Archive for outubro \10\-02:00 2010

Santa Teresa e Cosme Velho para iniciantes e iniciados

10/10/2010

O bonde, símbolo do bairro, grafitado para a Copa do Mundo da África do Sul

Existem várias maneiras de se enxergar o Rio de Janeiro. Do alto é a melhor de todas. Isso explica, em parte, porque Santa Teresa é o lugar do momento, reduto de sambistas, botequeiros, artistas e outros representantes da boemia carioca. Que Leblon, que nada. Além de ter alguns dos mais belos panoramas do Rio, e talvez por causa disso, Santa Teresa é hoje um dos melhores recantos da cidade para comer, beber, comprar e até dormir. Um passeio completo. E neste momento em que o bairro do famoso bondinho amarelo confirma a sua vocação para ser o ponto mais descolado do Rio, as adjacências também vão mudando de perfil.

O vizinho Cosme Velho é o bairro preferido ao longo do tempo por muitos cariocas ilustres, de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, à família Marinho (dona Lilly, viúva de Roberto Marinho, ainda mora lá). Outro famoso apreciador do local é o acadêmico Austregésilo de Athayde, que viveu entre 1943 e 1993 no número 599 da Rua Cosme Velho. Hoje no endereço funciona o Centro Cultural Casarão de Austregésilo de Athayde, inaugurado em 2008, um espaço agradável e mutidisciplinar, com área para exposição, restaurante e uma programação bem variada, que pode mesclar num mesmo fim de semana apresentações de danças populares brasileiras, aulas de ioga, debates sobre urbanismo e sustentabilidade.

Logo ao lado, no número 561 da Rua Cosme Velho está o Museu Internacional de Arte Naif do Brasil, dono de uma impressionante coleção com mais de 6 mil peças com representantes de mais de 100 países, tido como o maior acervo deste gênero em todo mundo. Apesar dessa importância, o museu não recebe a devida atenção da prefeitura e nos últimos anos tem tido funcionamento irregular. Por isso, é melhor ligar para se certificar dos horários de abertura. O estilo colorido, simples e delicados dos quadros costuma a agradar em cheios às crianças.

Cristo Redentor: de bondinho é a melhor maneira de se chegar aos seus pés

Mesmo para os que não têm qualquer interesse em literatura e artes plásticas é quase imperativo ao visitante passar pelo Cosme Velho ao menos uma vez durante a viagem. Porque é por ali o melhor caminho para se chegar ao Corcovado, sobre trilhos. Mas para embarcar no trenzinho que sobe a montanha serpenteando as encostas da Floresta da Tijuca o turista precisa driblar a máfia de taxistas que atua na entrada da estação. Fuja deles. Na hora de ir embora, ligue para uma cooperativa.

Mas, ao passar o Cosme Velho só não deixe de visitar o Largo do Boticário, a menos de cinco minutos de caminhada dali. É como se tivessem recortado um pedacinho de Paraty ou Tiradentes para colar no Rio de Janeiro. É um lugar muito conhecido, mas injustamente pouco visitado. Azar dos que não apreciam a linda arquitetura que é resultado de seguidas intervenções no estilo colonial, com casinhas de fachada colorida e acabamento bem trabalhado. Repare nas ruas com calçamento pé-de-moleque, nos jardins de Burle Marx e nas árvores frondosas.

A melhor maneira de se aproveitar este cenário bucólico no coração da cidade é se hospedando numa dessas construções, a Casa 32, uma pousada de apenas três quartos que é um sonho. Frequentada majoritariamente por estrangeiros, tem diárias a partir de 280 euros. A decoração é moderna, divertida e colorida. Se você estava procurando um lugar diferente para se hospedar no Rio de Janeiro (a apenas 10 minutos, ou até menos, de carro até Ipanema), acaba de encontrar.

Tradicionalmente algumas das melhores rodas de samba do Rio acontecem nas mansões do Cosme Velho. Mas geralmente é uma programação restrita, em endereços variáveis, quase um segredo, hoje em dia anunciado por e-mail e redes sociais. Ou seja, só para os mais antenados. Uma das lendárias rodas da cidade, a Feijoada da Tia Elza, hoje acontece no Clan Café, bar agradável com boa agenda de shows, com bossa nova e jazz também no repertório.

