Archive for agosto \19\UTC 2010

Filosofias de uma esfirra

19/08/2010

Uma esfirra não é menos importante que um tratado de Kant

Entre muitas razões, comer é bom porque aromas e sabores, e até as texturas, têm a capacidade de nos transportar para outros tempos, assim como uma boa música. Comer (bem) é pura metafísica. Uma esfirra não é menos importante que um tratado de Kant. Não é mesmo.

Comemos um doce, bebemos um vinho, e explodem em nossa mente lembranças da infância, ou da adolescência, ou da semana passada. Pode ser um doce de leite comido numa fazenda de Minas, uma framboesa silvestre colhida nas matas de Teresópolis ou a esfiha que fazia a alegria antes das consultas ao pediatra.

Nesta semana vivi isso, o que é sempre divino. Quando criança o meu médico era na Galeria Menescal. Todas as consultas eram acompanhadas de uma porção de esfirras no Baalbeck, uma lanchonete árabe que funciona ali desde antes de a bossa nova existir, acho eu.

Esta semana aproveitei que estava de passagem por Copa, e com tempo disponível, para revisitar o lugar (não ia lá fazia uns cinco anos). Fiz um tour completo pelas iguarias da casa: esfirra fechada, esfirra aberta, quibe com coalhada… e ainda trouxe mais coisas para casa: quibe de carne, esfirra com zatar e, claro, mais esfirra de carne, a clássica…

Até conhecer a Padaria Bassil a esfirra do Baalbeck era a melhor do Rio. Hoje, analisando friamente, sei que o salgado servido na Saara é mais gostoso. Mas pra mim não é. A melhor esfirra do Rio sempre foi a do Baalbeck, e sempre será. Posso até, à luz da razão, saber que a outra é melhor. Mas emoção sempre vale mais que razão, em qualquer situação, e principalmente quando se trata de comida.

Comer as efirras de pé no balcão da lojinha da Galeria Menescal foi um festival de lembranças. A emoção não está na comida, mas em quem come.

Certa vez li um texto incrível de Michel Onfray, um filósofo francês que desenvolve teses sobre gastronomia, sabores e afins. Ele escreve, em um dos capítulos do livro “A razão gulosa – Filosofia do gosto”, a respeito de um vinho que ele provara. Os aromas da bebida evocam memórias infantis, um morango suculento apanhado nos campos de sua Normandia natal. Aprendi muito lendo aquele relato, inclusive sobre o entusiasmo que sinto pela comida.

Porque há muito mais filosofia na comida do que somos capazes de supor.

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Peguei um bonde pra Santa

17/08/2010

O bondinho amarelo parado no Largo dos Guimarães, o coração do bairro mais cool do Rio de Janeiro

Prometi há alguns posts abaixo escrever aqui sobre Santa Teresa, esse enclave artístico e boêmio tão carioca, com ruas de tomada por ateliês, botecos e um relativo sossego – isso tudo ali, tão pertinho do Centro. Esse bairro-mirante é lugar obrigatório no roteiro de qualquer turista. Nem que seja só um passeiozinho de bonde para apreciar a vista da cidade.

Curto muito o lugar. Santa é cool. Algumas das centenárias mansões começam a virar pousadas. Como a Mama Ruisa, a Solar de Santa, a Rio 180 Graus e a Castelinho. Não duvidem que virão outras. Pousadas de charme em Santa Teresa me parecem uma das mais fortes tendências na hotelaria carioca. Há ainda famílias que aderiram ao Rio Hospitaleiro, rede de pensões bed and breakfast com a chancela da prefeitura.

Para mim, o programa ideal nos meses de verão é pegar uma prainha pela manhã. Lá pelas três da tarde pega-se o metrô até a Estação da Carioca. A poucos passos dali está a estação do bondinho de Santa Teresa.

Até meados do século passado, o bonde era o principal transporte público no Rio de Janeiro. Hoje restam duas únicas linhas, percorridas nos emblemáticos trens amarelos, símbolos de Santa Teresa, reduto de artistas plásticos, boemios, músicos, blocos de carnaval e um público alternativo de uma maneira geral. Embarque na estação Carioca (R$ 0,60), passe por cima dos Arcos da Lapa e então comece a subir as ladeiras do bairro. Um bom ponto de descida é a Estação do Curvelo, perto de algumas das principais atrações, como o Museu da Chácara do Céu (Rua Murtinho Nobre, 96, 2285-2545) cuja coleção tem obras de artistas como Degas, Miró e, principalmente, Portinari, e o Parque das Ruínas (Rua Murtinho Nobre, 169, tel. 2252-1039, 3ª/dom 8h/20), onde acontecem shows nos fins de semana e exposições temporárias – não deixe de apreciar a vista.

