No bar do Antiquarius, de tapa em tapa

Espumante com biscoitinhos de queijo: sempre o melhor começo

Mesmo quando o restaurante não está lotado, faço sempre questão de esperar por uma mesa no bar do Antiquarius. Faz parte do ritual clássico começar ali, seja nos confortáveis sofás das mesinhas ou mesmo nas cadeiras altas do balcão, com vista privilegiada do salão. Caso não haja lugar por ali, não me dou por vencido, e fico no mezanino mesmo, sentado naqueles móveis lindos (e antigos) que estão à venda. Mas nunca vou direto para a mesa. Gosto de começar ali, primeiro com os biscoitinhos de queijo, que são uma loucura. Na escolta de uma boa taça de espumante (ou champanhe mesmo, que ali faz todo o sentido) vão chegando os pratinhos do couvert: bolinhos de bacalhau e rissoles de camarão são imperdíveis, mas os croquetinhos de carne também fazem bonito. Só depois dessa brincadeirinha é que aceito o convite do maitre para ir até a mesa.

Na terça passada era para ter sido mais um processo mais ou menos assim. Mas acabei passando a noite inteira no balcão do bar, na ilustre companhia do amigo Pedro Mello e Souza – aliás, ninguém conhece melhor aquela casa que ele.

Assim, foi o próprio quem conduziu o menu. Só fui seguindo os seus pedidos, todos inéditos para mim no Antiquarius.

Primeiro fomos ficando no bar porque a casa estava absolutamente lotada, e era só uma terça-feira. Lotada mesmo, com muita gente em pé ali na parte do bar. Isso por volta das 21h, quando começamos o percurso. Acho até que vi o Rodrigo Santoro numa mesa…

E nós fomos ficando no bar. Primeiro, com o propósito de conseguir uma mesinha, depois, acabamos preferindo ficar ali mesmo, só nos belisquetes, coisa que nunca tinha feito no Antiquarius, e achei demais. E já que bebíamos um bom branco português, ficamos só nadando nos sabores do mar (aliás, teve um chouriço flambado na bagaceira, só para quebrar o ritmo das ondas, o marulho, a calmaria marinha).

Camarão à Zico: panelinha ardente com pimentões, alho, muito alho, e lindos crustáceos

Depois dos petiscos do couvert, começamos a encorpar os nossos pratos. Fizemos uma linda sequência de belisquetes assados em fogo alto nessas charmosas panelinhas de barro aí de cima. Depois do aquecimento, entramos em campo com o pé direito.

– Manda descer aí uma porçãozinha do Camisa 10 – pediu o Pedro.

Eu logo entendi que se tratava do camarão à Zico, prato clássico da casa. Apesar do ataque do Mengão estar devendo, o prato bate um bolão – ganhou este nome porque a Sandra, mulher do Galinho, quando foi morar na Itália pediu a receita ao Perico. Era algo simples, um clássico português, como as gambas ao ajillo, uma combinação de camarões, pimentões vermelhos e alho, muito alho, assados com bastante azeite em fogo altíssimo. Uma beleza. Tão bom, mas tão bom, que até as torradas imersas naquele azeite rico eram algo sublime.

As pequeninas enguias afogadas em azeite e pimenta dedo-de-moça entraram para a galeria de "pratos imperdíveis do Antiquarius" para mim

A etapa seguinte quitou uma dívida antiga de mim comigo mesmo: provar as tais angulas, as pequenas enguias, servidas afogadas em azeite e pimenta dedo-de-moça, que chega à mesa ainda borbulhando de tão quente. Olha só: parece até uma macarrão oriental, ou sei lá, um broto de bambu. Mas não parece um peixe. Adorei. Para pescá-las na cumbuca de barro fervente nós recebemos garfinhos de madeira. E o momento entrou para a minha história. Demais. Vou pedir sempre. Apimentado, salgado, untuoso, o pratinho é uma delícia.

– Ah, mas tu tens que provar os joaquinzinhos – disse-me o Manuelzinho, ao ver meu encanto com as enguiazinhas.