Cachoeira na Floresta da Tijuca, no meio da cidade: coisas do Rio de Janeiro

Cosme Velho e Santa Teresa são bairros irmãos. Vizinhos e complementares, são como Ipanema e Leblon, Copacabana e Leme, Flamengo e Botafogo. Dividem alguns problemas, como as muitas favelas que são ainda território dominado por bandidos. Um começa onde o outro termina, no alto do Maciço da Tijuca, a caminho do Corcovado, da Vista Chinesa e das cachoeiras e trilhas das Paineiras.

Essa interseção entre bairros se dá na Rua Almirante Alexandrino é o eixo principal desse universo. E também caminho do bonde amarelo, melhor maneira de se explorar o bairro. É tudo muito simples. Basta embarcar na estação da Carioca. A entrada em Santa Teresa é triunfal, cruzando a Lapa pelo alto, sobre os famosos arcos. Não se assuste: durante o percurso vários sujeitos vão pular no bonde, ficando de pé na lateral do veículo (quem viaja de pé não paga a passagem, antiga tradição).

O bondinho parado no Largo dos Guimarães

O principal ponto de parada é o Largo dos Guimarães, que poderia ser considerado o centro do bairro, em torno do qual (quase) tudo acontece. Boa parte do crème de la crème de Santa Teresa está a uma curta caminhada dali, onde também estão o cinema e a posto da Policia Militar.

Mesmo para se chegar até as atrações um pouco mais distantes, como o Museu Chácara do Céu, com rico acervo, incluindo obras de Debret, Rugendas e Di Cavalcanti, a caminhada é tranquila, no máximo 20 minutos em terrenos plano. Logo ao lado está o Parque das Ruínas, um dos melhores lugares do Rio para uma pausa se beber calmamente um café (nos fins de semana o café da manhã é concorrido).  

Lola Atelier & Café: lojinha charmosa com deliciosos brigadeiros e lindos objetos de decoração

Mas é mesmo nas cercanias do Largo dos Guimarães que estão muitos dos melhores restaurantes, lojinhas, cafés, bares e ateliês de Santa Teresa. Alguns desses endereços, como o Atelier & Café, como o nome já indica, têm dupla atividade, são loja de artesanato, com peças de moradores locais, e também cafeteria. O mesmo acontece no Lola Atelier Café, que não pode faltar neste roteiro pelo lado fofo de Santa Teresa. Além de objetos de decoração muito charmosos, muitas vezes com motivos cariocas, ótimas lembrancinhas de viagem, o lugar também vende ótimos brigadeiros e chocolates. Também serve para múltiplas finalidades a livraria Largo das Letras, que funciona em um lindo casarão antigo, com espaço para crianças brincarem e um café, ótima pausa para uma cerveja gelada no meio da tarde.

Santa é hoje um bom lugar para se garimpar roupas desenhadas por jovens estilistas em lojas como a Magia de Ser e a Cecília Brandão. Mas no universo fashion, endereço imperdível mesmo é o brechó Eu Amo Vintage.

Ateliê Chamego Bonzolândia: artesanato na rua

Santa Teresa está envolvida numa atmosfera alternativa e artística. Há 20 anos é realizado o Arte de Portas Abertas, quando os muitos artistas que vivem em Santa Teresa abrem as portas de seus ateliês aos visitantes que congestionam ainda mais as ruas do bairro durante um fim de semana de setembro. Um desses artistas trabalha e vende as peças na rua, no Atelier Chamego Bonzolândia, que funciona numa réplica em madeira do bondinho, em frente ao número 1088 da Rua Almirante Alexandrino.

– Estou há 25 anos vivendo da produção de artesanato nas ruas de Santa Teresa. Faço reciclagem, reutilização de materiais. Uso lixo para criar peças de arte popular. Faço bonecos, bondes, aviões, maquetes, depende do momento, da inspiração – diz Getúlio Damado, que bate ponto todos os dias no seu ateliê de rua, com peças a partir de R$ 10.

Um dos projetos mais interessantes reúne 20 artesãs do bairro, organizadas no ateliê Toque de Mão, que também aposta na reciclagem.

– Fazemos reaproveitamento de materiais que iriam para o lixo. Produzimos artigos como bolsas e necessaires usando banners de propaganda e tecidos. Quem nos visita pode ver como é feito o trabalho, já que vendemos as peças no mesmo lugar em que são produzidas – diz Vera Lúcia Amorim de Paula, uma das integrantes da cooperativa que, ao contrário da maioria das lojinhas do bairro, fecha aos sábados e domingos.

Térèze, o cada vez mais gostoso restaurante do Hotel Santa Teresa

Também está a poucos passos do Largo dos Guimarães o Santa Teresa Hotel, um lindo casarão que cumpre várias funções neste roteiro. Além dos hóspedes o lugar, pertencente ao Relais & Chateau, recebe visitantes interessados nos pratos franco-brasileiros do restaurante Téreze, nos tratamentos e na badalação em torno do Bar dos Descasados.

Bar dos Descasados, ótima pedida para um drinque

Numa descrição simplista o Bar dos Descasados é uma caverna com paredes de pedra que se abre para uma varanda deliciosa, um lounge com mesas amplas. É um dos esquentas (para a balada, como diriam os paulistas) mais agradáveis da cidade, ao sabor de drinques bem bolados, clássicos como o Martini e degustações de cachaça. Para uma happy hour animada um dos melhores lugares do Rio é o Armazém São Thiago, mas conhecido como Bar do Gomez, numa esquina da Rua Áurea, sempre com clima descontraído, com gente em pé do lado de fora.

Santa Teresa não é um lugar de muitos hotéis (ainda). Mas eles se encaixam em todas as categorias de preço e estilo. Nada de redes, apenas charmosas hospedarias de caráter familiar. Para início de conversa, não poderiam faltar bons albergues, como o Rio Hostel Santa Teresa e o Bellas Artes Guest House, dois dos preferidos dos gringos jovens que peregrinam pelos países da América do Sul com uma mochila nas costas. Ainda que o pequeno comércio de bairro esteja acabando, com padarias e mercearias dando lugar a bares bonitinhos, Santa Teresa conserva certo clima de cidade do interior. Um desses endereços que reforçam este caráter é a Pousada Pitanga, com apenas quatro apartamentos.

Uma tendência recente no Rio de Janeiro é a transformação de mansões antigas, a maioria delas com mais de 100 anos, em pequenos hotéis de charme. São endereços discretos e exclusivos, com poucos quartos, serviço caprichado e decoração charmosa.

O visitante de bom gosto agradece. Nesses lugares as diárias custam quase sempre acima dos R$ 500, podendo passar de R$ 1.000. Santa Teresa lidera, de longe, como bairro preferido para esses investimentos. Assim, de cinco anos para cá nasceram hotéis perfeitos para um casal em busca de uma estadia tranqüila e diferente no Rio de Janeiro. Primeiro o Solar de Santa, em 2005, com apenas cinco apartamentos numa casa de 1890. Depois, em 2006, o Mama Ruisa, um pouquinho maior, com sete quartos, também instalada em casarão histórico, ainda mais velho, de 1871. Em 2008 foi a vez de abrirem as portas a Casa Amarelo, com cinco suítes em construção de 1904, e o Rio 180° Suítes & Cuisine . É um daqueles lugares em que é possível cantar “da janela vê se o Corcovado, o Redentor, que lindo”, com absoluta propriedade, porque, de fato, é essa a vista que se tem da varanda do restaurante. É, sem dúvida, um dos melhores ângulos da cidade.

Grafite pertinho do Largo dos Guimarães

Uma das propostas mais originais e que encarnam muito bem o espírito cosmopolita de Santa Teresa é a Casa Beleza, uma pequena pousada de apenas três quartos tocada por uma indiana casada com um francês, casal que escolheu o Rio como morada. Funciona num casarão agradável, com decoração eclética e original, combinando móveis antigos com peças indianas e obras de artistas de Santa Teresa.

– É uma proposta diferente, mais aconchegante que os grandes hotéis de Copacabana e Ipanema. Aqui você está numa casa, com jardim e piscina, bem perto do agito do Largo dos Guimarães, mas em lugar tranqüilo. O visitante pode curtir a rotina de um carioca, por isso são os estrangeiros o nosso principal público – conta a indiana de Nova Délhi Bindu Mathur, que também dá cursos de culinária de seu país e acaba de criar um menu típico para o restaurante Oui Oui, em Botafogo.

Marreco Aprazível: com molho de vinho branco e ameixa, arroz selvagem e purê de maçã em um dos restaurantes mais agradáveis da cidade

Porém, como dizíamos, os pequenos comerciantes de bairro vão deixando as suas casas para dar lugar a empreendimentos de caráter mais turístico. Há projetos faraônicos e mirabolantes que nascem condenados ao fracasso, como o enorme restaurante Ásia, investimento de uns U$ 4 milhões que naufragou na própria arrogância: quem vai a Santa não quer comer um lugar assim, pretensioso. O povo prefere o terraço arborizado do Aprazível, restaurante que faz jus ao nome, com uma das melhores vistas, num dos lugares mais agradáveis da cidade, ótimo para gastar uma tarde preguiçosa entre comes e bebes.

Mike's Haus: tradicional restaurante alemão agora abriu filial na parte mais agitada do bairro

Mas algumas dessas mudanças de perfil comercial são bem interessantes. Como a nova unidade do Mike’s Haus, tradicional restaurante alemão que funciona numa zona menos agitada de Santa Teresa, mas acaba de inaugurar uma filial com cardápio mais voltado aos petiscos na Rua Pascoal Carlos Magno, num lindo imóvel de esquina, com armários antigos herdados da antiga mercearia que funcionava ali.

– Foi um presente este ponto, agora estamos no meio do agito de Santa Teresa. O povo tinha muitas vezes preguiça de subir até o Mike’s Haus original, lá em cima – agradece Graça Brito, mulher do Mike’s que dá nome à casa, mais um empreendimento familiar que tem a cara de Santa Teresa.

Porção mista de salsichas do Mike's Haus Imbiss, inaugurado há cerca de dois meses

Como bom alemão, o novo Mike’s Haus Imbiss, é um dos melhores lugares do Rio para se beber um bom chope ou cerveja importada, da mesma maneira que a Adega do Pimenta, outra tradicional casa germânica carioca, bem perto do Largo dos Guimarães também.

Sobrenatural: peixes e frutos do mar à moda brasileira, em várias versões

Este pedaço de Santa Teresa virou pólo gastronômico de alguns anos para cá, reunindo alguns dos restaurantes de comida brasileira mais gostosos do Rio, como o Espírito Santa, o Sobrenatural, o Bar do Arnaudo e o Bar do Mineiro  (este último, um clássico carioca, serve uma famosa feijoada, além de incríveis pastéis de feijão). Neste mesmo corredor, para um lanche rápido, o Cafecito serve cervejas especiais brasileiras, uma ótima companhia para as saborosas empanadas à moda argentina, que ficam ótimas com as boas pimentas da casa.

– Santa Teresa acabou se convertendo em um pólo gastronômico dedicado à culinária brasileira. Isso talvez tenha acontecido porque o bairro abriga muita gente de fora moradores de todo o Brasil. Tem mineiro, baiano, gaúcho e amazonense, como eu. É algo meio babilônio, com um monte de estrangeiro, alemães, franceses, italianos… Alem de tudo é um bairro muito turístico, e turistas gostam de provar comida típica – conta Natasha Fink, do restaurante Espírito Santa, que acaba de incluir novos pratos no cardápio usando peixes brasileiríssimos, como pirarucu, tucunaré e tilápia.

Restaurante CHez Marcianita: um segredinho delicioso que só abre uma vez por mês

Se Santa Teresa tem alguns dos restaurantes mais famosos da cidade, como o Aprazível, também tem alguns dos menos conhecidos, ignorado até por muitos cariocas apreciadores da gastronomia, como o Chez Marcianita, um desses muitos segredinhos que o bairro comporta.

Esta reportagem foi escrita para a edição de setembro da revista Lonely Planet (ainda dá para encontrar nas bancas, a capa é uma foto em tons alaranjadas da Golden Gate, em San Francisco: a matéria principal é sobre a Califórnia).

O Oro do Bronze: prato a prato, o menu que entra em cartaz na semana que vem

07/10/2010

 

Ontem jantei no Oro, o novo restaurante do chef Felipe Bronze que será inaugurado, provavelmente, na próxima sexta, dia 15. Há umas três ou quatro semanas estão rolando umas provas noturnas. Chefs, amigos do chef, sócios, jornalistas, atores, cineastas estão pingando lá, como em conta-gotas, para ir provando, opinando, sentindo, apreciando. Enfim, comendo o novo cardápio que vem se desenhando. Está tudo quase pronto. Mas as receitas ainda estão se ajustando.

Por volta das 22h cheguei na casa, que fica em frente ao Olympe do Claude Troisgros. Ocupa o imóvel que já foi do XX, que teve vida curta como a de uma cigarra. No total, acho que éramos só uns oito ou dez jantando, em duplinhas nas mesas separadas.

Fui logo conhecer o segundo andar.

Logo desci para ir ao que interessa. Nunca recomandaria o salão de cima. Não que seja feio.

Mas é que lá embaixo a cozinha está escancarada através de um enorme vidro. É sempre bom ver uma cozinha em ação. No caso, essa tem um item além: há pirotecnia. Vemos muita fumaça, o tempo todo. E gente correndo para lá e para cá. Nesta fase, com pouquinha gente no salão, ainda é possível que o chef venha pessoalmente à mesa apresentar cada prato. O que não deixa de ser um privilégio.

Logo ele trouxe os chamados snacks, que são as entradinhas da casa, para divertir a boca, como diriam os franceses.

Esses daí de cima são os profiteroles de queijos brasileiros (é uma mistura, com prevalência do coalho nordestino e de algum de búfalo, da Ilha de Marajó). A verdade é que o negócio é bom, ainda mais com a farofinha de macadâmia que lhe acompanha.

Ao seu lado foram servidos as outras três entradinhas. Vamos lá, uma a uma. Em primeiro plano, encaixado em três buracos feitos em um tijolo, temos o tartar de salmão defumado no cone de manga. Preciso confessar uma gafe: comi o conezinho fibroso que vem envolvendo o que devemos, de fato, comer: o rolinho que está ali dentro, feito de manga, recheado com a carne de salmão defumada, cortadinha e temperadinha.  À esquerda temos o tempurá de ovo de codorna, coroado com uma espuminha de trufas, leve, leve, leve, que até justifica ser chamada de ar. Lá ao fundo está o hommus de edamame. O prato tem um mérito grande: dá ao nori, a alguinha que envolve o sushi, textura de mandiopan, crocante, aerada. Bem legal, mexe com uns sentidos. Ele servia para pegar uma pasta de feijão de soja, feito com inspiração árabe (naquela de grão-de-bico).

Então passamos às pequenas preparações que, apesar do nome diminutivo, são os pratos principais. Primeiro açaí salgado com banana confit e farofa gelada de foie gras, que é uma boa sacada, arredondando esta combinação. A farofa, que está sendo ralada aí em cima, é algo muito simples. Basta fazer um bom foie gras au torchon, congelar e ralar assim, à mesa.

Um close, por favor.

Em seguida, mais foie. Desta vez numa versão chamada royale. É um creminho, cremosão, cremosaço, de fígado, servido com uma fina fatia de torrada de brioche e umas sementes de maracujá, a futa que lhe empresta acidez  compondo a receita em forma de quase geleia. Mas sabe o que é melhor? As sementes, que foram tostadas no forno, ganhando função de castanha.

Partimos para o salmão levemente defumado servido sobre uns nhoques de maçã (a fruta é desitradada e vira a farinha), tostadinhos na chapa antes de receberem o peixe  e esse molho aí, que não me lembro muito bem, mas acho que é meio acidinho.

O passo seguinte também nadava. Era um bacalhau cozido em baixa temperatura com crocante de presunto cru e duas espumas, que para mim estavam mais para cremes (e estavam muito gostosas): uma de tomate, outra de azeite.

Ainda estávamos longo do fim, disse o maitre. Então veio o taviolone de camarão com espuma de couve-flor com curry e fumaça de maracujá, um efeito visual, aromático com fortes reflexos gustativos. O chefe puxa a tampinha e o perfume se espalha.

Mas melhor perfume achei logo depois, quando foi servido o steak tartar com uma “gema” de parmesão que também vem aprisionado na fumaça, desta vez um defumado “sabor churrasco”, com carne, gordura e lenha/carvão. Faz um efeito danado. Com as finas batatinhas que lhe escoltam, o prato já entrou para a minha galeria dos memoráveis.