     Siga o trilho do trem caminhando pela r. Almirante Alexandrino até chegar ao Largo dos Guimarães (na foto), o epicentro do agito etílico-cultural de Santa. Ali, fica difícil escolher onde se sentar para comer, beber e descansar. Na Adega do Pimenta o cardápio é alemão. No Bar do Arnaudo (r. Almirante Alexandrino, 316-B, 2252-7246), com “u” mesmo, a carne-de-sol é cotada entre as melhores da cidade. No Sobrenatural (R. Almirante Alexandrino, 432, tel. 2224-1003) invista nas receitas de frutos do mar. O Bar do Mineiro (r. Paschoal Carlos Magno, 99, 2221-9227) serve cerveja gelada e bolinhos de bacalhau famosos e vive cheio de turistas misturados aos cariocas. Um pouco mais distante, o Aprazível (r. Aprazível, 62, 2508-9174) apresenta um cardápio brasileiro caprichado, servido com uma das mais belas vistas da cidade, panorama, aliás, que é algo corriqueiro em Santa Teresa, um bairro-mirante. Se a visita for num fim de semana dá para se fartar com os acarajés da baiana Ângela, que arma a sua banquinha no Largo dos Guimarães. Guarde espaço para as sobremesas da Alda Maria Doces Portugueses (r. Almirante Alexandrino, 1.116, tel. 2232-1320), espaço tão dedicado à tradicional doçaria lusa que tem até um pequeno museu. No cardápio, ovos moles, toucinho do céu, pastéis de nata e afins.

      Além da boa fama de seus mirantes, bares e restaurantes, também os ateliês de artistas plásticos fazem os visitantes subirem morro acima. Talvez o mais famoso deles (o mais carismático, sem dúvida) seja Getúlio Damato, que vende as peças produzidas por ele, réplicas dos bondinhos feitas com material reciclado, no entrocamento das ruas do Aqueduto e Francisco de Castro. Não é difícil achar: a loja é um vistoso bonde estacionado à sombra de uma árvore. Veja também outras lojas e ateliês como La Vereda (r. Almirante Alexandrino, 428, tel. 2507-0317), Lola (Rua Santa Cristina, 181, tel 2224-7909) e Trilhos Urbanos (r. Almirante Alexandrino, 402-A, tel. 2242-3632).

     Tamanha concentração de artistas resultou no Arte de Portas Abertas, avento anual que acontece em julho, quando os ateliês recebem os visitantes e o bairro lotado vira uma grande festa. A despeito do trânsito e da dificuldade em estacionar, são os melhores fins de semana para passear por lá. A não ser que você seja um grande folião. Aí, o carnaval é imbatível mesmo. Alguns dos blocos mais animados do Rio circulam pelo bairro, como as Carmelitas, o Céu na Terra, o Badalo e o Aconteceu.

      Aproveite a visita e estique até o Mirante do Dona Marta, com acesso pela estrada do Corcovado, que leva ao Cristo Redentor. Respire fundo e desfrute a vista que alcança o Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara e o Maracanã. 

     Santa Teresa é, sim, muito legal. Mas, à noite, circule com cuidado, pois é fácil se perder e entrar em alguma das favelas que cercam a região. Depois do sol cair, prefira sempre os táxis.

 

Tenho ido e pensado tanto em Santa Teresa que me deu vontade de republicar este texto aqui, de uns três anos atrás quase, que fiz lá para o antigo blog.

Anna: uma saborosa homenagem à matriarca da família Fiorino, Artigiano e Pomodorino

16/08/2010

 

Um papardelle ao ponto: tudo gostoso no esquema bom, bonito e barato no novo restaurante de Ipanema

Anna é o nome da matriarca de uma família que toca alguns bons restaurantes italianos no Rio de Janeiro. Esquema bom, bonito e barato. Aos pouquinhos eles vão expandindo e sofisticando os negócios. Começaram na Tijuca, com o Fiorino. Depois de algum tempo chegaram a Ipanema, com a inauguração do Artigiano, no Jardim de Alah. Esse já era, em termos de ambiente e cozinha, um degrau acima da casa precursora. Da mesma maneira que o Pomodorino, terceiro restaurante da família, inaugurado alguns anos depois na Lagoa, estava um patamar acima do Artigiano.

