O angu do Gomes, e todas as delícias da Dona Ana, quem me alimenta no dia a dia

Polenta, pimenta e uma espécie de ragu fabuloso preparado com coração de boi, rabada, paio e outras deliciosas iguarias de botequim

No último ano não houve restaurante que eu tenha visitado mais que o Galeto 183, mais conhecido como Bar da Dona Ana. Fica na Rua de Santana, ao lado do jornal, e é lá que eu como praticamente todos os dias que não tenho, digamos, almoço de negócios. Porque o bandejão d”O Globo nem é ruim, o que não gosto é do processo pega bandeja, serve a comida que fica no réchaud, pega uma água, passa o crachá, senta e come. Realmente o ritual não me agrada. Refeição não é para matar a fome, refeição é um acontecimento.

Assim, todos os dias eu vou até lá. Quando estou com o dia muito apertado, ligo pra Dona Ana e encomendo o meu caldo verde, que ali é feito com carinho e respeito. Tanto que demora, porque é preparado na hora. Então, demora uns 15 minutos para ficar pronto. E, num dia corrido, 15 minutos é uma eternidade.

Além do caldo verde, pedido favorito nos dias frios de inverno, escaldado com pimenta da boa, gosto de pedir alguns pratos que estão no cardápio diariamente, como o galeto na brasa (brasa mesmo, mora?), o contra-filé de brontossauro, gigantesco, ou o bife à milanesa, todos sempre servidos em ótima companhia: um feijão de caldo espesso mas mantendo os grãos íntegros, raridade mesmo na casa da vovó, fritas satisfatórias e uma farofa que está bem acima da média, especialmente a preparada, como eles chamam, à brasileira, com temperos diversos, entre eles cheiro ver, alho e cebola, além de ovo, azeitona… enfim, uma festa. O arroz eu, sinceramente, dispenso. Não que ele seja ruim, eu é que não curto (risoto, sim, arroz branco, não).

Essa seleção de pratos disponíveis todos os dias já seriam razões suficientes para me levar até ali copiosamente. Mas acontece que temos os pratos do dia. Aí a coisa fica séria, especialmente às quarta, quinta e sextas quando são servidos, respectivamente, o angu do Gomes (com, reza a lenda, a receita original), o cozido e a feijoada. Ai ai ai.

Bem, o tal angu do Gomes me garante a Dona Ana, pura simpatia, é preparado com a receita original que tanto sucesso fez nos anos 70 e 80. É uma polenta relativamente mole que forra uma travessa de metal. Sobre ela é despejado um pouquinho do molho, só pra instigar, com umas ervinhas picadas, uma rodela de tomate e exatamente duas azeitonas (nunca mais nem menos do que isso), como é possível notar na foto. A foto, aliás, é bem antiga, de 2007, mas tudo continua igualzinho, e com o mesmo sabor.
O tal molho é uma espécie de ragu, com coração de boi, paio, rabada e outros cortes bovinos que muita gente não gosta. Eu adoro. Quando peço solicito uma força extra na rabada – que é quase sempre é composta daqueles pedacinhos menores, os mais gostosos.  O molho é tão bom, mas tão bom, que se o prato fosse servido no Gero faria um sucesso danado: tempero exuberante, acidez domada, carnes no ponto certo. Uma benção.

Também é digna de nota a feijoada, que se vale da expertise na casa no preparo do feijão e da farofa, como já foi relatado anteriormente. O mesmo se pode dizer do cozido. E também de outros pratos do dia: a carne-seca com abóbora (segunda) e a costela com batatas e agrião (das terças).

Vez ou outra, com menos fome, traço um sanduba de lingüiça, que traz aquele raro sabor de brasa. Também há omeletes, que nunca provei, mas fico sempre curioso.

Ultimamente tenho tido uma vontade imensa de montar um prato ao meu jeito. Faço assim: peço uma lingüiça, dois ovos fritos, uma porção de feijão e meia de farofa à brasileira. Gemo de prazer com essa comidinha caseira. Derramo alguma boa pimenta. E volto satisfeito, em todos os sentidos, para o trabalho. Gasto, em média, entre R$ 10 (quando peço o caldo verde, de R$ 7) e R$ 20 (quando peço o algum prato com uma linguicinha de entrada).

E vou te contar um segredo: os pratos, que custam cerca de R$ 15 ou R$ 16, podem até ser divididos por duas pessoas (minha comida sempre sobra), desde que não exista uma fome de leão.

