazíveis mesinhas do lado de fora, contornando as árvores. Bons cafés e bolos.
Copacabana Palace – Pelas mesmas razões do brunch, tomar café no Copacabana Palace é a melhor de todas entre os hotelões do Rio. Porque o Copa é o Copa.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Onde jantar na noite de Natal no Rio – parte 1

13/12/2009

Espumante no Bar do Le Pré Catelan: bom lugar para a ceia

Onde jantar na noite de Natal?
Esta é a pergunta do Nuno, de São Paulo, que estará em Copacabana com a família na noite do dia 24.
A Luciana Froes escreveu ontem em seu ótimo blog um texto a respeito disso, lembrando que comer em restaurantes cariocas na data é mais caro que em Paris, Santiago, Lisboa e Londres.

Bom, para começar é crescente o número de restaurantes que abrem na noite de Natal, com cardápio especial para a data.
Vou dar uma pesquisada sobre o assunto, tá?

Mas já adianto que, estando em Copa, os melhores hotéis do bairro são boas opções. Eu, em primeiro lugar, pensaria no Copacabana Palace e no Sofitel (na foto o Le Pré Catelan, restaurante do hotel comandado por Rollard Villard). No Fasano, bem perto de Copa, também deve haver algo bem interessante.  Certamente serão programas caros, ali entre R$ 250 e R$ 350 por cabeça.
Nesta semana vou pesquisar sobre os restaurantes do bairro e nos próximos dias faço outro post, sobre a programação dos restaurantes, ok?