Archive for março \31\UTC 2010

Jantar de camarote no Le Pré Catelan e no Gero

31/03/2010

A mesa no escritório do Roland Villard tem vista para a cozinha

Depois de subir pelo elevador panorâmico e anunciar a reserva, o garçom nos conduz por caminho oposto ao usual. Logo invadimos a maior cozinha do Rio, com mil metros quadrados. Desta vez, nada de mesa com vista para a Praia de Copacabana. Trocamos o balanço do mar do Posto 6 pelo escritório de Roland Villard, que nos saúda.  “Bem-vindos ao rodízio francês. Você come o quanto quiser, o que quiser”. Com esta frase animadora a quem está com fome ele recebe os clientes que reservaram a “Table du chef”. O exclusivíssimo jantar para no máximo quatro pessoas acontece numa mesa dentro do escritório de Roland, na cozinha do restaurante Le Pré Catelan, no Sofitel. São apenas quatro comensais por noite e o programa só acontece quando o chef está presente. “Eu mesmo cozinho e sirvo, explicando detalhes da receita, a maneira mais indicada de comer. Só dá para ser assim”, explica.
A fartura “Me inspirei nas churrascarias rodízio, onde você come à vontade. Quase coloquei uma bolachinha daquelas verde e vermelha”, brinca. “É praticamente igual ao Porcão. Quer dizer, um pouco mais caro, né?”, diz em referência aos R$ 410 (com água e café incluídos) cobrados per capita pelo programa.

Como pano de fundo para o jantar, livros, diplomas, fotos...

Ele primeiro apresenta seus aposentos de trabalho. Ficamos sabendo que a mesa foi colocada ali para receber fornecedores, fazer reuniões e entrevistas, degustar novos pratos. A nova finalidade foi dada há pouco mais de um ano. Pelas paredes do escritório todo envidraçado, ao lado de diplomas e cardápios dos eventos da semana no hotel, fotos mostram Roland com várias personalidades, de Jacques Chirac e Pelé a Paul Bocuse. Sobre a mesa, ao lado do computador, muitas garrafas. As cheias são para provas. As vazias, exemplares especiais deixados pelos clientes, como uma magnun do Château Margaux, esvaziada ali mesmo. Um cozinheiro vez ou outra abre a geladeira dali para pegar algum ingrediente especial, como os capuchinhos, aquelas flores comestíveis. Ao lado da mesa com apenas quatro lugares temos uma biblioteca gastronômica a nos distrair. E o ar-condicionado não deixa o calor das chamas incomodar. Quem quiser pode levar algum CD para ser a trilha sonora. Ou deixar, como a maioria, a seleção musical a cargo de Roland.
“Alguma restrição alimentar? Algum ingrediente de que não goste?”, ele pergunta antes de definir o que será servido e voltar ao fogão. Normalmente os pratos, servidos em pequenas porções, vêm de três em três. “Gosto de servir assim. Faço trio de sopas, de peixes, de crustáceos, de foie gras, de massa, de carne e assim por diante até a pessoa estar satisfeita. Dessa forma é possível mostrar a versatilidade dos ingredientes, trabalhar com variedade de texturas, com temperaturas diferentes, com contrastes”, diz.
Logo começam a chegar as criações do chef, que variam bastante dependendo do que a feira traz, da disponibilidade dos ingredientes. Primeiro, três sopinhas: creme de abóbora com anis, alho poró com bacon e aspargos com massinha folheada. Depois veio a trilogia de atum. No pratinho, um tartar com carne bem picadinha, uma salada com o peixe desfiado e um pedacinho semigrelhado com crosta de ervas. Um dos pontos altos da noite foi o passo seguinte, a trilogia de peixes. Um copinho de purê defumado de batata baroa era rodeada por salmão defumado e levemente grelhado, costeletas de tambaqui com (indispensável) molho feito com caldo e aves e tomilho e robalo com cuscuz com flor de laranja e mini agrião. Do mar ainda vieram três receitas de crustáceos: camarão com risoto de limão, salada de lagosta e cavaquinha com tomate ao molho de ervas.
Entre um prato e outro podemos acompanhar o movimento frenético na cozinha. Mais ou menos à esta altura do jantar, Roland convida os clientes para um tour pela cozinha. Na volta, os pratos agora vêm da terra. O trio de foie gras confirma a habilidade do chef em trabalhar com o ingrediente com criatividade. A terrine com flor de sal veio no ponto. Mas melhor ainda estava o ravióli de fígado gordo com alho poró e molho de pato. E ainda mais gostoso era a tarte tatin salgada, cuja massa, coroada por um escalopinho de foie, levava flor de hibisco e palmito picadinho.
Já me daria por satisfeito, mas não pude recusar o trio de carnes: vitelo, carré de cordeiro desossado com molho roti e um Rossini, com mais um daqueles escalopinhos de foie de fazer delirar. Para acompanhar, um gratin de batatas com queijo reblouchon. Ficou faltando o trio de aves, o trio de massas. Fiquei muito longe do recorde: “Um casal italiano veio aqui e, ao saber que o recorde eram 32 pratos, decidiu tentar bater. Comeram 33 pratos”, lembra.
Dispensei novos trios, mas não um prato de queijos. Nem tampouco o suflê de mousse de chocolate com sorvetes de framboesa e baunilha e o crème brulée de maracacujá. E muito menos o chá com docinhos.

