Qual é a diferença?

 

O ovo com banana da Sudbrack: gentileza da chef com o blogueiro

Toda a discussão de ontem acabou me levando a pensar numa coisa. Num monte de coisa, na verdade.

Fiquei me perguntando: quando vou a um restaurante em diversas condições, pagando, convidado pelo lugar ou em “almoço de negócios”, por assim dizer, qual é a diferença da comida?

Aqui no Rio, por exemplo, nos grandes restaurantes (D’Amici,Gero, Antiquarius, Fasano al Mare, Cipriani, Le Pré Catelan, Olympe, Sudbrack, Quadrifoglio, Terzetto…) eu estive de todos os jeitos possíveis e imagináveis: criança, adulto, pagando, convidado, no almoço, no jantar, a trabalho, a lazer, com o dono, sozinho.   

Digo e afirmo categoricamente: a diferença é nenhuma, quando muito, mínima. Em restaurantes inferiores pode até, sim, haver um desvio maior.

Com raras e muitas vezes justificáveis exceções*, a qualidade entre uma refeição e outra não existe. Nos bons lugares, como bem sempre, com ou sem o dono, e nos maus, com assessor ou não, como mal. Realmente é assim que acontece.

Restaurante ruim é ruim quando me convida, quando eu pago e quando os outros pagam pra mim. E os bons são bons quando me convidam, quando eu pago e quando os outros pagam pra mim. Há um desvio mínimo nisso, se quisermos fazer alguma estatística em cima dessa informação.

Um asterisco para justificar as exceções. Se há uma mudança muito grande no nível entre uma refeição e outra é porque normalmente tem alguma excepcionalidade: o lançamento de um novo cardápio, uma degustação dirigida com vinhos inadequados e outras circunstâncias que podem afetar a qualidade. Mas, fora essas raras exceções, a cozinha costuma se portar de maneira uniforme.

Às vezes temos momentos de exceção. A gente se senta ao lado do dono, do chef ou do sommelier da casa, às vezes com eles todos, e além da conversa calórica fazemos percursos irreais. Comemos aquelas bochechas de porco que estão fora do cardápio, provamos aquele vinho que nasceu para ser bebido exatamente com aquele prato. É absolutamente tudo do bom e do melhor, para usar uma expressão rasa. Sei reconhecer essas diferenças. E também tenho a certeza de que coisas assim acontecem porque as pessoas amam a comida. Hoje sou amigo de donos de restaurantes. De chefs. E não os bajulo por isso. São amigos, compartilhamos o amor pela comida e nunca vou falar bem deles por causa disso.

Olha só, por exemplo, que delicadezas podem acontecer.

Na semana passada eu tinha um jantar lá na Sudbrack com o diretordo Las Ventanas, aquele hotel mexicano super ultra classe A, em Los Cabos. Pelo Facebook avisei a ela que jantaria lá naquele dia.

No cardápio estava o tal ovo com banana. Delirei.

No fim, disse é chef: “Ai, que bom ter podido comer esse ovo de novo”.

Então, ela respondeu baixinho: “Nem estava no cardápio, mas quando você falou que vinha, precisei incluir. Você falou tanto dele”. 

Se alguém quiser acreditar que ela faz isso porque quer agradar um jornalista de gastronomia e viagens que acredite. Eu sei que ela fez porque eu amei, de coração, o ovo. Foram colheradas que me deram um prazer sem tamanho, que me ensinaram muito sobre a comida, que me ajudaram até a entender o Brasil (pois é, como diria Bethânia, ou melhor, Guimarães Rosa: “Felicidade se acha é em horinhas de descuido”. Espero que me entendas). E ela, a Sudbrack, percebeu isso. E ela ama cozinhar. E ela quis me dar esse gosto de novo. E ela ficou feliz de ter dado, e eu de recebido. É isso.

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10 Respostas to “Qual é a diferença?”

  1. Mari Ceratti Says:

    Oi, Bruno,

    Aqui é a Mari, do press tour de Barbados.

    Vou aproveitar seu post pra fazer um desabafo: sou megadecepcionada com o restaurante da Sudbrack. Fui lá pagando (e pagando caro) por um menu degustação.

