O carnaval e o tempo (ou vice-versa)

O Simpatia é Quase Amor invade a Vieira Souto, em Ipanema: um dos blocos que revitalizaram o carnaval de rua do Rio (que, aliás, está completando 25 anos em 2010)

Houve um tempo, até o que eu classificaria como início da minha juventude, ali pelos 20 e poucos anos, em que todos os cariocas queríamos viajar no carnaval. Em meados da década de 1990 nenhum jovem queria saber do carnaval no Rio. A Bahia era o sonho de consumo, fosse na pipoca de Salvador, nos blocos de Porto Seguro, nas raves de Trancoso e Arraial d’Ajuda, nos forrós de Caraíva ou nos reggaes de Itacaré. Quem não podia ir tão longe se contentava em chegar até os arrasta-pés de Itaúnas, no Espírito Santo. Ou mais perto, até Trindade ou Ilha Grande, aqui no estado do Rio mesmo, rústicos por natureza. Ou queríamos a loucura coletiva dos blocos das cidades históricas de Minas. Alguns subiam a serra atrás dos bailes dos clubes de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Muita gente buscava os trios elétricos farofados de Cabo Frio e Arraial do Cabo. E havia até quem se escondesse nas montanhas de Mauá. Muitos iam a Búzios atrás de um carnaval sem carnaval. E o inacreditável Bloco da Lama já atraía atenções para a folia no Centro Histórico de Paraty. Mas quase ninguém ficava no Rio. A cidade se esvaziava, não havia confusão. Eram como gatos pingados os foliões. Os blocos, poucos, circulavam sem problema. Há quem sinta enorme saudade deste tempo. Havia apenas meia dúzia de cariocas que saíam em seus blocos. E por alguns anos pareceu que o carnaval de rua do Rio acabaria. Alguns chegaram a decretar o seu fim. Tínhamos a impressão que até o carnaval dos salões, dos bailes, da gente fantasiada, também estavam em vias de extinção. Todos viajávamos porque estávamos fadados ao carnaval monotemático da escolas de samba. Por anos a folia de Momo era praticamente um recreio de gringos na Sapucaí. Havia alguns heróis, que bravamente mantinham o carnaval de Rua. A Banda de Ipanema, a Banda da Sá Ferreira, o Cordão do Bola Preta, o Cacique de Ramos. E havia também a feijoada do Ricardo Amaral. Muito peito de fora (Quem não lembra: “tem bumbum de fora pra chuchu/ Qualquer dia todo mundo nu”), mulatas e ziriguidum. O carnaval virou indústria. Os bambas do Império Serrano fizeram a previsão em 1982: “Super-escolas de samba S.A./ Super-alegorias/ Escondendo gente bamba/ Que covardia!/ Bum bum paticumbum prugurundum/ O nosso samba minha gente é isso aí”.
Do meio da década de 80 em diante, ali por 1985, 1986, tempos de abertura política, cenário que favorecia a proliferações de agremiações irreventes, traço comum a quase todos os blocos do Rio, surgiram alguns dos símbolos da nova era do carnaval carioca. Foi quando nasceram o Simpatia é Quase Amor, o Suvaco do Cristo e Bloco dos Barbas, entre muitos outros. Era um sinal de recuperação. Ao mesmo tempo parece que a qualidade dos sambas-enredo das escolas de samba diminuiu. Vai lá, diz aí, canta um samba do ano passado. O único que alguém sabe cantar – e muita gente sabe de cor e salteado, é o do Império Serrano, reedição do carnaval de 1976. Quem não lembra de “ A Lenda das Sereias. E os Mistérios do Mar”? Quem não lembra dos refrões (“Ela mora no mar/ Ela brinca na areia/ No balanço das ondas/ A paz ela semeia” e “Oguntê, Marabô / Caiala e Sobá/ Oloxum, Inae/ Janaína e Iemanjá/ São rainhas do mar”)? Quem não lembra? Tem sido assim nos últimos anos. Só lembramos dos sambas antigos. Nada mais fica, todos duram até a Quarta-Feira de Cinzas. Uma pena.
Mas voltemos aos blocos. A coisa foi pegando aos poucos, de meados da década de 1990 em diante. Foi só cerca de 15 anos depois, na virada do século, ali pelo ano 2000, que o carnaval de rua no Rio se restabeleceu e tomou outra dimensão. Que Bahia, que nada, vamos curtir os blocos, virou o coro da juventude. E foram surgindo novas agremiações, num processo de multiplicação digno de coelhos.  Aí, ano após ano, os blocos e cordões nasceram em ritmo alucinado. Vários ritmos se incorporaram à festa, especialmente os nordestinos. O coco, a ciranda, o maracatu. A sonoridade ampliou as fronteiras. A festa ficou muito democrática (e cresceu demasiadamente. Alguns blocos, como o Suvaco e o Boitatá, passaram a esconder o horário dos desfiles). Hoje, no carnaval do Rio, se escuta de tudo, até música eletrônica, lamentavelmente. Nasceram o Monobloco, o Céu na Terra, o Cordão do Boitatá e dezenas, centenas e, se continuar neste ritmo, logo, logo, milhares, de blocos, cordões, bandas, corsos e outras denominações carnavalescas. Isso não aconteceu sozinho. Era como um movimento paralelo, que incluía a revalorização da Lapa e da Gamboa, que passa pelo resgate do samba, do choro e de outros ritmos ditos populares que voltaram a fazer jus ao adjetivo. Aconteceu junto ao amadurecimento da nova geração de músicos, que imprimiu uma nova roupagem à tradição. Jovens virtuosos, cheios de influências sonoras, ousados,gente que veio de outros estados, como o gaúcho Yamandú Costa, e também de outros países, como a rapaziada bem pirada do Songoro Cosongo e o violinista francês Nicolas Krassik, que virou um dos maiores nomes do choro, veja só. Vendo o gringo tocar todos juram que é carioca – da gema. Ele é uma espécie de Troisgros do choro.    Com o carnaval de rua novamente valorizado, foi a vez dos salões voltarem a ganhar importância. Quando todos os cariocas só queriam saber de viajar nas férias, entre o fim da década de 70 e a virada do milênio, que glamour poderia haver nos bailes de salão? Nenhum. Os bailes viraram coisa do passado, assim como o entrudo, o maxixe, o rei Momo gordo, os desfiles de fantasia sempre vencidos pelo Clóvis Bornay, e os corsos. Mas quando o carnaval de rua voltou com tudo e os cariocas começaram a considerar ficar por aqui durante a folia, para aproveitar o renascimento dos blocos, a festa cresceu em novas direções. O Terreirão do Samba virou point, o calendário de eventos carnavalescos parece inesgotável ao longo de todo o ano, a Cidade do Samba foi construída, os ensaios técnicos da Sapucaí viraram um programaço, e não só o carnaval, mas o samba e seus derivados começaram a viver anos de glória. Glória que nunca houvera. Não custa lembrar que o samba, o carnaval e todas essas manifestações populares sempre foram vistas com preconceito pela elite. Agora parece que não são. Que bom.

3 Respostas to “O carnaval e o tempo (ou vice-versa)”

  1. Carnaval já bate na porta! « Juliana Amorim Says:

    […] O carnaval e o tempo (ou vice-versa) […]

  2. Luana Says:

    Ah, Bruno, eu amava o carnaval do Rio do início dos anos 2000, quando só os cariocas (e poucos) conheciam. Peguei o último desfile do Boitatá de tarde. Foi uma bagunça gostosa, encheu bastante, mas ainda assim estava suportável. Acho que isso foi em 2003. Depois disso, a coisa degringolou. No ano seguinte, o Boitatá desfilou pela manhã cedo pra tentar evitar tumutlo, sem sucesso. Depois, já teve que abdicar do cortejo e fazer somente o baile. Ano passado, fui lá pra tentar ver o bloco na Praça XV. Só vi muita gente bêbada, muita sujeira e nenhuma música. E isso era pela manhã. Desisti logo. Depois me disseram que o bloco demorou a chegar ao palco, pois o que era pra ser um pequeno cortejo pra chegar até lá virou uma multidão que não permitia aos músicos chegarem. O Bola Preta também anda impraticável. Céu na Terra idem… Pra mim perdeu um pouco a graça…

  3. Um pouco de carnaval « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] O carnaval e o tempo (ou vice-versa) […]

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