Dona Irene, em Teresópolis: uma longa e deliciosa jornada gastronômica à Rússia dos czares

O restaurante Dona Irene é um dos meus favoritos. Nos últimos 15 anos estive lá ao menos uma vez por ano, sem falta, mas nos últimos a média tem sido de três ou quatro visitas no período.

Adoro não só a comida, mas também o lugar, um casarão antigo com…

… decoração autêntica com muitas peças russas, além de fotos, pôsteres e objetos. Há vitrais, muitos sofás espalhados numa espécie de sala de estar, onde está a adega, e por onde nós entramos gloriosamente. Não tem cara nem jeito de restaurante, e essa é parte da graça. Comer na Dona Irene é visitar uma família de cozinheiros (e produtores de vodca). Que delícia.

Há flores ns janelas.

Há uma considerável coleção de estrelas do Guia Quatro Rodas (são duas por ano, há pelo menos duas décadas)

A Maria adora as emblemáticas bonequinhas. Já até ganhou uma miúda de presente.

No andar de cima há um belo piano de cauda, que muitas vezes é usado em concertos de música clássica, porque como disse a Dona Irene não é um restaurante qualquer, é especial. Há animados saraus pelo menos uma vez por mês, sempre aos sábados, ao que consta.

Acho as mesas bonitas.

É tudo lindo e agradável, mas vamos à comida, que é o que de fato interessa. Logo depois que chegamos já é bom pedir a vodca da casa, melhor companhia para a primeira etapa, um festival de entradas frias.

Não estou muito certo, mas penso que esta seja a minha etapa predileta. Tem torradinhas com ovo e caviar (às vezes o pão dá lugar, como base, a biscoitinhos)…

… ovo com patê, tomate com queijo de búfala e alcaparras…

numa irresistível sequência de pratinhos, que até variam regularmente, mas onde nunca podem faltar clássicos como o arenque a la creme e…

… muitas vezes, ainda bem, há variações suaves sobre os mesmos temas. O tamatinho-cereja, por exemplo, pode ter passas e endro, ou creme azedo e caviar. Essas variações, na verdade, inspiram retornos frequentes à casa.

São geralmente uns dez, às vezes 12, pratinhos. Temos sempre a salada russa, a salada de beterraba, o patê de fígado, o salmão marinado e o já citado arenque, perfeitos para os tragos na voca servida num balde, toda rodeada por uma forma de gelo, que lhe garante a temperatura perfeita de serviço durante todo este adorável e fresco prelúdio. Aí surgem queijos, pastas de berinjela e abobrinha, novas pastas e patês, canapés inesperados, espetinhos de batata… Uma refeição na Dona Irene é sempre parecida, mas nunca igual.

Geralmente, nesta fase eu pulo para um vinho tinto. Pode até ser uma cerveja. Mas olha só que legal. Eles não cobram rolha, podemos levar o noso vinho. Quem não quiser levar uma garrafa, não tem problema. Eles têm alguns rótulos a preços compatíveis.

Então, quando chega o vinho, como podemos ver acima, é servido esse bolinho aí, que é uma coisa de doido. Uma massa leve e fofinha é recheada com uma carne bem moidinha, com tempero e preparo simples, uma delícia.

Mas sabe o que é melhor? No mesmo instante é servida a sopa de beterraba, ou borsch, com toque de ervas e um fio de creme de leite. Aqui fica uma sugestão: deixe um restinho de vodca no copinho, porque a melhor maneira de fazer a transição dela para o vinho é aqui. Enquanto o bolinho que chega quente de tal maneira que não se consegue comer imediatamente, vamos apreciar a sopa, matando a vodca deliciosa, que vale demais a pena trazer para casa, mesmo um cara que não é necessariamente chegadado em destilados.

Depois desse diálogo de contrastes marcado pelo quente-frio, vale dar uma mordinha nos bolinhos (olha que maravilha). Dá até para jogar uma pimentinha nesta altura. E depois, uma das maiores glórias gastronômicas da minha vida, mergulhamos o bolinho na sopa, num processo que avermelha e amacia a massa, numa combinação perfeita, com parte da casca crocante ainda, o recheio seco e ao mesmo tempo molhado, uma loucura. Foi esse ritual que me ensinou, ali pelos seis anos, a gostar de beterraba, e por consequências de todos os legumes e até coisas que muita gente acha estranha. Beterraba, desde então, é uma delícia para mim.

Antes dos pratos principais, que devem ser encomendados com antecedência, no ato da reserva (eles até recebem alguém sem reserva, mas é melhor ligar antes, sempre: garanto, vai ser mais confortável, e até gostoso), ainda há mais uns três ou quatro bocadinhos quentes, como a preparar a boca. Tenho até sentido falta de umas panquequinhas de frango que não andam dando as caras ultimamente, e eram uma receita tão clássica da casa…
Reserve também pelo menos três horas para fazer com calma todo o percurso.

As asinhas de frango gratinadas com queijo, em tantas visitas, em tantas épocas diferentes, pelo que me recordo só não foram servidas uma única vez: chiei, senti falta.

Mas tudo bem, quando ele falta é sinal de que vem coisa boa por aí, como a abobrinha finamente cortada em rodelas gratinada em molho de quatro queijos. Perfeição. Concordo que não parece, mas é deliciosamente saboroso.

Também pode haver outras coisas, como disse, variações sobre temas. Podemos ter, em raras ocasiões, uma asinha de frango crocante, embebida em molho de tomate e queijo derretido, levado ao forno só para um susto daquelem que gratinam superfícieis mais delicadas.

E, então, temos a etapa, final, o prato principal. Quando um casal visita o restaurante eles estimulam que peçam um só prato. Não façam isso, provem tantos quantos puderem. O frango à Kiev, recheado com manteiga e servidos com batatas fritas bonitas e adoráveis, e também…

O estrogonofe, do qual também não tenho foto, com muita cebola e servido com arroz branco, perfeito para reunir o molho, é outro ícone. Aprecio também os escalopinhos de frango e filé, com molho de manteiga e ervas, servidos com batatinhas embebidas nesse caldo. Há suflê de peixe e tantas coisas que bom mesmo é provar tudo. Se não der de uma só vez, e nunca dá, vá duas, três, quatro. Olha de delícia isso aí acima.

Eu, pessoalmente, gosto mais do varênique, uma espécie de ravióli recheado com um creme de batatas e ervas, com escalopinhos coroados por anéis finos de cebola dourada em fina camada de farinha de trigo, crocante. Um prato de se comer ajoelhando, desculpem o clichê.

Ahhhhh… pensa que acabou. Mas essa farra ainda tem mais um capítulo, os doces. Não fuja deles. Caso não haja fome, o que sempre acontece, peça ao menos uma sobremesa para dividir entre os presentes. Essa tortinha gelada de pitanga (tem até uma pitada brasileira na parada) e a torta de nozes com chocolate, principalmente esta última, da qual, apesar de tantas vezes devorada, não tenho foto: essa é imperdível.

Índice de posts de cidades no estado do Rio de Janeiro: clique aqui.

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8 Respostas to “Dona Irene, em Teresópolis: uma longa e deliciosa jornada gastronômica à Rússia dos czares”

  1. Oscar Daudt Says:

    O Dona Irene é 10!!!

  2. Fernanda Fonseca Says:

    eu quero o bolinho!!!!

  3. Juliana Amorim Says:

    10 anos que fui. ta na hora de voltar!

  4. Irene ri | nathaliaecaio Says:

    […] concorrer com o Bruno Agostini né, que vai lá todo Dia das Mães desde 1996! E nesse último post ele ainda caprichou nas fotos. Não deu para resistir… This entry was posted in […]

  5. Aline Gomes Says:

    Que post delicioso! E como é linda a Maria. Parabéns!

  6. Índice de posts de cidades no Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] – Camponesa da Beira: um lugarzinho pra chamar de seu – Dona Irene: refeição de czar (e mais: um fotoblog) – Que frio: um sábado gostoso na serra – Orquidário Aranda: pra não dizer que não falei de […]

  7. Eliane Marins Says:

    Gostaria de receber a receita do varenique

  8. Ethel Kauffmann Says:

    Que delicia!!!! Fico sempre com a voltadade de voltar…….

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