O que aconteceria se o fast food encontrasse a gastronomia contemporânea?

O McBarreado, versão para o prato paranaense

 No domingo passado a Revista d’O Globo trouxe uma matéria sobre um almoço que acontece hoje, no Centro. É uma reedição do que rolou em fevereiro do ano passado, na mesma Firjan, quando o Mc Donald’s organizou uma refeição inteira com ingredientes usados em suas lanchonetes. Algo curioso.
Então, aproveito para republicar o texto, de 17/2/2009. (e, para ler o post “Big Mac com vinho”, lá na Enoteca, é só clicar aqui)

O rolinho crocante de maçã caramelizada com cheddar e a sopa gelada de cenoura aromatizada com maracujá, além de outros quatro finger foods, essas coisinhas de se comer com as mãos, foram servidos com o prosecco Nino Franco. Já a salada de folhas com fios de cenoura e queijo parmesão com espuma picante de Fanta Laranja e redução de balsâmico, sucedida por uma bela moqueca de peixe com espuma de água de coco  e um mil folhas de tortilla com frango, maionese de limão, maçã salteada e tomate-uva (uma variação mais comprida do tomate-cereja) vieram sob a escolta de um aromático riesling chileno, o Winemakers Lot, da Concha y Toro. Em seguida o barreado com torradas e farofa de banana se apresentou ao lado de um belo Chianti Clássico Rocca delle Macìe 2004. Por fim, uma mousse de iogurte com coulis de morango e a mousse de bananada com chocolate e cobertura de paçoca foram combinados com o Casa de La Ermita 2003, um “dulce monastrell”, vinho de sobremesa da região de Jumilla, na Espanha – que eu, confesso, desconhecia totalmente e fiquei encantado.
Foi uma bela experiência. Mas seria apenas mais um almoço contemporâneo, com erros e acertos, como quase sempre nesta categoria, não se tratasse do Mc Gourmet. Sim, o cardápio não foi criado por nenhum restaurante, mas pela chef Maria Luiza Ctenas, contratada pela rede de fast food para desenvolver um menu de alta gastronomia com os mesmos ingredientes utilizados nas lanchonetes. Não só isso, mas mantendo a essência dos sabores, o caráter de cada elemento.
O Mc Gourmet foi criado por duas razões principais: comemorar os 30 anos de Brasil e como ferramenta de marketing, para mostrar que com a matéria-prima usada nas lojas do Ronald Mc Donald’s é possível, sim, fazer uma gastronomia mais leve e atraente. Eles só não fazem porque não é esta a proposta, não há logística para isso e as pessoas não teriam como pagar. É esta a alegação. Não posso dizer que foi a minha melhor refeição do mês, nem da semana, mas sem dúvida foi um grande almoço.
Nas entradinhas, havia primeiro dois rolinhos crocantes de maçã caramelizada: um com recheio de cheddar, outro com o molho do Big Tasty. Gostoso, com contraste de texturas, um fundo adocicado. Mas restava um sabor de Mc Donald’s que realmente destoava, por mais incrível que isso possa parecer. Os espetinhos de Mc Nuggets com redução de Coca-Cola, porém, foram uma bela surpresa, devo confessar. Um ceviche de Mc Fish com sorvete de maionese não fez a minha cabeça – sou muito mais o sanduíche mesmo. Já o miniwrap de Big Mac, com cebola, alface americana, maionese e caramelo de mostarda, estava mais interessante que o original, levinho, levinho. Foi uma bela surpresa a sopa fria de cenoura com aroma de maracujá. Bom mesmo, e refrescante. Ficou uma beleza com o prosecco.
Pois chegou a hora de sentar à mesa. Não era daquelas de fórmica, nem haveríamos de carregar as bandejas até a lixeira. Era um mesão quase medieval de tão grande, daquelas távolas para umas 20 pessoas, no bar do Margutta Cittá, um dos melhores restaurantes do Centro, na Firjan.
O Nino Franco que descia redondo foi substituído por um incrível riesling chileno, como todos os vinhos da tarde, muito bem escolhido pela sommelier Alexandra Corvo, para lá de competente. O almoço, propriamente dito, começou com uma dispensável salada de folhas com fios de cenoura e parmesão com espuma picante de Fanta Laranja e redução de balsâmico. Ruim não estava, mas a espuma não me convenceu. Valeu pela gostosa redução de balsâmico que, se for o mesmo que eles usam, é de boa qualidade.
Em seguida entrou em cena um dos maiores acertos, a moqueca de Mc Fish com espuma de água de coco. Funcionou muito bem uma “folha” de tomate, que envolveu os pedaços do peixe preparados no dendê com cebola e tomate, tudo muito perfumado, mantendo a umidade do conjunto. Ao lado, a espuma de coco, que (mais tarde foi descobrir o Reinaldo Paes Barreto) cai como uma luva com o café espresso.

McTortilla: parace até o Taco Bell...

A proposta das mil folhas de tortilla com salada de Mc Chicken Grill com maionese de limão, maçã salteada no azeite com o tal “tomate-grape”, assado e marinado é boa até. A combinação dos ingredientes flui bem, mas ficou difícil cortar a tortilla, meio dura. Se fosse possível comer com a mão (pensando agora: por que não fiz isso, ora bolas?), como um bom sanduíche, seria bem melhor.
Antes do encerramento, foi uma surpresa gostosa um barreado com a carne do Big Tasty acompanhado de torradas de Big Mac (que nem fariam falta) e uma muito boa farofa de banana. Era uma releitura bem honesta do prato paranaense, com o sabor que remete à lanchonete americana, mas também a Paranaguá, àquelas panelonas de barro tapadas com barro fresco. É algo meio urbano-caiçara. O longo cozimento deste prato (lá se vão amis de oito horas) soa como provocação, uma subversão ao fast food.
Já estava de bom tamanho. Entre as sobremesas, a que mais impressionou foi mesmo o vinho, um Casa de La Ermita 2003. Ele acompanhou uma mousse de iogurte com coulis de morango, mediano, e uma gostosa e divertida mousse de banana com cobertura de chocolate e paçoca. Gosto de criança, festa de amigo da escola. Quem sabe aquelas mesmo no Mc Donald’s.
Ainda teve um brownie, fui ver no cardápio mais tarde. Mas nem reparei.
Gostei. Mas, se tivesse que classificar a refeição para o Guia Quatro Rodas, por exemplo, não daria estrela. Mas acho que teria chegado quase lá.
Também não acho que irei mais do que já vou ao Mc Donald’s (minha filha, com três anos, adora). Mas sempre que mandar para dentro um Big Mac ou um Quarteirão, sempre, irremediavelmente, me lembrarei de ontem.
E eu, achando que comida contemporânea e fast food eram quase a mesma coisa. E não é que são mesmo?

Publicado em 17/2/009.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Anúncios

Uma resposta to “O que aconteceria se o fast food encontrasse a gastronomia contemporânea?”

  1. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] O que aconteceria se o fast food encontrasse a gastronomia contemporânea? […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: