Adegão Português: bamba de São Cristóvão, reduto mais lusitano no Rio de Janeiro

Azeite, óleo essencial em São Cristóvão e redondezas

São Cristóvão, Benfica e o hoje chamado bairro do Vasco da Gama são tradicionais redutos da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro, tanto que o time da cruz de malta está ali. Neste simpático subúrbio carioca encontramos alguns dos melhores lugares da cidade para se comer um bom bacalhau e outras especialidades da terrinha, como o vasto repertório de doces feitos com ovos.

A festa portuguesa que acontece nas manhãs de sábado na Cadeg, em Benfica, é um dos programas mais pitorescos do Rio de Janeiro, uma deliciosa bagunça ao som de cancioneiro popular ao ritmo da sanfona, comidas típicas (dá-lhe bolinho de bacalhau e também o bacalhau e a sardinha na brasa) acompanhado de cerveja e vinho verde tinto em garrafão de um litro, com barraquinha de doces conventuais num canto, bandeira de Portugal e muita animação.

Perto dali está o Adonis, endereço do melhor bacalhau da cidade na minha opinião, e onde é servido um chope primoroso, com colarinho espesso, cremoso. Chope de verdade, comida de verdade, cidade de verdade. Pena que tem carioca que não sai da Zona Sul.

Acontece que o restaurante mais famoso do pedaço, idolatrado por legiões de cariocas há pelo menos três décadas, é o Adegão Português, ali de frente para o Campo de São Cristóvão, o Centro de Tradições Nordestinas. Mas ali dentro quem brilha mesmo são as tradições portuguesas.

O restaurante tem filial na Barra da Tijuca, mas dizem que a matriz é melhor. Hoje as duas ostentam uma estrela do Guia Quatro Rodas (mas o restaurante de São Cristóvão até pouco tempo tinha duas, acabou perdendo uma).

O salão clássico e com aquela classe à moda antiga

Claro que preferi visitar o endereço oficial, uma casa verde de esquina, com dois salões bem tradicionais, com mesas bem espaçadas, quadros pelas paredes e garçons à moda antiga. O cardápio, claro, é de couro.

Basta o cliente se sentar para serem oferecidos bolinhos de bacalhau, primeira pedida de nove entre dez pessoas que comem ali, como pude constatar ao longo da refeição.

Dupla de bolinhos de bacalhau, azeite e boa malagueta feita na casa: receita do sucesso

Pedi uma dupla, que foi frita na hora, chegando à mesa bem quentinha, com casca crocante e um miolo macio, com ótimo tempero. Muita alegria regar com azeite e boa malagueta da casa, que nem foi preciso pedir: elas estão sobre todas as mesas.

Na hora de escolher o prato principal, muita dúvida, e uma única certeza: seria alguma receita de bacalhau. Há uma boa oferta de pratos chamados executivos, para uma pessoa, com preços na faixa dos R$ 39. Para um bacalhau de boa qualidade, está bem.

– Senhor, eu sugiro que peça um prato em meia porção. São postas muito melhores, altas. Pode confiar – disse o garçom, atencioso e simpático, eficiente.

Claro que aceitei a sugestão, e fui investigar o menu tradicional, com pratos individuais entre R$ 60 e R$ 85. Interessei-me por muita coisa: bacalhau na brasa, a gomes sá, a zé do pipo. Tantas receitas interessantes (sem falar em outras tentações listadas no menu, como polvo, cabrito e alheira). Mas, como dizia, estava com espírito clássico, então fui na receita mais emblemática do lugar, o bacalhau à lagareiro (R$ 85 em meia porção), junto de uma meia garrafa de um tinto gostoso do Dão, o Quinta dos Cavaleiros, altamente recomendável.

– Vou pessoalmente escolher a posta – saiu animado o garçom.

Bacalhau a lagareiro: sente só

Tempo depois voltou ele com uma grande travessa, que trazia um pedação de bacalhau, coberto com cebola passada no açafrão, batatinhas portuguesas ao murro, brócolis e alho fatiado, tudo embebido em muito azeite. Uma bela, perfumada e linda cena.

Repara a qualidade da posta, com lascas firmes, nítidas, untuosas e largas, como só os melhores bacalhaus apresentam

A posta realmente era de primeira qualidade. Os acompanhamentos estavam todos os no ponto certo de cozimento. Uma delícia, mas com um defeito muito comum por aí: o bacalhau foi dessalgado além da conta. Era preciso ter ficado de molho menos tempo para emprestar ao prato o sal rico em sabores que lhe conserva. Bacalhau é um prato salgado, que deve estar sempre um degrau acima, deixando justamente para os acompanhamentos a função de equilibrar a receita, sem sal. Estava ótimo. Se não fosse por esse detalhe, estaria perfeito (e do ótimo para o perfeito, como sabemos, há uma diferença enorme. Neste caso está no sal). Ainda assim, aprovado.

Dão Porta dos Cavaleiros, bela exemplar do Dão, amigo de fé do bacalhau

Pedi uma meia garrafa do delicioso Quinta os Cavalheiros, um Dão de bom preço (uns R$ 40 a garrafinha de 375ml).

Toucinho do céu: é isso aí mesmo, espécie de bacon santo, degustado no paraíso

Para encerrar, pedi um toucinho do céu que já se inscreveu entre os melhores da cidade para mim, junto aos doces do Antiquarius e da Alda Maria. Foi escolhido numa bandeja com uma cobertura de vários dessas delícias conventuais feitos às custas de muitas gemas de ovos e açúcar. Para a escolta, uma taça de porto, não podia ser diferente. O tal toucinho do céu do Adegão é isso mesmo que o nome sugere: espécie de bacon santo, doce e amendoado, com massa consistente e untuosa, espatáculo culinário degustado no paraíso. Espécie de glaciar amarelado coberto de neve açucarada. Digno de odes e louvores. E viva a metáfora. E os doces conventuais! E a cozinha portuguesa, maior inspiração dos nossos grandes botecos.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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4 Respostas to “Adegão Português: bamba de São Cristóvão, reduto mais lusitano no Rio de Janeiro”

  1. Cris Beltrão Says:

    Epa! Falou do MEU reduto! Muito antes do Adegão ficar “pop”, já freqüentava a casa com meu pai, um boêmio “até dizer chega” que me arrastava pra comer o delicioso polvo com arroz e brócolis. Tinha lá meus 12 anos e a casa já lotava e brilhava.
    De frente para outra JÓIA que é a Feira de São Cristóvão, o mundo que o Rio não conhece, o industrial, freqüenta o Adegão em dia “chique”. De segunda a sexta o público de negócios prefere os restaurantes mais baratos da região, tão somente pra caprichar no último dia útil da semana! É aí que a gente se delicia com os quitutes do Adegão, dos bolinhos à sobremesa. Acho sempre rótulos corretos, a bom preço, e porções fartas e saborosas. O serviço é rápido, como pede uma área industrial.
    Mas Bruno, se a casa já lota sem a sua contribuição, agora estamos perdidos. E tome fila! beijos.

  2. Cris Beltrão Says:

    Ops, de segunda a quinta, quis dizer. Dia de Adegão é sexta!

  3. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Adegão Português […]

  4. PEDRO Says:

    ADEGAO PORTUGUES.essa casa e um luxo na comida adoro essa casa e maravilhoza.

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