Archive for setembro \29\UTC 2010

Fisgado pelos pescados do Margutta

29/09/2010
 

O salão lotado: gente sabida

Folheando o jornal na semana passada li em alguma coluna uma notinha bem curta dizendo que o Margutta estava com alguns pratos especiais de vieiras. Foi a senha para eu preencher uma grave lacuna no meu currículo gastronômico carioca: visitar o restaurante original, em Ipanema, porque só havia estado no do Centro.
Pelo que lia, e também de acordo com o que amigos respeitáveis me contavam, o Margutta sempre foi um daqueles portos mais que seguros para se lançar às delícias do mar.
Nas minhas visitas à filial do Centro, no prédio da Firjan, já tinha percebido o potencial deles para trabalhar, com sobriedade, inteligência e classicismo, os peixes e frutos do mar. Sempre frescos, que se diga. Sempre em receitas descomplicadas, respeitando a tradição culinária italiana (mediterrânea).
Aí, tendo como isca os tais pratos de vieiras (sou louco por elas), fui fisgado pelo restaurante dos Neroni na Rua Henrique Dummont. Caminhando no meio da tarde nublada do último sábado fui até lá.
Cheguei e peguei um salão lotado, com uma única mesa disponível, como que se me esperasse.

Prosecco para "limpar a boca", sempre um começo legal nas casas italianas, especialmemte nas dedicadas aos pescados

Como é sempre bom fazer nas casas italianas, pedi um prosecco, daqueles baratinhos mesmo, para abrir os trabalhos.
Chegou o couvert, que não me animou e, assim, foi dispensado: queria só saber de bichinhos do mar.

Vieiras al limone, com um toque de cebolinha francesa: felicidade é, depois de acabarem o mariscos termos o molho a a cesta de pães, que fazem belo conjunto. Até raspei a frigideira de ferro

Foi esta tacinha de prosecco mesmo que acompanhou a minha entrada, uma frigideira de vieiras ao limão, uma belezura de prato.  

Uma imagem pode mesmo dizer mais que mil palavras....

Olha só mais de perto.
As vieiras estavam tenras, frescas e muito saborosas, e o molho era um espetáculo, com uma acidez deliciosa, uma escada perfeita para fazer o marisco brilhar em toda a sua inconfundível delicadeza.
Dá um close nelas.
Depois de todas elas devidamente espetadas e apreciadas, restou o caldo. Aí entrou em ação a cestinha de pães, que me fez raspar toda a frigideira, gemendo de prazer.

Um branco leve e fresco, para deixar os pescados brilharem

Depois pedi um Pinot Grigio da Matile, produzido na Umbria. Gostosinho, levinho, baratinho, acidinho… Cumpriu bem o seu papel de deixar os ingredientes marinhos aparecerem com destaque.

Isso aí tava bom demais

Como não estava de brincadeira, o primo piatto foi um farfalle com lagosta e tomate (pedido em meia porção, como sempre é bom fazer nas casas italianas). Delirei. A massa estava no ponto exato de cozimento. Mas isso nem importa tanto. O que valia mesmo era o molho, tão simples, mas muito saboroso, com muitas lascas de lagosta grelhada com tomates refogados, tudo com acidez domada, em perfeita harmonia. Reguei com azeite, mas rejeitei o queijo parmesão. Quer dizer, rejeitei em parte. Primeiro fui recolhendo o crustáceo. Quando, já no fim do prato, não havia mais qualquer pedacinho de lagosta, aí sim, polvilhei um queijinho parmesão, dando nova dimensão à receita. Foi como se estivesse diante de outro prato. Ah, os temperos, como são interessantes…

Cherne com molho de camarões e vieiras: até as batatinhas fritas ajudaram...

 Como as vieiras eram o tema, escolhi o peixe servido com um molho preparado com elas e alguns camarões. Originalmente teríamos um linguado. Mas eu pedi um cherne.
O que se seguiu foi sublime. O peixe estava fresco, grelhado certinho, com um molho delirante. As batatinhas que aparecem ài à direita na foto cumpriram um papel fundamental no conjunto: passava elas no molho, levava rapidamente à boca. E pronto: as batatas mantinham a crocância, mas trazendo em sua umidade todos os sabores do rico composto de limão, vinho branco e os sucos deixados pelos pescados.  Por algum tempo, um bom tempo até, ignorei a matéria-prima mais nobre do prato para me dedicar a ficar só molhando as batatinhas no molho. Que beleza. Novamente limpei o prato, me valendo do pãozinho que restou da entrada.
Pulei a sobremesa.
Voltei andando para casa.
E dormi um lindo sono.
 
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Mekong Bar: festival de receitas asiáticas no Leblon

27/09/2010

Drinque com suco de limão siciliano, manjericão e infusão de saquê e rum com ervas

Aproveitei o fim de semana para visitar dois lugares, um clássico, o Margutta, e uma novidade, o Mekong Bar.
Ainda nessa semana conto mais do almoço glorioso no Margutta, um dos melhores lugares do Rio para se comer frutos do mar. A refeição na tarde cinzenta foi coloridíssima, capaz de levantar o moral de qualquer um: teve frigideira de ferro fervilhando com vieiras ao limão, depois um farfalle com lagosta e tomate e, pra encerrar, o cherne com camarões e vieiras no molho de vinho, e umas batatinhas fritas daqui, ó… Tudo na ilustre companhia de um Pinot Grigio. Beleza.
Mas vamos começar com a boa nova que surgiu, advinhe onde? Na Dias Ferreira, no Leblon, é claro.
O Bar Mekong está muito bem posicionado, na parte menos badalada da rua, na esquina com a General Urquiza, entre o Deusimar e o Tio Sam, dois ótimos endereços cariocas, mas pouco falados. O primeiro, um refúgio seguro e discreto para sushis, sashimis e afins. O segundo, um botecão dos melhores, que já viveu dias de mais fama, quando o João Ubaldo Ribeiro passava os dias ali, bebericando (quando o acadêmico parou de beber o bar saiu das páginas dos jornais, da boca do povo, mas continua sendo frequetando por clientes assíduos).
Mas chega de enrolação e vamos ao que interessa: o Bar Mekong tem uma proposta semelhante à do Venga, na mesma Dias Ferreira. Só que em lugar do festival de tapas espanholas ali, como sugere o nome, brilham as receitas asiáticas. É um lugar para ir com os amigos e gastar horas petiscando na varanda, vendo a vida no Leblon passar. É tão parecido que até a consultora da cozinha é a mesma Ciça Roxo do Venga, que comprova o talento para criar menus com base clássica, com inspiração em receitas tradicionais, e treinar a equipe. O Mekong acabou de abrir, mas tá tudo bem azeitadinho. Gostei.
Comecei com este drinque aí de cima, o sabai sabai, feito com uma infusão da casa, à base de rum e saquê com ervas aromáticas, que serve de base para vários drinques. Este, no caso, o mais pedido, tem ainda suco de limão siciliano, xarope de açúcar, club soda e manjericão.
 

Mix de entradinhas: tem pakora, um bolinho de legumes e especiarias, duas samosa, o pastel indiano (um de batata, ervilha e especiarias e outro de curry de cordeiro), goi cuon, os rolinhos de arroz tradicionais do Vietnã, recheados com camarão, cenoura e verduras, e satay, o espetinho de frango.

Depois, pedi o Mekong mix, uma seleção de entradinhas, acompanhado de um Sauvignon Blanc argentino (e orgânico) bem correto, da vinícola Fantelli. Tem pakora, um bolinho de legumes e especiarias, duas samosa, o pastel indiano (um de batata, ervilha e especiarias e outro de curry de cordeiro), goi cuon, os rolinhos de arroz tradicionais do Vietnã, recheados com camarão, cenoura e verduras, e satay, o espetinho de frango. 
Como se vê, o menu é panasiático, trazendo receitas da Índia, Vietnã, Malásia, China, Tailândia, com ênfase na chamda street food, ou cozinha de rua, tão popular nos países da Ásia. Para um pimenteiro convicto como eu, cozinha asiática é uma festa. 
 

Sopa de frango com cogumelos, cotada com duas pimentinhas: de fato, é bem ardida, e muito gostosa

A etapa seguinte seria uma sopa. Em situações normais eu escolheria a de camarão com cogumelos. Mas acontece que o cardápio indicava que a sopa de frango com cogumelos e leite de coco seria mais apimentada (duas pimentas contra uma). Então, naquela tarde fria de ontem, fui nesta combinação, e não me arrependi. Ótima a sopa, daquelas que tomamas até o fim, muito bem temperada.
Para sua escollta, caiu bem a tacinha de Chandon Rosé.
 