    Na prática, o que rolou foi o seguinte: porções mínimas com sabores apenas razoáveis. E ingredientes tratados de forma pouco surpreendente. O prato principal, para você ter uma idéia, era uma costela bovina com um pacotinho de batata frita ao lado. Corrija-me se eu estiver errada, mas isso é o tipo de coisa que eu posso comer feliz da vida num bar, pagando pouco, e não num dos restaurantes mais caros do Rio, numa ocasião que deveria ser um presentaço para mim, para o maridão e o nosso melhor amigo.

    Por ora, vou continuar sem entender a festa toda que fazem por ela.

    Beijo!

    • brunoagostini Says:

      Olá!!! Minha sincera opinião, de quem foi lá na Sudbrack umas dez vezes (como pessoa física, para fazer crítica pro Guia Quatro Rodas, em degustações de vinho, em apresentações de novos menus, em encontros de trabalho, como este que rendeu uma nova prova no ovo). Sempre comi muito bem, e percebo que a comida está cada vez melhor. Pra mim, é a chef do momento, e aposto nela para faturar vários prêmios este ano. Você pode ter pego um dia ruim, ou simplesmente o estilo dela não te agradar. Beijos

      • Mari Ceratti Says:

        Prefiro acreditar que eu tenha pego um dia ruim, pois tanta gente elogia ela! :o) O problema é que isso me deixa muito mais resistente a qualquer nova experiência lá.
        Se é para falar de restaurante bom em qualquer circunstância (indo como pessoa física, para fazer matéria, etc.), gosto de apontar o Aquavit, aqui em BSB. O chef é um dinamarquês muito fera, que prepara algumas das coisas mais gostosas que já comi. Se vier à capital, vc tem que conhecer. Bjs.

    • Dri Says:

      A questão das porções mínimas é algo que eu sempre levanto. Pq eu compreendo que alta gastronomia não combine com prato de peão. Pq eu acho interessante poder provar diversos sabores ao longo da noite. Mas eu não consigo captar ainda porções que terminam em duas colheradas e custam R$40,00. E não, não estou falando de caviar beluga nem de trufas frescas raladas. Estou falando do dia a dia.

      Sei que a Roberta é muito elogiada e não posso dizer que achei a comida ruim, mas não me pegou pelo coração. Como o Bruno mesmo diz, muito da análise da comida se dá baseada em emoções que sentimos e isso é bastante subjetivo e variável. Um importante ponto a se levar em consideração, sempre.

  2. Ricardo Oliveira Says:

    Bruno,

    Concordo com quase tudo que escreveu, mas esse ovo que a R.S. lhe serviu, caso não fosse ela que colocaria na sua mesa ou se tivesse comendo isso em outro restaurante, tenho certeza que sua opnião não seria a mesma.O momento, o carinho, o ambiente, o sorriso discreto do serviço, a satisfação em servir o cliente…tudo isso influência muito!!!

    Abs.

    • brunoagostini Says:

      Ricardo, sabe que acho que não? Pode até ser, mas acho que não. Já fui servido carinhosamente por outros chefs e nem sempre me encantei. Mas é certo que “O momento, o carinho, o ambiente, o sorriso discreto do serviço, a satisfação em servir o cliente…tudo isso influência muito!!!” Você está certo, sim. Mas acho que amaria o ovo em qualquer circunstância.
      Abraços

  3. marisa Says:

    eu ameeeeei o ovo. confesso que quando li no cardapio, nao imaginava q. fosse nem a metade da elegancia e leveza, com mix de sabores indescritiveis. já estive por lá pagando, como convidada e na ultima vez como anfitria de alguns convidados super especiais… e amei todas as vezes. volto em breve. Ela é 10!

    • brunoagostini Says:

      Foi ótimo, ótimo. Como disse lá: quando um encontro começa com champanhe as chances de ser um sucesso são imensas

  4. Paula Says:

    A Roberta é assim mesmo e posso garantir que o único interesse dela é no afeto e na emoção das pessoas, pois eu não são jornalista, muito menos crítica de gastrônomia e sempre recebi mil gentilezas por parte dela.
    Certa vez fui procurada pelo salão para terem a certeza se era eu a pessoa do twitter que adorava o consommé dela, eis que surge um consommé na minha frente.

    Acho sim que ela é uma chef incível, ela tarta os alimentos com delicadeza, como jóias!

    Sou fã!

  5. Paula Says:

    errata: eu Não sou**

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