Em defesa do cabrito do Nova Capela: você pode achar ele bom ou ruim, só não dá para dizer que mudou

 

Só de olhar dá para ver que o prato é uma delícia

Como um mantra sem sentido, tenho lido ultimamente críticas ao cabrito do Nova Capela, que teria caído muito de qualidade nos últimos anos. A pessoa pode até achar o prato horroroso, mas dizer que está pior é uma bobagem que só pode ter sido inventada por alguém que só conheceu o restaurante recentemente.
Não sei quem foi que fez esta mentirosa constatação. O cabrito do Capela continua sendo feito do mesmo jeito, e é servido igualzinho nos últimos 15 anos, pelo menos. Tostadinho, crocante, com bastante alho frito em cima, em padaços muitas vezes junto ao osso, uma espécie de versão ovina do frango à passarinho. É suculento, forte. O cabrito continua igual ao que sempre foi, assim como acontece com as batatas coradas e com o arroz de brócolis, suas clássicas companhias, com a canja, com o bolinho de bacalhau, com chope. Acho estranho alguém dizer que mudou, que está pior. Das duas, uma: ou a pessoa frequenta o Capela desde o início do ano apenas, e não pode comparar com o Capela de 10 ou 15 anos atrás ou, então, o cidadão tem uma memória péssima. Porque o Nova Capela continua igualzinho – pelo menos no que diz respeito à comida (está mais vazio, é verdade, mas isso não tem a ver com a qualidade da comida, pode ter a ver com preços, com a nova e fresca geração de boêmios e gourmets, como muito bem definiu o Paulo Thiago de Mello, que sabe tudo de boteco, sabe e frequenta, entende e conhece. O Capela também está menos enfumaçado, ainda bem). Pode até ter a ver com sei lá o quê, mas não com a qualidade da comida, ou pelo menos com a sua caída: continua a mesma, posso te garantir. Pode até ser que a cozinha calórica servida ali está fora de moda. Que a porção hoje é menor e mais cara… Mas dizer que o cabrito está pior, francamente.
Li ainda que o bolinho de bacalhau é ruim porque tem pouco bacalhau. Ora, ora, ora. Que besteira. Eu concordo só com metade da sentença: de fato, não tem muito bacalhau, há receitas que levam mais. Mas e daí, se é uma delícia: sempre frito da hora, chega fumegante à mesa para ser besuntado com pimenta e azeite. O bolinho tem uma casquinha crocante e um miolo macio e delicado, muito bem temperado. Talvez, se tivesse muito bacalhau não fosse assim. Poderia ser melhor, ou pior. Só sei que assim é bom. Bolinhos de bacalhau, como se sabe, são um petisco que compreende várias interpretações: pode ser pequenino ou grande, em formato arredondado ou comprido, com mais ou menos tempero na massa, com mais ou menos bacalhau. Pode até ser servido frio ou quente. Enfim, o bolinho de bacalhau do Nova Capela eu acho ótimo.
O cabrito também não mudou. É um prato para estômagos fortes, gorduroso, mas sublime.
Muita coisa mudou no mundo carioca dos botecos e restaurantes tradicionais. O Panafiel fechou as portas, o Le Coin também. O Bofetada, depois de anos de agonia, já totalmente descaracterizado, também acabou. O chope do Bar Luiz não é mais Brahma. O Bracarense, este sim, está em franca decadência (e, mesmo assim, continua bom de ir). Mas o cabrito do Capela continua igual. E me deu até vontade de ir lá comer hoje… 
 
 Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.
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23 Respostas to “Em defesa do cabrito do Nova Capela: você pode achar ele bom ou ruim, só não dá para dizer que mudou”

  1. Guilherme Lopes Says:

    Ô trem bão é esse cabrito!

    Arrumo a desculpa de sambar na Lapa só para no final da noite passar lá no Nova Capela.

    E o bolinho é bão também.

    Sinto falta do Gaúcho!

    ; )

  2. J. Says:

    Oi Bruno ,como o Cabrito do Nova Capela há “séculos”e ele é excelente,principalmente quando vc. sai com o espirito preparado para encará-lo.Concordo com vc ,nada mudou.

  3. Dri Says:

    Eu, que nunca comi o cabrito, só comentei no outro post o que tenho lido por ai… Mas que essa foto me deixou salivando nao tenho como negar!

  4. Constance Escobar Says:

    Bruno, como você me mandou um email, hoje, pela manhã, dizendo que esse post era pra mim e, de fato, o texto inteiro é, de certa forma, um ataque direcionado a cada parágrafo de um dos meus últimos posts no Viajeaqui (inclusive, reproduzindo alguns comentários meus), eu me sinto no direito de responder.

    Você sabe, nem preciso dizer, o quanto respeito seu trabalho. E isso talvez você não saiba, mas faço questão de falar: acho a divergência de opiniões saudável e enriquecedora; é dela que nascem as reflexões. Mas, particularmente, não acho que seja esse o tom do seu post. Vejo um tom de irritação pessoal, tom que também senti no seu email e que, sinceramente, não consegui entender.

