Lembranças de viagem: os sabores do mar e do sertão do Rio Grande do Norte

A viagem ao Rio Grande do Norte foi rápida, gostosa e cheia de emoções. Rendeu grandes momentos. Inclusive gastronomicamente falando.
A farra começou logo na estrada, a caminho do sertão, com uma estratégica parada na Panificadora Cortez, no município de Tangará, onde provei um delicioso pastel de carne-de-sol com natas, sequinho, com massa caseira crocante e recheio farto.


À noite, na Pousada dos Cajueiros, em Currais Novos, fui apresentado ao arroz de festa (à esquerda na foto), prato obrigatório nos casamentos do Seridó, preparado com a gordura da galinha caipira que é a receita principal, sempre na escolta de uma farofa amarelinha, incrível. O jantar teve, ainda, fondue (de queijo e chocolate, e tava frio mesmo!), paçoça de carne-de-sol, pirão de leite, inhame cozido, feijão, macarrão. Até bebi um vinhozinho tinto…


No dia seguinte o café da manhã teve cuscuz, água de coco, tapioca e dois queijos da região, o manteiga (em primeiro plano, mais amarelado) e o coalho (ao fundo).


O jantar num centro comunitário de Carnaúba dos Dantas teve lingüiça de carne-de-sol, boa, mas muito seca, prefiro um bom filé ao embutido, sem dúvida (e, novamente: como tava boa a farofa!). A sobremesa foi o filhó, um doce típico do Seridó, massa de batata-doce frita servida com mel de abelha (no sertão é preciso distinguir o tipo de mel: além do produzido pelos insetos existe o mel de engenho, o melado). Antes e depois vimos a apresentação de uma banda de uma escola local. Foi bonito e divertido.


Descemos para o litoral, mas não chegamos a abandonar a carne-de-sol nem o queijo coalho. Mas a partir daqui os pescados frescos passaram a protagonizar as refeições. Nossa estréia praiana foi ótima: o almoço no restaurante Dona Irene, em Galos, teve tainha frita, isca de bagre (sim, bagre), mariscada (uns pequenos mariscos, primos do sururu, afogados em molho espesso, com leite de coco, coentro, tomate e cebola, sensacional). Também fez um belo papel o camarão ao alho e óleo. E vale registrar: como é gostoso o tomate potiguar. Pequenino e comprido, é bem vermelho, suculento e com acidez dominada, quase doce. Delícia. Experimente. A caipirinha também bateu um bolão, tanto a limão quanto a de maracujá.


O jantar, na charmosa pousada Oásis, em Galinhos, teve sabor lusitano. Isso porque os donos são um português e uma angolana (cuja família é da cidade do Porto). Assim, estava ótimo o bacalhau com natas e também foi aprovado com louvor o lombinho de porco assado, macio, molhadinho e bem temperado. Para encerrar, baba de camelo, doce português com leite condensado caramelado, e uma mousse de chocolate amargo antológica.


Partimos para São Miguel do Gostoso primeiro cruzando as dunas…

…e depois pela maré baixa, beirando o mar em todo o trajeto, que beleza. No caminho paramos para ver e ajudar uns pescadores que tinham acabado de jogar uma rede de arrasto.


Puxamos as cordas que trouxeram bons peixes: além de muitos camarões apetitosos e alguns peixes menores, com baixo valor comercial, eles pegaram um lindo robalo, de uns seis quilos, que um colega comprou por R$ 20 (nunca vi um robalo tão barato em toda a minha vida). E sabe quanto custava um quilo de camarão, dos grandes, daqueles vermelhos, lindos? Só R$ 12. Que coisa…


O restaurante da Pousada dos Ponteiros foi reinaugurado há apenas uma semana, agora administrado por um paulista que contratou o chef da Pousada Maravilha, em Noronha. O rapaz mostra talento: preparou um belo caldinho de peixe (cavala) de entrada. O tempero estava muito bom na minha opinião, mas ouvi queixas a respeito da quantidade de sal, que teria sido demais. Para mim estava ok. Também teve risoto de carne-de-sol com queijo coalho e jerimum, e cavala empanada no gergelim com risoto de limão (na foto). Honestos. Mas os risotos passarem do ponto de cozimento: estavam empapados, e não cremosos como se deve. Tudo bem, eu sei: fazer risoto de uma vez só pra 20 pessoas é difícil demais.