Preciso voltar, porque me deu vontade de provar quase tudo.
Entre as comidinhas o cardápio também traz uma interessante relação de saladas (como a de manga verde com broto de feijão, coentro e amendoim) e de sanduíches de inspiração vitnamita, apresentando influências da colonização francesa. São os chamados Ban Mi: tem de mignon de porco com patê de campagne e de frango com patê de foie, ambos temperados com coentro e daikon (nabo) e servidos no pão francês.
Mas não vive só de petiscaria o Mekong. Há pratos mais sérios também.  São os noodles, curries e arrozes (nossa, que palavra feia. Melhor pratos de arroz). Fiquei especialmente interessado no pad thai, um macarrão de arroz frito com camarões, molho agridoce, broto de feijão, coentro e amendoim, e no curry de cordeiro (e no curry verde de frango com berinjela, cotado com duas pimentas). E não posso me esquecer de provar o nasi goreng, receita indiana que faz muito sucesso no restaurante Astrodome, no Centro no Rio. É um arroz frito com frango, ovo e especiarias. 
 
Ainda provei a boa caipitinha de abacaxi com gengibre.
 
A lista de sobremesas é bem interessante. Tem um doce de ovos com pistache, com sorvete de limão siciliano a coulis de frutas vermelhas, pudim de tapioca com sorvete de coco e calda de maracujá e crumble de maçã e manga com esse mesmo sorvete de coco.

O sorvete de chá indiano com especiarias, bem apimentado, um fechamento de ouro

Mas, como dizia, pimenteiro que sou, fui no chai ice, um sensacional sorvete de chá indiano com especiarias, bem apimentado, um fechamento de ouro, mostrando que também sabem ali fazer bons sorvetes.
Curti. Vai fazer sucesso, pode apostar.
    

Lembranças de Paris: Hotel Lutetia

25/09/2010

A fachada do hotel, com a ótima brasserie, à esquerda (letreiro branco)

Na primeira parte da minha viagem à França, em maio, fiquei hospedado no hotel Lutetia, que está completando 100 anos de existência agora em 2010. Adorei. Chegava cansado dos dias puxados, mas deliciosos, de trabalho. Antes de subir para o quarto parava no bar do lobby, em estilo art déco, que todas as noites tem um showzinho de jazz. Pedia uma tacinha de champanhe e depois era só ir para a cama, para sonhar com os anjos inspirado, como diria Dom Pérignon, pelas estrelas.

O hotel é muito bem localizado, no coração de Saint-Germain-de-Prés, ao lado da Grande Epicerie, paraíso gourmet. O garçom do café da manhã, dos melhores que já provei, me informa que há muitos brasileiros hospedados ali. De fato, escutava o português, do Brasil e de Portugal, no salão envidraçado enquanto traçava um croissant crocante que só ele, amparado por ótimos frios, e uma bandeja de queijo maravilhosa, mesmo que tivesse só umas quatro ou cinco variedades, eram todos muito bons.

Me lembrei dessas histórias todas hoje, quando aproveitei parte da manhã para gravar uns cartões de memória guardados faz tempo.

O cardápio do dia

Na última noite aproveitei para conhecer a brasseria do hotel. Tinha que acordar muito cedo na manhã seguinte. Era só jantar e subir para o quarto. O Lutetia tem dois restaurantes: o Paris, dono de uma estrela Michelin, mais dedicado à haute cuisine, que precisa ser reservado com boa antecedência, e a Brasserie Lutetia. Fiquei com esta. Também estava bem cheio, mas havia mesas disponíveis.

Champanhe Taittiger e a água favorita do Rei Sol

Sentei-me no fim do salão e, não poderia ser diferente, pedi uma tacinha de champanhe para matar a sede. O hotel tem o seu rótulo próprio de borbulhas, produzido pela Taittinger, que lanço um rótulo especial, o Cuvée Centenaire, um 100% Grand Cru, para marcar a data. Custa 19 euros a taça. E vale cada centavinho: que champanhe!  A água também é muito exclusiva, a Chateldon 1650, a favorita de Luis XIV, o Rei Sol.

Até dezembro está em cartaz um menu para comemorar o centenário do hotel. Custa 100 euros para um casal para uma refeição completa em cinco etapas, incluindo lingüiças bascas para começar, foie gras e lagosta na chapa (frutos do mar estão entre as especialidades do restaurante, que mantém um apetitoso balcão do lado de fora exibindo os pescados do dia, expostos sobre muito gelo, com limões galegos enfeitando a composição).

Salada de melão com presunto: receituário clássico bem executado

Eu fui em outros clássicos da casa. Pedi a saladinha de melão, doce, doce, doce, com presunto basco, receita arredondada com cebolinha francesa, tomatinhos-cereja e páprica.  Tava muito bom, ainda mais na companhia de uma taça de champanhe.

Panelinha de ferro com purê de batatas tipo aligot, frango, timo e alho: inesquecível, ainda mais com uma tacinha de Borgonha

Mas bom mesmo foi provar o frango da casa, uma acolhedora receita servida na panelinha de ferro. Foi, sem dúvida, o melhor frango de toda a minha vida, uma redenção para esta ave que até então raramente tinha me comovido à mesa. O prato é simples, e sensacional: são pedaços de frango bem douradinhos misturados num purê de batatas tipo aligot, bem cremoso. Se fosse só isso já seria bárbaro. Acontece que ali temos ainda pedaços de timo (a mojella dos argentinos, ou sweetbread, em inglês), que eu adoro, amo, e alguns dentes de alho tostadinhos e meio amassados, soltando todo o seu sabor. Ai, que prazer. Para realçar ainda mais a comida, pedi uma tacinha de um Borgonha digno.

Tortinha de chocolate Guanaja com nougatine: ai ai ai

Para encerrar, outro clássico da Brasserie Lutetia: uma tortinha de chocolate Guanaja com nougatine, uma belezura. Dormi contente.

Croissant e baguetinha crocantes, queijos, frios, manteiga, docinhos: café da manhã glorioso

No dia seguinte, mais uma vez, despertei com pompa e circunstância, provando os pães, queijos, frios e docinhos do café da manhã. De lá foi só pegar um trem pra Champanhe (neste link tem um monte de texto da viagem).

Casa da Feijoada: o lar do melhor feijão do Rio

22/09/2010
 
 

Para uma refeição tranquila, com o salão vazio assim, só mesmo durante a semana: aos sábados, domingos e feriados tem fila na porta, aí eu não encaro

 
Sou vizinho da Casa da Feijoada, em Ipanema. Mas até umas duas semanas atrás nunca havia visitado a casa. Apesar disso, sempre indicacava aos amigos o lugar como a melhor feijoada do Rio.
Mas como assim?, você deve estar se perguntando.
Calma, eu explico.
Nunca tinha visitado a casa, mas há pelo menos 15 anos cultivo o hábito de pedir o prato em casa. A versão para duas pessoas serve até quatro – com certa folga, eu diria. São umas cinco quentinhas de isopor: uma com feijão, uma outra com as carnes que você escolheu, outra com arrroz, mais uma com farofa, couve e torresmo, mais uma outra com aipim frito, e ainda nos chegam uns pedaços de laranja e umas compotinhas de frutas, a sobremesa clássica do lugar.
Vale muito a pena. É a minha pedida preferida para quando volto de alguma viagem ao exterior com saudade de comida bem brasileira – e não estou em condições de cozinhar.
O prato ali é preparado à perfeição, com cada tipo de carne cozido no tempo certo, com uma farofa digna e uns torresmos crocantes, a couve macia, o arroz soltinho.
Nas minhas férias, enfim, fui visitar a casa no meio de uma tarde de muita preguiça, com o sol macio do inverno carioca.
Sentei-me junto à janela e pedi o feijão.
 

Caldinho de feijão, pimenta malagueta (nada de Tabasco, por favor) e uma batidinha de limão que é a melhor companhia para o prato mais famoso do Brasil

Logo nos chega uma cumbuquinha de caldinho de feijão fumegante, tal aquela servida no Brasileirinho, que pertence aos mesmos donos da Casa da feijoada, o que explica a excelência do seu feijão (tanto faz, aliás, pedir o prato para viagem ali ou na Casa da Feijoada, é igualzinha). Para acompanhar, nada de tabasco, é claro, comom qualquer lugar honesto dedicado à cozinha brasileira. É malagueta, e das boas, curtida em pinga, alho e louro.
 
Na Casa da Feijoada quem pede a especialidade entra numa espécie de rodízio, ao contrário do Brasileirinho, que serve porções para de uma a quatro pessoas. O sistema inclui uma ótima batida de limão, melhor companhia para a sequência de cumbucas, e sobremesas, doces caseiros bem gostosinhos. Também tem batida de maracujá, que até é gostosa, mas a de limão cai muito melhor com o feijão.

E, então, alcançamos a glória: feijão, carnes que você escolhe, farofa, pimenta, torresmo, couve, laranja, uma combinação fabulosa que te manda direto para a cama depois... Mas vale a pena...

Depois da rodada de caldinho, que merece bis, ao menos para os apreciadores de tal acepipe, nos chegam umas linguiças muito da boas, bem fritinhas, sequinhas e saborosas. E tome mais malagueta.
Só então é servida a feijoada, com as carnes que o cliente escolhe: eu fico com paio, lombo, rabinho, costelinha e linguiça, quem sabe um bacon. 
Solenemente dispenso tanto o arroz quanto o aipim, ainda que bem feitinhos. Fico só combinando proporções variadas de feijão e farofa, com um pouquinho de couve, pimenta e laranja. Aí, belisco uma carninha, dou um gole na batidinha e paço o garfo nesta mistura de feijão com farofa e temperos, digamos assim.
 

