CT Boucherie, o “açougue da família Troisgros”: bom, mas vai ficar muito melhor

O letreiro luminoso do "açougue" dos Troisgros

Até em razão do tamanho miúdo, o restaurante CT Boucherie promete ser a grande estrela desse verão que vai chegando com tudo. A casa muito simpática do mestre Claude Troisgros, o mais carioca dos chefs de cozinha franceses, ainda mais por isso a cara da estação, já está funcionando, meio na encolha. Meio na encolha? É, sem fazer alarde, sem divulgar, sem pedir notinha em jornal. E mesmo assim já tem fila na porta.

Ontem, quando vi que teríamos um fechamento tranqüilo no jornal, e que daria para sair cedo, procurei na internet o telefone do lugar para saber o horário de funcionamento. Apesar do restaurante nem ter ainda “aberto oficialmente”, foi fácil achar o número.

– Boa tarde. Até que horas vocês funcionam hoje? Vocês aceitam reserva? – perguntei.

– Abrimos ao meio-dia e vamos até às 16h. Depois reabrimos às 19h e vamos até por volta da meia-noite.

– E se eu chegar pouco depois das 23h, consigo mesa sem ter que esperar em fila?

– A essa hora acredito que não tenha mais fila. Mas todas as noites tem tido, por volta das 21h a casa está uma loucura.

Uma terça-feira chuvosa, às 23h15: fila na porta

 

Bom, cheguei pouco depois das 23h no restaurante que fica junto a um albergue chique, no comecinho da rua Dias Ferreira, no Leblon. Do lado esquerdo. De cara me lembrei de restaurantezinhos de bairro em Paris, com uma frente envidraçada onde lemos algumas especialidades da casa: ostras, steak tartare e por aí vai.

O salão simpático visto através da porta de vidro

Lá dentro temos paredes de azulejo, uns salames e presuntos de mentinha pendurados (a casa é bonita, mas ando implicando com muitos recursos cenográficos, com restaurante com assinatura, não só de arquiteto, mas também de decorador). No alto das paredes brancas, foram desenhados vários cortes de carne – é como um menu artístico e decorativo.

Legendar, pra quê?

Na parede um quadro anuncia o prato do dia: penne com paleta de cordeiro. Nham nham nham.

O salão começando a esvaziar

Quando ia colocar o meu nome na lista de espera, encontrei uma amiga que jantava com a família na varanda. Sentei-me com eles, quando vi que já tinha uma mesinha lá dentro, como que tivesse pronta a me esperar. É, não foi difícil entrar para jantar, ainda que a visão da fila ainda do táxi tenha sido desanimadora. Logo entrei e percebi que pouco depois disso a fila acabou. Anota aí: a boa é chegar para jantar no CT Boucherie entre 23h e 23h30.

Paredes de azulejo, acima enfeitadas com desenhos de cortes de carne: cardápio visual

Como era de se esperar em casa em início de carreira, o serviço estava meio confuso. Meio, não, completamente. Parte da culpa vem do sistema de rodízio de acompanhamentos, que ainda está longe de se mostrar bem azeitado. Os garçons ainda batem cabeça. Ao meu lado um casal reclamava não só da morosidade da equipe, mas também da qualidade da comida.

– Pô, só falta agora a máquina do cartão de crédito não funcionar. A costeleta de cordeiro estava horrível. Muito sabor junto, uma coisa desequilibrada. O serviço também está uma merda – disse o rapaz, com requintes de crítico gastronômico, fuzilando o garçom, que só pôde pedir desculpas, com uma cara meio atordoada, enquanto aguardava a máquina autorizar o débito.

Eu dei mais sorte que ele, o cliente. Estava em dúvida sobre o que pedir. Se o chateaubriand, o bife de chorizo superior, o primeribe, o bife de tira… O wagyu dispensei por razões econômicas: custa exatos R$ 168. A costeleta de cordeiro, por via das dúvidas, foi logo limada da minha lista de possibilidades. O pato também, quando soube que era feito na chapa, porque eu tava querendo uma brasinha, mora? Havia bacalhau, mas acabei de voltar de Portugal, não preciso. Vamos às carnes.

Primerib com molho bernaise e parte de seus acompanhamentos: farofa de panko e batatinhas fritas

 

Fui reduzindo as possibilidades até chegar a uma dúvida difícil entre três cortes: o primerib, que acho sensacional, o bife de chorizo, que é sempre bom, e a tira de picanha, ainda que a minha amiga tenha falado mal desta carne ao mesmo tempo em que elogiava o bife de chorizo do marido. Convicto, fui no primerib. O garçom sugeriu o molho bordelaise, feito com vinho tinto. Mas eu tava querendo algo ainda mais clássico, e fui testar o bernaise. Havia, ainda entre as opções de molho incluídas nas carnes um chimichurri, um barbecue assinado pelo Thomas Troisgros, filho do Claude, e um de mostarda, entre outros – inclusive um que podemos classificar de criativo, a manteiga de tomate seco com mel (isso deve ser bom, hein!).

O balcão que exibe presuntos e embutidos (tudo de mentirinha): no momento o rapaz finalizava um creme brulée, repare

Em tempo: a lista de entradas me deixou salivando. Tem uma linda seleção de presuntos e embutidos de origem ibérica, incluindo jamón serrano. Também há bolinhos de bacalhau crocantes, um carpaccio de shiitake trufado com grana padano e um já famoso carpaccio de melancia apresentado no programa Larica Total. Fiquei doido pra provar, ainda, o mil folhas de palmito, tartare de atum e vinagrete oriental. Também tem um bom steak tartare tradicional, com ovo de codorna, fondue de queijo reblochon, espuma de batata e jamón ibérico, aipim crisp com brie derretido e geleia de pimenta. Nos dias de semana o almoço executivo custa R$ 28, não custa lembrar. Também há coisas levinhas, variações da salada du boucher (de tomate seco e cereja, maçã, parmesão, castanha de caju, croutons e ervas), que pode ser servido com uma série de aditivos, como gorgonzola ou salmão defumado.

Mesmo que o primerib estivesse muito macio, que quase dava para cortar com colher, uma boa faca é sempre bom...

Mas ontem fiquei só nas carnes. Quando pedimos  qualquer corte ele vem acompanhado de um potinho de fritas, uma travessinha de farofa de panko e outra com umas bananinhas carameladas. Ah, e também uma mousse de agrião que vem ao lado, e um potinho de molho a escolha.

Risoto de quinoa com cogumelos: mostrou bom potencial, cremoso, mas estava muito salgado

Além disso, somos servidos pelo “rodízio” de acompanhamentos, com várias porções com coisas interessantes, como as vagens passadas no alho, o tomate recheado, a couve-flor gratinada e um risoto de quinoa com cogumelos que mostra enorme potencial, mas no meu caso estava salgado demais (uma pena).

O garçom serve o melhor purê de baroa que já passou pelo meu prato

Mas sensacional mesmo era o purê de baroa, de longe o melhor que já comi. No meu caso, tinha sido preparado naquele instante. Demais. Até repeti.

O serviço está mesmo confuso ainda. Tenho certeza que é só ajuste de equipe, logo tudo vai transcorrer bem. Garanto. Minha água com gás, sem exagero algum, demorou uns 15 minutos para chegar. O vinho, depois de me ser apresentado a garrafa, ficou uns cinco minutos na mesa, à espera de ser aberto. Em várias oportunidades eu balancei o braço, convocando algum garçom para me atender, e eles não viam, ou fingiam não ver (numas duas ocasiões percebi que viram, mas ignoraram. Falha grave, muito grave, para um garçom).

Um close na bela peça de primerib: estava muito bom

Pedi o primerib, como ia dizendo. À esta altura, começaram a se redimir. Primeiro veio o maitre, falando da carne escolhida.

– O primerib é um corte que merece ser servido malpassado, o senhor gosta assim?

– Pedi ao ponto do chef. Sempre faço isso, salientando que gosto de carne malpassada. Afinal, ninguém melhor que o chef para saber o ponto certo de suas carnes, não é verdade?

– Claro, vou lá na cozinha reforçar o seu pedido.

Quando a carne foi servida o maitre voltou, perguntando se estava boa. Eu disse que estava ótima, e estava mesmo. Depois veio o chef, saber se estava tudo bem. Muito bem. Depois, ele ainda voltou mais uma vez à mesa. Perguntou sobre a comida. Tive que ser sincero.

– Tava tudo muito bom, mas o risoto de quinoa com cogumelos estava muito salgado.

– Ah, é? Vou ver o que aconteceu. Obrigado por avisar.

Um bom Malbec francês

Acompanhei tudo com um bom tinto de Cahors, o que significa ser um Malbec francês. Uva sempre boa para carne. A carta de vinhos, aliás, é bem interessante, privilegiando os franceses, com preços entre R$ 60 e R$ 300. Justo.

No fim da refeição, a hostess simpática ainda veio puxar papo, enquanto o chef, já de roupa trocada, passou pela última vez à minha frente, desta vez se despedindo. Mineira há seis meses no Rio, a hostess discorreu sobre a maravilha que é morar nesta cidade. Pronto, pegou no meu ponto fraco. Conquistou-me.

Antes disso, se eu fosse dar nota para o serviço, cravaria 4. Mas como simpatia é quesito relevante em tudo nessa vida, depois da abordagem do maitre, do chef e da hostess, subi para 6. Aprovado. Mas é preciso melhorar a performance.

Ah, sim. A minha conta também demorou a chegar, mas pelo menos o meu cartão de crédito passou rapidinho…

Ah, sim, parte 2: já ia me esquecendo das sobremesas, até porque, ontem nem pedi. Há uma seleção de picolés da Diletto, todos os que provei sempre deliciosos (nunca experimentou? Então corre pro Zona Sul, que tem um refrigerador cheio deles. São ótimos, vários sabores, todos feitos com matéria-prima de primeira qualidade. O melhor picolé que já provei, no nível dos melhores sorbets e sorvetes que já provei).

Também há uma lista de doces que apresenta um repertório bem interessante. Tem mousse na colher, petit gateau de doce de leite com sorvete de tapioca (preciso provar isso), espuma de framboesa, crepe suflê de frutas vermelhas… Boa oferta.

Quer saber? Adorei o CT Boucherie.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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9 Respostas to “CT Boucherie, o “açougue da família Troisgros”: bom, mas vai ficar muito melhor”

  1. Guilherme Says:

    Qual o valor dos cortes (exceto o proibitivo wagyu, claro)?

    • juliana amorim Says:

      acrescentando sua pergunta: na proxima tira foto da conta hehehe dá mais ou menos uma ideia do investimento

    • brunoagostini Says:

      Oi, Guilherme. Desculpe a demora na resposta. É assim:
      Chateaubriand R$ 62, Bife de Chorizo superior R$ 62, primerib R$ 75, bife de tira R$ 62, costeleta de cordeiro R$ 66, magret de pato R$ 58, galeto recheado R$ 45.

  2. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] CT Boucherie […]

  3. Carol Says:

    Passei hoje pela manhã no seu blog e fui conferir o novo empreendimento do Claude. Apostei no menu executivo (R$ 28,00) e não me arrependi. O cardápio do plat du jour tinha baby beef ou filé de namorado e o adorável rodízio de acompanhamentos (imagina: rodízio de acompanhamentos incluído nos R$ 28,00!!!!!), sendo que do que me foi servido, me surpreendeu a vagem com amêndoas. De sobremesa, provei o delicioso petiti gateau de doce de leite (mmmmmmm) por R$ 16,00. Conclusão: mais uma tentação provada e aprovada no Leblon.

  4. CT Boucherie | Says:

    […] voltar durante o dia para tentar conseguir imagens melhores dos pratos. Os blogs Boca no Mundo e Rio de Janeiro a Dezembro também estiveram […]

  5. ALEX Says:

    So gostaria de reforçar o atendimento na minha opniao esta otimo
    , principalmente pelo garçon jose carlos , pessoa muito simpatica e nao deixou faltar nada

  6. Rodrigo Says:

    Estive anteontem, dia 22 de fevereiro, no CT Boucherie. A escolha foi minha, levando em consideração a fama do chef.

    Quanta decepção!

    Para abrir o apetite, pedi uma capiroska de lichia. Se me dissessem que havia álcool de cozinha no copo, era capaz de acreditar. Forte demais e sem açúcar…Péssimo!

    Percebendo que destilado não era o forte do lugar, resolvi me arriscar com uma cerveja; pena que esqueceram que não estamos no inverno francês. No Rio se bebe cerveja gelada!

    Finalmente, o prato principal. Pedi uma costeleta de cordeiro com molho bordelaise. O prato estava bom. Nada além disso e muito aquém do valor que cobram pela comida. Até porque, se não fossem os acompanhamentos, sairia morrendo de fome. Aqui pra nós, ninguém paga R$ 75,00, aproximadamente, num prato individual de carne pensando em comer farofa, chuchu, batata frita etc., mas para comer CARNE!!! Tirando os ossos das costeletas, talvez o prato fosse suficiente para minha sobrinha de 5 anos que também estava no restaurante.

    Por fim, a conta…com os 12% (DOZE POR CENTO) do garçom.

    Numa quarta-feira de cinzas, esqueceram que o carnaval já havia acabado e pensaram que eu estava fantasiado de palhaço.

  7. Ana Oliveira Says:

    Fui 3 vezes no ano de 2014 e as carnes estiveram sempre excelentes bem como os acompanhamentos. O creme bruleé é o melhor q já provei no Rio e em apenas uma vez os garçons demoraram um pouco mais para atender.

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