O novo Albamar me deixou com saudades do antigo

O prédio é lindo, que bom que resiste

O ar condicionado do carro resolveu parar de funcionar logo nesta semana. Hoje, fritando a caminho do jornal num engarrafamento na Lagoa, comecei a delirar: vi um lindo filé de peixe muito fresco, rodeado por camarões, tudo na companhia de uma taça de um belo Sauvignon Blanc bem gelado. Foi como uma miragem. Imediatamente comecei a planejar o almoço marinho desta quarta-feira. De cara pensei no Rio Minho, um dos portos mais seguros para se comer pescados frescos. Também cogitei o Eça, uma vez que o Frederic faz peixes deliciosos, em preparações excepcionais, valorizando a matéria-prima. Veio à mente, ainda, o Giuseppe Grill, churrascaria que, além dos cortes bovinos, ovinos e suínos, nos brinda com belos peixes e crustáceos assados na grelha. Cheguei até a me lembrar do decadente Sentaí. Foi quando me ocorreu o Albamar: desde que a casa reabriu depois de uma reforma, há quase dois anos, ainda não estive lá.
Então lá fui eu.

O salão redondo e todo envidraçado voltou a ficar cheio

Do lado de fora o prédio continua na mesma, mal cuidado como antes (e lindo mesmo assim, e talvez por causa disso). Só que logo que cheguei à porta vi que coisas mudaram por ali. Uma hostess simpática me recebeu e levou até o elevador. No salão principal vi que a reforma fez bem ao restaurante, que estava bem cheio.

Mesas com toalhinhas charmosas, duas adegas: inegável que o Albamar está mais bonito

Está tudo mais bonito e arrumadinho, com duas adegas a enfeitar uma parede, e um belo bar no fundo.

Cardápio: um belo desenho reproduzindo o prédio que um dia foi um mercado. Repare que pelo menos os pratinhos antigos foram preservados

Até o cardápio me chama a atenção: é lindo, com um belo desenho na capa. O serviço está mais ou menos, garçons meio desatentos.  

Barquinhos de pescador, a Ilha Fiscal e a Ponte Rio-Niterói, cenário enfeitado pelas barcas e pelos aviões de vez em quando

Escolhi a minha mesa cativa, colada à janela em posição privilegiada que permite a visão da Ilha Fiscal com a Ponte Rio-Niterói ao fundo, observando o vaivém das barcas, ao mesmo tempo em que também podemos ver a cabeceira da pista do Santos Dumont, onde pousam os aviões. Ótimo panorama.
Minha vontade era beber um Sauvignon Blanc bem fresco. O cardápio só listava um, o Terra Andina, sem indicar a safra. Pedi. Quando o garçom trouxe a garrafa, só de ver a cor vi que havia algo de errado: estava muito dourado, como se fosse um chardonnay evoluído. Quando o garçom me mostrou a garrafa, tudo ficou mais claro: era da safra de 2006. Certamente já está ruim.
– Ei, esse vinho está ruim, tem quase cinco anos, não foi feito para ficar tanto tempo guardado. Só de ver a cor dá para perceber que já passou do ponto – eu disse ao garçom.
– Não está não, mas se o senhor quiser trocar… – respondeu o rapaz, mostrando que não sabe mesmo nada de vinho, antes de abrir a garrafa.
Eu é que não vou perder o meu tempo explicando para um sujeito desses porque o vinho está estragado. Pelo que sei, o Terra Andina Sauvignon Blanc que anda sendo vendido por aí no ponto certo para ser tomado é o da safra 2009 (não estamos falando de uma ou duas safras de diferença, mas de três!). Pedi um Borba mais jovem. Mas foi esse infeliz acontecimento que me fez querer escrever este post. Um alerta: agora no verão, quando for pedir brancos, fique bastante atento à data e à cor do vinho. Vão tentar te empurrar vinhos passados, pode esperar.
O restaurante se diz especializado em peixes e frutos do mar. Daí eu ter achado muito estranho ter só 19 rótulos de vinho branco e 33 de vinho tinto. Não entendo isso. É o mesmo que uma churrascaria ter mais brancos que tintos. Esse foi outro tema a estimular este post. Por que não fazer uma carta de vinhos com rótulos adequados ao menu? Porque? Algo tão simples. Enfim…
Outra coisa me chamou a atenção negativamente em se tratando de um restaurante especializado em peixes e frutos do mar: o cardápio lista nada mais nada menos que nove tipos diferentes de peixe: tem robalo, badejo, cherne, congro, linguado, pargo, salmão, filhote… Cada um aparece em só uma receita. Não é preciso ter tanto peixe assim. Para que termos cherne e badejo, por exemplo, peixes com características tão parecidas. Pior ainda é um restaurante especializado em peixes não tem sequer uma opção de “peixe do dia”. Estranho, muito estranho. Com tanto peixe diferente assim, não é possível que todos estejam sempre frescos, mas desculpem, mas não é possível. Enfim…

Salada de bacalhau com grão de bico: gostosa

Pedi, para começar, uma salada de bacalhau com grão-de-bico, e aiöli, porque estamos na Estação do Bacalhau, uma espécie de festival que o restaurante está fazendo com este peixe salgado. Estava gostoso, com um aiöli muito bom. Mas não posso conceber que tenha sido servido com uma grande espinha. Que falta de cuidado.

O cherne estava bem feito, o molho muito mais ou menos e o purê não tinha qualquer sinal das anunciadas trufas

Então, como prato principal, pedi um cherne com molho de camarões, champignon e tomate e um purê de batatas que deveria ter trufas negras, mas não senti qualquer sinal de seus aromas. O peixe estava bem saboroso, com uma casquinha crocante bem tostada. O molho é que não me encantou. Não estragou o prato, mas também não conseguiu valorizar o peixe. Só mesmo o Borba para arredondar a parada, emprestando acidez e elegância à receita.
Me chamou a atenção, na lista de pratos de pescados, a falta de receitas mais simples, que valorizem a matéria-prima. Para um peixe fresco, basta sal, brasa e limão, como gostava de dizer o Tom Jobim, coberto de razão.Vontade mesmo de provar outro prato só me deu o camarão recheado de siri ao molho de ceboulette e a caçarola de frutos do mar com ragu de feijão branco e cenoura. O resto eu passo.
Pedi a conta e fui embora com saudades do antigo Albamar, sua casquinha de lagosta, seus pratos fartos com peixes frescos em receitas sem maiores complicações.

P.S. – Este post foi escrito lá para a Enoteca, porque foi motivado inicialmente por causa do vinho, que achei um abuso. Depois que comecei a escrever o assunto foi mudando, de maneira que decidi publicar também aqui.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Anúncios

2 Respostas to “O novo Albamar me deixou com saudades do antigo”

  1. Júlio Says:

    Bela e grátis consultoria.Quem sabe ,sabe.Parabéns.Ah…já que estou teclando,o que aconteceu com o vermelho e preto.Por pouco não cai pra segundona.abs.

  2. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Albamar (que saudades do antigo…), O velho Albamar (e o novo Albamar) […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: