Fernando Pessoa, a Ilha Grande e eu

Fernando Pessoa, numa parede qualquer do Bairro Alto, em Lisboa: há quem diga que ele tinha um parafuso a menos, eu vejo aí dois a mais, um no coração, outro na cabeça, bem na aba do chapéu

Conheci Fernando Pessoa mais a fundo ao mesmo tempo em que desbravava a Ilha Grande pela minha primeira vez. Ali por 1993, 1994. Sentava na praia e pensava em versos do poeta. Quase sempre trechos de O Guardador de Rebanhos (do heterônimo Alberto Caieiro). Para mim esta é uma obra absolutamente essencial aos jovens em busca de respostas sobre a vida, e Deus, e as coisas todas, com a simplicidade da escrita que a idade merece, mas sem deixar as reflexões de lado. É algo filosófico, e profundo, mas de fácil entendimento.
Repetia na cabeça muitos pedaços deste longo e complexo, e intrigante, e provocador, e lindo poema.
Um dos que mais gosto vieram à cabeça repetidamente nos dias que passei lá, nos dias depois da chuva, e da tragédia.

“Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora”

E lá por 93, 94, um dos pedaços do poema O Guardador de Rebanhos de que mais gostava era esse aí de baixo, que me fazia meditar sobre a vida sentado nas areias da Ilha Grande, vendo as montanhas, o céu, o mar e os barquinhos, imaginando os peixes que estavam ali debaixo das águas, e os macaquinhos que viviam nas árvores, os passarinhos que voavam, e as estrelas que  só podia ver dali, porque não tinha quase nenhuma luz, ao contrário do Rio de Janeiro, das cidades. Pensava na beleza que havia naquele lugar, no quanto gostaria de estar ali repetidas vezes. Esses versos me ajudaram a enxergar, na Ilha Grande, que o mundo é muito mais bonito do que eu poderia supor. E que há coisas que só percebermos se quisermos, se tentarmos, se formos.

“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver”

Índice de posts de cidades no estado do Rio de Janeiro: clique aqui.

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4 Respostas to “Fernando Pessoa, a Ilha Grande e eu”

  1. Luana Rocha Says:

    nossa, adoro alberto caieiro. obrigada por me lembrar dele e de sua poesia! 🙂 bjs

  2. Bruno Agostini Says:

    É o que mais gosto em Fernando Pessoa, além de Tabacaria, de Álvaro de Campos.

  3. Léo Says:

    tenho lembranças semelhantes com Trindade…a antiga…ficava ali na praia do meio pela noite, olhando a silhueta das montanhas, violão de um lual tocando ao fundo…o tempo bom!

  4. Índice de posts de cidades no Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] – O réveillon na Ilha Grande – Acidente na Ilha Grande: por um triz? – A caminho da Ilha Grande – Fernando Pessoa, a Ilha Grande e eu – Que tal visitar a DPO da Ilha […]

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