Hoje os irmãos Ana Lúcia e João Carlos Aleixo comandam as casas. E o quarto restaurante presta uma homenagem à matriarca da família, Anna, com 85 anos. Mantendo a trajetória de sofisticação do grupo, também pretende ser uma versão ainda mais classuda e saborosa dos três outros restaurantes. Anna nasceu para ser o melhor restaurante da família, sem dúvida.

O projeto foi acalentado por anos. Metade do terreno, ao lado do Artigiano, no Jardim de Alah, já pertencia à família. Há nove anos foi comprada a outra parte, quando começaram a projetar o restaurante. Ao longo dos anos foram adquirindo as peças de decoração: quadros, louças, espelhos, móveis. O resultado é um salão bonito, com paredes de tijolinho e áreas envidraçadas.

De fora não se imagina que é tão grande. Vaza o quarteirão, indo do Jardim de Alah à Rua Paul Redfern. No subsolo parece haver uma linda adega para mais de 2 mil garrafas, que me esqueci de ir conferir, uma boa razão para voltar. E ainda tem um salão no segundo andar, ainda fechado ao público. 

Parte dessa história eu já sabia. Outra parte me foi contada pelo garçom na semana passada, quando visitei o restaurante com um casal de amigos (a Adriana Marques, frequentadora deste blog e da Enoteca, e o Pedro Coppos, velho amigo de adolescência, por acaso o namorado dela).

Gostei muitos dos pães do couvert. Como é praxe, os vinhos apresentam preços convidativos. E, também como já é tradição, o restaurante tem um grande inconveniente: não aceita cartões de crédito nem débito. Francamente, isso não dá para entender. Eu, por exemplo, quando fui jantar lá, precisei passar no caixa eletrônico antes para sacar uma quantia relativamente alta para pagar a conta. Chato isso, muito chato. Em compensação, os preços são muito justos, e de certa maneira recompensa o incômodo.

Achei o cardápio interessante, com boa oferta de entradas, boas opções de massas, recheadas ou não, e risotos, além de carnes, peixes e frutos do mar. Uma correta seleção de receitas “alla italiana”. Pedi um papardelle com creme, queijo, molho de tomates e alguma carne, que agora me esqueço (era um ragu de vitela mesmo, conforme lembrou a Adriana). Estava bem gostoso. Simples, mas tudo correto, massa al dente, carne bem temperada, umas folhinhas para dar frescor. Os outros pratos também pareciam bons. Ms sempre que como ali saio achando que, de uma maneira geral, eles são melhores nos pães, entradas, massas e sobremesas do que nas carnes.

Bebemos dois belos tintos italianos. E voltamos pára casa caminhando felizes com a comida, o papo e até a conta, uns R$ 100 por cabeça.

Por fim, quem quiser saber como foi o jantar com o chef Patrick Gauthier no restaurante Vizta pode clicar aqui.

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Jamón ibérico é tema de festival para celebrar o primeiro aniversário do eñe

15/08/2010

A cozinha aberta do eñe: espanhol moderno faz aniversário

Mas já?

Pois é. O eñe está completando um ano.

E o que se faz nessas horas? Menu comemorativo, é claro.

Jamón ibérico pendurado em bar de tapas em Granada: símbolo da cozinha espanhola é o tema do festival comemorativo do restaurante eñe, em São Conrado

No caso do restaurante espanhol, cujo cardápio especial entrou em cartaz ontem, o tema dos festejos é bem apropriado, o jamón ibérico.

Este presunto cru espanhol aparece em várias novas receitas que brindam o aniversário da casa.

O nome do novo menu já dá indícios disso: chama-se Festival de Jamón. Para celebrar em grande estilo eles foram atrás de um bom produtor, e trouxeram para o Brasil algumas peças de pernil de porco preto curado muito especiais. O nome oficial é Jamón Iberico Gran Reserva, com assinatura da Josep Llorens e Fills, que é importado não faz muito tempo para o Brasil.

