D’Amici: melhor que nunca

 

Tudo começou assim, lindamente, com ravióli de foie gras com champanhe servido em duas taças diferentes

 Fazia quase um ano que eu não visitava o D’Amici, sempre um lugar seguro para uma refeição regada a bons vinhos no Rio.

No começo da semana passada estive lá na casa do Leme para um jantar que já se colocou entre as melhores refeições do ano, ao lado de outras inesquecíveis, como no Le Pré Catelan, no restaurante libanês do Emirates Palace, em Abu Dhabi, e no Cipriani, no Copacabana Palace, também na semana passada. Tudo bem que o ano está começando, mas já teve tanta coisa boa…

Minha alegria começou quando se apresentou a mim o sommelier da casa, o jovem Pedro Dias, de apenas 27 anos (mas a trajetória vinífera da noite é assunto lá para a Enoteca, onde já foi destacada).

Logo ele abriu uma garrafa de champanhe, que desceu maravilhosamente acompanhando o ótimo couvert. Cara, o que é aquela cesta de pães? Focaccia de azeitona macia, pizza branca fininha e crocante e um espetacular grissini de castanha do pará formam um belo conjunto com o azeite e a manteiga servidos junto. Melhor ainda na companhia de um Deutz Brut.

Era só um anúncio da noite que se desenhava inesquecível desde o princípio.

 Para ficar tudo ainda melhor, no momento seguinte, enquanto eu ainda mastigava os pães, chegou à mesa para me acompanhar nada menos que Antônio Salustiano, chef e sócio da casa, uma lenda da gastronomia carioca, cearense porreta, que aprendeu muito em restaurantes como o Satyricon. Antes recluso na cozinha, depois da saída do Valmir Pereira ele começou a dar um pouco mais as caras (tanto que até então eu só o conhecia de nome, nunca tinha tido a oportunidade de conversar com ele, aprender uns macetes de cozinha).

Na sua ilustre companhia, passei agradáveis horas (ah, sim, horas, porque foram, no barato, mais de três). Nem me atrevi a pedir nada. Seu Antônio tratou de montar o meu menu. 

 Primeiro um lindo ravióli de foie gras, que é feito assim: primeiro é preparada uma espécie de terrine do fígado gordo. Então, junto de algumas passas, este é o recheio de uma massa delicada, cozida al dente, no ponto exato. Um molho à base de manteiga levemente queimada, naquele ponto de espuma, com sementes de mostarda são um complemento perfeito – e tudo ficou ainda melhor com as tacinhas de champanhe (e o que não fica ainda melhor com umas tacinhas de champanhe?).

Raspei o prato com os pães do couvert, entendendo porque eles ainda estavam ali sobre a mesa. Limpar o restinho do molho com o miolo é um ritual necessário.

 “Estamos na temporada de lula, você gosta?”, ele me perguntou.

 Bom, nem preciso dizer que, tirando a política, adoro, amo, idolatro a lula. Só em Brasília não gosto de lula.

 “Então vou pedir uma, acompanhada de capelini, ok?”

Beleza pura: só lulas passadas levemente na farinha, capelini, azeite e manjericão

 Enquanto o pedido era preparado, falamos deste molusco.

“Só uso aqui lula pescada na linha. Ela chega fresquinha e, como não se amassa na rede, consigo até tirar a sua tinta”, explicava seu Antônio.

Pouco depois, chegou o prato, com quatro lindas lulas, de uma maciez incrível, grelhadas com uma ligeira passada em farinha, só para dar um tostadinho gostoso. O corpo estava muito bom. Mas melhor ainda eram os tentáculos. Elas foram servida com um delicado capelini só passado no azeite com folhas de manjericão. Delícia, delícia, delícia, que ficou mais gostosa ainda na boa companhia do Muros de Melgaço, o maior dos vinhos verdes, tão espetacular que nem parece vinho verde.

A glória maior da noite, porém, já estava repousando à mesa no decanter para a etapa seguinte. Era um Barolo Pio Cesare 2004, uma dessas jóias da enologia que tornam qualquer refeição um momento de êxtase.

Barolo Pio Cesare: com ele, tudo fica bom

E comigo foi assim.

Que vinhaço.

Para lhe servir de escolta, seu Antônio pediu um cordeiro, aquele clássico da casa, assado lentamente até quase se desmanchar, sendo finalizado em forno alto para dar uma crocância e tostar levemente a casca. Ao seu lado, um risoto de rúcula cremoso era um bom contraponto.

Cordeiro com risoto de rúcula: carne se desmanchando, arroz cremoso e blogueiro feliz

E dá-lhe Barolo. E dá-lhe cordeiro. Que dupla!

“E que tal um tiramisu para encerrar?”, perguntou o irresistível Seu Antônio.

Como recusar sugestão dessa?

Tiramisu: para encerrar em grande estilo

Para acompanhar o doce, uma tacinha de Vin Santo, essa enlouquecedora pérola italiana em forma de líquido dourado. Tão bom que só podia mesmo ser santificado. Merece até um altar.

Estava tão bom, mas tão bom, que bebi quase tudo antes da sobremesa, reservando só um bocadinho para ela.

Numa consistência precisa, sem ser muito doce e com agradável cremosidade, o tiramisu encerrou com galhardia o jantar.

Encerrou?

Não, não, não: ainda havia o café, sempre servido com aqueleas telhas de amêndoa que são uma perdição.

À essa altura, já eram quase duas da manhã.

Hora ded partir.

Pergunta se fui embora feliz?

Como pinto no lixo.

Pergunta se dormi bem?

Maravilhosamente.

Pergunta quando quero voltar lá?

O mais breve possível…

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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7 Respostas to “D’Amici: melhor que nunca”

  1. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] D’Amici […]

  2. Jaciara Rodrigues Says:

    Olá Bruno, tudo bem? Sou jornalista frila, adorei seu blog. Gostaria de passar uma novidade pra você, uma programação que faz parte desse rio de janeiro a dezembro e que agrada, principalmente, a cariocas que gostam de futebol e livros. Se puder responder para o meu email, agradeç muitíssimo. Um abraço, Jaciara

  3. Léo Says:

    HUMILHA!
    bruno, um jantar com entrada, principal e sobremesa, fora vinho, sai a quanto por cabeça mais ou menos? umas 150 pratas?

    • brunoagostini Says:

      Até um pouco menos, Leo. Bota aí uns R$ 30 d entrada, R$ 50, R$ 60 do prato principal e mais uns R$ 20, R$ 25 da sobremes. Ah, tem também o covert, uns R$ 10, R$ 15. abração

  4. marina couto Says:

    quero ir semana que vem..babei com as fotos!

  5. Restaurantes para uma refeição inesquecível no Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] mais em conta. São eles o Quadrifoglio (para o Guia Brasil é hoje o melhor italiano do Rio), o D’Amici e o Terzetto. Os três também são infalíveis, com preparo de pães e massas caseiros, carnes […]

  6. Sugestões afetivas de restaurantes para o Dia dos Pais « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] mas ao Gero, sim, com certeza. Também são nomes altamente recomendáveis o Da Brambini e o D’Amici, ambos no Leme. Sei lá, acho que o Leme se enquadra na categoria “Bom para o Dia dos Pais”, […]

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