E o resumo da ópera é o seguinte: eu não diria para ninguém ir até a Dona Ana sópara provar o galeto, a feijoada ou o milanesa. Há outros bons por aí. Mas o tal angu do Gomes, meu amigo, é um traço tão fabuloso, mas tão bom, que eu seria capaz de aconselhar um amigo a sair da Barra da Tijuca só para comer ali. É uma experiência.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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13 Respostas to “O angu do Gomes, e todas as delícias da Dona Ana, quem me alimenta no dia a dia”

  1. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Bar da Dona Ana (ou Galeto 183) […]

  2. Guilherme Lopes Says:

    Bruno,

    Esses é daqueles posts que eu leio 2 vezes e quase sinto o cheiro da comida.

    Sou fã de restaurantes assim.

    E falo mais. Vou sair não da Barra, mas de BH para comer na Ana!

    Abraço!

    • brunoagostini Says:

      Então, chega aí que a gente vai lá junto. 🙂
      E o Cruzeiro, hein. Rumo ao título. Contra Florminense e Curíntia, e a meninada sem caráter do Santos, sou mais a raposa. abração

      • juliana amorim Says:

        Eu tb vou!!!
        hahahaha
        E olha, se tem uma coisa que NINGUÉM pode reclamar é da variedade de opções do “cardápio! do blog!
        Convenhamos que há dias que acordamos com o espírito Trufas brancas no Fasano, outros ANgu do Gomes. Talvez o Bolso ($$$) não ajude sempre, mas sonhar não custa nada. Quando não dá , manter se informado é essencial. Viva a democracia blogueira.
        Vim dar uma respiradinha, lendo o blog. Nem parece que eu moro no Rio rsrsrs ando vendo a cidade pela tela do computador!!!! rsrsrs Acho que vou aproveitar o feriado e vou pro RIO!!!! 🙂

      • brunoagostini Says:

        Salve, Juliana!!!! Aparece lá numa quarta dessas que a gente divide o angu. Beijos

  3. waleska frota catunda. Says:

    Amo Rio…cidade de grandes encantos.

  4. ve Says:

    e qual é o endereço dessas gostosuras???

    • brunoagostini Says:

      Fica na Rua de Santana, 183 (daí o 183 do nome oficial da casa). O telefone é 2224-4113.

  5. Alexandre Scheidegger Lyra Says:

    Bruno, por um destes milagres, um amigo meu me mandou o link deste post há um mês, e agora já são 3 semanas seguidas saindo de Botafogo pra almoçar na dona Ana, toda quarta, pedindo angu e filezinho de brontossauro. A cada vez o número de convertidos aumenta, está se transformando quase num evento religioso.

    Uma pena não ter lido isso antes, afinal, é de outubro do ano passado. Mas tudo tem o seu tempo… e amanhã é dia, estarei lá! Só de pensar até mesmo na humilde mas viciante torradinha na manteiga e alho, já começa a me dar fome.

    O restaurante da dona Ana é realmente uma dádiva. Obrigado pela dica! Abraço!

  6. Rodrigo Says:

    Sem dúvida lá é fantástico, vou sempre que posso. Considero um dos melhores restaurantes do Rio, fora isso a simpatia da D. Ana é impressionante, fico mais a vontade que em casa.

  7. Miami do Meu Jeito Says:

    Quem me dera ter uma D Ana aqui por perto. Adorei o post.

  8. Evilasio Vieira Says:

    Jamais vi alguém descrever um “botequim” com tamanha riqueza de detalhes. Retornei ao Rio nadando na água que encheu a minha boca. Que saudade do “angu do Gomes”! Salvou a minha vida! Estudava à noite nas Lanranjeiras e às sextas, depois de um dia de trabalho, das aulas e de sorver alguns chopes no 004, na Farani, seguia para a Praça XV – parada obrigatória – uma pinga, um ou dois pratos do fabuloso angu, pimenta forte. Aí sim, seguia em outro coletivo para Casa feliz e refeito. Ultimamente, quando a saudade aperto, vou ao Rio e, sem o Gomes, valho-me do Amendoeira, na Maria da Graça – bom angu. Agora, depois de ler esta extasiante postagem, o Bar de Dona Ana Será meu novo endereço gastronomico na Cidade Maravilhosa. Ir ao Rio de Janeiro e não comer um bom “angu à baiana” é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa, para os católicos.

  9. luiz carlos de paiva e souza Says:

    O angu da Dona Ana e celestial. Pena que só seja servido quarta-feira.

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