A parada é a seguinte. O começo é com uma tábua de embutidos espanhóis e o clássico “pan con tomate”, seguida da salada do Jamón Ibérico Gran Reserva. A seguir algo que me parece ser o mais interessante da noite (sim, adoro ovos e cogumelos), o ovo poché con mix de setas e Jamón Ibérico Gran Reserva, ou seja, ovo poché com cogumelos e presunto cru. Depois vem a mais curiosa das receitas,o “suquet con dendê e leite de coco”. O tal “suquet” é uma espécie de suco de frutos do mar. Este prato é como se o carnaval de Nice se encontrasse com o de Salvador, uma espécie de creme de bouillabaisse com moqueca. Sei lá, como se trata de terreno espanhol, seria como La Marseillaise em ritmo de axé num bar de tapas de Sevilha. Captou?

O passo seguinte é mais ou clássico ibérico, e também do eñe, o cochinillo iberico crujiente, leia-se leitão crocante, ou seja, um pururuca hispânico. 

A Espanha está em crise econômica. E a Alemanha, em alta, conforme os indicadores recentes. Isso talvez explique a sobremesa, a floresta negra com frutas vermelhas, homenagem à torta germânica, que por sua vez alude à tal floresta.

Incluindo degustação de Jerez Fino Tio Pepe , custa R$195 por pessoa e o menu fica em cartaz até o dia 22.

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Na Lapa, um centenário bar alemão chamado Brasil

13/08/2010

O chope do Bar Brasil, com espuma cremesa: o melhor do Rio

Em novembro de 2008, o Bar Brasil completou 100 anos de vida – em plena forma. Trata-se de um dos endereços mais importantes da cena boêmio-etílico-gastronômica da cidade. E não apenas pelos muitos anos de vida, mas pelo que chega às mesas, principalmente.

Bolo de carne, uma espécie de avô do hambúrguer

Primeiro é preciso saber que, apesar do nome, a casa é alemã. Ou seja: entre as especialidades, o melhor da cozinha germânica: kassler com salada de batatas, bolo de carne, lentilha garni (o prato mais famoso, que leva salsichão, meia lingüiça defumada, lentilhas, carne assada, kassler, carré de porco fresco e língua fresca), salsichão de vitela, chucrute. A casa faz algumas concessões à cozinha brasileira, servindo, por exemplo, um badalado kassler à mineira (carré defumado com couve, arroz e tutu, incorporado ao cardápio por sugestão de ninguém mais ninguém menos que Paulinho da Viola). Para acompanhar, o melhor chope do Rio, na minha modesta opinião.
Muito antes de surgir essa onda de chope gourmet, com o pedantismo da pressão vinda de duas torneiras, esse bom e velho bar numa esquina da Lapa servia schnits com a proporção exata de líquido e creme (sim, neste caso é um creme, não espuma).
O segredo da perfeição tem a idade da casa. A serpentina de cobre que, reza a lenda, tem100 metros de comprimento, garantia de chope na temperatura exata de serviço: zero grau.
O Bar Brasil é um bar de esquina, instalado num antigo sobrado. Mas não é um bar de esquina. Por uma dessas partilhas estranhas de imóveis, o Bar Brasil ocupa a quase-esquina de duas ruas, Mem de Sá e Lavradio, dois emblemas da nova cena noturna carioca que faz da Lapa o lugar onde todos se encontram. Se a noite do Rio pudesse hoje se limitar a um único lugar este lugar seria a Lapa.
Mas isso todos sabem, voltemos ao balcão centenário de madeira, que por si só valeria uma visita ao lugar. Entre as duas entradas que o boteco dispõe, uma loja de pneus ocupa exatamente a esquina. O Bar Brasil o abraça, ocupando as duas laterais. Fui claro? Deu pra entender a disposição geográfica do Bar Brasil? Pela entrada da Rua do Lavradio o ambiente é mais tranqüilo, vale saber. Mas, quando estive lá, há não muito tempo, uma turma de sambistas da Mangueira ocupava uma das mesas entornando todas. Que barulhinho bom. Vou voltar lá em breve para um post mais alentado para a série de restaurantes mais antigos e tradicionais do Rio.
Enquanto isso, conta pra mim o que você acha do Bar Brasil, conta.
Na hora de pedir a conta, não dispense o appfelstrudel, servido com um chantilly de responsa (cuja textura lembra a do creme do chope).

