Miam Miam, um restaurante carinhoso

O ambiente é meio moderninho, mas apesar disso, é muito agradável, ótimo também como bar, para petiscar e beber nos sofás da entrada

Eu, ao contrário de muita gente que o considera apenas “um bairro de passagem”, adoro Botafogo. Junto à sua enseada cheia de barcos está o Bar da Rampa, um desconhecido boteco de clube, no caso o Clube de Regatas Guanabara. Debruçado sobre as águas da Baía da Guanabara, é um programão de fim de tarde ir até ali para comer um peixinho frito ou camarão com cerveja gelada vendo o balanço do mar. Não-sócios são admitidos, embora o povo nem goste de divulgar isso pra coisa ser mais família. Como se não bastasse, às quartas-feiras à noite rola um sambinha da melhor qualidade, sobre o qual um dia desse eu escrevo. O bairro, de onde se vê o Pão de Açúcar e o Redentor, tem sobrados e casinhas antigas, muitas em vilas deliciosas. Em muitas dessas construções rasteiras, cada vez mais raras no Rio de Janeiro, funcionam restaurantes, bares e redutos boêmios que estão entre os melhores da cidade. Entre as divertidas casas noturnas, algo mais underground, algo menos mauriçola que Ipanema e Leblon, há endereços clássicos como a Casa da Matriz – e tantas outras do mesmo grupo de amigos-empresários e algumas outras mais independentes. Há muitos cinemas – o Grupo Estação começou lá, timidamente numa sala acanhada, há uns 20, 25 anos atrás. Botafogo tem, ainda, o Yorubá, um restaurante afro-brasileiro incrível e surpreendente. Tem a carne-de-sol da Adega da Velha e a Cobal do Humaitá (ah, deixa eu considerar o Humaitá uma extensão de Botafogo, vai. Assim como o Arpoador é de Ipanema e o Leme é de Copacabana), seus chopes, filmes, festas e shows, pizzas, bacalhaus, sushis e tacos. Também tem o Bloco de Segunda, o Barbas e a São Clemente, até o surgimento da Rocinha, a única escola de samba da Zona Sul a freqüentar a elite do carnaval carioca.
 Adoro o bairro – e olha que sou flamenguista. Curto muito descobrir algo por lá. Na minha listinha de coisas gostosas em Botafogo há uma novidade que não é tão novidade assim: o restaurante Miam Miam, aberto no fim de 2005. Aos pouquinhos a casa foi fazendo fama. Jovem, despojada e bela, a chef Roberta Ciasca reflete a própria personalidade no restaurante. Ganhou todos os prêmios de chef revelação no ano passado. Talvez porque, entre outras razões, ela vá de encontro à maré. Em tempos de espumas, receitas moleculares, cones, fusões, confusões etc (não que eu não goste dessas experiências científico-gastronômicas, mas é bom variar né?), uma comidinha descomplicada vai muito bem, obrigado.    
 Estimulado pelos comentários de amigos, já fazia muito que estava para visitar o restaurante. Sabe aquele lugar que é tão ao alcance que você acaba sempre deixando para depois? Foi o caso. O Miam Miam está a uns 100 metros de um ponto de ônibus que todo o dia passo na volta do trabalho para casa. “Dia desse eu vou”, sempre pensei. Mas esse dia nunca chegava. Enfim nesta semana fui jantar lá com três amigas dos tempos de JB. E cheguei em casa com a certeza de que vou voltar muitas outras vezes. Porque eu gostei de tudo.
 O restaurante fica numa daquelas casas antigas e deliciosas que falei acima. Era da avó da Roberta, e isso deve ajudar na hora de administrar carinhosamente o negócio. Entramos por uma portinha de ferro e subimos a escada – de pedra, acho. Em um longo corredor há mesinhas ao ar livre coladas na parede enfeitada com bromélias devidamente emolduradas como se fossem quadros – lembrei até da Margaret Mee (aquela inglesa apaixonada pela flora brasileira que nos deixou uma linda e comovente coleção de ilustrações – de caráter científico, mas verdadeiras obras de arte – das nossas plantas). Agora que o fumo está proibido em restaurantes da cidade (até que enfim!), é um refúgio para a turma do tabaco. Ainda sentado ali fora provei e aprovei as trouxinhas de pato servidas com um molho chamado caramelo de laranja – e posso dizer que eles se deram bem. A massa sequinha e crocante guardava, em abundância, uma carne de pato desfiada. Mordidinha aqui, colherinha de molho ali…
 Informado pelo garçom de que uma das especialidades da casa são os drinques (tem até uma parceria com a vodca Absolut como bar de design ou coisa assim – no salão há um lindo painel da marca de bebida feita em marchetaria). Então, provei o que leva uva, gengibre, hortelã e Absolut Mandarin – acho que não estou esquecendo nada. Havia outras combinações interessantes como essa (faz sucesso o Ruella, com vodca, limão, gengibre e grenadine), mas como destilados, e drinques de uma maneira geral, não são o meu forte, migrei para um vinhozinho tinto servido em taça. Aliás, para mim, a única coisa que precisa melhorar no restaurante é o serviço de vinho.
 Para entrar no salão comprido passei pelo lounge com sofás, procurado tanto para esperar uma mesa quanto para esquentar as turbinas e matar a fome antes da night. Tem até DJ que toca ali pra rapaziada. Os móveis, estilo anos 50 e 60, de fórmica, bem no jeito de casa da avó, como de fato são. Luminárias dependuram-se do teto (agora vejo que a foto que usei na charada do post anterior era uma teta). Está tudo à venda. “Quer dizer, tudo não. Tem umas mesas que não posso vender. Pô, tá vendo aquela ali. Cê tira uma parte da tampa de madeira e ela diminui de seis para dois lugares. Superversátil, não posso vender”, reconhece Roberta.