Docinhos variados para encerrar de maneira adequada e condizente o percurso: tem de banana, de leite e de abóbora com coco

Encerrei com os docinhos que eu já conhecia, sempre um bom encerramento depois de encarar uma feijoada.
 
No fim das contas, paguei uns R$ 60. Para quem quase sempre pede uma garrafa de vinho para acompangar as refeições, o almoço na Casa da Feijoada, acompanhado de boa batida de limão, acabou saindo até bem baratinho.
Dali fui direto para a cama tirar uma sonequinha no fim da tarde de uma quarta-feira qualquer, algo impossível fora das férias… Por isso, foi a data escolhida para, enfim, visitar a Casa da Feijoada.
E só de escrever este texto fiquei com vontade de ir de novo. Mas menos nos fins de semana, quando tem fila na porta…
Para ler um post sobre feijoada e samba, clique aqui.
 
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Movimento anti-tabasco! Eu apoio

20/09/2010

Como uma praga, o vidrinho se espalhou por todas as mesas cariocas: restaurantes com preguiça de fazer uma boa pimenta. Quero a minha malagueta de volta!!!!

Até acredito que a cozinha mexicana seja mesmo incrível. Adoro comida apimentada, aprecio demais um prato salgado com ingredientes adocicados, acho lindas as receitas coloridas, a brincadeira com as diferentes texturas, os ingredientes exóticos. Mas acho um horror os restaurantes mexicanos que existem no Brasil, principalmente aqueles que colocam garçonetes armadas de tequila e uns sujeitos que apitam enquanto agitam a cabeça do pobre bebedor do destilado de agave azul. Coitados de nós…
Mas se os restaurantes mexicanos, e também os chamados tex-mex, apenas servissem sua comida desprezível, tudo bem. O problema é que essa onda chicana veio acompanhada de uma praga: o tabasco. Como um câncer esse vidrinho de pimenta industrializada se espalhou por toda a cidade. Tem até boteco e restaurante estrelado colocando tabasco nas mesas. E cadê a minha boa e velha malagueta, curtida em cachaça, azeite, alho e folhas de louro? Cadê, meu Deus? Sento-me num restaurante, peço um caldo de feijão e uma pimentinha, e o que ve chega? Um frasco de tabasco… Chego no restaurante português e mando descer uma porção de bolinho de bacalhau, com azeite e pimenta para acompanhar, naturalmente. E o garçom me traz um tabasquinho…
Pior que isso são os lugares que nem te dão a possibilidade de escolha: só tem tabasco e pronto!
Dessa maneira, eu, que era indiferente ao tabasco, acabei tomando uma antipatia danada. E acabo de lançar o movimento anti-Tabasco.
Quero meu pote de malagueta de volta, quero minha conserva de dedo-de-moça. Quero minha cumari, até a pimenta-de-bico, que só serve para enfeitar. Quero minha pimenta-de-cheiro. Quero a minha cambuci, minha aroeira, a falsa pimenta-rosa. Dai-me todas elas, por favor. Mas tabasco, não, te rogo.
Viva o anti-tabasquismo!

Da Brambini: simpática cantina italiana familiar e aconchegante

17/09/2010

O pappardelle alla Portofino, com pesto e tomates, receita trazida desta cidade na Ligúria: em cartaz por tempo limitado

Já fazia um bom tempo, lá se vão mais de 10 anos, no mínimo, que não visitava o Da Brambini. Tinha estado na pequena e aconchegante casa na praia do Leme umas duas vezes, sempre na companhia do pai, que adorava o ossobuco preparado ali. Genericamente eu chamava o Da Brambini, em conjunto com o D’Amici, de ‘os bons italianos do Leme”.
Tinha as melhores lembranças do lugar, praticamente uma cantina, com cardápio clássico italiano, com bons ingredientes, serviço simpático e decoração agradável.
Durante as minhas férias gastei uma linda tarde de sol ali, bebendo uns bons vinhos, comendo coisas gostosas e conversando sobre comidas e viagens, e outros sabores da vida. O italiano Umberto Vegetti, sócio do restaurante, dá expediente ali todos os dias, o que faz toda a diferença, e concede um clima familiar e gostoso ao Da Brambini.
Ali acontece o mesmo que na Osteria dell’Angolo, em Ipanema. O couvert é indispensável. Os pães, todos feitos na casa, são ótimos, com destaque para o de linguiça, sensacional. Também tem focaccia, ciabatta, de parmesão… A cestinha vem muito bem acompanhada de umas conservas (berinjela e pimentão) e umas pequenas porções que são sempre um ótimo começo: omelete de legumes, salada de feijão-branco com atum (nada de lata, o peixe é preparado ali também, delicioso), tomate-cereja e azeitonas, além de patês de funghi e de fígado. Custa só R$ 12 por pessoa, e a mesa é reabastecida conforme quer o cliente. Não dispense o azeite.
– Salta mais um patê de funghi, por favor!
O cardápio percorre o receituário italiano tradicional, sem concessões. Assim, entre os antipasti há aspargos na manteiga, carpaccio de carne e de peixe, polenta com gorgonzola, bresaola e presunto cru. Quem preferir uma seleção de vários desses peticos pode pedir o antipato misto. Beleza pura.
Para os que estão com muita fome vale investigar os primi piatti: espaguete com lagostins (um clássica da casa), talharim com ragu de pato e uma boa oferta de massas frescas preparadas ali: tem nhoque alla sorrentina, torteloni com pêra e gorgonzola e ravióli com camarões.
Gosto da seleção de pratos de carne: tem o tal ossobuco fenomenal, vitela com cogumelos e escalopinho ao marsala. Ótimo que o menu convencional está sempre com novidades coladas na parte de cima, as sugestões do chef: ali encontrei, na minha visita, peixe com aspargos e camarões, costeleta de cordeiro, linguado ao molho de uva (outro clássico, que voltou ao cardápio a pedido de clientes), cavaquinha com taglioni e bisteca de chorizo com paglia e fieno com brie. Interessanmte, né?
E, mais recentemente ganhou destaque dois paros criados para a temporada outono-inverno, mas que ainda podem ser apreciadas. Um é o filé ao funghi porcini com purê de baroa. Outro, queridinho do Umberto Vegetti, é o pappardelle alla Portofino, receita trazida pelo chef desta pequena e exclusiva vila na Ligúria, na qual seu primo é dono do restaurante mais famoso, o Da Puni, de frente para o portinho, em localização mais que privilegiada.
– O prato é simples, uma infálível combinação de massa caseira fresca com pesto e tomate fresco. Adoro -me explica o Umberto.
Foi difícil resistir. E, em toda a sua despretensão, o prato é mesmo divino.
Advinha o que tem de sobremesa?
Tiramisú, zabaglione e pêra ao vinho, acompanhados de um bom espresso…

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Na estrada: mais histórias da viagem ao Rio Grande do Norte – No Km-0 da BR-101

15/09/2010

Avenida Brasil, Rio-Santos, Niterói-Manilha, Ponte Rio-Niterói… são todos trechos da BR-101, você sabia? Pra mim, esta estrada que desce pelo litoral brasileiro cortando 12 estados da federação é a estrada mais importante do país, ainda mais turisticamente falando.

É ela quem me conduz a Búzios e Paraty regularmente, as melhores praias do Rio de Janeiro. Foi também pela BR-101 que fui de carro para a Bahia umas dez vezes nos anos 1990 (duas vezes no mesmo ano, 1998, uma em janeiro e outra no carnaval).
Na viagem ao Rio Grande do Norte estive no Km 0 da rodovia, na esquina do continente, em Touros, pertinho do farol que existe ali para orientar os navegantes neste ponto onde o Brasil faz a curva. Não à toa é a BR-101 (uma curiosidade inútil: as estradas nomeadas entre 100 e 199 são verticais, ou seja, cortam o país de Norte a Sul).


Me lembrei de quando visitei Key West, na pontinha da Flórida, a poucas milhas de Cuba, Km 0 da US-1. Ou melhor, Mile 0…

Lembranças de viagem: os sabores do mar e do sertão do Rio Grande do Norte

13/09/2010

A viagem ao Rio Grande do Norte foi rápida, gostosa e cheia de emoções. Rendeu grandes momentos. Inclusive gastronomicamente falando.
A farra começou logo na estrada, a caminho do sertão, com uma estratégica parada na Panificadora Cortez, no município de Tangará, onde provei um delicioso pastel de carne-de-sol com natas, sequinho, com massa caseira crocante e recheio farto.


À noite, na Pousada dos Cajueiros, em Currais Novos, fui apresentado ao arroz de festa (à esquerda na foto), prato obrigatório nos casamentos do Seridó, preparado com a gordura da galinha caipira que é a receita principal, sempre na escolta de uma farofa amarelinha, incrível. O jantar teve, ainda, fondue (de queijo e chocolate, e tava frio mesmo!), paçoça de carne-de-sol, pirão de leite, inhame cozido, feijão, macarrão. Até bebi um vinhozinho tinto…


No dia seguinte o café da manhã teve cuscuz, água de coco, tapioca e dois queijos da região, o manteiga (em primeiro plano, mais amarelado) e o coalho (ao fundo).


