Mosteiro: um restaurante que merece uma missa em sua homenagem (e uma pensata sobre o trabalho das assessorias de imprensa e o dos repórteres)

O salão classudo, com muita madeira, sempre tem gente, uma clientela fiel (e bastante sabida)

Outro dia li no blog da Luciana Fróes uma crítica de uma leitora se queixando das assessorias de imprensa. Segundo ela seriam essas empresas as responsáveis por restaurantes tradicionais fecharem as portas, no caso o post falava do Astrodome.
Mas que bobagem. As assessorias apenas fazem o seu trabalho. Quem está errado mesmo são as pessoas que escrevem sobre restaurantes, que aceitam qualquer pautinha besta, do tipo que junta dez clientes de uma mesma assessoria. Estão errados os assessores? Não, errados estamos nós, os repórteres, e também os críticos e outras denominações para pessoas que escrevem sobre comida. Já vi matéria com uns sete ou oito restaurantes, todos da mesma assessoria. Pode? Não deveria poder, mas sabe como é, né? Repórter até pode aceitar sugestão de assessoria, mas seu dever é estar na rua vendo o que há de novo. Repórter até pode visitar restaurante a convite, mas seu dever é frequentar os restaurantes da cidade por sua conta. Quem deve pautar o repórter, afinal, é ele mesmo, seus leitores e seus editores, e não os assessores. Mas não é que o tem acontecido, e isso não se restringe à área da enogastronomia, que fique claro. Repórter até pode pedir informações por e-mail, na correria. Mas seu dever é ir apurar as coisas onde elas acontecem. É entrevistar pessoalmente, ou pelo menos pelo telefone. É ver para crer. Ou não crer.
Esse preâmbulo é só para falar de dois restaurantes tradicionais que vivem lotados e não têm assessoria de impresa, visitados por mim não faz muito tempo: o luso-internacional Mosteiro, no Centro, e a churrascaria Majórica, no Flamengo (como hoje uma chuleta lá que não me sai da memória: com gosto de churrasco de antigamente, sabe? Um defumado de carvão e gordura. Delícia).
Não tem jeito: entra ano, sai ano, eles estão sempre cheios, e não precisam de assessoria de comunicação, porque servem comida honesta, sem firulas. Não precisam de mídia. Basta continuarem fazendo o que fazem há décadas: servir boa gastronomia.
Primeiro vamos falar do Mosteiro, que há muitos anos ostenta estrela do Guia Quatro Rodas, honraria maior da gastronomia brasileira (outro dia tratamos da Majórica, que me encantou). Esse restaurante tradicional do Centro do Rio andou saindo nos jornais não faz muito tempo. Mas não pense que foi por causa da sua comida, que é muito boa, mas pelo simples fato de que a casa pertence ao pai do ministro da Saúde José Temporão. Olha só que coisa… Até houve quem tivesse louvado as suas empadas, os pratos de bacalhau fartos e bem feitos. Mas o assunto nem era esse, eram as visitas do Temporão, filho, ao restaurante. Veja só que coisa esquisita…

Empadas irresistíveis circulam pelo salão: peça-as, por favor

Pois bem. O Mosteiro é um endereço certeiro para uma refeição à moda antiga no Centro. Nada de espuma, nada de louça chamativa, nada de sommelier famoso ou moça bonita na porta (que fique claro, não sou contra nada disso, até pelo contrário, mas quero reforçar que um restaurante não precisa disso. Pode ter, é interessante, mas não precisa). No Mosteiro tem boa comida, e só. E alguém lá precisa de algo mais que isso?
Pois então vamos falar dela, a cozinha, que é na verdade a única coisa que importa verdadeiramente em um restaurante. O resto é isso, o resto: serviço, talheres de prata, toalhas de linho… De que adianta se a comida é ruim? De nada, ao menos pra mim. Comida ruim, afinal, é o fim (e foi mal pela rima pobre, que não foi proposital).

Bolinhos de bacalhau também são oferecidos à mesa pelos garçons: regue com azeite e pimenta e seja feliz

No Mosteiro é praticamente obrigatório começar o trabalho com as empadas e os bolinhos de bacalhau, que vão circulando pelo salão sempre quentinhos, servidos pelo garçom (não acredito que você pensava que esse recurso tinha sido inventado pelo Belmonte, né?). São ótimos.

O Mosteiro tem até aqueles carrinhos de bebida , que andam sumidos por aí

Enquanto degustamos os acepipes e avaliamos o cardápio é possível apreciar o salão elegante, com muita madeira e até alguns detalhes de gosto muito duvidoso, como a fonte que enfeita (eu disse enfeita???) a entrada.

Na adega repousam ótimos vinhos, com destaque para os portugueses

Na bonita adega repousam grandes vinhos, e outros não tão bons asssim, mas com preços justos, por isso, quase todas as mesas têm garrafas sobre elas.
Avaliando as entradas se percebe claramente as fortes inclinações lusitanas (sardinha com salada de agrião, queijo da Serra da Estrela…). Essa impressão se confirma ao percorremos o restante do menu, cujo setor mais importante, e vasto, é aquele dedicado aos pratos de bacalhau: são dez receitas no total, entre elas o Mosteiro (grelhado, com brócolis, cebola, ovo e batatas cozidas), o à Zé do Telhado (lascas grelhadas com cebola, azeitona, batatas, pimentão e gratinado) e a fritada de bacalhau à Jair Coser (lascas de bacalhau, ovos, cebolinha, salsa, tomate e batatas cozidas).
Outra seção altamente relevante é aquela, logo abaixo, que lista os pratos de peixes e frutos do mar, que igualmente merece consideração. Tem um monte de coisa boa, veja se não tem: haddock escocês defumado à beurre noir (cozido ao leite com batatas cozidas), risoto de Camarão VG à Don Rivera (com arroz, tomate, cebola e ervilhas e grão), espetada mista de frutos do mar (com polvo, lulas, camarão, peixe, pimentão e cebola), frutos do mar à provençal (lulas, peixe,camarão, polvo e molho de tomate), polvo à Don Luiz Leite (guisado com arroz e brócolis), polvo grelhado com arroz e açafrão, moqueca de badejo, entre outros. Um dia vi no salão ser servido um camarão ao catupiry. E até eu, que desenvolvi certa aversão a esse queijo, que considero gostoso, até eu fiquei vontade de ir lá e pedir esse prato que na adolescência já foi a minha receita favorita.
Aliás, reparou quantos pratos levam nome de gente?
E o restante do menu continua assim, um festival de clássicos: filé chateaubriand (tornedor com molho de champignon e arroz à piamontese), filé mignon à La Broche (ponta de filé mignon com batata prussiana), tornedor ao molho de mostarda com batatas cozidas, filé à Oswaldo Aranha e assim por diante. Como boa casa portuguesa é servido um substancioso arroz de pato, com certeza. E, entre as sobremesas, uma bela seleção de doces da terrinha, como a barriga de freira, o toucinho do céu, o pastel de natas. Mas também tem goiabada com queijo, morango com chantily e até um irresistível mineiro de botas (para quem não sabe, e sei que muita gente não sabe, trata-se de uma combinação de banana, queijo minas, ovo, canela e açucar caramelizado. Belezura).
Já estive no Mosteiro umas cinco ou seis vezes. Nunca foi barato, mas sempre saí de lá feliz da vida. O Mosteiro, na Rua São Bento, merece uma missa. Com direito a canto gregoriano, como a que acontece perto dali, no Mosteiro de São Bento que, aliás, lhe empresta o nome e batiza a sua rua.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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Uma resposta to “Mosteiro: um restaurante que merece uma missa em sua homenagem (e uma pensata sobre o trabalho das assessorias de imprensa e o dos repórteres)”

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