Help end

A fachada da boate de Copacabana não brilha nem balança mais

Praia de Copacabana, entre as ruas Miguel Lemos e Djalma Ulrich, um dos endereços mais conhecidos do Rio de Janeiro. Faltam cinco minutos para a meia noite. Taxistas em fila indiana despejam em massa meninas apressadas e bonitas. Elas usam quase um uniforme: vestidos curtidos, com maquiagem pesada, salto alto e uma bolsinha a tiracolo. Então, toca o sino. É como uma senha. Logo se forma uma aglomeração à porta que desce as escadas e chega ao famoso calçadão de pedras portuguesas. Durante os últimos 20 anos, todas as noites, de segunda a segunda, foi assim. Mas, na primeira semana do ano, a Help, boate mais famosa da cidade, fechou as portas. E as garotas de programa da Zona Sul carioca perderam a sua pista de dança preferida. 
Mas, quem pensa que o lugar era um antro de perdição, está muito enganado.
“O curioso é que a Help, ao contrário do que todo mundo pensa, era a discoteca mais careta do Rio. Era muito família, quase conservadora. Era chato até. Não rolava nada lá dentro. Parecia um baile de debutante. Mulheres num canto do salão, os homens cortejando. Com a diferença que ali eles se acertavam através do dinheiro”, lembra o escritor João Paulo Cuenca, que esteve na boate três vezes. “Uma coisa precisa ficar clara. Na Help, ao contrário de quase todas as outras boates de Copacabana, não havia exploração sexual das mulheres, que é crime e as autoridades fazem vista grossa”, diz Cuenca. 
Na Avenida Atlântica, só o prédio do Copacabana Palace é mais famoso que aquela construção de dois andares com o letreiro de neon reproduzindo pernas fazendo passos de dança. O nome, que fazia alusão a uma das mais famosas canções do Beatles, se tornou um símbolo da prostituição no Rio de Janeiro. Mais ainda: pra gringo, era um ícone do Brasil, praticamente um Pão de Açúcar da nossa, hã, sensualidade.
“A Help foi uma combinação entre lucro fácil e omissão da policia”, diz Cesar Maia, ex-prefeito do Rio.  
O sino que sinalizava a chegada da meia-noite, e o consequente aumento do ingresso, de R$ 20 para R$ 40, não toca mais. Em seu lugar o esmeril rompe a madrugada de Copacabana, desmanchando as ferragens do prédio e incomodando a vizinhança. Hoje, um carro da guarda municipal toma conta do porta para proteger a obra. Em vez da fachada iluminada, um bonito painel esconde as obras com rostos de músicos como Cartola, Pixinguinha e Carmem Miranda, que terão destaque no novo Museu da Imagem e do Som, edifício moderno que será erguido ali, prometendo ser um marco arquitetônico da cidade.  
O fim da boate deixou as cercanias vazias. Bares, quiosques e lanchonetes daquele pedaço de Copacabana perderem boa parte do movimento noturno. Está tudo mais triste e sombrio, silencioso e calmo.
“Elas foram todas para a Balcony, no Lido. Agora o ponto é lá”, conta o taxista Waldir Gomes da Silva, circulando na Avenida Atlântica.
Muitas das garotas de programa preferiam nem entrar na boate. Ficavam ali, do lado de fora, no Terraço Atlântico, tentando a sorte. Algumas se sentavam às mesas do bar, espalhadas pelo calçadão, convidando os cavalheiros para um drinque com sorrisos forçados, tentando ser maliciosos, com direito a linguinha de fora roçando os lábios.
“Eu nem ia muito, porque era um investimento caro. Tu gastava 20 pratas e não sabia se ia ter retorno. O bom era quando o gringo te levava, já pagava a sua entrada e a bebida. Mas tinha um pessoal, que se não pegava ninguém até umas 23h30, corria pra lá  para ver se a noite ainda rendia. Mas também, em noites de sorte, dava para faturar alto, até R$ 400 por um programa. Era um lugar seguro para se trabalhar, melhor que as ruas”, conta a mineira Rafaela, de 23 anos, que faz ponto em Copacabana há um ano. 
Cenário de filmes e novelas, a Help foi inaugurada em 1984 pelo empresário espanhol Chico Recarey, então o rei da noite carioca, dono, entre outros, do Scala e do Asa Branca. Tinha os equipamentos de som e iluminação mais modernos. E logo virou um dos endereços noturnos mais badalados do Rio. Mas, na virada dos anos 90, o público mudou de perfil. A moçada bronzeada da Zona Sul deu lugar a garotas de programa misturadas aos turistas, em sua maioria estrangeiros.
“Tem uns caras que ficavam uma semana no Rio e iam para a Help todas as noites. Para mim, isso foi péssimo para o turismo na cidade, muita gente vai deixar de vir para cá”, reclama Rafaela. 
Ela tem razão. Certamente depois do fechamento da Help, entre o Rio e Bangkok, muitos gringos vão optar pela capital tailandesa…
A pista de dança era uma das maiores do Rio. A decoração tinha a cara dos anos 1980, com excessos como paredes brilhantes e carpetes. Uma larga escada levava ao segundo andar, ambiente mais reservado que nos últimos anos começou a ser alugado para festas antes impensáveis, reunindo artistas, playboys e patricinhas. A trilha sonora era eclética, ia do sertanejo ao pop romântico, passando pelos clássicos da discoteca e os sucessos da vez.
“Era gigante, com um monte de espelhos, de longe a boate com mais cara de boate que eu já coloquei os pés. Pista de dança como centro, ao redor umas mesas, segundo andar para observar a pista. Vários globos espelhados, um azul celeste nuns cantos, pilastras… A cereja da casa era o som. Perfeito! Não a seleção de músicas, mas o som era muito bom. Muito divertido. Vai deixar saudades”, recorda a designer Luisa Prado, de 28 anos.