Enquanto ainda pensava no tartar chegou o meu preferido da noite: costela de boi cozida por 12 horas servida com aligot do sertão, um purê delicado, cremoso e untuoso feito com cará e queijo coalho. Amparando esse belo conjunto havia uma espuma de leite de castanha-do-pará com trufas. E escorria, ao lado, o rico caldo do cozimento da carne – ajudado por uns brotinhos, tipo baby rúcula ou alfafa.

Daí chegou o leitãozinho, também em baixa temperatura, cozido lentamente, mas depois assustado em muito calor, ganhando a pele crocante, servido com palitinhos de baroa defumada, umas pérolas de maçã caramelada (isso amarelinho que aparece).

Depois restava apenas a sobremesa. Veio esse prato bonito aí, reunindo duas das três sobremesas da casa “tudo caramelo” e tudo chocolate”, uma bagunça com várias referências infantis (algodão doce, bala, brigadeiro, frapê, , churros) que encerra muito bem esse circuito…

Na verdade eu devia ter provado ainda um sorvete finalizado á mesa, na mão, com nitrogênio, pelo próprio Felipe. Vi o espetáculo nas mesas ao lado. Mas na minha hora o aparelho falhou.

… cheio de fumaças.

Uma cozinha que é cheia de efeitos, pirotecnia, equipamentos. Mas que é aconchegante e gostosa. Essa costela, que fica no vácuo cozinhando por 12 horas nessa água aos seus 80°C, e depois é selada, ganhando uma casquinha crocante, é um desbunde, algo atordoante. Jamais me esquecerei do momento, até porque o vinho, um lindo Margaux, ajudou bastante no perpetuação do ato.

Ontem, nessa brincadeira não oficial, achei tudo bom demais. Vi muita alegria na equipe. E competência no time. Saí de lá depois de uma da madrugada. Revi amigos. E nem paguei a conta, até porque ainda nem há peaços. Nem cardápio. Mas que foi bom, isso foi.
No fim, ganhei algumas razões para voltar: quero provar o tal sorvete com nitrogênio, preciso repetir o tartar, o bacalhau a costela e alguns outros pratos e, por fim, preciso ir lá durante o dia para fazer fotos bonitas, porque essas estão bem feiosas (e os pratos, bem bonitos e fotogênicos).

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A caravana rumo ao Parador Valência: quem me acompanha?

02/10/2010

Jerez servido devidamente tapado com uma bela fatia de jamón: isso vai ser só o começo...

O fim de semana gastronômico em Petrópolis, ainda mais com a filha, está realmente saboroso.

Ontem o jantar no Parador Santarém Marina, que me convidou para conhecer o novo menu do Danio Braga, foi muito gostoso. Teve pães quentinhos com caponata e chantilly de parmesão. Em seguida, creme de cogumelos com azeite trufado e ovo pochê (nesta etapa caiu como uma luva o tal chantilly). Depois, nhoque de berinjela, apreciado pela filha, e cassoulet de vitelo com favas e linguiça sobre risoto de açafrão, uma deliciosa receita, parruda, mas sem perder a ternura do boi bebê.

Hoje o almoço foi dividido entre dois restaurantes. Primeiro umas tapinhas no Parador Valência: um polvo frito com alho, sublime, e uma tortilla, a melhor que comi na vida, inclusive muitas ótimas provadas na Espanha mesmo. A dupla de petiscos foi acompanhada de uma tacinha de Jerez fino, como sempre é bom. Ali na casa do chef Paquito o Jerez é servido assim, com uma fatia de jamón serrano tapando, como na foto que ilustra este post.

Parece bobagem, talvez seja. Mas o pai ficou muito orgulhoso por duas razões: pela primeira vez na vida a filha comeu polvo e, para coroar o momento, ainda adorou. Fiquei feliz.

Dali rumamos para o Barão, que nos serviu um pratinho de massinhas folheadas recheadas, seguido de uma tortinha folheda com capivara assada longamente (estava divina a carne) e depois um filé mignon de cabrito na chapa com ervas, com molho de uva e sálvia, acompanhado de um sedoso purê de baroa. Por fim, uma beleza de sobremesa, levinha, uma “rosa” de manga, linda e gostosa. Depois, cafezinhos servido numa bela xícara. Mas detalhes do Barão deixo para posts ou reportagens a seguir.

