Ir e vir: divagando sobre viajar e voltar para casa

 

Festa hare krishna em pleno centro histórico de Praga, ao lado do famoso relógio astronômico

Depois de fazer o pior voo da minha vida, de Amsterdã para São Paulo 11 horas espremido entre dois marmanjos num assento central apertado, finalmente cheguei ao Brasil. Falta pouco pra chegar em casa. Consegui antecipar o meu voo de Guarulhos para o Galeão das 21h40 para 19h (Aliás, essa história de antecipar voo vale um post, que farei logo). Escrevo aqui do aeroporto, com saudades do Rio, dos amigos e da família. Saudades até do trabalho na redação. Saudade da rotina, de Ipanema, do calçadão.

Essa vontade louca de chegar ao lar doce lar me fez lembrar que uma das sensações mais significativas de minhas viagens é o prazer gigantesco do retorno. Gosto mais de voltar que de ir, prefiro o regresso à partida, meu quarto a qualquer suíte do melhor hotel. O que me fazer sair de casa é a certeza de voltar para ela.

Certa vez, estava viajando a trabalho por Portugal. Andava pelo Alentejo, cortando aquelas planícies lindas, nas quais se vê apenas campos de trigo, sobreiros, oliveiras e vinhedos. Ótima paisagem para a reflexão, para os pensamentos, inúteis ou não. Uma beleza linda, mas monótona, que estimula o raciocínio. A saudade da vida carioca era forte, imensa, incomensurável. “Quero minha casa de volta”, pensava comigo mesmo, ainda que a viagem estivesse divertida à beça. Mas já se passavam dez dias de estrada.

Um amigo me deu uma revista para ler. Nela havia uma entrevista com o escritor português Miguel Souza Tavares. Conforme eu lia, me encantava pelos seus pensamentos e idéias, pelos seus princípios, filosofias, palavras e amigos. Muito se falava sobre viagem nesta entrevista, porque ele é um viajante por natureza, desses que não perdem uma oportunidade de sair por aí visitando novos países e cidades, ganhando inspiração para escrever. Todos os seus livros tratam disso, da partida, do retorno, das mudanças que as nossas vidas apresentam durante essas jornadas mundo afora. Lá pelas tantas, ele disse algo mais ou menos assim:

“Adoro viajar principalmente porque o retorno para casa me faz bem. É o prazer da volta que me tira de casa para desbravar novos horizontes. É a certeza do retorno que me faz ir. Gosto mesmo é de voltar”.

Caiu a ficha para mim.

Nunca vou me esquecer desse momento, que me ajudou a entender porque gosto tanto de viajar – e também porque estava tão interessado na entrevista. Tenho paixão por visitar novos lugares ou de estar novamente nas cidades que adoro (em Buenos Aires já estive 11 vezes, e volto sempre que posso).

Mas uma das grandes razões, talvez a maior de todas, de tanto gostar de sair por aí, é que realmente tenho um prazer fora do comum em voltar para casa. O melhor dia de qualquer viagem é sempre o último, o dia da volta.
Adoro arrumar as malas, tanto para ir quanto para voltar. Mas sem dúvida, a volta me motiva mais que a ida. É algo um tanto contraditório, mas é assim, sou assim. É claro que me divirto e aprendo demais durante qualquer viagem, que tenho muito prazer. Só digo que voltar para casa é o maior deles.  

Durante muito tempo tinha isso como pensamento íntimo. Achava estranho. “Ninguém vai me entender”, pensava.

Desde a infância, com pais, avós e tios, depois na adolescência, com amigos e namoradas, e hoje em dia profissionalmente, seja sozinho, em grupo, com a família, os amigos, viajar sempre me deu imenso prazer, sempre foi meu propósito de vida. É a minha rotina: comer e viajar, viajar e comer, fotografar. Faço isso para depois escrever. Estou sempre às voltas com várias viagens (no momento, há várias em vista: Toscana ou Provence nas férias, dúvida cruel, caçada às trufas no Piemonte, sonho acalentado há anos, visita aos vinhedos do Chile, mais uma vez, Salvador, de novo e sem falar naqueles destinos mais próximos, escapadas rápidas de fim de semana ou feriadinho para Paraty e Petrópolis – e Teresópolis, que nem conta mais como viagem, já que a filha mora lá e a cada 15 dias, pelo menos, eu subo a serra para visitá-la).

Gosto de viajar para longe, para perto, para lugares desconhecidos, para destinos adorados e repetidos à exaustão: não passo um mês sem pegar a estrada. E isso lá se vão dez anos. Ou mais.

E sempre achei estranho, curiosamente esquisito, essa coisa de ser um apaixonado pelas viagens, mas ter um prazer maior mais com a volta que com a ida. O regresso é um tesão violento. O Miguel Souza Tavares me fez ver que não sou o único, que isso não é um comportamento isolado. Há outras pessoas assim. Pelo menos ele.

Durante qualquer viagem sempre me lembro daquela tarde bonita sentado num ônibus cortando o Alentejo. Folheava a revista, mirava a paisagem linda. Era véspera do meu retorno. Estava feliz por isso. Como estou agora, faltando umas duas horas para abrir a porta de casa, jogar a roupa suja no cesto da área de serviço, colocar os vinhos comprados na viagem dentro da adega, guardar os guias, tomar um banho e deitar na minha cama, que não é a melhor do mundo, mas é a melhor do mundo… para mim.

 Adorei a República Tcheca. Praga é linda. Bebi as melhores cervejas de minha vida. Provei vinhos muito mais gostosos do que podia supor. Comi em restaurantes ótimos. Andei por lugares deslumbrantes, igrejas barrocas e góticas, palácios lindos. Vi uma emocionante peça de teatro negro, pura magia. Cruzei a Ponte Carlos, esta obra de arte renascentista, pelo menos uma dezena de vezes. Até topei com uma festa hare krishna em plena área histórica. Mas nada me deu mais prazer que estar aqui, quase chegando em casa. E olha que ainda estou em São Paulo. A explosão de alegria virá mesmo quando o comissário, chegando ao Galeão, anunciar: “Atenção tripulação, preparar para o pouso”. E o êxtase acontece quando o taxista diz o valor do corrida. E, quando giro a chave na porta de casa, quase choro de tanta felicidade.

Ah, que delícia é a volta.

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2 Respostas to “Ir e vir: divagando sobre viajar e voltar para casa”

  1. Eduardo Says:

    Muito legal!

  2. O último rango em Paris « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] alegria por voltar para casa. Adoro o regresso, prefiro mil vezes a volta do que a partida, e já escrevi sobre isso aqui. Mas, além disso, busco sempre me dar alguns luxos no último dia, como um grande jantar, ou, […]

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