    Realmente, não gosto do cabrito do Nova Capela. Não acho bom. E acho um absurdo os R$90,00 que se cobram por ele. Desde que conheço esse cabrito, penso exatamente isso. Se disse que, há muito tempo, o cabrito não tem nada de especial é porque seria leviana em afirmar que foi sempre assim e que jamais teve algo especial. Afinal, nós dois somos jovens demais pra afirmar isso categoricamente, não acha? Tenho amigos que poderiam ser nossos pais e que afirmam em uníssono a queda de qualidade na comida do Capela… E são pessoas que já frequentavam a casa quando nós dois usávamos fraldas… Então, entenderia você dizer que não concorda com minha manifestação, mas não entendo chamar de “bobagem que só pode ter sido inventada por alguém que só conheceu o restaurante recentemente” ou, ainda, “mentirosa constatação”.

    Quanto ao bolinho de bacalhau, Bruno, você mesmo reconhece que tem muita batata e pouco bacalhau. Então, por que atacar o comentário que fiz a respeito? Eu também adoro um bom bolinho de batata, mas quando pago por bacalhau, quero comer bacalhau e, não, batata. Por que chamar de besteira uma opinião nesse sentido? Ainda que eu ache besteira algum comentário seu, não teria motivo algum pra escrever um post dedicado apenas a dizer isso… Quantas vezes já discordei de tantas coisas que li aqui, não há nada de estranho nisso. Mas o que me levaria a escrever um post atacando um post seu e chamando de “besteira” suas opiniões? É algo que me pergunto…

    Quando me sentei pra escrever o post que você agora ataca tão duramente, sabia que era um assunto bastante delicado. Mas, curiosamente, nunca fui tão parabenizada por um post como tenho sido por esse por onde tenho passado. O que me faz crer que, de alguma forma, eu expressei certas coisas que muita gente anda com vontade de dizer, mas não diz por medo do patrulhamento que vem a cavalo… E vem mesmo. Agora, será que se eu escrevesse um post criticando o restaurante da Roberta Sudbrack, do Claude Troisgros, do Felipe Bronze ou do Marcos Sodré, só pra citar exemplos, você faria um post em desagravo? Por que o Nova Capela eu não tenho o direito de criticar? Isso só me faz crer que, sim, há lugares que são tratados como intocáveis por parte da imprensa carioca. E quem ousar falar mal deles vai levar pedrada. Particularmente, não acho isso muito saudável…
    Aliás, acho isso nefasto para a cultura gastronômica de uma cidade.

    Um abraço,
    Constance

    • brunoagostini Says:

      Se você considera um ataque, tudo bem. Para mim, é só uma defesa de um ponto de vista, o meu. E, se você se sentiu atacada, não tem direito de responder, mas dever. Está feito. Sua opinião aqui é bem-vinda, mas não queira que concorde com ela.
      E te garanto uma coisa. Não existe qualquer irritação, pelo menos com você. E não conheço o Capela há 30 anos, mas há 15. E de lá para cá o cabrito continua igaulzinho, talvez mais caro, mas não é disso que trato. Me desculpe, mas não confio na sua fonte, e o fato de ela ter anos de estrada não quer dizer muita coisa. Então, se ela, a fonte, frequenta há muito o Capela não pode ter uma boa memória. Não há nada estranho na discordância, nem eu considerar besteira. Talvez eu não seja mesmo tão elegante nem politicamente correto como você é. E nem espero que alguém concorde comigo. Mas se tem uma coisa que prezo é minha opinião, e dela não abro mão.
      Para encerrar, nem tampouco acho delicado o assunto. É algo simples. Que mal há em falar mal do Capela? Ou do Jobi? Nenhum, desde que com fundamento. Não me parece o caso, ao contrário.
      Mas agora, se você escrevesse um post criticando o restaurante da Roberta Sudbrack, do Claude Troisgros, do Felipe Bronze ou do Marcos Sodré, só pra citar exemplos, não sei se faria um post em desagravo. Sinceramente eu não sei. Provavelmente não. Porque possivelmente não ia querer argumentar, você teria as suas razões, haveria ali idiossincrasias e afins. Não foi o caso. O argumento, repito, é mais que mentiroso, é vazio. Dizer que está pior o cabrito do Capela não é verdade, porque ele continua igual.
      E eu continuo achando a discussão saudável. Espero sinceramente que você entenda que não é nada pessoal, e não é mesmo. Mas que achei uma grande bobagem o post, eu achei. E o fato de pessoas elogiarem não me diz muita coisa. Há tanta gente por aí que gosta de música ruim, que lê livro ruim. Não me espanta nada.
      Agora, se você acha isso tudo nefasto, acho que você precisa imediatamente de um dicionário, porque não conhece o significado da palavra. No mais, desculpe pela sinceridade.
      Um abraço

    • brunoagostini Says:

      E cuidado com os elogios. Às vezes eles vêm quando fazemos as maiores bobagens…

  5. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Nova Capela […]

  6. Léo Says:

    90 reais????????????? PQP!!!!!!!!!!!!!! fui da última vez lá no sábado de carnaval desse ano…e estava 70 reais, o que já É CARO PARA CARA&*¨¨%¨% em se tratando do tamanico da porção…

  7. Dri Says:

    Gente, só agora vi esse bafafá. Adoro meter a colher numa discussão, mas como nunca comi o cabrito em questão, terei que me abster. É bem verdade que eu poderia resmungar do preço, mas como já fiz isso nesse blog outra vez, vou emendar a segunda abstenção.

    Tudo o que eu sei, entretanto, é que comida é algo emocional. E às vezes é difícil separar, pro bem ou pro mal. Há pratos que eu comia com minha avó e amava e depois que ela morreu ficaram totalmente sem graça. E vice versa.

    Termino dizendo que acho extremamente saudável ver dois pontos de vista tão distintos sobre um mesmo lugar, pois é sinal de que no mínimo, a comida está exercendo sua funçao, despertando emoçoes.

    • brunoagostini Says:

      a comida do Capela pode ser uma porcaria, cara, gordurosa, antiquada. O que não dá é dizer que mudou, porque não mudou. Simples assim

  8. Astrodome fecha as portas. E eu choro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Vou aproveitar para incluir, lá no Índice de posts de restaurantes, ao lado do nome da casa, uma cruz, indicando o seu falecimento. Até porque quero escrever sobre outros restaurantes que agonizam mas não morrem, como o samba. caso, por exemplo, do Cosmopolita, que sucumbe ao mau gosto que impera nas novas gerações de cariocas, que andam fresquentando e adorando lugares para lá de estranhos, não é verdade. Assim, sofrem alguns clássicos. Uns merecidamente, caso do Lamas e o Le Coin (o II, porque o I já se foi há tempos. Em seu lugar abriu mais um restaurante inexpressivo). Outros sem qualquer razão de ser, como o Cosmopolita e o Nova Capela. […]

  9. O cabrito do Nova Capela: mais duas opiniões respeitáveis « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Para saber mais sobre este assunto, clique aqui. […]

  10. Cabrito do Nova Capela, por Claude Troisgros, para encerrar o assunto « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] quiser saber mais sobre o assunto é só clicar aqui ou […]

  11. Nilton Chiba Says:

    Gostaria que me esclarecessem,afinal este cabrito dá para duas pessoas?

    • brunoagostini Says:

      Dá, sim, fácil, fácil. E ainda dá para pedir meia porção, para um. Ou em forma de petisco, meia porção, sem arroz ou batatas, também dá.

  12. Marcelo Clemente Bastos Says:

    Olha, pára tudo!!! Quando eu morei no Rio de Janeiro, de onde saí já faz 9 anos, comprei um guia de ruas da cidade e, junto do guia, vinha como souvenir um guia de “bares e botecos” locais. Como eu teria um mês inteiro de jantares pagos pela empresa que me estava transferindo pela cidade, decidi que cada jantar seria feito num daqueles lugares indicados pelo guia, e coincidentemente, sem que eu tivesse a menor noção de onde estivesse indo, o primeiro lugar em que eu fui parar foi o Nova Capela, onde fui atendido pelo Cícero, que anos depois eu fui saber que ganhou concursos de melhor garçom do Rio, e eu hoje bem sei o porquê (ele é um mago do serviço!). Pois bem, desde aquele primeiro encontro, não se passou jamais o intervalo de um mês, enquanto eu morei no Rio, em que eu não desse uma passada no Capela, e sempre, SEMPRE que eu passo pelo Rio de Janeiro, uma visita ao Capela é obrigatória, onde o Cícero até hoje – mesmo com tantas e tantas figuras, muitas delas lendárias e notórias da cidade, passando por lá todos os dias, estava com jantares da cidade – podem se passar anos, quando eu volto, sabe exatamente o que eu vou pedir (bolinho de bacalhau e cabrito, acompanhado também de salada de batatas!). O lugar é uma lenda, não há como criticá-lo, porque lendas são incriticáveis, lendas são lendas…

    • brunoagostini Says:

      Marcelo, não sei se lendas são intocáveis, mas garanto que o Nova Capela, o seu cabrito em especial, é ótimo. Um abraço

  13. ALEX Says:

    é bom.. e é caro pra cacete.
    Alexandre

  14. André Hespanhol Says:

    Na polêmica, fico com o Bruno. E ele não atacou a (o) Constance. E o Cabrito não mudou, nossos pais não dizem isso (ao menos como com amigos que poderiam ser meus avós). E o cabrito não é ruim, quem diz isso não gosta de cabrito. Faço cabrito, como cabrito, gosto de cabrito. Já comi cabrito desde em beira de estrada no sertão a restaurantes de bom nível na frança, passando por terreiros de candomblé. O cabrito é bom, ponto final. Não aceito que digam o contrário. Abraços e parabéns pelo trabalho.

  15. Ruy Castro: a baixa gastronomia é a cidade viva - Curitiba Baixa Gastronomia Says:

    […] Martins – O Nova Capela, por […]

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