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Brasileirinho: verde e amarelo, e gostosinho

02/09/2010

O salão do restaurante da Praça General Osório, em Ipanema

Ipanema é um bairro de muitos bons restaurantes, mas de poucos botecos que valham mesmo a pena.

O Brasileirinho, na Praça General Osório, é meio botequim meio bom restaurante, muito apreciado por turistas, mas ainda assim altamente recomendável. Como sugere o nome, tem cardápio voltado à cozinha verde-amarela: pastel de angu, caldinho de feijão, lingüiça acebolada, tutu à mineira, carne-seca com abóbora, bife à milanesa com fritas arroz e feijão, baião de dois, carne-de-sol…

Outro dia me bateu vontade de comer feijão. Aí lembrei do Brasileirinho. E corri até ele.

Gosto do lugar. É meio boteco e meio restaurante, como dizia, com um quê de mercearia, ao menos na decoração: nas paredes as prateleiras estão cheias de produtos made in Brazil – latões de doce de leite mineiro e doce de abóbora, potes de pimenta-biquinho, panelas de barro e de pedra, goiabada-cascão…

Uma beleza.

O salão é relativamente pequeno, com muita madeira na decoração. As mesas são rústicas e há algumas grandonas, para oito ou dez pessoas.

A casa é dos mesmos sócios da Casa da Feijoada, que prepara se não a melhor, seguramente uma das três melhores feijoadas do Rio.

Então, o Brasileirinho é um bom lugar para provar o prato, pagando um pouco menos do que na casa vizinha (isso porque no Brasileiro a porção, muito farta, diga-se, não pode ser repetida, enquanto a Casa da Feijoada funciona num esquema de rodízio). Gosto também de pedir em casa: a feijoada dita para dois serve uns quatro.

Na semana passada comecei com um bom caldinho de feijão, realmente indispensável ali, com um creme espesso, engrossado pelas carnes da feijoada, uma beleza.

Um tutu no capricho, preparado e servido na frigideira de ferro

Depois pedi um tutu. Ali é feito de maneira interessante, com a mistura de feijão e farinha sendo preparada numa frigideira de ferro, que vai à mesa depois de ganhar couve à mineira (totalmente escondidas), umas lingüiças (também escondidas), três escalopinhos de lombinho (que podem ser vistos) e mais um ovo, coroando tudo. Como se sabe, qualquer prato ficar melhor com um ovo frito em cima (e essa frase não é minha). Confesso que é melhor do que os que como em Minas Gerais…

Posso te falar?

Tava bom demais.

O tutu era uma obra-prima. Sério mesmo, de verdade. A couve estava ok, nada de mais. Mas a linguicinha era ótima, e o ponto de grelha da carne de porco estava perfeito, com superfície queimadinha e interior suculento, molhadinho.

Pimentinha da boa: fundamental

Com uma pimentinha, então…

Dali fui a nocaute, devidamente amparado por umas duas cervejas apreciadas durante o percurso.

Lembrei de como é bom tirar uma siesta, ainda mais à maneira brasileira.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Um passeio pelo imaculado Morro da Conceição

01/09/2010

A inveja é uma merda…

Primeiro, no fim de semana, li uma nota em Gente Boa, falando do já famoso bolinho de arroz com feijão.

No dia seguinte, através do seu ótimo blog, meu amigo Juarez Becoza acabou me revelando mais detalhes do Bar Imaculada, logo na entrada do Morro da Conceição, a poucos passos da Praça Mauá, do caos urbano.

Como dizia… a inveja é uma merda…

Então, tive que conhecer a casa, aproveitando para visitar também a Rua Jôgo da Bola e o Bar do Sérgio, apresentados a mim não faz muito tempo, na semana passada, em outro blog que até coloquei aqui o link (para quem não viu, basta clicar aqui).

Como dizia… a inveja é uma merda…

 

Mas, veja só, também tem os seus aspectos positivos.

Foi essa invejinha que motivou o meu passeio, ontem, uma terça-feira ensolarada e linda.

Pego o metrô. Desço na Uruguaiana e cruzo a Presidente Vargas apinhada de gente. Sigo pela rua Acre, me desviando dos pedestres, dos carros, das vans e das obras – e até dos guardas municipais. Dobro à esquerda na Travessa do Liceu. Subo as escadas. São dois lances. E pronto. É quase uma viagem no tempo. No Morro da Conceição o ritmo é outro, mais lento e tranqüilo. É como outra dimensão. Poucos degraus separam a cidade do interior.

 

Apesar do nome, o Morro da Conceição nunca foi uma favela – mas, quando começou a viver o seu processo de recuperação, há cerca de dez anos, era quase isso. Ainda hoje há muitas construções degradadas. Mas aos poucos o lugar vai ficando cada vez mais bonitinho, com vários ateliês de artistas plásticos.

Subi direto pela Ladeira do João Homem. A partir da escadaria, a densidade demográfica cai drasticamente. Das cinco pessoas por metro quadrado que me amasavam lá em baixo a proporção mais que se inverte: é algo como um ser (incluindo cães e gatos, porque passarinhos são muitos) para cada 50 metros quadrados. Vou subindo. Minha única dificuldade é vencer a tal ladeira, íngreme. Ao menos ela é curta. Mas eu suo neste inverno de dias tão calorentos, entre outros tão frios.