Chico Buarque e Malu Mader são fãs da mesa na cozinha do Gero

Para testar novos pratos e ver o andamentos das receitas Rogério Fasano gosta de ter nas cozinhas de seus restaurantes pequenas mesas. No Gero carioca também é assim. Só que certa vez o Chico Buarque chegou para comer lá e não havia mesa nem sequer lugar para ele se sentar nos sofazinhos à porta. Então alguém sugeriu a mesa da cozinha. Chico foi e não quis mais saber de outro lugar na casa. A fama correu. Virou nota em jornal. A exceção acabou virando regra e hoje qualquer cliente pode ligar reservando a mesa da cozinha. “Não é tão difícil. Basta ligar na hora do almoço que você consegue uma reserva”, garante Atargedes Alvez, o maitre da casa.
O conforto não é dos maiores. O lugar não foi projetado para isso. Fica ao lado da escada, entre a cozinha e o freezer, em frente a fornos pequenos para esquentar entradinhas. Isso pode ser ruim para quem só quer almoçar. Ver os garçons subindo com os pedidos freneticamente, ainda que carregando a bandeja com elegância, só é divertido pra quem curte muito a culinária. Não é um lugar para que só gosta de comer, mas para quem curte cozinhar.
“Dá para prestar atenção no preparo. Uma vez pedi um risoto e fiquei de olho para ver como preparam. Você pega as manhas, conversa com os cozinheiros, com os garçons. O ritmo de trabalho é uma loucura, é bonito ver aquelas coisas deliciosas todas sendo feitas”, conta Malu Mader, outra fã da mesa.
Na mesa cabem até quatro pessoas. Mas um casal é o mais recomendável. O cardápio é o mesmo. Mas dá para dar um pitacos nas raceitas. É só pedir diretamente ao chef.

Publicado na revista Oh!

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St. Gallen: mais uma cerveja deliciosa feita em Teresópolis

30/03/2010

Do tipo weissbier, de trigo, é encorpada e cremosa, com sabores intensos, uma ótima companhia para pratos como salsichão com salada de batatas e mostarda picante

Isso foi lá pelo fim de 2006, no máximo começo de 2007. Morava em São Paulo e todos os fins de semana vinha ao Rio ver a família.
Às vezes, subia a serra de Teresópolis. Numa dessas curtas viagens fui a um bar, o Caldinho de Piranha, e fui apresentado à cerveja Therezópolis. Ficou uma delícia com os caldinhos, pastéis, tentáculos de polvo ao alho e óleo e camarões acebolados no vapor – nosso corriqueiro pedido ali.
Me encantei com a novidade, vendida numa garrafinha de 600 ml gorduchinha. Tanto que comprei umas garrafas para dar de presente ao meu camarada Paulo Vieira.
Ofereci a ele o regalo, afirmando que aquela era uma das melhores, se não a melhor, cerveja brasileira, feita em Teresópolis, artesanalmente.
Ele ficou feliz, e adorou mesmo a cerveja.
Mas eu é que tive uma certa decepção.
Na mesma semana, numa visita ao Empório Santa Maria (na época, morava ali ao lado e ia sempre) encontrei a cerveja que eu julgava ser dificílima de se encontrar.
Mas, tudo bem.
Desde então, nos melhores mercados, bares e restaurantes, ficou fácil dar de cara com a Therezópolis (pelo menos no Rio e São São Paulo). Tem no supermercado Zona Sul, no Frangó, bar especializado em cervejas, em São Paulo, tem em muito boteco de esquina – e há alguma tempo foi lançada uma versão com a metade do tamanho.
Agora a cervejaria Sankt Gallen (este é o nome da empresa) lançou um novo rótulo, o St Gallen, uma Weissbier do tipo Ale, igualmente deliciosa. Feita com trigo, é cremosa, com uma coloração de caramelo e sabores intensos. Uma ótima companhia para pratos de embutidos, com um bom salsichão com salada de batatas e uma mostarda picante.
Os planos são ambiciosos. Ainda em abril deve chegar ao mercado mais uma cerveja, do tipo Dunkelweiss (que é outra cerveja de trigo, mas esta é escura).
E não param por aí as novidades. O próximo passo é abrir a cervejaria a visitação, inaugurando um bar e criando um roteiro para turistas conhecerem o processo de fabricação.
Serei um dos primeiros clientes.

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Ao mestre Armando Nogueira: obrigado

29/03/2010

“No futebol, matar a bola é um ato de amor”.

O Armando Nogueira era craque. Escrevia com uma enorme ternura sobre os esportes, de maneira deliciosa.