A comilança não parou, não. Fomos para a pousada Mar de Estrelas, cujos donos têm uma fazenda do outro lado da estrada, onde são produzidos um queijo coalho fresco fenomenal, além de doce de leite e outras gostosuras. Só pude provar o tal queijo, realmente delicioso, produzido naquela mesma manhã, branquinho, sem a cura que costuma a amarelar este emblema das tradições culinárias nordestinas. Depois fui no bolinho de macaxeira, leve, com massa crocante por fora e cremosa por dentro. Arrematei com um cafezinho passado na hora, na companhia do doce de leite servido sobre uma fatia de queijo. Repeti. Duas vezes. Sim, depois daquele rapel em Gargalheiras, eu mereço. Preciso, ainda, voltar lá para provar outras especialidades da casa, como o cabrito, servido com feijão verde e pirão de leite.


O jantar, já meio que no clima de despedida, foi na pousada Casa de Taipa, uma das mais charmosas do litoral nordestino, com uma decoração linda em toda a sua simplicidade. É tudo de extremo bom gosto.

Quadros, mesas e outros objetos são pintados por um dos donos, que é um artista plástico de talento, craque na produção de miniaturas (olha que coisa essa aí de cima). Outra delicadeza que muito me chamou a atenção foi a reprodução, com qualidade de cenário de cinema, de uma típica casa sertaneja, com luz de candeeiro, cama de palha, moringa, banquinho de madeira à porta. Uma beleza. Aos poucos eles estão juntando acervo de peças antigas para montar um museu.


A comida acompanhou o clima gostoso, o encontro do mar com o sertão: teve paçoca de carne-de-sol, escondidinho de camarão com macaxeira, peixe á escabeche…

De lá seguimos para o bar Madame Chita, igualmente muito charmoso. Lá tomei memoráveis caipirinhas: uma de cajá, uma de seriguela e outra de banana com canela. Sim, saí de lá meio doidão, o que se consumou com algumas cervejas na porta da casa de shows que era reinaugurada com a aguardada apresentação da banda Ferro na Boneca, um fenômeno musical na região. O som invadiu o meu quarto madrugada adentro.

Ontem, antes de embarcar para o Rio, ainda almoçamos no restaurante Camarões, outro fenômeno potiguar, mas esse com muitos méritos, ao contrário, a meu ver, do grupo Ferro na Boneca… Já tinha visitado a casa duas vezes, em 2005. É daqueles lugares que servem a fórmula BBB: bom, bonito e barato (um prato de camarões, para duas ou até três pessoas, custa só uns R$ 45. E é tudo muito bem feito. Comecei com ótimos pastéis de camarão com catupiry que tem no recheio, no barato, uns oito camarões médios, no ponto exato de cozimento (desconfio que eles sejam colocados lá dentro quase crus, terminando o cozimento durante a fritura). Aproveitei que a vizinhança degustava outras entradinhas para investigar mais a fundo o menu: provei o pastel de carn-de-sol, igualmente muito bom, e a casquinha de caranguejo, idem. Pedi os camarões ao Seridó,uma espécie de fusão do escondidinho com o arrumadinho: por baixo um arroz cremoso e por cima, camarões de bom tamanho temperados e cozidos de maneira correta, afogados num molho que misturava bons tomates com queijo coalho. Muito bom. Também andei compartilhando outras receitas que enfeitavam a mesa:  purê de macaxeira, ótimo, uma linda travessa de carne-de-sol com queijo coalho, manteiga de garrafa e tudo o mais a que se tem direito, e ainda espetei um tentáculo de polvo, macio que só, no réchaud de ferro de um colega.
Capotei no avião…

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3 Respostas to “Lembranças de viagem: os sabores do mar e do sertão do Rio Grande do Norte”

  1. Eliane Says:

    Olá Bruno,ficamos felizes por você ter gostado, curtido e apreciado o nosso Estado. Só fiquei com pena de uma coisa:vocês não terem ido à Maracajaú.Fica aqui o convite, então. Quando quiser voltar é só avisar. Maracajaú também é uma Vila de pescadores, com 1900 habitantes e onde está localizado os famosos Parrachos (banco de corais a 7 km da costa , onde o transfer é realizado em lanchas, catamarâs, barcos de pescadores ou jangadas- transfer para todos os gostos).Possui uma boa infraestrutura turística, com boas pousadas e pequenos hotéis, restaurantes, Parque Aquático, passeios a cavalo, quadriciclo, mergulho com snorkel ou cilindro, muita natureza e tranquilidade.(entre no site http://www.enseadamaracajau.com.br)
    Não sei porque não levaram vocês para esse destino, mas faço questão que você venha conhecer da próxima vez que passar por aqui. Obrigada pelos elogios ao Rio Grande do Norte e um abraço

  2. william Says:

    Oi Bruno maravilhosa sua viagem e comentários. Nós aqui em casa (São Paulo) quando vamos para Natal passamos por Tangará e realmente não há em outro lugar pastéis como aqueles, minha irmã então não pede outra coisa. Mais uma vez parabéns pela matéria. Um abraço.

  3. Daiana o. b. de jesus Says:

    ficol legal nota10 eu gostei

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