Para quem se interessou: fica na Av. Mem de Sá, 90, e funciona de segunda a sexta, das 11h30 às 23h (aos sábados abre só para almoço). O telefone é 2509-5943. E, até onde eu sei, não tem site.

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Sushi Leblon com boas novidades

12/08/2010

Tartar de atum com ovo caipira, o primeiro passo: garçom pega o wasabi e fura a gema

Não sou lá muito fã nem de ver nem de se visto

Apesar disso, gosto de ir ao Sushi Leblon. Não pelos seus sushis, que são ótimos, muito menos pelos seus flashes, que são desagradáveis. Tampouco por tempurás ou sashimis sempre bem feitos. Gosto mesmo de lá quando eles extrapolam as fronteiras propostas num sushi bar e apostam em receitas que mesclam elementos tradicionais japoneses com influências de todas as culturas gastronômicas. Seguindo esta linha nasceram algumas combinações que se tornaram clássicos imortais da gastronomia carioca, como o sushi de ovo de codorna com azeite de trufas e flor de sal e o salmão marinado em missô com foie gras.

Na semana passada acabei jantando lá duas noites. Numa fiquei percorrendo os clássicos japas (sushi, sahimi, tempurá), ali sempre bem executados, mas nada que não se veja por aí.

Na segunda vez fui provar alguns novos pratos que entraram há pouco no cardápio e vi que é mesmo o trânsito nesta fronteira do Japão com o mundo a melhor vertente da casa.

Tartar de atum com ovo caipira, e o wasabi estoura a gema

De cara fui apresentado ao tartar de atum, que nem é novidade, ao contrário, mas eu nunca tinha provado. Como em qualquer steak tartar de boa cepa é preciso se fazer alguma apresentação à mesa. Na versão do Sushi Leblon os cubos de peixe levemente temperados são coroados com ovas de peixe tipo caviar e uma gema de ovo caipira.

e mistura, e mistura, e mistura, e mistura...

O garçom pede licença, pega uma bolinha de wasabi e perfura a gema, que logo se espalha, escorrendo pela carne. Ele então derrama shoyo, misturando tudo. Fica bem bom.

Quadradinhos de atum com foie gras: a melhor novidade, vale ir lá só para provar

 A seguir, o melhor da dupla jornada: quadradinhos de atum semigrelhado  serve de base para a montagem que leva foie gras, maçã verde caramelada, molho de wasabi, shoyo e flor de sal. O prato cresce na boca ao mexer com contrastes de sabor e textura, o doce e o salgado, o ácido, o crocante e o macio, o seco e o untuoso.

Blinis com polvo, linda ponte aérea Moscou-Tóquio

Depois mais duas receitinhas irmãs que acabam de chegar ao cardápio: blinis de polvo com caramelo de shoyo, sensacional encontro da Rússia com o Japão, e os blinis de salmão com iogurte. É preciso registrar a beleza e delicadeza dos pequenos bules que guardam os molhos, uma graça mesmo (aliás, as louças da casa, lindas cerâmicas muitas vezes, e a apresentação cuidadosa dos pratos são uma marca do Sushi Leblon).

Triângulos de foie gras com maçã verde... ops, acho que já vi isso hoje...

 Pensa que acabaram as novidades? Não, não, não. Ainda vieram uns triângulos de foie gras com maçã verde cozida no vinho tinto, ovas de massago e flor de sal. Gostei, mas achei um pouco repetitiva a receita (parecida com a de atum, bem mais interessante e rica). Mas tá valendo. Só não veja qualquer razão para se pedir este prato tendo o outro…  

 Quando vieram uns camarões grelhados com molho cremoso de wasabi e arroz eu não tinha mais fome. Mas acho que mesmo que tivesse não veria graça neste prato já antigo na casa.

 O mesmo posso dizer da sobremesa, essa, sim, mais uma novidade: trata-se de um tempurá de brigadeiro com perfume de laranja servido ao lado de um shot de saquê com frutas vermelhas. É doce, é bom, tem chocolate, coisa e tal. Mas não me disse nada, e achei difícil comer, meio grudento.

 Já o sorbet de lichia, provado na primeira noite, é uma ótima maneira de se encerrar uma refeição. E mesmo de se fazer o trânsito entre as etapas (quem sabe entre peixe e carne, ou entre salgado e doce).

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No próximo fim de semana… mais duas estrelinhas Michelin no Rio de Janeiro (e também no Rio de Janeiro a Dezembro)

11/08/2010

 

O hotel Marina, a praia do Leblon e esta lua linda vão ganhar duas "étoiles" nas noites de sexta e de sábado

Nada como uma estrela depois da outra. Na verdade, nada como uma dupla de estrelas depois de um trio…

Isso aqui tá até parecendo uma constelação…

No próximo fim de semana mais duas “étoiles” Michelin brilham nas mesas cariocas. Desta vez o espetáculo tem sotaque francês e acontece no restaurante Vizta, no Hotel Marina, no Leblon, que contratou recentemente para renovar o cardápio e comandar a cozinha o mexicano Igor Balderas.

Foi ele quem convidou o chef Patrick Gauthier, dono do restaurante La Madeleine, em Sens, na Borgonha, para assumir, por duas noites, as panelas do restaurante.

Sexta e sábado o jantar no Vizta tem cardápio especial criado pelo francês para a ocasião. Os vinhos ficam por conta de Clara Mei, sommeliére dos hotéis Marina, que geralmente dá expediente ali ao lado, no Bar d’Hotel, no Marina All Suítes.

No menu haverá coisas como gaspacho com madeleines de azeitonas, carpaccio de cavaquinha, além de sorvete de cassis e crème brûlée com pão de especiarias.

Custa R$ 290, mas desta vez o valor inclui os vinhos. Serão dois horários por dias, 20h e 22h30. Informações e reservas no 2172-1000.

Eu vou na sexta, desta vez a convite do hotel.

🙂

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Bom pra caralho: o delicado e delicioso jantar da chef Luisa Marelli Valazza no Le Pré Catelan

07/08/2010

Já passava das 23h quando a chef Luisa Marelli Valazza invadiu o salão do Le Pré Catelan, aplaudida com entusiasmo pelos presentes que lotavam todas as mesas. Ainda faltava uma sobremesa, mas os felizes comensais já se davam por satisfeito. Pareciam todos contentes por terem gastos R$ 320 (mais 10% e mais bebeidas) para poder estar ali. O jantar, em toda a sua simplicidade e elegância, foi sublime. Do começo ao fim e, na minha opinião, ainda mais no começo e no fim.

Depois de brincar com pães, azeite, manteiga e torradinhas, indispensáveis no Le Pré Catelan, (a torrada-carpaccio, finíssima, regada com azeite de ervas, é a minha favorita).
Começamos o percurso divinamente no prato que para mim se revelou o melhor de todos, apesar de sua aparência, digamos, fálica. Indecente… de tão bom.


Neste ângulo me parece melhor. Apesar da pinta pouco convidativa, ao menos para mim, estava uma delícia. Era um canudinho de berinjela com tomate fresco e uma dupla de vieiras apoiada sobre um pesto. Tudo em harmonia, uma delicadeza só, a vieira macia, os cubinhos de tomate com acidez bem domada, cortados com extremo cuidado. Até os risquinhos de redução de balsâmico (acho eu) não estavam ali de bobeira, era ótimo lambuzar neles as vieiras.

O segundo ato também se enquadra na categoria divino: era um creme de feijão branco, espesso, cremoso, rico, como um caldinho preparado pela mãe zelosa para o filinho pequenino. Sobre esta estofo confortável se acomodaram alguns lagostins, naquele ponto de cozimento que só mesmo os grandes chefs alcançam, que se pode chamar de al dente, com a carne resistindo suavemente à mordida, praticamente crua ainda. Para dar uma tensão nesse quase marasmo entra em ação uma lâmina de bacon, crocante, salgada, gorda, e umas folinhas de espinafre bebê, dando um leve amargor em textura aveludada. E ainda tinha um molhinho de ervas e azeite, concendendo frescor. Simples, bonito, delicioso.

O passo seguinte também encantou pela leveza, simplicidade e sabor; era um fazzolletti caseiro de sêmola de grano duro com mini leitão ao tartufo nero. Este primo do ravióli foi servido com esta carne suína desfiada, de sabor delicado com um molho provavelmente originário de seu próprio cozimento, sublinhando o sabor. As lascas de trufas negras “de verão” é que não estavam tão aromáticas (seriam do verão passado?) como se espera, mas deram uma levantada no prato, de leve.

A seguir, um filé em crosta de avelã com molho de Barolo. A carne estava no ponto certo, a crosta de avelã causava uma interessante e inédita sensação gustativa, reunindo sabores conhecidos por mim, mas nunca apreciados em conjunto. O molho de vinho também estava legal. Mas este prato eu pularia (aliás, nesses longos menus degustação, tenho notado que os pratos de carne do final sempre me agradam menos que os outros, apesar do blogueiro ser um carnívoro convicto) – embora seja preciso dizer que adorei os minilegumes e esta massinha crocante com gergelim.

E as sobremesas não foram brincadeira, honrando a tradição italiana.
Não é preciso descrever muito para ver como estavam bons, primeiro o parfait de limão siciliano e molho cítrico ao aroma de baunilha (com esses pistaches caramelados que valem o ingresso)…

… e logo em seguida o bunet, um pudim piemontês com zabaglione al moscato, …

Mas que pena. Equeci-me de tirar as fotos dos petit fours, que sempre são ótimos no Le Pré Catelan, mas ontem estavam ainda acima da média da casa, me parece que com um toque da turma do Al Sorriso, porque alguns não estou habituado a ver ali, como uma aglomerado de castanhas carameladas e uma espécie de madeleine com pistache fabulosa.

Pergunta se vale R$ 320? Vale.
Pergunta se eu pagaria por esse jantar esse valor?
Não poderia, na minha atual conjuntura financeira. Isso  não significa que não valha a pena. Vale, sim. E sorte de quem pode pagar. Ou de quem tem amigas generosas…

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Sugestões afetivas de restaurantes para o Dia dos Pais

06/08/2010

Os bolinhos de bacalhau do couvert do Antiquarius: adoro, ainda mais com muito azeite e pimenta

Em datas especiais como Dia dos Pais e aniversários prefiro sempre cozinhar em casa para a família e os amigos a sair para comer.

Por várias razões, a começar pelo prazer de todo o processo. Depois, porque em casa sempre dá para beber vinhos melhores, aquela garrafa guardada há tanto tempo para ocasiões assim.

Desta vez não será diferente. Domingo vou fazer um almoção aqui. Almoção é maneira de dizer, porque essas refeições nunca começam antes das 18h. Mas tudo bem…

O pai pediu carne, o que entendi como uma boa rabada ou uma das que faço no forno, em longo cozimento (paleta de cordeiro, pernil de javali, costelinha de porco, pato). Hoje me decido, para começar o tempero amanhã e deixar a carne no forno em fogo baixo por toda a tarde de domingo.

Para começar, um champanhe safrado de pequeno produtor. Depois, algum bom tinto que o pai promete trazer. Para fechar, um Porto vintage. Aí, não me dá vontade de sair para comer no Dia dos Pais, não.

Sem contar que as crianças brincam mais à vontade, dá para ver o futebol e ouvir Cartola. E a conta é umas 20 vezes menor…

Mas tem sempre me pedindo dicas de lugares para almoço no Dia dos Pais.

Então, achei melhor fazer um post.

Penso que Dia dos Pais seja uma data que pede um restaurante clássico. Nunca pensaria em cozinha contemporânea, molecular ou oriental. Para o próximo domingo, para mim, cai bem um bom português, um italiano ou uma boa casa de carnes. Quem sabe até uma pizzaria…

Também não acho que combina com francês, para mim. Amo o Pré Catelan e o Olympe, mas não iria neles. Essas casa, para mim, são mais para Dia das Mães, Dia dos Namorados e datas, digamos, mais sedosas.

O indecente, enorme e delicioso bacalhau do Adonis: R$ 100 para uns três

Então, que tal aproveitar o domingo para conhecer um restaurante novo? Aposto que poucos conhecem, embora todos tenham já ouvido falar, do Adonis, em Benfica. A casa simplesmente serve o melhor bacalhau do Rio, para até três pessoas, por cerca de R$ 100. E o chope é de primeira.

Recomendo também para isso com toda a ênfase do mundo o Antiquarius (do Leblon, por favor). Aqui também entram razões sentimentais: era lá que o avô mais gostava de comemorar a data e herdei essa condição (se não fosse fazer almoço em casa, seria a minha escolha, com certeza).

Assim, veria com bons olhos o Adegão Português, em São Cristóvão, mas relatos recentes sobre a casa não me animam.

Já os italianos compõem uma lista enorme de endereços altamente recomendáveis enquadrados nesta categoria tradicional. Não me animaria a ir ao Fasano al Mare no próximo domingo, mas ao Gero, sim, com certeza. Também são nomes altamente recomendáveis o Da Brambini e o D’Amici, ambos no Leme. Sei lá, acho que o Leme se enquadra na categoria “Bom para o Dia dos Pais”, porque também tem a (ou seria o?) Shirley, um clássico da década de 1950.

Entre os restaurantes italianos nos quais eu almoçaria no próximo domingo estão ainda o Terzetto e o Quadrifoglio.

Também seria capaz, seguindo a linha íatalo-lusitana, de subir a serra só para comer na Locanda della Mimosa ou no Parrô do Valentim. Quem sabe no Parador Valência?

Para os carnívoros, o Esplanada Grill serve a melhor carne do Rio. E o Porção, em toda a sua pressa e exagero, ainda é sempre uma boa escolha, desde que se saiba conduzir os garçons, e não o contrário.

Para os que curtem um peixinho, acho que o Dia dos Pais é ótima oportunidade de degustar coletivamente o grand piatto di mare, no Satyricon, seguindo de camarões e lagostas grelhados, ou bom pargo al sal grosso. Também acho que vale considerar um circuito árabe no Amir.

Também acho a data propícia para uma esticada até Vargem Grande e cercanias para curtir um restaurante agradável, com jardim etc. Assim, o Quinta e o Dom Pascual se mostram como boas opções.

E, para finalizar, recorro aos clássicos: que tal um almoção no Lamas, no Jobi, no Alvaro´s, no Degrau, no Nova Capela, no Braseiro da Gávea, no Cosmopolita, no Bar Brasil (ah, não, que lástima: o Bar Brasil e o Cosmopolita não abrem aos domingos…) ou no Bar Urca?

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Férias, aniversário de um ano do blog (e pequenos ajustes nele)

06/08/2010

A estátua do Cristo Redender visto a partir do Morro da Urca, imagem que ilustra a cabeça do site, agora em versão integral

Hoje é oficialmente o meu primeiro dia de férias. Não por coincidência, este blog acaba de completar um ano.

Foi exatamente no dia 1° de agosto de 2009 que o Rio de Janeiro a Dezembro entrou no ar, mesma data em que comecei a trabalhar lá n’O Globo, o que me fez abandonar o antigo blog Direto do Rio, lá no Viaje Aqui.

Fiquei feliz com a mudança, e aos poucos fui mudando um pouco da cara do blog, o que é normal. Se antes eu só falava do Rio, aqui passei também a tratar sobre qualquer assunto, especialmente os ligados às viagens, aos comes e aos bebes (para comes que bebes, porque esses eu deixo mais para a Enoteca).

Agora, completando um ano e aproveitando as minhas férias (que aliás, estão bem trabalhosas: hoje entrego uma matéria para a Lonely Planet, na segunda, para a Marie Claire e, em seguida, para a Eatin’ Out) vou me dedicar a ajeitar algumas coisinhas por aqui. Vou, por exemplo,fazer uns índices com posts sobre outros destinos no Rio, sobre São Paulo e talvez um ou outro mais.

Vou criar algumas novas categorias: uma dedicada a crônicas de viagens passadas, como a minha experiência como jurado do Festival de Parintins. Também para incrementar o conteúdo e facilitar a navegação vou criar uma seção com links para as reportagens disponíveis no site de O Globo. Tem algumas coisas que podem interessar ao pessoal que freqüenta aqui: restaurantes em Buenos Aires e Orlando, os mercados e feiras de Paris, os bistronomiques, a Dona Licéia, em Bananal (SP), os melhores bares de São Paulo, os vinhos e a comida do Alentejo… Tem muita coisa gostosa por lá.

Por fim, também penso em criar um espaço para crônicas e resenhas de hotéis dedicada àqueles fora de série nos quais já tive a oportunidade de dormir, como Alvear, Tankamana, Four Seasons de Miami, Lutetia, Toca da Coruja, Locanda della Mimosa,  Faena, Park Hyatt Mendoza e alguns outros. Um bom hotel é uma viagem.