Rolinhos de rosbife com rúcula, parmesão e azeite de ervas: clássico da casa

 Em seguida pedimos um clássico da casa desde o berço: os rolinhos de rosbife com rúcula, parmesão e azeite de ervas. O sucesso dessa receita revela todo o segredo da cozinha: a simplicidade casada com bons ingredientes e preparo atento.
 Na hora de eleger o prato principal, a tarefa foi bem difícil. Muitas coisinhas despertaram o meu interesse. O filé de peixe com ratatouille, purê de banana e farofa crocante; o arroz de bacalhau com espinafre, açafrão e alho assado; o pato desfiado com juliana de legumes e bifum crocante; o picadinho com arroz picante de gengibre com cogumelos; as panquecas de frango com aspargos verdes, ementhal e estragão com pedacinhos crocante de parma; e o nhoque com manteiga de rúcula, parmesão e filé.
Reparei uma coisa: não há muitos ingredientes. A cozinha trabalha com uma quantidade pequena de matéria-prima, combinada em diversas formas de preparo. E isso, para mim, ajuda a garantir a qualidade dos produtos.          
 Fui o último a escolher o prato, o que facilitou as coisas. A Rita pediu o filé de peixe, a Joana foi de picadinho e a Renatinha preferiu o nhoque. Fiquei, então, entre o pato, o arroz de bacalhau e as panquecas de frango. Como achei o pato dos pasteizinhos excelente, decidi insistir no elemento principal da receita: fui de pato com juliana de legumes e bifum crocante. Mas, confesso, meu garfo passeou na maior cara-de-pau pela mesa espetando tudo.
Beliscando aqui e ali percebi um especial interesse no contraste de texturas, no contraponto entre doce e salgado, entre o suave e o pungente. É uma comidinha caseira, mas com uma preocupação (na apresentação e finalização, em especial) que mamãe não tem. Nem a vovó.

