Uma vitela em Viseu: uma maravilha para sempre na lembrança (e a virtude de cardápios curtos)

Olha que beleza, repara nas marcas da grelha, no ponto certo de cozimento, na suculência extrema revelada pelos sucos da carne abundantes no prato: que maravilha!

Tenho um grande amigo, o Raulzito. Certa vez, não me lembro bem porque, eu disse: restaurantes com cardápio muito grande são uma porcaria.
– É mesmo, cara. Eu achava o contrário, que quanto mais pratos tivesse, melhor.
Aí, tentei explicar que não, que cardápios reduzidos garantem ingredientes mais frescos e um preparo mais correto, e assim por diante.
Lembrei dessa passagem na noite de sexta passada, quando visitei o restaurante Casa Arouquesa, em Viseu. Só existem dois pratos: carne grelhada e carne assada com batatas. Mas e que carnes!
O segredo é a origem do ingrediente principal, a cidade de Arouca, famosa pelo seu gado. A vitela é uma coisa de maluco. Foi a melhor refeição da viagem por Portugal (porque na Holanda houve coisas melhores, que logo vou contar lá no Boa Viagem). E foi também uma das melhores carnes de toda a minha vida, no nível da bisteca do Francis Mallmann, em Mendoza, do ojo de bife do Esplanada Grill, aqui no Rio, e do asado de tira do La Brigada, em Buenos Aires. Simplesmente inesquecível em termos de sabor, textura e ponto de cozimento. Passei mais de duas horas na estrada, contando ida e volta, para apreciar esta joia. Passaria um dia viajando só para isso, e não se trata de uma hipérbole: viajaria mesmo.
A carne, macia como nunca vi, tinha o interior levemente rosado, delicado. Veios de gordura acentuavam ainda mais a maciez e a suculência, que era tamanha que a travessa tinha uma quantidade jamais vista por mim de sucos da carne, líquido perfeito para molhar um pão. Mas o prato não entraria para a galeria de “melhores carnes da minha vida” se não fosse o preparo exemplar, em churrasqueira a carvão, fogo muito alto, de maneira que havia aquele essencial sabor defumado, e alguns pontos mais tostatinhos devido ao contato direto com a grelha de metal, que queima delicadamente a superfície em contato com ela.
A cane assada, feita com partes da costela preparadas ao forno com batatas, também estava muito boa, mas nada tão emocionante assim. Para acompanhar, fritas, arroz e salada (aqui senti falta de uma farofinha, mas tenho que me conformar, afinal, estava em Portugal e não no Brasil).
E, antes de tudo, aquele couvert típico da região: presunto e queijo de ovelha, farinheira e pão, o que é sempre um bom começo.
Raulzito não é muito fã de carne. E já sabe que melhores tendem a ser os restaurantes de poucos pratos.  Se ele visitar a Casa  Arouquesa vai mudar de opinião de novo, passando a gostar, e muito, de um bom filé. E acho que, assim, vai querer uma vitelinha todos os dias, se bem o conheço (foi assim quando ele descobriu as virtudes dos espumantes, no aniversário de um ano da Maria Luisa). Mas o problema é que igual a essa, não há.

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Uma resposta to “Uma vitela em Viseu: uma maravilha para sempre na lembrança (e a virtude de cardápios curtos)”

  1. Arnaldo Lúcio Says:

    verdade VERDADÍSSIMA, NA CASA AROUQUESA, COME-SE A VERDADEIRA
    CARNE DE VITELA DE AROUCA.
    MARAVILHA!
    E EM ARMAMAR, TEM DE EXPERIMENTAR O VERDADEIRO CABRITINHO DE ARMAMAR….

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