Foi um dos responsáveis por me fazer jornalista.

Ali por 1986, aos 10 anos, embalado pela Copa do Mundo, comecei a ler os livros do mestre, presenteado principalmente pela avó, fã do diretor da Rede Globo.

Tenho vários deles até hoje.

Armando criou frases maravilhosas, como a que abre este texto.

Eu lia as suas crônicas com vontade. Nunca me esqueço de uma chamada “Bolando a Bola”. Nela, o escritor narra o encontro com uma bola, surrada pelo jogo, após uma partida de futebol. Ela,  que era a estrela no campo, ali no vestiário, quietinha, falando de como é a vida de uma bola de futebol. Algo de realismo fantático, lírico, lúdico, mágico.

Hoje tenho saudade daquelas tardes em que folheava os seus livros formando, ao mesmo tempo, meu gosto pelo jornalismo, pelas palavras, pela doçura.

Logo depois da Copa de 86, encantado por Maradora, Armando, seu xará, escreveu um lindo poema.

Dizia mais ou menos assim.

“Amar a Deus sobre todas as coisas

Amar a bola

A. Maradona”

Achava isso tudo tão lindo que por anos cultivei o sonho de me tornar jornalista esportivo. E, se hoje escrevo sobre viagens, comidas e vinhos, tudo começou lá atrás. Armando Nogueira sempre foi um jornalista modelo para mim.

Obrigado, mestre, obrigado.

Uma refeição de seis horas e mais de 20 pratos no Per Se, o melhor restaurante dos Estados Unidos

28/03/2010

A vista do Central Park é linda a qualquer momento, mas este, na transição da tarde para a noite, desconfio que seja o mais belo

Não bastam os US$ 275 cobrados pelo menu degustação para jantar no Per Se. É preciso planejamento e certa paciência. Nem pense m reservar uma mesa na noite anterior. Uma semana antes também não funciona. Um mês, é difícil. Para garantir uma refeição ali, melhor seguir o conselho do site: ligar dois meses antes da data do jantar. Nem um dia antes nem depois, pois todas as reservas se esgotam logo. Meu jantar começaria às 17h, com o sol ainda brilhando em Manhattan. Era o único horário em que conseguiram me encaixar depois de meia dúzia de e-mails de suplício por uma vaga. Como é quase impossível conseguir uma reserva por telefone ou pelo Open Table (www.opentable.com), usar a criatividade é a solução. Escrever que vai visitar Nova York só para comer lá, dizer que sonha com isso há anos ou que é uma surpresa para a namorada pode ajudar um bocado.
Seria minha primeira refeição três estrelas Michelin. Dizer que senti um frio na barriga ao chegar, vinte minutos antes da minha reserva, não é exagero algum. As mãos suavam quando me anunciei: “Senhor, o restaurante ainda está fechado, abre em 20 minutos. Mas se o senhor quiser podemos acomodá-lo na sua mesa, que já está quase pronta”, me respondeu a simpática garçonete que, depois fui saber, era brasileira. Foi um agradável primeiro contato com o serviço impecável do Per Se. Para muitos se trata do melhor restaurante de Nova York – ficou em quinto lugar na eleição dos melhores restaurantes do mundo da revista inglesa Restaurant. Através de televisores, Thomas Keller, que fica mais na Califórnia cuidando de sua outra casa, o The French Laundry (sexto na mesma votação), comanda a equipe afinada. Declinei da gentileza de me acomodar mais cedo e preferi dar uma volta pelo chiquérrimo Time Warner Center e espiar vizinho Masa, considerado o mais caro dos restaurantes americanos.
Pontualmente 20 minutos depois cruzei a bela porta azul e vi um salão vazio, com mesas espaçadas e uma vista espetacular. Era o primeiro cliente da noite. Fui conduzido ao meu lugar, na cara do gol, no caso o Central Park.
Dali em diante foi uma sucessão de emoções, experiências gastronômicas quase transcendentais.
Primeiro um conezinho com a massa mais fina e crocante que já comi, recheada com salmão e cream cheese com gergelin preto e cebolinha francesa. Para acompanhar, um Veuve Clicquot Vintage Reserve 99. Pedi um repeteco, não resisti. Depois, dois pequenos pães de queijo com cream cheese que fariam mineiros lamber os beiços.

