Cântico Negro, de José Régio, interpretado por sindicalista em trio elétrico na frente do Palácio Tiradentes: eita vida doida essa

Uma das estátuas que enfeitam a fachada do Palácio Tiradentes, palco desta cena tão inusitada

Essa vida está sempre nos pregando peças, revelando surpresas as mais inesperadas.
Outra dia estava eu numa sala alta da Faculdade Cãndido Mendes para um encontro, errrr, acadêmico. Lá do alto do prédio erguido junto ao Convento do Carmo tinha envidraçada e privilegiada vista da Assembleia Legislativa.
Havia um protesto que amarrou o trânsito por horas, atrasando a chegada de uma colega – pelo menos segundo testemunho da própria.
Como é comum ao gênero, havia um sindicalista meio doido gritando palavras de ordem ao microfone.
Clamou pelo passe livre.
Bradou pela reestatização.
Criou gritos de guerra não repercutidos na plateia escassa.

E então, depois disso tudo, ele declamou o Cântico Negro, de José Régio, que é sensacional.
Deu para ouvir a declamação do poema e acompanhar a performance espalhafatosa e de gosto duvidoso sobre o carro de som com jeito de trio elétrico do interior.
Me lembrei do João Villaret entoando aqueles versos fortes de maneira memorável.

Assim que percebi que algumas frases, mesmo em situações tão inusitadas, são necessárias.

Então, deixo esses tais versos, que são eternos, necessários e lindos. E são fortes.

CÂNTICO NEGRO – De José Régio (neste link, além do poema, você tem uma pequena biografia do autor)

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

 

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: