Archive for março \31\UTC 2011

O Quiosque, em Petrópolis: bonito, gostoso e posicionado estrategicamente para um almoço antes de descer para o Rio

31/03/2011
A varandinha para blá de simpática, com vista para a mata e um laguinho com patos

Esse post, escrito entre vôos, é curtinho, e nem precisa ser grande. É só uma diquinha ligeira: quer um lugar muito agradável, com comida bem gostosa, e preparada com simplicidade, em Petrópolis?

Pois dê uma passadinha n’O Quiosque, no Rocio, lugar que, aliás, tem dois outros bons restaurantes, o Funghi d’Oro, especializado em cogumelos, que funciona numa propriedade que produz os próprios, e as Trutas do Rocio, que não deixa dúvida quanto à sua especialidade, e também funciona num sítio dedicado à produção do seu ingrediente principal. O Rocio, a propósito, está estratégicamente posicionado para ser uma ótima opção de almoço antes de descer para o Rio: está na boca da serra (eu já tinha feito o mesmo com o Funghi d’Oro e com as Trutas do Rocio, só faltava O Quiosque).

Mas esses, na verdade, são velhos conhecidos, e podem ser assunto para outros posts. Hoje o tema é O Quiosque, que eu jpá tinha tentado visitar umas duas vezes, mas nunca tinha achado a casa, que fica meio escondidinha.

É, como diz o nome, uma quiosque, com parte das paredes envidraçadas, uma graça, como dá para logo perceber enquanto paramos o carro. Mas isso não justificaria a fama de lugar muito agradável que o restaurante tem. Mas bastou entrar na casa e ver a varandinha, com umas quatro mesinhas e uma vista deliciosa para uma pequeno lago com patos e a floresta. Amei.

O cardápio tem pratos interessantes. Pedi uma pastinha de truta. Ficaria por ali mesmo, porque tinha me esquecido de sacar dinheiro, a a casa não trabalha com cartões. Revelei isso à dona, que permitiu que eu fizesse um depósito no dia seguinte. Então lá fui eu.

Mas voltemos à pastinha. A truta era de ótima qualidade, defumada. Estava bom, sim. Mas ficaria muito melhor, a meu ver, se no lugar da maionese fosse usado creme de leite fresco e, em vez de salsinha, fosse colocada cebolinha francesa. Mas ia ficar muito, muito melhor, não tenho dúvidas.

Enfim…

Como prato principal, pedi uma língua de boi, imersa em molho espesso e saboroso, escoltada por purê de baroa. Estava, numa boa, sensacional.

Fui embora prometendo voltar.

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Dona Irene, em Teresópolis: uma longa e deliciosa jornada gastronômica à Rússia dos czares

29/03/2011

O restaurante Dona Irene é um dos meus favoritos. Nos últimos 15 anos estive lá ao menos uma vez por ano, sem falta, mas nos últimos a média tem sido de três ou quatro visitas no período.

Adoro não só a comida, mas também o lugar, um casarão antigo com…

… decoração autêntica com muitas peças russas, além de fotos, pôsteres e objetos. Há vitrais, muitos sofás espalhados numa espécie de sala de estar, onde está a adega, e por onde nós entramos gloriosamente. Não tem cara nem jeito de restaurante, e essa é parte da graça. Comer na Dona Irene é visitar uma família de cozinheiros (e produtores de vodca). Que delícia.

Há flores ns janelas.

Há uma considerável coleção de estrelas do Guia Quatro Rodas (são duas por ano, há pelo menos duas décadas)

A Maria adora as emblemáticas bonequinhas. Já até ganhou uma miúda de presente.

No andar de cima há um belo piano de cauda, que muitas vezes é usado em concertos de música clássica, porque como disse a Dona Irene não é um restaurante qualquer, é especial. Há animados saraus pelo menos uma vez por mês, sempre aos sábados, ao que consta.

Acho as mesas bonitas.

É tudo lindo e agradável, mas vamos à comida, que é o que de fato interessa. Logo depois que chegamos já é bom pedir a vodca da casa, melhor companhia para a primeira etapa, um festival de entradas frias.

Não estou muito certo, mas penso que esta seja a minha etapa predileta. Tem torradinhas com ovo e caviar (às vezes o pão dá lugar, como base, a biscoitinhos)…

… ovo com patê, tomate com queijo de búfala e alcaparras…

numa irresistível sequência de pratinhos, que até variam regularmente, mas onde nunca podem faltar clássicos como o arenque a la creme e…

… muitas vezes, ainda bem, há variações suaves sobre os mesmos temas. O tamatinho-cereja, por exemplo, pode ter passas e endro, ou creme azedo e caviar. Essas variações, na verdade, inspiram retornos frequentes à casa.

São geralmente uns dez, às vezes 12, pratinhos. Temos sempre a salada russa, a salada de beterraba, o patê de fígado, o salmão marinado e o já citado arenque, perfeitos para os tragos na voca servida num balde, toda rodeada por uma forma de gelo, que lhe garante a temperatura perfeita de serviço durante todo este adorável e fresco prelúdio. Aí surgem queijos, pastas de berinjela e abobrinha, novas pastas e patês, canapés inesperados, espetinhos de batata… Uma refeição na Dona Irene é sempre parecida, mas nunca igual.

Geralmente, nesta fase eu pulo para um vinho tinto. Pode até ser uma cerveja. Mas olha só que legal. Eles não cobram rolha, podemos levar o noso vinho. Quem não quiser levar uma garrafa, não tem problema. Eles têm alguns rótulos a preços compatíveis.

Então, quando chega o vinho, como podemos ver acima, é servido esse bolinho aí, que é uma coisa de doido. Uma massa leve e fofinha é recheada com uma carne bem moidinha, com tempero e preparo simples, uma delícia.

Mas sabe o que é melhor? No mesmo instante é servida a sopa de beterraba, ou borsch, com toque de ervas e um fio de creme de leite. Aqui fica uma sugestão: deixe um restinho de vodca no copinho, porque a melhor maneira de fazer a transição dela para o vinho é aqui. Enquanto o bolinho que chega quente de tal maneira que não se consegue comer imediatamente, vamos apreciar a sopa, matando a vodca deliciosa, que vale demais a pena trazer para casa, mesmo um cara que não é necessariamente chegadado em destilados.

Depois desse diálogo de contrastes marcado pelo quente-frio, vale dar uma mordinha nos bolinhos (olha que maravilha). Dá até para jogar uma pimentinha nesta altura. E depois, uma das maiores glórias gastronômicas da minha vida, mergulhamos o bolinho na sopa, num processo que avermelha e amacia a massa, numa combinação perfeita, com parte da casca crocante ainda, o recheio seco e ao mesmo tempo molhado, uma loucura. Foi esse ritual que me ensinou, ali pelos seis anos, a gostar de beterraba, e por consequências de todos os legumes e até coisas que muita gente acha estranha. Beterraba, desde então, é uma delícia para mim.

Antes dos pratos principais, que devem ser encomendados com antecedência, no ato da reserva (eles até recebem alguém sem reserva, mas é melhor ligar antes, sempre: garanto, vai ser mais confortável, e até gostoso), ainda há mais uns três ou quatro bocadinhos quentes, como a preparar a boca. Tenho até sentido falta de umas panquequinhas de frango que não andam dando as caras ultimamente, e eram uma receita tão clássica da casa…
Reserve também pelo menos três horas para fazer com calma todo o percurso.

As asinhas de frango gratinadas com queijo, em tantas visitas, em tantas épocas diferentes, pelo que me recordo só não foram servidas uma única vez: chiei, senti falta.

Mas tudo bem, quando ele falta é sinal de que vem coisa boa por aí, como a abobrinha finamente cortada em rodelas gratinada em molho de quatro queijos. Perfeição. Concordo que não parece, mas é deliciosamente saboroso.

Também pode haver outras coisas, como disse, variações sobre temas. Podemos ter, em raras ocasiões, uma asinha de frango crocante, embebida em molho de tomate e queijo derretido, levado ao forno só para um susto daquelem que gratinam superfícieis mais delicadas.

E, então, temos a etapa, final, o prato principal. Quando um casal visita o restaurante eles estimulam que peçam um só prato. Não façam isso, provem tantos quantos puderem. O frango à Kiev, recheado com manteiga e servidos com batatas fritas bonitas e adoráveis, e também…

O estrogonofe, do qual também não tenho foto, com muita cebola e servido com arroz branco, perfeito para reunir o molho, é outro ícone. Aprecio também os escalopinhos de frango e filé, com molho de manteiga e ervas, servidos com batatinhas embebidas nesse caldo. Há suflê de peixe e tantas coisas que bom mesmo é provar tudo. Se não der de uma só vez, e nunca dá, vá duas, três, quatro. Olha de delícia isso aí acima.

Eu, pessoalmente, gosto mais do varênique, uma espécie de ravióli recheado com um creme de batatas e ervas, com escalopinhos coroados por anéis finos de cebola dourada em fina camada de farinha de trigo, crocante. Um prato de se comer ajoelhando, desculpem o clichê.

Ahhhhh… pensa que acabou. Mas essa farra ainda tem mais um capítulo, os doces. Não fuja deles. Caso não haja fome, o que sempre acontece, peça ao menos uma sobremesa para dividir entre os presentes. Essa tortinha gelada de pitanga (tem até uma pitada brasileira na parada) e a torta de nozes com chocolate, principalmente esta última, da qual, apesar de tantas vezes devorada, não tenho foto: essa é imperdível.

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Rio Botequim no interior do Rio de Janeiro (e mais dez botecos muito queridos)

25/03/2011

Maria se esbalda no chuveiro que dá nome ao Bar, às margens da Rio-Santos, em Angra

O Guia Rio Botequim tem uma virtude rara, além de listar os melhores botecos da cidade: consegue se renovar a cada edição.
Este ano, para mim, foi o melhor de todos. Em primeiro lugar, é a lista mais abrangente. Em segundo lugar, o projeto gráfico está lindo. E, em terceiro lugar, porque dessa vez os botequins são classificados em uma, duas ou três estrelas, na verdade, ovos estrelados. E, last but not least, porque agora em vez de selecionar apenas os melhores bares do Rio Guilherme Studart também apresenta alguns endereços no interior do estado, como o Caldinho de Piranha, em Teresópolis, o Bar dos Pescadores, em Búzios, o Caneco Gelado do Mário, em Niterói, e o Bar do Chuveiro, em Angra dos Reis, quatro velhos conhecidos. O livro me deixou com vontade, pela primeira vez, de fazer uma incursão gastronômica pela Baixada Fluminense, porque tem umas coisas que parecem muito interessante. Também fiquei louco para conhecer a costela com inhame do Assis, em São Gonçalo, e só pelo nome tenho a sensação de que é algo delicioso.
Então, resolvi também fazer a minha listinha de botecos, ou restaurantes com  espírito de boteco, no interior do Rio de Janeiro (com predomínio natural para endereços teresopolitanos, que é a minha montanha preferida desde a infância).

– Quiosque do Lapinha, na Praia do Pontal, em Paraty
– Quiosque do Ranieri, na Praia de José Gonçalves, em Búzios
– Camponesa da Beira, em Teresópolis
– La Birosca Romana di Sandro, em Teresópolis
– Cantinho da Valéria Fernandes, em Teresópolis
– Chalé das Delícias, entre Vassouras e Miguel Pereira
– Lua e Mar, na Vila do Abrãao, na Ilha Grande
– Pão & Pão, em Nogueira, em Petrópolis
– Bar do Mercado Produtor, em Itaipava, Petrópolis
– Recreio, no Centro de Petrópolis

O pastel de camarão, bem recheado, do Bar do Chuveiro

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A bisteca gigante do Francis Mallmann, em Mendoza: uma das melhores carnes da minha vida

24/03/2011
Na próxima semana vou a Mendoza, participar do Park Hyatt Masters of Food & Wine.
E, no começo desta semana, escrevi sobre a vitelinha de Viseu, em Portugal, citando a bisteca imensa do restaurante 1884, de Francis Mallmann, como uma outra das melhores carnes da minha vida.
Aí, sei lá, achei coincidência, e resolvi falar da bisteca, que é um troço de doido, uma ripa praticamente inteira de costela, com um pedação de carne agarrado a ela, trazendo três cortes diferentes, variando sabor e textura da peça, grelhada, como se deve, sobre o calor da lenha em brasa, como gostam os hermanos.
 
Republico aqui um texto com pouco mais de dois anos, produzido para uma reportagem sobre Mendoza para o Boa Viagem.

Primeiro um bom fogo, forte e com brasa de lenha

Há exceções, mas de uma maneira geral, onde existe bom vinho, há boa comida. Se há enólogos competentes em algum lugar, há de ter chefs também. E os restaurantes de Mendoza confirmam a regra: estão à altura de suas vinícolas (e boa parte deles funciona nas próprias).

Principal referência gastronômica da província de Mendoza, um dos melhores endereços de toda a Argentina, o restaurante 1884 é obrigatório em qualquer roteiro gourmet pela região. Pilotado pelo chef Francis Mallmann, e instalado no prédio da bodega Escorihuela Gascón, em Godoy Cruz, a poucos minutos do Centro, tem um grande forno e uma parrilla crepitante, bem à vista do público, de onde saem as suas principais especialidades: as empanadas, como entrada; o cordeiro, o ojo de bife, e o clássico dos clássicos da casa, a gigantesca bisteca servida com legumes assados e um suculento molho de ervas frescas. Trata-se de um corte da costela bovina feito no sentido do osso, que prende um grande pedaço de carne, capaz de saciar até três pessoas.

— Mas eu sou capaz de comer sozinho — confessa Paulo Nicolay, consultor de vinhos, que todos os anos visita Mendoza (e o 1884, por consequência). — Para encerrar, há um incrível crocante de doce de leite.

A vinícola Ruca Malén, em Luján de Cuyo, onde florescem alguns dos melhores vinhos mendocinos, apresenta dois tipos de visitas guiadas: com degustação e com almoço (com prova de vinhos da vinícola também, naturalmente), a única maneira de conhecer o ótimo restaurante, que além de boa comida ainda oferece de bandeja a vista para os Andes. O cardápio, com cinco pratos, é autoral, e varia bastante de acordo com a época do ano.

Dono de uma das mais completas estruturas de visitação, a bodega da Família Zuccardi, uma das mais importantes do país, conta com um restaurante, a Casa del Visitante, que apresenta um cardápio de inspiração mendocina, além de menus sazonais que mudam de acordo com a estação. A refeição regional é composta de pães, azeites e pastas, e depois, empanadas seguidas de bife de chorizo e morcilla, para em seguida fechar com uma torta de maçã crocante com calda de Malamado, que vem a ser o vinho fortificado da casa, um “malbec a la manera de Oporto”.

Mas não são apenas as bodegas que fazem bonito à mesa. A exemplo de Buenos Aires, também se come muito bem — e relativamente barato, se comparado ao Brasil — na cidade de Mendoza. No Park Hyatt, o Bistrô M é tão necessário quanto o 1884. A cozinha aberta, onde se destaca o forno de pedra que assa algumas das receitas mais importantes, é exuberante. No cardápio, cruzam-se influências francesas e argentinas com acabamento e inspiração modernas. Não há quem não perca algum tempo diante dos fornos e fogões, onde trabalham cozinheiros frenéticos. Naquele caos organizado, são preparadas coisas especialíssimas, como uma delicada morcilla empanada em amêndoas. A carta de vinhos é das melhores, exibindo rótulos de todas as vinícolas que importam — com preços justos e muitas raridades, o que é melhor. A bela adega guarda 2,5 mil garrafas.

Em dezembro, próximo à piscina do hotel, abriu as portas o Grill Q, que promete ser uma das melhores parrillas da cidade. Mas por enquanto, a glória cabe à tradicional parrilla Don Mario, que serve um famoso bife de chorizo, além de uma das melhores mollejas (timo) da Argentina. O chivito (cabrito), as achuras (os miúdos bovinos) e o asado de tira (um corte fino da costela) também são altamente recomendáveis. As saladas são feitas na hora, com capricho, pelos simpáticos garçons. Tem uma ótima carta, mas fica a desejar na qualidade das taças de vinho.

Outro endereço fundamental para os turistas é o Azafrán, que fica a poucos passos da Plaza Independência, bem no Centro de Mendoza. Misto de armazém, loja de vinhos e restaurante, tem um ótimo repertório de queijos, embutidos e frios argentinos, incluindo carne de cervo e javali, servidos em tábuas caprichadas. O croquete de caranguejo gigante da Patagônia, por exemplo, é uma das especialidades. É um empório de produtos argentinos, com gavetinhas que guardam temperos, balcão refrigerado e uma adega das boas.

Por ser também uma vinoteca, o Azafrán tem algumas garrafas a preços que normalmente não são encontrados em restaurantes. A cozinha também demonstra extrema competência no preparo dos pratos do cardápio enxuto. Além disso tudo, o lugar é uma graça — e ainda dá para levar para casas produtos gastronômicos regionais.

Depois, um banho de temperos, e a companhia de legumes assados: olha o tamanho disso, quanta indecência

Uma vitela em Viseu: uma maravilha para sempre na lembrança (e a virtude de cardápios curtos)

21/03/2011

Olha que beleza, repara nas marcas da grelha, no ponto certo de cozimento, na suculência extrema revelada pelos sucos da carne abundantes no prato: que maravilha!

Tenho um grande amigo, o Raulzito. Certa vez, não me lembro bem porque, eu disse: restaurantes com cardápio muito grande são uma porcaria.
– É mesmo, cara. Eu achava o contrário, que quanto mais pratos tivesse, melhor.
Aí, tentei explicar que não, que cardápios reduzidos garantem ingredientes mais frescos e um preparo mais correto, e assim por diante.
Lembrei dessa passagem na noite de sexta passada, quando visitei o restaurante Casa Arouquesa, em Viseu. Só existem dois pratos: carne grelhada e carne assada com batatas. Mas e que carnes!
O segredo é a origem do ingrediente principal, a cidade de Arouca, famosa pelo seu gado. A vitela é uma coisa de maluco. Foi a melhor refeição da viagem por Portugal (porque na Holanda houve coisas melhores, que logo vou contar lá no Boa Viagem). E foi também uma das melhores carnes de toda a minha vida, no nível da bisteca do Francis Mallmann, em Mendoza, do ojo de bife do Esplanada Grill, aqui no Rio, e do asado de tira do La Brigada, em Buenos Aires. Simplesmente inesquecível em termos de sabor, textura e ponto de cozimento. Passei mais de duas horas na estrada, contando ida e volta, para apreciar esta joia. Passaria um dia viajando só para isso, e não se trata de uma hipérbole: viajaria mesmo.
A carne, macia como nunca vi, tinha o interior levemente rosado, delicado. Veios de gordura acentuavam ainda mais a maciez e a suculência, que era tamanha que a travessa tinha uma quantidade jamais vista por mim de sucos da carne, líquido perfeito para molhar um pão. Mas o prato não entraria para a galeria de “melhores carnes da minha vida” se não fosse o preparo exemplar, em churrasqueira a carvão, fogo muito alto, de maneira que havia aquele essencial sabor defumado, e alguns pontos mais tostatinhos devido ao contato direto com a grelha de metal, que queima delicadamente a superfície em contato com ela.
A cane assada, feita com partes da costela preparadas ao forno com batatas, também estava muito boa, mas nada tão emocionante assim. Para acompanhar, fritas, arroz e salada (aqui senti falta de uma farofinha, mas tenho que me conformar, afinal, estava em Portugal e não no Brasil).
E, antes de tudo, aquele couvert típico da região: presunto e queijo de ovelha, farinheira e pão, o que é sempre um bom começo.
Raulzito não é muito fã de carne. E já sabe que melhores tendem a ser os restaurantes de poucos pratos.  Se ele visitar a Casa  Arouquesa vai mudar de opinião de novo, passando a gostar, e muito, de um bom filé. E acho que, assim, vai querer uma vitelinha todos os dias, se bem o conheço (foi assim quando ele descobriu as virtudes dos espumantes, no aniversário de um ano da Maria Luisa). Mas o problema é que igual a essa, não há.

Queijo da Serra da Estrela: o que dizer disso?????

18/03/2011

Eu não tenho palavras para escrever o que é isso, e olha que me habituei a escrever sobre coisas gostosas…

Vai uma sardinha doce de Trancoso aí?

18/03/2011

Os "peixinhos" recheados de creme de ovos e amêndoas: parece mas não é

Sou um apaixonado pelos doces conventuais portugueses por muitas razões, a começar pela principal delas, o sabor. São irresistíveis os pastés de Belém, o Dom Rodrigo, os ovos moles de Aveiro, a barriguinha de freira e tantos outros.

Cheguei a visitar Aveiro, atraído principalmente pelo doce que carrega o nome da cidade, uma preciosidade em forma de ovos e açúcar.

Adoro a história da origem desses doces que, como indica o nome, nasceram nos conventos portugueses. As freiras usavam as claras dos ovos para arrumar os seus hábitos – e também havia, em todo o país, imensa utilização de claras na indústria do vinho, no processo de clarificação, que remove partes sólidas da bebida. Sobravam as gemas, e esses doces são amarelos, ou alaranjados, por causa exatamente disso.

Também gosto de variedade de doces e formas, trabalhados com a mesma base: gema e açúcar. Certa vez vi uma entrevista de uma senhorinha portuguesa, doceira de mão cheia, que dizia ter 36 pontos diferentes para essa combinação. Ela disse 36 pontos diferentes, cada um com um nome.

Posto isso, digo que adorei conhecer a sardinha doce de Trancoco, que nada tem do mar, e tampouco tem a ver com a preciosa cidade do litoral baiano. Sardinha doce de Trancoso é um creme de ovos e amêndoas envolvido por uma massa leve e delicada em forma de sardinha, daí o nome. Essa massa é frita rapidamente e, depois de fria, é banhada em chocolate. Coisa de maluco.

Provei o produto na barraca da Casa da Prisca, uma delícia de empresa que produz, ainda, geléias (de figo, abóbora, frutas tropicais), doces (geralmente as mesmas frutas), embutidos, presuntos e outras carnes curadas e defumadas.

Até a água é boa...

Anotações de viagem: de Amsterdam ao Porto

16/03/2011

 

Febo: quem disse que fast food é ruim? Os croquetes dessa rede são uma delícia, a apenas um euro

Adoro Portugal, como um todo, e seus comes e bebes, especificamente. Entre as delícias da cozinha lusitana eu aprecio, com interesse particular, o queijo da Serra da Estrela, produzido nas montanhas ao Norte do país.  Com sabor intenso e uma cremosidade inacreditável, é uma das obras-primas da gastronomia universal, no nível de um caviar ou de um bom presunto pata negra.

Além de amar a terrinha, também não gosto de ficar sem as minhas malas. Daí a dobrada alegria no dia de hoje: em primeiro lugar, estou a chegar ao Porto, para uma curta estadia em Celorico da Beira, uma dessas cidades encantadoras, para um encontro de vinhos e produtos regionais da Serra da Estrela, com direito a visita a um produtor deste. Em segundo lugar porque, enfim, pude reaver a minha mala, que despachei na tarde de sábado no Rio de Janeiro, e só me foi entregue hoje, pouco antes do meu embarque de Amsterdam em direção a Lisboa, onde pego outro voo para o Porto, para então encarar três horas de viagem até a Serra da Estrela – sem dúvida mais cansativo do que fazer um voo Brasil-Europa. Tive que fazer uma visita à H&M para comprar camisas, meias, cuecas e um casaco.

E, falando de Amsterdam… esse contratempo da mala me atrapalhou bastante. Perdi boa parte da primeira noite na cidade (em vez de chegar às 19h cheguei às 21h20 no hotel), além de toda a primeira manhã, sem falar em constantes interrupções na rotina para escrever e-mails ou ligar para a companhia aérea, a TAP, que aprontou essa comigo (aliás, como é bom, barato e eficiente o transporte de trem do aeroporto de Schiphol até o centro da cidade, na Centraal Station). Com isso, não deu para escrever nenhum postzinho sequer da cidade, que me realmente me seduziu: linda, boa para se caminhar, tem bares e restaurantes muito bons, pessoas divertidas e alguns museus, como o imperdível Van Gogh, realmente imperdíveis (ainda mais quando está em exposição temporária o mestre Pablo Picasso). E cadê o meu tripé para fotos noturnas???

Em Amsterdam é preciso provar a comida de rua, com especial atenção aos croquetes (a rede Febo é ótima: por um euro compramos um croquete de carne delicioso, com recheio cremoso e casquinha crocante), arenques (que rendem belos sanduíches) e batatas fritas servidas em saquinhos afogadas em encantadora maionese, três bons exemplos de que comer pode ser bom e barato.

A cerveja holandesa também é ótima, e vale a pena gastar um tempo nos balcões de seus bares e pubs, esses últimos também servem marcas britânicas, o que é sempre bom.

A cidade é mesmo linda, com prédios graciosos, monumentos e os canais, ah, os canais, que coisa mais linda. E os jardins? Nesta época do ano a temperatura começa a subir, e as pessoas se dizem mais felizes.?Qualquer pedacinho de terra pode virar um canteiro florido, e talvez os moradores de Amsterdam sejam as únicas pessoas, em todo o mundo capazes de criar um lindo jardim colorido numa superfície de apenas 10 cm quadrados. Visitar o mercado de flores revela uma quantidade de cores e formais vegetais inimagináveis.

As tulipas são mesmo muito queridas e admiráveis em Amsterdam, mais a planta mais idolatrada é sem dúvida a Marijuana: às 8h os famosos coffee shops já estão ocupados com maconheiros de todos os tipos, idades e trajes – a basta passar na porta de um deles para sentir a marola capaz de deixar um jamaicano doidão por uns 20 minutos – ou até mais.

Há muitos turistas nos tais coffee shops. Mas não tenho dúvida de que os maiores freqüentadores desses verdadeiros templos rastafáris são os arquitetos que projetaram a cidade, e para tirar essa conclusão basta olhar para os prédios: como são tortos para os lados e para a frente, alguns parecem que vão cair a qualquer momento.

Mas, agora pensando bem: será que é culpa dos arquitetos, ou eu que andei freqüentando muito esses coffee shops ¿

Outro aspecto interessante é a cozinha asiática. Assim como todo o mundo atual, há muitos restaurantes japoneses, chineses e tailandeses, mas também há muitos indonésios, porque a Indonésia foi colônia holandesa.

Há muitos restaurantes ótimos na cidade, e os frutos do mar estão entre os melhores que já comi (ostras e vieiras são inacreditavelmente deliciosas). O restaurante Bridges, no Sofitel, e o Yamazato, no Okura, são dois endereços fundamentais para os que apreciam pescados: no primeiro, são tratados à maneira francesa enquanto no segundo, à japonesa (jantei lá ontem com menu todo harmonizado com saquês, e foi incrível). Com vista para a cidade, o Le Ciel Bleu, no mesmo hotel Okura, combina ambiente elegante, com panorama impressionante da cidade, serviço impecável, apresentação primorosa dos pratos e, o mais importante de tudo, uma gastronomia formidável: é daqueles restaurantes que marcam a gente para sempre.

Os chefs estão muito felizes. Na Europa, primavera é, no mundo dos cozinheiros, sinal de fartura, alegria, novos sabores, cores e tempetos: as ervas crescem, os legumes começam a ganhar forma, peixes magros vão aparecendo. É uma festa.

Também visitei um restaurante de cozinha tradicional, o De Roode Leewin, assim como um chinês em Chinatown, que fica ao lado do Bairro da Luz Vermelha, a famosa zona de protituição, algo meio caricato, cheio de homens com cara de bobo observando as moças em trajes sumários nas vitrines, assim como turistas mulheres que ficam achando graça das minúsculas lingeries. Não sei não, esse mundo está mesmo perdido: o Bairro da Luz Vermelha me parece hoje mais inocente do que uma festa de criança, e se não é, certamente ali há muito mais pudores que a novela das 8…

Para encerrar, Rembrandt, um gênio, em sua praça

A serra e os canais, o queijo e as tulipas

12/03/2011

Considero o queijo da Serra da Estrela, feito aos pés dessas montanhas  ao norte de Portugal, uma das maiores criações do homem. Pegar aquela massa redonda, e delicadamente tirar a sua capa superior, como uma tampa, deixando à mostra o interior cremoso, sustentado pela casca dura, é um raro prazer. E mergulhar uma colher ali dentro, sacando um punhado desse nobre requeijão, é uma das mais gloriosas manifestações gastronômicas.

Da mesma maneira que esta dádivas das ovelhas lusitanas, as tulipas me encantam. Não as de chope, que também aprecio, mas as vegetais: acho a tulipa muito mais linda que qualquer outra flor. E Amsterdã é a terra das tulipas.

E o que diabos tem a ver flores com ovelhas¿

É que viajo hoje em direção a isso, mas em ordem inversa: primeiro as tulipas, depois os queijos.

Embarco daqui a pouquinho para Portugal. Passo a manhã em Lisboa, provavelmente na Confeitaria Nacional, endereço que me faz bem, em plena Baixa, um clássico.

À tarde embarco para Amsterdã para espreitar a chegada da primavera, que traz consigo as tulipas em flor, e a Europa, em quase todos os seus cantos, vai ficando mais feliz e alegre, movimento que vai até agosto, quando tudo vira um caos, antes de tudo virar um frio danado, depois de outubro, novembro ou dezembro.

Fico três dias por lá. Na verdade, dois e meio, considerando uma noite e uma manhã. Depois, embarco de volta para Lisboa, para um dia longo, que vai ter outro voo, desta vez para o Porto, e um deslocamento a Celerico da Beira, na Serra da Estrela.

Lá revejo alguns amigos, como o Pedro Garcias, jornalista que se meteu a fazer vinho e está a lançar o seu primeiro rótulo.

E vou, como não podia ser diferente, ainda mais nesta época, quando a produção está a todo vapor, visitar uma fábrica de queijo da serra.

Resumidamente, meus próximos oito dias vão ser assim, entre tulipas, ovelhas, conexões, serras e canais.

Para enfeitar o post, coloquei umas fotos de tulipas. Mas não são holandesas. São de Nova York, que não à toa um dia foi chamada de New Amsterdam.

Meza Bar: mash up gastronômico bem sucedido

11/03/2011

Frango picante X salada thai = a um creme de baroa coberto com molho picante de frango e camarão: um dos meus preferidos

No último ano peguei certa aversão à expressão mash up, assim como à iluminação assinada por Maneco Quinderé (é bonito, lindo até, mas não funciona em restaurante, por ser escuro demais: gosto de ver a comida, mas isso é assunto para outro post). Mas hoje o tema é mash up, e este blog não virou é dedicado à cultura, não. Falamos de comida mesmo.
Não gosto da expressão mash up. E não é apenas pela sua anglofilia desnecessária, mas principalmente porque eu não aguentava mais ver tanta coisa mash up por aí: festas, exposições, reportagens a respeito. Chega!
Mas quando é assunto é comida, as coisas mudam de figura para mim: não resisto a um bom prato.
Fiquei curioso, há uns 15 dias, quando recebi um convite interessante: conhecer os novos pratos do Meza Bar, em Botafogo, endereço que adoro por reunir boa comida e gente legal em um ambiente agradável, sem afetações, mas também sem ser moderninho demais, com trilha sonora adequada e excelentes drinques mesmo para mim, que não sou chegado neles, nem em bebidas destiladas.
Pois com a correria carnavalesca não conseguir visitar a casa antes. Ontem, sim, estive lá. E gostei da proposta.
O tal cardápio comemorativo fica em cartaz até maio. Eles fizeram uma seleção de mash ups, com nove receitas diferentes combinando alguns pratos da casa.
– Quando a gente vou criar um menu novo tivemos essa ideia. Pegamos o cardápio e vimos que ali já tínhamos mais diversos pratos diferentes, bastando combinar as receitas – conta-me o chef Fábio Batistella, que anda tocando vários projetos: o mais adiantado deles é o Bar Doiz, que vai funcionar onde era o antigo Trapézio, um bom bar, mas de vida curta.
 
Outro projeto engatilhado é um albergue, também ali em Botafogo, bem como o outro bar que será aberto, que provavelmente se chamará… Trêz.
 
– Estamos fazendo da letra Z a indentidade da nossa marca – diz ele.
 
Mas voltemos aos mash ups.
O cardápio sazonal lista nove receitas.
– bolinho de risoto de açafrão X camarão crocante com bloody mary (R$ 28)
– risoto de limão siciliano X salada de quinoa (R$ 23)
– risoto de funghi X polenta com ragu de calabresa (R$ 23)
– frango picante X salada thai (R$ 23)
– tartar de salmao X carne seca com banana (R$ 23)
– ceaser salad X hambúrguer de frango com feta (R$ 29)
– salada grega X wrap de salmao marinado e feta grelhado (R$ 32)
– petit gateau de toblerone X crème brûlle (R$ 17)
– brownie de chocolate com calda de laranja X brigadeiro de limão siciliano (R$ 17).
 
Quando li a respeito, não entendi direito a proposta. Por exemplo: quando soube que estavam jutando o risoto de cogumelos com a polenta servido com ragu de linguiça calabresa, eu pensei: “risoto com polenta é meio estranho…”.
Mas não é bem assim. A base das receitas é a mesma, mas os ingredientes são adaptados. Neste caso, por exemplo, o risoto é o mesmo, assim como o ragu que vai por cima dele, mas a polenta não é aquela cremosa, que fatalmente não ficaria tão bem ali: a massinha fininha é frita, ganhando consistência crocante. Legal.
Para mim, o arroz estava passado demais, mas o chef pondera.
– Se a gente faz o risoto al dente aqui, as pessoas mandam voltar dizendo que está cru – diz.
São sete pratos salgados e duas sobremesas, como o creme brulée de petit gateau de toblerona, que junta duas receitas interessantes, criando uma outra. É feito assim: você assa o petit gateau, quebra ele em pedaços, com a caldinha junto, e derrama num creme brulée, misturando aquilo tudo e finalizando com o maçarico que carameliza os açúcares em cima – uma irresistível delícia.
Além desses, provei algumas outras variantes, como  o risoto de limão siciliano com salada de quinoa,
Os meus dois favoritos foram o tartar de salmão com chips de banana-da-terra e carne-seca  e o frango picante com a salada thai.

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