Sabia que não se tratava de um primo patrício do maitre da casa. Então, perguntei, curioso:

– Joaquinzinhos?!?!?!

– São pequenos peixinhos, que comemos vários de uma vez lá em Portugal. Um amigo sempre me traz. E também tem os pombinhos assados, uma delícias, comemos o bichinho inteiro, pequeninos, com cabeça e tudo – lembra, saudoso, Manuelzinho, o maitre que é a essência do Antiquarius, a alma alentejana.

Lagostins com curry, assados ao forno: sinto até o perfume e ouço as borbulhas do molho muito, mas muito quente

Que tal uns lagostins à moda do Antiquarius? Boa. Mas se você pensa que esta é uma receita bem lusitana, estás muito enganado. Pode ser, no máximo, uma receita com inspiração em Goa, antiga colônia portuguesa na Índia. Isso porque se trata de um delicioso lagostim ao curry, que me confirmou outra característica rara do Antiquarius: o esmero e excelência no preparo dos crustáceos.

Tenho uma teoria: peça um prato de camarões para ver se o chef sabe cozinhar, porque este crustáceo delicado tem um ponto de cozimento muito preciso, e só os grandes restaurantes sabem alcançá-lo. No Antiquarius eles sabem. Eu é que não sabia que eles sabiam, porque ali raramente saio do circuito bacalhau e pratos encorpados de carne à moda portuguesa. Peixes e frutos do mar não me lembro de ter pedido uma vez na vida sequer. E olha que foram muitas as visitas. Mas os pedidos não variavam tanto: picadinho, bacalhau à lagareiro, perna de cordeiro à moda de Braga (com feijão branco, uma delícia que pode ser facilmente dividida por duas pessoas), escalopinhos ao roquefort e outras coisas do gênero.

A versão alentejana de nossa querida linguiça na cachaça

Foi justamente a esta altura que decidimos ficar por ali. Para brindar, pedimos uma porção de chouriço na bagaceira.

– Vamos pedir um tinto?

– Que nada, esse branco tá bonzão, vamos nele mesmo.

E seguimos em frente.

Casquinha de centolla: transbordando sabores e temperos

Primeiro uma casquinha de centolla (casquinha, não, cascona). Era um conchão recheado com creme bem temperado com este caranguejo.

Já passava de uma hora da madrugada quando chegaram a Malu Mader, o Tony Belloto e uns amigos. Pediram rapidinho.

A sopa rica de frutos do mar é uma cumbuca coberta com massa folheada e recheada com um bisque de salmão e crustáceos: demais, demais, demais!!!

Ainda tivemos tempo de ordenar a sopa rica de frutos do mar, um inebriante pote coberto com uma massa meio folheada. Lá dentro um bisque realmente rico, muito perfumando, com pedaços robustos de salmão e camarão, um desses raros pratos dignos de antologia, nascido para dias frios: quente, espesso, condimentado, acolhedor. Uma sopa que é prato principal. Grand finale.

É… O Antiquarius, que sempre foi o melhor restaurante do Leblon de tantos restaurantes, é também o melhor bar de tapas do Leblon de tantos bares de tapas…

E o clássico pratinho de doces, que sozinho já justifica uma visita ao restaurante do Leblon

Depois dessa bagunça toda ainda devorei o pratinho de doces, inevitável. Encharcada, sericaia, rocambole de laranja, estrogonofe de nozes (acredite, este doce de nome estranho que eu nunca havia provado é muito bom).

Dispensei o café. Eram 2h30. Pedi um táxi. Dormi como um anjo.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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2 Respostas to “No bar do Antiquarius, de tapa em tapa”

  1. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Antiquarius (uma noite no bar, de tapas em tapas) […]

  2. Um jantar off-menu no Antiquarius, com steak tartar e filezinhos de cordeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] lotada, como sempre. Depois de passar uma noite memorável no balcão do bar, que me rendeu um post aqui e uma matéria para a Go Where Rio (também publicada aqui no blog), voltei à casa do Leblon para […]

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