Ela, como muitos cariocas, ia para a Help com um grupo de amigos já animados depois de beber um pouco.
“Tinha as noites normais, que eu preferia. Nunca fui só, sempre com amigos. Normalmente íamos cair ali quando já estávamos mais doidinhos, em busca de algum lugar pra dançar, e a cidade dava poucas opções, como numa noite de terça de uma semana qualquer. Algumas vezes fomos barrados porque algum dos meninos estava de bermuda. Tinha até uma máfia de venda de calça na porta: R$ 40 por uma calça de capoeira. Quem ia querer pagar aquilo?”, conta Luisa.

Para poder comemorar um aniversário na casa, o jornalista Gustavo Pinheiro precisou vencer a resistência inicial dos amigos. “Comemorei um aniversário lá na Help há uns cinco ou seis anos. Alguns meses antes da festa eu recebi lá em casa uma amiga espanhola que, uma bela noite, disse queria conhecer a Help. Eu não sabia o que esperar, imaginei que fosse um lugar escuro, com um monte de gente se drogando, aqueles clichês idiotas… Quando entramos lá, tudo mudou. A música era ótima, o ar condicionado maravilhoso, um astral divertido, cerveja geladíssima e, para a minha surpresa, um clima super respeitoso. Saí dali decidido a fazer meu aniversário lá”, lembra. “Meses depois, quando comecei a convidar as pessoas, todo mundo ficou meio chocado, especialmente as mulheres. Superado o preconceito inicial, deu tudo certo, as amigas se divertiram muito, ninguém foi molestado, enfim, uma noite gloriosa”.

