Filosofias de uma esfirra

Uma esfirra não é menos importante que um tratado de Kant

Entre muitas razões, comer é bom porque aromas e sabores, e até as texturas, têm a capacidade de nos transportar para outros tempos, assim como uma boa música. Comer (bem) é pura metafísica. Uma esfirra não é menos importante que um tratado de Kant. Não é mesmo.

Comemos um doce, bebemos um vinho, e explodem em nossa mente lembranças da infância, ou da adolescência, ou da semana passada. Pode ser um doce de leite comido numa fazenda de Minas, uma framboesa silvestre colhida nas matas de Teresópolis ou a esfiha que fazia a alegria antes das consultas ao pediatra.

Nesta semana vivi isso, o que é sempre divino. Quando criança o meu médico era na Galeria Menescal. Todas as consultas eram acompanhadas de uma porção de esfirras no Baalbeck, uma lanchonete árabe que funciona ali desde antes de a bossa nova existir, acho eu.

Esta semana aproveitei que estava de passagem por Copa, e com tempo disponível, para revisitar o lugar (não ia lá fazia uns cinco anos). Fiz um tour completo pelas iguarias da casa: esfirra fechada, esfirra aberta, quibe com coalhada… e ainda trouxe mais coisas para casa: quibe de carne, esfirra com zatar e, claro, mais esfirra de carne, a clássica…

Até conhecer a Padaria Bassil a esfirra do Baalbeck era a melhor do Rio. Hoje, analisando friamente, sei que o salgado servido na Saara é mais gostoso. Mas pra mim não é. A melhor esfirra do Rio sempre foi a do Baalbeck, e sempre será. Posso até, à luz da razão, saber que a outra é melhor. Mas emoção sempre vale mais que razão, em qualquer situação, e principalmente quando se trata de comida.

Comer as efirras de pé no balcão da lojinha da Galeria Menescal foi um festival de lembranças. A emoção não está na comida, mas em quem come.

Certa vez li um texto incrível de Michel Onfray, um filósofo francês que desenvolve teses sobre gastronomia, sabores e afins. Ele escreve, em um dos capítulos do livro “A razão gulosa – Filosofia do gosto”, a respeito de um vinho que ele provara. Os aromas da bebida evocam memórias infantis, um morango suculento apanhado nos campos de sua Normandia natal. Aprendi muito lendo aquele relato, inclusive sobre o entusiasmo que sinto pela comida.

Porque há muito mais filosofia na comida do que somos capazes de supor.

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7 Respostas to “Filosofias de uma esfirra”

  1. Luana Rocha Says:

    Nossa, Bruno, fiquei até emocionada! Vou ver se acho esse livro pra ler. Bjs

  2. Luzi Says:

    Olá, Bruno. As esfirras do Baalbeck são gostosas mesmo. Mas, para mim, as da Rotisseria Sírio Libanesa, no Largo do Machado, são as melhores!

  3. Marcio Tend Says:

    Bruno, passei minha infância comendo esfihas do Baalbeck na Galeria Menescal, posso dizer que são muito boas, mas já foram melhores. Acho que a esfiha da Bassil é a melhor do Rio, as da Rotisseria no Largo do Machado também são fantásticas. Abração!!!!

    • brunoagostini Says:

      Marcio, também acho que deram uma caída… Mas o valor sentimental acho que só aumenta com o tempo, o que compensa a qualidade, acho…

  4. Tati Says:

    Concordo com eles, a do Largo do Machado também é clássica! bjs

  5. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Baalbeck […]

  6. Murilo Goulart Says:

    Bruno,

    certamente seu médico era o Hélio Abdelnor.

    Acertei ?

    Murilo

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