A subida termina nesta estátua de Nossa Senhora da Conceição, que batiza o morro. Ela está num largo, na frente da fortaleza que contribuiu e muito para o Morro da Conceição não ter se deteriorado. Tem sempre uns soldados de prontidão, o que garante a segurança no pedaço.

Fui direto ao Bar do Sérgio, na Rua Jôgo da Bola (com acento mesmo, como dá para ver pela placa meio escondida). Aliás, pesquisando vi que, em Portugal, Rua Jôgo da Bola é um nome comum de logradouro.

A tal placa está colada na parede do Bar do Sérgio, cujo atrativo maior é o seu clima de boteco vintage, com mesas de madeira e fórmica (amarela, diga-se), engradados coloridos num canto, um lindo balcão de mármore rosado e os azulejos amarelos (no mesmo tom das mesas) e brancos nas paredes. Sem falar nas mercadorias ocupando as prateleiras que vão até o teto, porque o Bar do Sérgio é como um daqueles armazéns de secos e molhados, os botecos de antigamente, meio bar meio mercearia.

Ah, sim: a cerveja é bem gelada. E barata: paguei R$ 2,50 pela Itaipava trincando.

O Morro da Conceição é assim: tem cachorro na porta do bar, com preguiça. Tem pai e filho andando de mão dada. É uma delícia. Vê se parece que estamos no Rio? No Centro do Rio, aliás…

Aí, então, resolvi ir voltando. No caminho peguei a antiga fortaleza em um dos seus melhores ângulos.

 

E fui descendo a ladeira do João Homem.

Cheguei ao bar Imaculada…

…e logo pedi uma Opa Pale Ale, cerveja de Joinville muito boa. Aliás, como estamos fazendo cervejas gostosas aqui no Brasil, não é verdade? Tenho provado cada coisa boa.

O bar é uma graça. Até o cardápio, montagem com pinturas de Mestre Athayde, é lindo. Veja se não é (à esquerda, em branco e dourado, é o jogo americano).

Pelas paredes há obras de arte, porque os donos são artistas. É uma exposição coletiva, cujo tema é Nossa Senhora da Conceição. É um ambiente almplo, gostoso. Gostei.

 

Aí, fui pedindo os mus petiscos. Comecei, é claro, com os bolinhos de feijão com arroz e bacon crocante. Demais, demais, demais.
E se você está achando que essa receita tem alguma a coisa a ver com os bolinhos de feijoada do Aconchego, copiados Rio afora (quiçá Brasil afora), está enganado. Tirando o fato de ser um bolinho e de levar feijão, é bem diferente em termos de sabor e textura. Se eu fosse fazer alguma analogia a outro acepipe, seria os bolinhos de risoto com mussarela, um clássico italiano, feito no dia seguinte com o risoto que sobrou. A ideia é parecida. No lugar da mussarela há um naco de bacon fritinho. Ele é envolvido por uma massa de feijão com arroz, uma espécie de tutu com o cereal no lugar da farinha. Eles fazem uma bolinha com isso e empanam na farinha de rosca, para então fritar. Muito bom. Mas senti falta de uma boa malagueta, porque só tinha Tabasco (e eu ando implicando muito com os lugares que só usam Tabasco: quer usar tabasco, tudo bem, mas que custa botar uma boa malagueta. Sou carioca, bão sou mexicano nem americano, ora bolas…).

Aí, continuei o percurso. Primeiro com uma seleção de pastéis: um de camarão, bom, outro de queijo com tomate e manjericão, gostoso também, e o melhor de todos, de linguiça com cebola, que adorei.

Encerrei com as pataniscas de bacalhau, quase perfeitas. Quase, porque tiraram todo o sal do bacalhau… Mas, ainda assim, estava muito gostoso: enormes lascas de bacalhau em massa leve, temperada com cheiro verde, e bem fritinhas. Textura excelente, suculenta. Havia bom azeite para regar a parada. Mas faltou, de novo, a malagueta…
Aí, me perguntaram se tinha gostado. Fui sincero, dizendo que eles tinham dessalgado muito o bacalhau.

– Mas as pessoas preferem assim – justificou um dos donos.

Acredito. As pessoas não sabem mesmo comer. Pedem carne bem-passada, não percebem a diferença de uma massa al dente para um ultracozida, não gostam de jiló… Bacalhau, aprendi com os portugueses, é um prato salgado. Mais salgado que a média, até. Ligeiramente. O peixe deve estar um tom acima. O que equilibra a receita é o resto. Se você tira todo o sal do bacalhau, não tem sentido. O mesmo se passa com a carne-seca. Vamos em frente, que isso é papo pra outro post.
Mas, para encerrar o assunto por hoje, eles podiam servir as pataniscas de duas formas: salgadinhas e dessalgadas. As salgadinhas, óbvio, iam custar um pouco menos, embora sejam melhores. Isso porque elas gastam menos tempo, energia (sim, energia, a gente deve dessalgar bacalhau na geladeira) e água (sim, a gente deve trocar a água de vez em quando) para ficarem prontas, além de estimularem mais o consumo de cerveja. Além disso, sendo mais gostosas, tendem a atrair outras vezes o cliente.

Desci a escadaria de volta para casa para lá de feliz.