Hoje, na verdade, a razão deste post é uma só. Degustar só a dupla de tapas, perfeita, na casa do Paquito, me deixou com uma vontade enorme de provar tudo o mais que lista o cardápio. Este post, na verdade, é uma convocação aos amigos. Vamos montar uma caravana num fim de semana desses para subir a serra e passar a tarde no Parador Valência, começando com umas tapas, prosseguindo com paellas e coroando o dia com um cochinillo¿ Vamos¿

Para acompanhar, uma bateria de vinhos espanhóis, começando com uma seleção de Jerez, dos secos, e Cavas, seguindo com brancos e rosés. E deixando um tinto parrudo pro fim, para depois do cochinillo, que deve ser acompanhado, penso, de uma boa cava rosé.

O ideal seria um número entre oito e dez pessoas, para alugarmos uma van.

E aí, quem vai?

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Alameda, em Botafogo: casa de escargots é uma delícia, ainda mais com umas garrafinhas de Borgonha

01/10/2010

O balcãodo bar, agora no fundo do salão, um pouco mais almplo: coleção de estrelas do Guia Quatro Rodas dos tempos da serra. Na entrada da casa estáa da edição 2011, provando que tudo continua como antes em termos culinários. E eu concordo.

Ontem tive um dia totalmente bourguignon. Quer dizer, totalmente, não. Houve aspectos milaneses, e alguns outros também francos, como uns vinhos do Languedoc de estilo autêntico. Mas o tema do dia foi a Borgonha. Depois de um lindo almoço no Gero, acompanhado de um exuberante Gevrey-Chambertin Domaine Faiveley “Les Marchais” 2004, um jantar no restaurante Alameda, especializado em escargots, trouxe novos elementos saborosos da região que produz os vinhos mais elegantes do mundo, sem equiparação.

Conhecia a casa de outras viagens. O restaurante, sempre carimbado com uma estrelinha do Guia Quatro Rodas, sempre foi um excelente lugar para se alegrar comendo este caramujo. Funcionava numa casa serrana, com agradável jardim – e uma mesinha debaixo de uma árvore frondosa que era um dos melhores ambientes para uma refeição em Petrópolis. Ficava em alguma ruazinha entre Araras e o Vale das Videiras, coroação chique de um passeio por aquela zona rural muito gostosa. Mas, de repente, o restaurante fechou.

Fiquei triste.

Mas eis, que, de repente, depois do fechamento do Carême da queridíssima Flávia Quaresma, que tanto me abateu também, veio a notícia inesperada: o Alameda ia ocupar a casinha de Botafogo que foi por uns bons anos foi um dos endereços mais preciosos par um jantar com espírito francês. É como uma reencarnação em dois sentidos. Um encontro. Os escargots da serra assumiram o seu lugar.

Estava há um bom tempo para visitar a casa. E o jantar de ontem, com pratos de escargots e vinhos de Albert Bichot, foi a melhor oportunidade para fazer isso.

No salão, agora mais amplo, encontrei muitos amigos, alguns previsíveis, outros não, como a queridona Joana Dale. E ficamos falando de viagens e vinhos, bebericando umas tacinhas de um vinho que tem um nome ótimo: C’est La Vie. Mas vinhos são assunto lá para a Enoteca, e depois tratamos deles por lá. O que importa aqui é a comida.

Escargots à bourguignon: nem preciso falar nada...

Começamos a brincadeira com os escargots à bourguignon, como não poderia ser diferente. Estava preciso e delicioso em todos os sentidos. Veio muito quente com molho de manteiga, alho e ervas, muito próprio para encharcar as rodelinhas de pão que o acompanhavam. Aí, meteram na minha taça um Chablis, que fez tudo ficar ainda muito melhor, aquele encontro perfeito. Seguimos em frente. Mas é preciso frisar: este foi o ponto alto da noite (junto ao vinho de encerramento).

Depois vieram interessantes raviólis de escargots ao parmesão e brunoise de legumes, este servido com o Pays D’oc Rouge 2008. Emendamos no tornedor ao molho de escargots com arroz de açafrão, que buscou com felicidade acidez no Pinot Noir Vielle Vignes. Neste momento serviram um Nuits Saint George, e tudo ficou ainda mais claro.

Depois do Nuits Saint George, uma boa noite.

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