O único privilégio das frequentadoras mais assíduas era o serviço de manobrista, guardando o carro no subsolo do prédio. No mais, eram clientes comuns.
“Era uma boate como outra qualquer, só que frequentada por putas. A gente pagava ingresso como qualquer outra pessoa, não ganhava comissão se os caras bebessem no bar e nem muito menos precisávamos dar para a casa uma parte do valor do programa. Lá não tinham quartinhos para os casais, como há em muitas outras boates de Copacabana”, diz a jovem menina, que garante ter 19 anos, conhecida como Stephany Brito por suposta, mas inconcreta, semelhança com a atriz global.
Em 2007, badalados produtores de eventos no Rio, Carol Sampaio, Michel Diamant e Rafael Nazareth começaram a alugar o segundo andar da casa para festas fechadas. E, então, a Help passou a ser frequentada por um novo público. 
Mas, bem antes disso, cariocas já visitavam a boate. De uns dez anos para cá, ir à Help passou a ser cult.
“As mulheres gostavam de ir quando não queriam assédio masculino. Era ótimo para dançar com os amigos. Por incrível que pareça, era a boate mais careta da cidade, ninguém se pegava lá dentro, não rolava nada, senão, como as meninas iam faturar depois?”, lembra a jornalista Laura Cavallieri, de 28 anos, que esteve algumas vezes na Help, mas deixou de ir ao lugar “há uns cinco ou sei anos”.
As insinuações e sorrisos maliciosos do salão não se repetiam por todos os cantos da casa. Na frente do espelho do banheiro, as garotas de programa pediam socorro.
“A pista era animada, com muita gente dançando. Mas o banheiro tinha um clima pesado, com as meninas se queixando da vida, chorando. Lembro de uma que gritava ‘Odeio homens gordos, não vou sair com esse cara’. Mas, dali a dez minutos, lá estava ela com ele. Escutei muitas histórias ali”, lembra Laura.
Se a maquiagem borrasse com o lamento, a senhorinha que cuidava da limpeza do banheiro vendia batom, além de chicletes, camisinhas, pentes, piranhas de cabelo e outros artigos de primeira necessidade.
A desocupação do prédio foi o capítulo final de um arrastado e curioso imbróglio judicial com requintes de ironia. Em 2008 o governador Sergio Cabral desapropriou o prédio para dar lugar ao Museu da Imagem e do Som, ambicioso projeto dos arquitetos americanos Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio com custo estimado em R$ 65 milhões. O terreno da boate símbolo do turismo sexual no Brasil pertenceria à Igreja Católica. O imóvel seria parte do espólio da enfermeira polonesa Stefania Plaskowicka in Nodari, morta há 12 anos. Ela teria se casado com um milionário. Quando faleceu, teria deixado de herança a boate para uma antiga empregada, que era quem recebia o aluguel de R$ 80 mil pago até recentemente. Mas haveria um outro testamento, que beneficiaria a Igreja Católica. No fim, ficou acertado que o Estado pagaria uma indenização de R$ 18 milhões pela desapropriação do imóvel.
Logo a seguir ao fechamento da boate foi feito um leilão para venda de máquinas, equipamentos, móveis e todas as peças da casa. Participaram mais de 80 pessoas, acomodadas em cadeiras espalhados na pista de dança principal da Help, além de outras 150 fazendo os lances pela internet. Foram 117 lotes. 
Assim como muitas das meninas que frequentavam a casa, a coleção de vinis foi arrematada por um estrangeiro, e acabou rodando numa boate europeia, como ironia do destino. Os discos, que estavam fora de uso há pelo menos dez anos, foram disputados lance a lance por quase uma hora – foram cerca de 50 ofertas. No fim, Kurt Maier, de 50 anos, saiu vencedor. Pagou R$ 9.500 por cerca de 2 mil LPs, muitos em péssimo estado de conservação. Mas, e daí? O gringo comemorou a conquista efusivamente, com direito a animados gritos de “Obrigado, Brasil. Uhuuuuu!”, pulos e mãos cerradas. Dono de uma boate em Liechtenstein, vai levar as bolachas para serem tocadas lá. “Os discos vão ser usados para representar a história da Help”, disse, logo após a aquisição.
Com o fim da Help se encerra um capítulo do turismo sexual no Brasil. 
Já dá  para imaginar os gringos, carentes, se lixando pra música, gritando, na porta do museu: “I need somebody! Heeeeeelp!!!!”

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