Pato desfiado com juliana de legumes e bifum crocante: contraste de texturas

No meu prato (o da foto aí de cima), a “cabeleira” de bifum fazia aquele “croc croc” gostoso, enquanto o pato e os legumes al dente se desmanchavam na boca. Um molho denso untava a língua. “A Roberta se auto-homenageou ao criar esta receita. Reparou que o bifum crocante é igual ao cabelo dela?”, brinca a sócia, também, jovem, despojada e bela, Danni Camilo, produtora de moda paulistana – há dez anos no Rio – que passou por endereços badalados como o Bar d’Hotel cuidando do movimento. Tudo muito cool, como o Miam Miam. Em resumo, Danni cuida do salão e Roberta da cozinha.
 No picadinho da Joana os cogumelos enormes chamavam a atenção. Ficavam ainda melhor quando fatiados e combinados à carne servida em panelinha Creuset, aquelas com 100 anos de garantia e que custam algumas centenas de reais, e ao arroz – para mim, amante dos sabores fortes, menos picante que o ideal: da próxima vez peço para capricharem na pimenta dedo-de-moça. No peixe da Rita o que me encantou mesmo foi a farofa crocante (“só pão passado no processador e dourado no azeite”, explica a chef”) e o purê de banana (“que é a coisa mais complicada de se preparar. Tem dia que a banana não está boa e não sirvo o prato”, diz Roberta). Da Renatinha roubei uns nhoques, de massa muito delicada (“mas vou tirar do cardápio porque o cozinheiro que prepara, que tem uma mão ótima, está de saída”, confessa a chef). Ah, se todos tirassem do cardápio naquele dia um prato cujo ingrediente não está legal. Ah, se todos deixassem de fazer um prato de sucesso por não acreditar que outra pessoa possa fazer igual ao cozinheiro que sai… 
 Agora, tenho que voltar para provar as panquequinhas de frango, o arroz de bacalhau e o que mais virá da cabeça da Roberta Ciasca, porque o que ela gosta mesmo é de variar o cardápio. Vou antes que eles saiam de cartaz… 
 Para finalizar, uma degustação de sobremesas (que não está no cardápio, mas eles fazem, a exemplo das entradas) no melhor estilo comunitário. Tinha tortinha suflê de limão com coco e coulis de amora; mousse de goiaba em cesta crocante com sorvete de queijo; rolinhos de chocolate com ganache de chocolate e calda quente de maracujá; e uma receita diet: scones de limão, compota de frutas vermelhas e mascarpone aromatizado com água de rosas.
 Uma outra coisa que chama a atenção é que todo mundo curte o Miam Miam. Você viu no post anterior os comentários de quem conhece? Eu nunca ouvi ninguém falar mal de lá. Há quem se queixe da localização (como me explicou a Renatinha: “Fica na Rua General Gois Monteiro, 34, a continuação da Rua Passagem. É um casarão branco do lado de uma loja de pneus e quase colado na entrada do estacionamento lateral da Morada do Sol”). Eu acho um luxo ter vaga na porta, de graça. Dei dois reais pro guardador porque quis.
 Também notei um perfil absolutamente eclético entre os freqüentadores. Vi desde adolescentes, uns atores de Malhação, a casais de idade bem avançada. Encontrei até um colega de trabalho, um motoqueiro figuraça. Vi famílias inteiras jantando, e gatinhas animadas bebericando no lounge. Vi dois gays curtindo um vinho e até um homem engravatado que aparentemente voltava de uma estressante reunião de trabalho e foi ali relaxar. Porque, se eu tivesse que resumir a comida do Miam Miam, e todo o caráter da casa, em uma única palavra, esta seria carinho. O Miam Miam é carinhoso. E quem não gosta de um afago, de um cafuné?

 Ah, uma curiosidade que revela bem o espírito da casa. Miam Miam é o equivalente na França ao nosso Nham Nham.

Hummm, delícia.

 Publicado em abril de 2008

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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4 Respostas to “Miam Miam, um restaurante carinhoso”

  1. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Miam Miam […]

  2. Léo Says:

    meu restaurante favorito! que aliás conheci através desse post ai de cima…
    valeu Bruno!

  3. Victor Fontes Says:

    Moro a poucos metro do Miam Miam, na Rua da Passagem, e posso dizer que ele é mais do que um restaurante … ele é um dos meus “lugares” favoritos.

    Achei seu post ao googlar o restaurante para apresenta-lo a uma amiga de fora e me identifiquei muito com as suas impressões, tanto do restaurante quanto de botafogo.

    Excelente texto, com uma conclusão apaixonante.

    Acompanharei o blog com prazer.

  4. Michelle Says:

    Estive lá nesse fim de semana e também gostei muito do restaurante! Já recomendei tb aos leitores do meu blog

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