A coisa começou a ficar séria quando chegou uma sopa de cebola “de verão” servida com um delicada sanduichinho de tomate san marzano com tomilho por cima, resultando numa combinação perfeita de texturas e sabores com extrama simplicidade. Em seguida, um sorbet de cenoura com coulis de coentro e crumble de pine nut, um primo próximo do nosso pinhão. Ainda no capítulo frios, um clássico da casa que nunca sai de cartaz: “oyster and pearls”, outro prato que remete ao Brasil: sabayon de pérolas de tapioca com caviar de esturjão Ossetra. Servido na colher de madrepérola, é uma explosão de sabores.
Num bowl de metal foi servido o sashimi de atum kendai, de carne mais clara, com flor de alho, flor de sal e umas cascas delicadas de uma espécie de laranja, conhecida como kumquat.
Quando a garçonete se aproximou com a bandeja seguinte e retirou a tampa, um aroma defumada tomou conta da sala: era o tempurá de firefly squid, uma espécie rara de lula, servido com óleo de pimentão vermelho, tapenade de azeitonas pretas e um fumê de macieira.
Servido dentro da casca de um ovo, lâminas de batata com ragu de trufa negra e uma infusão cremosa de trufas brancas. Ai ai ai… Foi a deixa para uma dobradinha minimalista, chamada “trippa oreganata”, com molho de tomate san marzano  e orégano.
Era só o começo. Para limpar a boca, uma seleção de ótimos pães e manteiga servidos com uma  bandeja com sete variedades diferentes de flor de sal, algunas raríssimas, vindas de solo vulcânico havaiano ou do Himalaia. Uma coisa.
Devidamente livre das sabores anteriores, recebi  os aspargos brancos holandeses com molho de manteiga caramelada com croûtons de pão de campagne, confit de limão e pequenas folhas amarginhas.
Foi o abre-alas para a terrine de foie gras com gelatina de trufas com vinho Madeira.

A terrine de foie gras com gelatina de trufas com vinho Madeira saindo da cozinha: parece linha de montagem de indústria, mas é puro artesanato

Um purê de batatas com salsão servia de base para nacos de um delicado linguado levemente empanado. Os lagostins escoceses vieram confit de alcachofras, pimentões em tirinhas, favas e consomê de mariscos.
A mesma fava recheia o tortellini regado com um especialíssimo azeite italiano de baixa acidez e muito aromático, produzido artesanalmente.
Antes da rodada de queijos, servida com uma cerveja artesanal produzida especialmente para o Per Se, uma codorna com maçã pochê e nabo japonês que precedeu a degustação do “cordeiro de primavera” com inguiça, costeleta, pescoço e filé.
E ainda teve uma bateria de sobremesas, uns petit fours, uma bandeja de chocolates e, antes de sair, umas balas caseiras que trouxe para dar à filha.
Assim, seis horas, mais de 20 pratos e muitas taças de vinho depois, minha jornada acabou. Desde então, sei que na minha próxima visita a Nova York uma coisa não pode faltar: um jantar no Per Se.

Publicada na primeira edição da revista Oh!

Restaurantes para uma refeição inesquecível no Rio de Janeiro

26/03/2010

Sobremesa do menu amazônico do Le Pré Catelan, um chocolate “empanado” com coco ralado e recheado com uma calda de coco acompanhado de um trio de sorbets: um dos melhores cardápios em cartaz 

Ontem recebi um e-mail de um leitor aqui do blog.

Escrito assim.

 “Fala Bruno, tudo bem?
Quero gastar uma graninha num bom jantar, tipo conta final a 400, no máximo 500 reais, com direito a vinho…
O que vc me indica?
Pensei no eñe com o menu de 140 pratas, mais uma tacinha de espumante e uma garrafa de alguma coisa. O que vc me diz? Mais opções? Não queria nada muito afetado (que possa ir de jeans por exemplo).”

Quando alguém me pede dicas para uma refeição memorável no Rio me lembro primeiro do Le Pré Catelan, para mim o melhor restaurante do Brasil no momento. Serve a melhor comida entre todos. A nova coleção de trilogias, e o menu amazônico são garantia de uma refeição feliz (na foto, uma das sobremesas do menu amazônico, o chocolate empanado no coco recheado de calda de coco com trio de sorbets). Mas lá, escolhendo algum desses menus, a uns R$ 230 cada, a conta vai ultrapassar o teto estabelecido por ele. Mas, quem sabe não dá para negociar levar um vinho de casa?

Imediatamente também evoco as perdições lusitanas servidas no classudo Antiquarius, eternamente um lugar fantástico de se visitar (onde é possível até dividir prato, deixando a conta – sem vinho – em cerca de R$ 150, R$ 160 (com couvert, um prato e sobremesa – para saber como, clique aqui).

Aí, me lembro de outro lugar certeiro, o Olympe de Claude Troisgros (mas ali a conta vai ultrapassar os R$ 500).

Também rompe o teto estipulado o Cipriani, no Copa, também garantia de um jantar inesquecível por todos os componentes envolvidos: a vista, a comida, o próprio hotel, as flores e velas sobre a mesa…

Ele pergunta sobre o eñe. Eu acho que também vale, e como, uma refeição lá (melhor ainda se for na Tabla del Chef). Sou fã da casa, sempre surpreendente. E, se é para ir lá, em vez de pedir uma garrafa o melhor a se fazer no menu degustação é pedir para a bela sommelier da casa (cujo trabalho, também criativo e ousado, como a cozinha do restaurante, dá para ler aqui) cuidar da harmonização. Garanto que vai ficar pra sempre na memória este “maridaje”.

Se o assunto é refeição incrível no Rio, impossível passar batido pelo clã Fasano. Tanto o Gero quanto o Al Mare são absolutamente infalíveis. No almoço executivo, com menu a R$ 70 mais ou menos, vale a pena demais. À noite também vale, mas a conta vai esbarrar ali no teto de R$ 500, talvez até passe um pouco.

Agora, se a idéia é comer cozinha italiana clássica, há um trio de restaurantes com cozinha tão competente quanto a do Fasano, mas com preços ligeiramente mais em conta. São eles o Quadrifoglio (para o Guia Brasil é hoje o melhor italiano do Rio), o D’Amici e o Terzetto. Os três também são infalíveis, com preparo de pães e massas caseiros, carnes assadas longamente e sobremesas lindas. Em qualquer um dos três, um serviço completo, com couvert, entrada, prato e sobremesa, vai custar de R$ 120 a R$ 150 por pessoa. Sempre que fui nesses lugares saí satisfeito.

Bem, acho que é isso.

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Smiles, não, Cries

25/03/2010

As companhias aéreas fazem de tudo para irritar o consumidor.
Atrasam voos, remarcam assentos, somem com as malas, inflacionam os preços organizadas em cartel.
Agora, a Gol (ou seria a Varig?) resolveu quebrar contratos, enganar os clientes. Agora, no programa Smiles, não bastam mais as 10 mil milhas de sempre para se emitir um bilhete para qualquer destino da América do Sul: eles pedem 20 mil pontos.
Na manhã de hoje fui tentar reservar passagens para o feriado da Semana Santa e qual não foi a minha surpresa? Para a volta era preciso desembolsar 20 mil milhas. Sim, 20 milmilhas.
Isso, além de desrespeito, é quebra de contrato: porque quando comprei as minhas passagens, tinha da empresa a “garantia” de que com 10 mil pontos au teria um bilhete para qualquer destino do Brasil e da América do Sul operado pela Gol. Mas agora, no meio do jogo, mudaram as regras. Sem avisar, como sempre.

Smiles? Que nada. Cries.

Claro que não vou gastar 20 mil milhas para emitir a passagem. O que farei é não mais escolher a Gol.

O novo Albamar

25/03/2010

Barquinhos, barcões, aviões, a Ilha Fiscal, a Ponte Rio-Niterói: comer com uma vista dessas, só mesmo no Rio de Janeiro, e no Albamar

A vista continua a mesma: barquinhos de pescadores em primeiro plano, a Ilha Fiscal logo atrás e, ao fundo, a Ponte Rio-Niterói. Vez ou outra uma barca cruza a baía, levando passageiros entre as duas cidades. E os aviões que chegam de São Paulo pousam no Santos Dumont repetidamente, num bonito espetáculo. Mas, agora, o restaurante Albamar, desde a inauguração, na década de 1930, uma das maiores referências em pescados no Rio de Janeiro, quer entrar de vez para a lista de melhores endereços gastronômicos da cidade.
No ano passado a casa passou por reformas, e ganhou novo chef, Luiz Incao, ex-Copacabana Palace, onde trabalhou por mais de 15 anos. E os planos para o futuro são ambiciosos: bar de ostras, bailes no salão, como antigamente, happy hour.
Enquanto mais mudanças não chegam, são três as razões principais para escolher o lugar para uma refeição no Centro do Rio: o panorama que se tem das janelas, os peixes e frutos do mar sempre frescos e a importância histórica do prédio, única torre remanescente do antigo Mercado Municipal, que funcionou ali até meados do século passado. Em estilo art nouveau, é um resquício do tempo em que o Rio queria ser a Paris dos trópicos.
Durante um longo período o lugar andou meio abandonado, mas nunca deixou de ser porto seguro para uma refeição à base de pescados. Mesmo nos tempos ruins, a casquinha de lagosta, o badejo à moda da casa (cozido com vinho branco, creme de leite, camarão e mexilhões, servido com purê de batata) e bem executadas receitas de hadoque, bacalhau, camarão – e tudo o mais de origem marinha – preservaram uma clientela fiel, num processo de pai para filho que atravessou gerações de cariocas.
Hoje o cardápio ganhou contornos mais elegantes. Pinoles, por exemplo, entraram na lista de ingredientes, integrando o molho à base de champanhe que rega os camarões servidos com um risoto de maçã verde que já fez fama. Outro prato recém-incorporado é a trilha recheada com lulas e caviar, também já sucesso entre os frequentadores, grande parte executivos, políticos e advogados cariocas que trabalham nas redondezas (o Fórum, a antiga Bolsa de Valores e a Câmara dos Deputados estão pertinho dali). Toda a semana o cardápio ganha novidades, e acordo com o que há de mais fresco no mercado.
“Temos uma das maiores variedades de peixes do Rio. Salmão, linguado, cherne, trilha. Estamos recebendo ultimamente, e está saindo muito, o filhote, peixe amazônico muito saboroso”, conta Marcos Silva, maitre e sommelier do Albamar.
Foi ele quem criou a carta de vinhos, com 120 rótulos, incluindo o californiano Insignia 2006, o mais caro de todos, a R$ 1.384, um corte de Cabernet Sauvignon (95%) com Petit Verdor (5%) que ganhou 95 pontos de Robert Parker.
“Mas nossa casa é dedicada aos pescados. E a seleção de brancos também tem coisas ótimas como o Nevada City, corte de Sauvignon Blanc e Chardonnay, a R$ 110, além do Pulenta Chardonnay R$ 102 e um riesling alsaciano, ambos a  R$ 102″, conta Marcos.
Vida longa ao Albamar.

