Ilha do Araújo, em Paraty: vida de caiçara

Para chegar é preciso pegar um barquinho para a travessia de 15 minutos

Sem contar Teresópolis, onde já morei e minha mãe tem casa, o destino mais freqüentado por mim nos últimos anos é Paraty – já foi Búzios, primeiro, e Ilha Grande, depois. Já devo ter visitado a cidade umas 40 vezes no total. Mas ainda assim há muito a descobrir e visitar. O Saco do Mamanguá, Cajaíba, tantas praias e ilhas.
Desde que comecei a fotografar as festas religiosas de Paraty, em 2003, tenho muita vontade de conhecer a Ilha do Araújo, ponto final da linda e famosa procissão de barcos da Festa de São Pedro e São Paulo, em junho. Aliás, as duas mais importantes festas da ilha acontecem quase juntas. O Festival do Camarão praticamente emenda com a novena do padroeiro dos pescadores. O evento gastronômico celebra, no segundo fim de semana de junho, o término do período de defeso do crustáceo (por três meses, a partir do dia primeiro de março, é proibido pescar a iguaria). Desfilam pelas mesas várias receitas com o bicho: tem camarão casadinho, bobó, pastel… É uma festa do povão. Portanto, pode esperar música alta, bandeirinhas e barraquinhas de madeira – sim, uma quermese bem do interior mesmo.
A igrejinha de São Pedro (na foto) é uma graça. Ao seu lado um boteco vive cheio de moradores, bom lugar para uma prosa a fim de se aprofundar na cultura local.
A ilha é colada ao continente. Da Praia Grande não se gastam mais de cinco minutos para se chegar ao “centrinho” da ilha. De caiaque dá para ir brincando – é comum cruzar com moradores indo e voltando em suas canoas quase indígenas. Fica bem perto da costa, uns 50 metros, tanto que a luz chega pelo alto, através de duas estruturas de metal. São três pousadinhas e muitas casas para alugar. Há coisas bastante simples, mas também mansões com deque e garagens que guardam lanchas de respeito.
A ilha tem os problemas típicos do nosso litoral. As construções ocupam as encostas e praias, chegando sempre à beirada do mar. Uma espécie de servidão passa por todas as propriedades que devem dar passagem às pessoas. Nas zonas mais digamos, urbanizadas, há despejo de esgoto e lixo, sem falar no óleo das embarcações. Mas predomina um bucolismo caiçara muito típico. É tudo simples e gostoso. Despojamento total. E há praias muito lindas alcançadas em caminhadas ou em rápidos passeios de barco – como a Prainha, que fica no continente, mas é separada da Praia Grande por uma trilha de 200 metros que permitiu a sua conservação (existem uns quiosques ajeitados), mas infelizmente boa parte da mata nativa deu lugar a um gramadão de alguma propriedade de veraneio. Outro passeio concorrido é à Ilha do Sapê onde existe um bar numa pequena prainha de águas calmas. Delícia para gastar o dia entre mergulhos, copos de cerveja e garfadas num peixinho frito – a lula bate um bolão também.
Como boa comunidade caiçara, a farinha de mandioca não pode faltar na Ilha do Araújo. Na ilha há pelo menos três casas de farinha que fazem um ótimo produto. Uma trilha circunda a ilha praticamente inteira e outras a cortam em vários sentidos formando um lugar perfeito para caminhadas.
Eu fiquei na Pousada Ilha do Araújo, simples, honesta e muito agradável. A família proprietária é gentil e hospitaleira. Contando com os aposentos dos donos (um casal com um menino de uns 11 anos) são sete quartos no total. Tem uma cozinha externa e uma TV comunitária onde é servido o café e onde os hóspedes se reúnem à noite para jantar, ver novela e o Jornal Nacional. Falando em mesa, a comida é bem gostosa, caseira e bem-feita, usando ingredientes frescos sempre. Claro, frutos do mar são a especialidade. Num dia pode haver peixe com molho de camarão. Noutro, moqueca de peixe com lula. Depois um peixinho grelhado. Quem curte pode até levar a sua churrasqueira e mandar ver os seus peixes e frutos do mar na brasa – ou mesmo a picanha, o que ali é a meu ver um verdadeiro desperdício. Para aproveitar a ilha o negócio é entrar no clima caiçara. Ficar descalço, sem camisa, de vez em quando deitar na rede, ver o dia passar olhando o mar e pensando na vida. É contemplar a simplicidade.
Sabe que voltei outra pessoa de lá?

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5 Respostas to “Ilha do Araújo, em Paraty: vida de caiçara”

  1. Lucia Helena Torres Says:

    Puxa Bruno,

    Que achado esse seu post! Eu adoro Paraty e também suas festas religiosas…Ainda não consegui presenciar um feriado de Semana Santa em Paraty, quando há na cidade uma linda festa com tradições que remontam o sec. XVII e XVIII. Em especial, gostaria de assistir à Procissão do Fogaréu (aqui no Rio, já participei desta festa no Mosteiro de São Bento, sempre à meia noite), e também, em Paraty, gostaria de assistir à abertura dos passos…Além disso, adorei a dica da Ilha do Araujo, que também não a conheço. Está anotado para a próxima ida!
    Abr,
    Lu
    Rj

  2. Índice de posts de cidades no Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] – Paraty: o lindo calendário das festas populares – Paraty em foco – Ilha do Araújo, em Paraty: vida de caiçara […]

  3. Ana de Fátima de Macedo Says:

    Conheci a Ilha do Araújo antes de me casar e gostei tanto dos amigos que fiz por lá, que acabei passando minha lua de mel com um grupo de amigos e meu filho que na época já tinha uns 7 anos. Naquela época não havia pousada e a ilha pequenina que tinha um peixe delicioso era conhecida como Ilha Sapeca e não Sapê, águas super cristalinas. Vou recuperar as fotos e enviar para vocês conferirem. A propósito o barzinho do lado da igreja era dos pais do Almir, que pintava alguns quadrinhos para vender para os turistas. A minha comida preferida era arraia e a mãe dele fazia pato assado que era o must. Saudades, tempo bom aquele, hoje meu filho está com 29 anos. Quem sabe um dia retornaremos ! Vale muito a pena conhecer, principalmente se você gosta de coisas e de pessoas simples !

  4. Mário Says:

    Conhece Paraty cerca de uns 10 anos e quase todo ano voltamos lá, inclusive, na última ida conhecemos uma praia da Ilha do Araújo por meio de um barqueiro que leva o pessoal para um quiosque quase de frente para a Praia Grande. Entretanto, vi neste post que a ilha é muito mais do que conhecemos. Vamos voltar outras vezes, Paraty é tudo de bom.

  5. ZU Says:

    NÃO CONHEÇO….ESTOU PROCURANDO UM LUGAR BEM TRANQUILO PARA MORAR …A ILHA SERIA UM BOM LUGAR?…É PARA MORAR SOZINHA…TEM PERIGO?

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