O jantar num centro comunitário de Carnaúba dos Dantas teve lingüiça de carne-de-sol, boa, mas muito seca, prefiro um bom filé ao embutido, sem dúvida (e, novamente: como tava boa a farofa!). A sobremesa foi o filhó, um doce típico do Seridó, massa de batata-doce frita servida com mel de abelha (no sertão é preciso distinguir o tipo de mel: além do produzido pelos insetos existe o mel de engenho, o melado). Antes e depois vimos a apresentação de uma banda de uma escola local. Foi bonito e divertido.


Descemos para o litoral, mas não chegamos a abandonar a carne-de-sol nem o queijo coalho. Mas a partir daqui os pescados frescos passaram a protagonizar as refeições. Nossa estréia praiana foi ótima: o almoço no restaurante Dona Irene, em Galos, teve tainha frita, isca de bagre (sim, bagre), mariscada (uns pequenos mariscos, primos do sururu, afogados em molho espesso, com leite de coco, coentro, tomate e cebola, sensacional). Também fez um belo papel o camarão ao alho e óleo. E vale registrar: como é gostoso o tomate potiguar. Pequenino e comprido, é bem vermelho, suculento e com acidez dominada, quase doce. Delícia. Experimente. A caipirinha também bateu um bolão, tanto a limão quanto a de maracujá.


O jantar, na charmosa pousada Oásis, em Galinhos, teve sabor lusitano. Isso porque os donos são um português e uma angolana (cuja família é da cidade do Porto). Assim, estava ótimo o bacalhau com natas e também foi aprovado com louvor o lombinho de porco assado, macio, molhadinho e bem temperado. Para encerrar, baba de camelo, doce português com leite condensado caramelado, e uma mousse de chocolate amargo antológica.


Partimos para São Miguel do Gostoso primeiro cruzando as dunas…

…e depois pela maré baixa, beirando o mar em todo o trajeto, que beleza. No caminho paramos para ver e ajudar uns pescadores que tinham acabado de jogar uma rede de arrasto.


Puxamos as cordas que trouxeram bons peixes: além de muitos camarões apetitosos e alguns peixes menores, com baixo valor comercial, eles pegaram um lindo robalo, de uns seis quilos, que um colega comprou por R$ 20 (nunca vi um robalo tão barato em toda a minha vida). E sabe quanto custava um quilo de camarão, dos grandes, daqueles vermelhos, lindos? Só R$ 12. Que coisa…


O restaurante da Pousada dos Ponteiros foi reinaugurado há apenas uma semana, agora administrado por um paulista que contratou o chef da Pousada Maravilha, em Noronha. O rapaz mostra talento: preparou um belo caldinho de peixe (cavala) de entrada. O tempero estava muito bom na minha opinião, mas ouvi queixas a respeito da quantidade de sal, que teria sido demais. Para mim estava ok. Também teve risoto de carne-de-sol com queijo coalho e jerimum, e cavala empanada no gergelim com risoto de limão (na foto). Honestos. Mas os risotos passarem do ponto de cozimento: estavam empapados, e não cremosos como se deve. Tudo bem, eu sei: fazer risoto de uma vez só pra 20 pessoas é difícil demais.


A comilança não parou, não. Fomos para a pousada Mar de Estrelas, cujos donos têm uma fazenda do outro lado da estrada, onde são produzidos um queijo coalho fresco fenomenal, além de doce de leite e outras gostosuras. Só pude provar o tal queijo, realmente delicioso, produzido naquela mesma manhã, branquinho, sem a cura que costuma a amarelar este emblema das tradições culinárias nordestinas. Depois fui no bolinho de macaxeira, leve, com massa crocante por fora e cremosa por dentro. Arrematei com um cafezinho passado na hora, na companhia do doce de leite servido sobre uma fatia de queijo. Repeti. Duas vezes. Sim, depois daquele rapel em Gargalheiras, eu mereço. Preciso, ainda, voltar lá para provar outras especialidades da casa, como o cabrito, servido com feijão verde e pirão de leite.


O jantar, já meio que no clima de despedida, foi na pousada Casa de Taipa, uma das mais charmosas do litoral nordestino, com uma decoração linda em toda a sua simplicidade. É tudo de extremo bom gosto.