SERVIÇO – Albamar: Praça Marechal Âncora, 186, Centro. Tel: 2240-8378.
(Para ler um outro texto sobre este restaurante, clique aqui)

Publicada na edição de março da revista Wish Report.

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Paraty: o lindo calendário das festas populares

24/03/2010

A Procissão do Fogaréu, na Semana Santa, percorre as ruas do Centro Histórico iluminadas apenas pelas tochas

O tema está em alta. O segmento do turismo religioso é um dos que mais cresce no mundo. O setor movimenta hoje mais de 300 milhões de viajantes e US$ 18 bilhões por ano. Pegando carona nessa onda e aproveitando que este blog andou passeando por Paraty recentemente, achei oportuno publicar uma listinha com as principais festas religiosas do Centro Histórico, que normalmente pegam dois fins de semana: duram dez dias – têm uma novena com procissões noturnas que vão de uma sexta ao sábado seguinte e no domingo as celebrações se encerram com missas solenes, com cânticos e reflexões. É bem bonito.
Todas as festas são pratos cheios aos que querem fazer um turismo de experiência, acompanhando ou participando de uma celebração à moda antiga num cenário que mudou pouco nos últimos três séculos. Os rituais, a indumentária e as ladainhas também se mantêm fiéis ao passado. Para fotógrafos são um prato cheio. Para fotógrafos, atores, curiosos, figurinistas, beatos, músicos, sociólogos… Pra um monte de gente, de uma maneira geral. Os melhores momentos para se conhecer Paraty, tatear a alma do povo e vivenciar o que é esse lugar tão mágico, são os dias de festas religiosas.
Conhecer um pouquinho da história é bom. Fica tudo mais interessante ao saber que as igrejas da cidade eram estratificadas pela condição social, como são até hoje. Na Matriz e na Igreja de Nossa Senhora das Dores, as famílias ditas nobres. Na Igreja de Santa Rita, os pardos libertos, como se chamava. Na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, os negros. Isso explica a disposição das construções, o seu estilo arquitetônico e localização e as festas que hoje abrigam.
Dos templos católicos do Centro Histórico de Paraty, a única que não recebe festa importante é a de Nossa Senhora das Dores, a mais ignorada de todas as quatro que existem ali, a igreja das senhoras religiosas (apesar de que na Festa do Divino de 2001 eu comi ali um inesquecível bobó de camarão preparado pelas beatas por módicos R$ 6 – e olha que eu poderia me servir quantas vezes quisesse, mas fiquei só no primeiro prato, que era de plástico, assim como o garfo e o copo o guaraná tubaína. Que delícia). Com uma única torre, branquinha de cal e fora das ruas por onde circulam os turistas, está voltada para a Baía de Paraty, perto do Rio Perequê-Açu, a uns três minutos de caminhada a partir da Igreja da Matriz. Fica na Rua Fresca, a mais próxima do mar e da brisa, e eu acho incrível este nome de rua.
Mas vamos às festas, razão deste post:

Folia de Reis Acontece em vários dias durante a primeira quinzena de janeiro, mas não é tarefa fácil ver as apresentações que ultimamente têm se concentrado na Casa da Cultura de Paraty. Acontecem esporadicamente. Eu ainda não consegui ver.
Quando: na primeira quinzena de janeiro.

Semana Santa – A festa começa no Domingo de Ramos. Depois tem Missa dos Óleos, na quarta. À meia-noite de quinta para sexta, depois da cerimônia do Lava-Pés, acontece a Procissão do Fogaréu, com a cidade iluminada apenas por tochas. Na sexta, a abertura das portas dos Passos da Paixão (restam apenas seis) revelam altares simples, mas belíssimos, que só podem ser vistos neste dia (ou na foto lá de cima). No domingo, entre diversas lindas manifestações (a missa da manhã na Igreja do Rosário é lindíssima), é levantado o mastro do Divino, centro da liturgia paratiense até a próxima festa, que começa exatamente 40 dias depois de hoje.
Quando: De 2/4 a 4/4.

Festa do Divino – Para o paratiense, é a maior festa do calendário, começa 40 dias depois do Domingo de Páscoa, numa sexta-feira que inaugura uma comovente novena. A cidade se enfeita de bandeirolas vermelhas e brancas, as cores da celebração. No último fim de semana é comum ouvir bandas tocando pelas ruas lotadas de gente. É festa de verdade. Na quermesse as barraquinhas fervilham madrugada adentro. E haja gabriela, e haja parati. As casas arrumadas com formosura exibem altares e imagens da pomba, símbolo do Divino Espírito Santo, o nome completo dessa entidade católica ou Deus, como preferirem. Os moradores mantêm vivas as tradições trazidas ao Brasil pelos imigrantes portugueses, coroando um menino imperador. Entre os momentos mais aguardados estão as apresentações da congada de Cunha (SP), que desce a serra há mais de um século para comemorar cantando e dançando as tradições em frente à Igreja da Matriz. Até a década de 80 um preso era libertado pelo imperador, como se fazia noutros tempos nesta data, mas hoje o ato é só simbólico – ainda bem. Se a Festa do Divino é a mais importante para o nativo, é natural que seja uma data atraente para os turistas. Pode ir, é diversão na certa. E, no domingão final, ainda tem show na praça. Há uns anos vi Morais Moreira e tem sempre gente boa tocando no encerramento. Com direito a barraquinha de pipoca, correio do amor, pescaria com ventilador como prêmio, espetinho de salsichão com farofa…
Quando: De 22 a 31/5.

Corpus Christi – Não é muito diferente do que acontece no resto do país. Tapetes de serragem, areia, café e todos os materiais que a imaginação permitir colorem as ruas do Centro Histórico. Bom para os fotógrafos, que ganham um cenário diferente para o fotogênico conjunto arquitetônico da cidade.
Quando: 03/6.

Festa de São Pedro e São Paulo – É a mais caiçara de todas as festas. Pescadores que são, muitos moradores devotam a São Pedro sua maior fé. No último dia, na procissão marítima, barcos partem do cais do Centro Histórico para navegar até a Ilha do Araújo. A pesca do camarão está no seu auge, logo após o defeso que impede a pesca. E você pode imaginar o que significa isso, né? Fartura. Não à toa, poucos dias antes Paraty abriga o Festival do Camarão, na mesma Ilha do Araújo.
Quando: 25/6 a 04/7.

Festa de Santa Rita – O lado profano da festa acontece no gramado diante da Igreja de Santa Rita, aquela que aparece nos cartões-postais tirados do mar, sabe qual é? Aquela mais próxima ao cais, toda branca e que abriga o Museu de Arte sacra. Na quermesse, prove o camarão casadinho e as outras especialidades marinhas da barraca do Ditão do Corumbê, um dos melhores quituteiros de Paraty que sai da toca em família para exibir seus dotes culinários nas maiores festas. A lula recheada é fantástica.
Quando: De 9 a 18/7.

Festa de Nossa Senhora dos Remédios – De todas é a mais modesta, o que não deixa de ser curioso, afinal é a santa padroeira da cidade. Acontece na Igreja da Matriz e é a que menos merece atenção do turista. A novena coincide com o feriado de 7 de setembro, em anos em que isso significa alguma coisa em termos turísticos.
Quando: De 30/8 a 08/9.

Festa de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário – É a Festa do Divino dos Negros. Agora o domingo de encerramento dos festejos acontece o mais próximo possível do Dia de Zumbi, 20 de novembro. A liturgia é bem parecida com a Festa do Divino, com coroação do imperador, roupas de época, festeiro etc. Com a diferença de que a Festa de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário foi criada há séculos para que os negros não participassem dos festejos dos brancos. Acontece na mais singela igreja de Paraty, a de Nossa Senhora do Rosário, construída por escravos nas bordas da cidade. Como não podiam erguer uma igreja grande, os escravos capricharam no acabamento: os entalhes do altar e todo o interior são os mais lindos de Paraty na minha opinião.
Quando: De 12 a 21/11.

Clicando aqui você vê toda a programação cultural de Paraty, incluindo as festas religiosas tanto do Centro Histórica quanto nas demais localidades do município, como Penha, Ponte Branca e Jabaquara.

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Num almoço em São Paulo: Cuidado, você pode ser assaltado (e a grande cozinha do Vecchio Torino)

23/03/2010

Massinha verde recheada de pato com molho de tomate e queijo fontina, servido na forminha, depois retirada: sensacional

Adoro ir a São Paulo. Mas duas coisas me irritam: o trânsito e a mania que paulista tem de perguntar “Meu, como é morar no Rio, no meio daquele tiroteio? Como vocês conseguem?”, como se a maior cidade do Brasil fosse mais segura que o Rio, o que a gente sabe que não é (só a mídia paulista acredita nisso). Como se morar em São Paulo, em qualquer lugar ou circunstância, pudesse ser melhor que no Rio…
Eu sempre respondo: “Com aquela vista, cara, quem precisa de segurança”.

A coisa parece que está mesmo feia por lá. Na semana passada, por coincidência me hospedei num hotel ao lado do restaurante Vecchio Torino, um dos melhores italianos do Brasil.
Fui obrigado a almoçar lá.
Convidei o grande Fábio Seixo, que sabe tudo de fotografia e muito de comida (é craque em fotos de gastronomia) para me acompanhar na refeição.
Alguns passos depois de sair do hotel, cheguamos à pesada porta de ferro e vidro bisotado do refinado restaurante. Mas ela estava trancada por dentro.
Perguntei ao sujeito que parecia ser o manobrista: “O restaurante tá fechado hoje”.
“Não, tá aberto, mas tem que pedir para abrir a porta”, disse ele.
Bizarro. Nunca tinha visto isso antes, em nenhum lugar do mundo. Restaurante trancado na hora do almoço com medo de bandidos.
Fiquei meio espantando, e perguntei para que tudo isso.
“É por causa dos ladrões, tá cheio deles por ai”.
Como diria o Ancelmo:  Deve ser terrível… você sabe.

Mas o que se seguiu a isso foi soberbo. O restaurante justifica totalmente as duas estrelas do Guia Quatro Rodas que ostenta (como se sabe, o único prêmio gastronômico deste país com algum valor são as estrelas do Guia Quatro Rodas, infelizmente. O resto, sabemos que é jogo de compadre e comadre).

Mas, bem, a comida do Vecchio Torino é algo que justifica burlar o estranho esquema de segurança adotado na casa. Começamos com uns pães, molhados com bom azeite. Como a fome não era muita e os preços, relativamente altos, decidimos pedir uma massinha só para cada, e um Chianti para acompanhar (a carta da casa é muito boa).

Nossos pedidos foram até semelhantes. Eu, uma massa verde recheada de pato com molho de tomate e queijo fontina, o Fábio o famoso nhoque da casa, servido afogado no mesmo molho do meu prato.

“É simplesmente o melhor nhoque que já comi na vida”, setenciou o meu colega, para o meu total  acordo depois que provei as bolinhas de batata, com massa cremosa, quase um purê, envolvido pelo molho sensacional de tomate com queijo, leve, forte, inesquecível.

Nem pense em jogar parmesão, o prato já vem de fábrica totalmente equiibrado, delicioso, sublime. É, sem dúvida, o melhor nhoque que já comi.

Minha massa também estava ótima, valorizada pelo molho denso e consistente, com ótima acidez, bem dosado no sal e temperos.

Finalizamos com uma panacotta igualmente fabulosa, delicada, seguida de um bom espresso.

Como valeu a pena o investimento (uns R$ 120 por cabeça). Como valeu.

A horta: o salvamento da sálvia, o ragu de codorna e a colheita na janela de casa

21/03/2010

A sálvia pelada, em primeiro plano, a sálvia saudável, logo atrás, os tomilhos, manjeronas e grades: a horta dá folhas

Já contei aqui da hortinha que criei. Ela anda me rendendo bons frutos, na verdade, mais folhas que frutos. Temperos, em suma. Colhidos na janela de casa.
Hoje usei a sálvia que estava murchando rumo à morte para temperar a codorna que vai estrelar um ragu para cobrir um ravióli de batata com tomate picante e grana padano, a receita do dia aqui em casa.
Tava aqui escrevendo e pensei na saga deste molho de sálvia há pouco podado por mim.
Comprei ele numa loja de plantas na serra de Teresópolis, ali já quase no Soberbo. Trouxe ela com o propósito de que se desenvolvesse e passasse a me conceder suas folhas regularmente. Era um trio de sálvias. Foram plantadas ali por janeiro.
Uma logo morreu. Duas ficaram bem. Mas a soleira que tostou o Rio parece ter afetado a delicada erva. De uns três dias para cá notei uma uma das duas sálvias restantes andava chocha, triste, com as folhas caídas.
Hoje, ao pensar no tempero da codorna, me lembrei da sálvia. Pensei: posso dar um fim digo a ela.
Então, peguei a tesoura, cortei as folhas tristes e as lancei sobre as costas das codornas, já lambuzadas de vinho branco, pimenta do reino, louro (também da horta), cebola, alho, cenoura, azeite e talvez algo mais que esteja me esquecendo agora.
O perfume que sai da cozinha me faz ir lá a todo o instante, só para senti-lo.
Já já retiro as codornas do forno, desfio sua pouca carne e jogo na frigideira, regando com o molho restante do cozimento, uns tomates maduros, umas lascas de cebola, azeite e sei lá mais o que estiver disponível na despensa no momento.
Recheio o ravióli com as batatas apimentadas com um chutney de pimentas comprado em Paraty (muito bom).
Cozinho no fogo alto a massa.
Saco da água os pasteizinhos com cuidado.
Jogo eles no prato. Um quejinho ralado por cima. Logo derramo uma concha do ragu de codorna. E mais uma chuvinha de grana padano lascado por sobre.
Uma taça de vinho.
E, quem sabe, uma Bethânia cantando no som.