Quadros, mesas e outros objetos são pintados por um dos donos, que é um artista plástico de talento, craque na produção de miniaturas (olha que coisa essa aí de cima). Outra delicadeza que muito me chamou a atenção foi a reprodução, com qualidade de cenário de cinema, de uma típica casa sertaneja, com luz de candeeiro, cama de palha, moringa, banquinho de madeira à porta. Uma beleza. Aos poucos eles estão juntando acervo de peças antigas para montar um museu.


A comida acompanhou o clima gostoso, o encontro do mar com o sertão: teve paçoca de carne-de-sol, escondidinho de camarão com macaxeira, peixe á escabeche…

De lá seguimos para o bar Madame Chita, igualmente muito charmoso. Lá tomei memoráveis caipirinhas: uma de cajá, uma de seriguela e outra de banana com canela. Sim, saí de lá meio doidão, o que se consumou com algumas cervejas na porta da casa de shows que era reinaugurada com a aguardada apresentação da banda Ferro na Boneca, um fenômeno musical na região. O som invadiu o meu quarto madrugada adentro.

Ontem, antes de embarcar para o Rio, ainda almoçamos no restaurante Camarões, outro fenômeno potiguar, mas esse com muitos méritos, ao contrário, a meu ver, do grupo Ferro na Boneca… Já tinha visitado a casa duas vezes, em 2005. É daqueles lugares que servem a fórmula BBB: bom, bonito e barato (um prato de camarões, para duas ou até três pessoas, custa só uns R$ 45. E é tudo muito bem feito. Comecei com ótimos pastéis de camarão com catupiry que tem no recheio, no barato, uns oito camarões médios, no ponto exato de cozimento (desconfio que eles sejam colocados lá dentro quase crus, terminando o cozimento durante a fritura). Aproveitei que a vizinhança degustava outras entradinhas para investigar mais a fundo o menu: provei o pastel de carn-de-sol, igualmente muito bom, e a casquinha de caranguejo, idem. Pedi os camarões ao Seridó,uma espécie de fusão do escondidinho com o arrumadinho: por baixo um arroz cremoso e por cima, camarões de bom tamanho temperados e cozidos de maneira correta, afogados num molho que misturava bons tomates com queijo coalho. Muito bom. Também andei compartilhando outras receitas que enfeitavam a mesa:  purê de macaxeira, ótimo, uma linda travessa de carne-de-sol com queijo coalho, manteiga de garrafa e tudo o mais a que se tem direito, e ainda espetei um tentáculo de polvo, macio que só, no réchaud de ferro de um colega.
Capotei no avião…

Galinhos é demais!

11/09/2010

Para se chegar à ponta de onde se tem ammelhor visão do pôr do sol pegue um táxi com a meninada

Já ouviu falar de Galinhos? Se nunca escutou, e gosta de viajar, vais escutar. Porque esta vilinha de pescadores no Rio Grande do Norte, pode apostar, vai logo logo ficar famosa. O lugar é lindo. Fica numa península de areia com mangues, dunas, salinas e dois pequenos povoados: Galinhos, o maior, e Galos, o menor, contrariando o que sugerem os nomes. Numa das pontas um farol emoldura o sol que se põe de maneira formosa no mar. Bonito de ver. Para circular por ali, além dos barcos, obviamente, andamos em táxis de madeira puxados por cavalos e conduzidos por meninos nativos. Para chegar até lá, ou se vai de barco ou de 4×4, porque apenas esses carros vencem as areias dos caminhos que levam até lá.  As fazendas de camarão ao redor garantem este crustáceo fresquinho e barato. Também há ótimos mariscos. E ontem comi uma sublime isca de peixe – e o peixe, acredite, era um bagre. Anota aí. Galinhos é demais.

Depois das férias, aventuras no Rio Grande do Norte

07/09/2010

Genipabu, em Natal, terra do Papai Noel...

– Pai, queria que você fosse hoje pra Natal

– Ué, filha, por que?

– Porque eu quero ver logo o Papai Noel.

– Ah, mas lá não tem.

– Mas tem renas?

– Não, só camelos.

– Mas então é deserto?

Ontem travei este diálogo com a filha, um tempo de anunciar a viagem para o Rio Grande do Norte que começa amanhã, logo no primeiro dia depois de um mês de férias.

O roteiro vai ter muita emoção: rapel e canoagem no sertão do Seridó, trilha subterrânea em mina de minério de ferro, passeio de quadriciclo, wind surfe e kite surfe em São Miguel do Gostoso.

Estou animado. Vamos visitar Currais Novos, cidade famosa por ter uma estátua do Cristo Redentor igual à do Corcovado, mas menor, sem falar na Carnaxelita, maior micareta do interior do estado…

Para encerrar em grande estilo, no domingo almoçamos no restaurante Camarões Potiguar do qual tenho ótimas recordações.