Archive for outubro \27\UTC 2011

Mocotó e Viradas do Largo em curta temporada na Academia da Cachaça: imperdível

27/10/2011

Tenho muitos ídolos. Vários deles são cozinheiros. Rodrigo Oliveira, do Mocotó, em São Paulo, e Beth Beltrão, do Viradas do Largo, em Tiradentes, estão nesse numeroso time.

Daí a minha imensa alegria ao saber que a dupla viria ao Rio para um pequeno festival na Academia da Cachaça, endereço adorado por mim devido a duas importantes razões: foi o primeiro lugar a dar tratamento digno à nossa pinga, desde 1985, e também nasceu ali o escondinho, cuja receita original leva purê de aipim, carne seca desfiada e requeijão, que se espalhou pelo país, ganhando incontáveis versões, com várias outras raízes, tubérculos, carnes e queijos.

Pois bem. Recebi um convite para ir conferir o festival, que começou na sexta passada e termina no próximo domingo (animai-vos: os pratos mais pedidos devem ser mantidos no cardápio fixo da casa).

Pior é que eu não tinha espaço na agenda para jantar (nem almoçar lá). Mas não poderia perder por nada, entre outras razões porque o cardápio tinha a mocofava, um clássico do Rodrigo Oliveira, que não cheguei a provar quando visitei a casa pela primeira e única vez, há uns dois anos. Então, desmarquei um compromisso na noite de ontem, e lá fui eu para a Conde Bernardotte, no Leblon.

Casa lotada, escolhi uma mesinha no pequeno salão original, decorado com garrafas de cachaça e tirinhas coloridas que formam uma bela e original bandeira do Brasil, que remete às festas do interior, às quermeses.

Para começar, caipirinhas. Provamos as três em cartaz no festival: a de limão, preparada com a cachaça Da Quinta, de limão com morango, feita com a Leblon, e a de tangerina, com Pitu Gold. Bom, muito bom.

Então, fui de mocofava, um caldo rico e quente, de mocotó com linguicinha e fava, um feijão grandão, bem comum no Nordeste, uma maravilha. Preciso repetir.

Mas também mordisquei a torradinha de linguiça da Beth Beltrão, dois destaques da lista de entradas, que também tem bolinho de arroz e outros gostosuras saídas dos cardápios desses dois restaurantes que adoro.

Foi quando o garçom ofereceu uma cachacinha, para limpar a boca e instigar o apetite para o prato principal. Bingo!

Para o prato principal, pedimos uma versão reduzida da carne serenada com pirão e ora-pro-nobis enriquecido com alho frito…

… e também um cabrito guisado com uma espécie de farofa de pão de milho, úmida e temperada com coentro, pedacinhos de tomate e pimentão. Uma joia, uma gostura que me deixou com vontade de ir até lá repetir.

Para encerrar, uma dose de Canarinha, de Salinas, espécie de versão mais barata da Havana-Anísio Santiago, produzida pela mesma família, no mesmo lugar, com técnica quase igual. Uma beleza de pinga, macia, saborosa, elegante. Muito melhor que qualquer uísque 12 anos.

Foi tudo tão bom, que até nos esquecemos de pedir a sobremesa, algo impedoável, visto que na lista de doces havia o clássico sorvete de queijo da Serra da Canastra com goiabada cascão quente. Tomara que seja muito pedido, e entre no menu definitivo, entre outros motivos porque não tenho viagem para Tiradentes programada para os próximos dias. E tô morrendo de vontade…

 

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Steve Jobs, Garcia & Rodrigues: não entendo tamanha comoção

22/10/2011

Confesso que fiquei meio abestalhado com o culto a Steve Jobs quando o empresário americano morreu.
Fiquei com saudade dos tempos em que nossos ídolos eram Cartola, Ayrton Senna, Tom Jobim, Zico, Renato Russo, Jonh Lennon, Roger Waters (e David Gilmour), Michael Jordan…
Para mim, o Steve Jobs é só um empresário genial. Quando Cartola morreu é provável que não tenha saído uma linha sequer no The New York Times registrando o fato. Mas, como sabemos, Cartola é muito mais importante para a Humanidade do que Steve Jobs. Ouça-me bem, amor, o mundo é um moinho. Seus acordes valem mais que qualquer maçã, que qualquer Ipad. A Mangueira é mais que o Vale do Sicílio. Não entendi bem a comoção geral. Mas tudo bem, esse mundo é muito doido mesmo.
A veneração a Steve Jobs é uma prova de que o capitalismo tomou mesmo conta do mundo. Meus heróis morrerem de overdose, meus inimigos estão no poder. Ideologia, você sabe… Saudades dos meus ídolos.
Garrincha, cadê você?
Me lembrei do Steve Jobs ontem, ao notar uma verdadeira comoção diante de fato tão corriqueiro é irrelevante, o fechamento do Garcia & Rodrigues do Leblon.
O Facebook está se derretendo em lágrimas nas palavras dos órfãos desse restaurante-padaria-delicatessen. Caramba, o Garcia & Rodrigues é uma franquia. Tem loja na Barra, em São Paulo. E eles ainda querem abrir uma outra unidade no Leblon, menorzinha. Pra quê chorar, minha gente? Quer pão bom ali pelos lados do Leblon? É só chegar no Talho Capixaba, pertinho dali. E, cá entre nós, o Garcia original, o Janjão, está dando expediente ali no Lorenzo Bistrô, uma graça, uma delícia, uma delicadeza, comida pura, verdadeira, aconchegante. E, pão por pão, os do La Bicyclette, perto do Lorenzo, no Jardim Botânico, é bem melhor. A Escola do Pão também. Le Pain du Lapin.
Tudo bem que é uma troca ruim a chegada do Porcão e o fim do Garcia. Até porque, logo ali, em Ipanema, temos um Porcão, e outro ainda melhor, até pela vista, no Aterro do Flamengo. Mas também não é para tanto…

O que mais espanta é que, ao contrário do chororô pelo fim do Garcia, não vi quase ninguém lamentar o fim do Penafiel. O centenário restaurante da Saara, patrimônio carioca, fechou as portas há uns três anos. Pouca gente se manifestou. O Joaquim Ferreira dos Santos, o João Paulo Cuenca. Eu.
Do mesmo modo, A Paulistinha, clássico do Centro, destino dos mais sábos foliões depois do Bola Preta, berço do Berro da Viúva, reduto do samba, lar de bambas como o Mocyr Luz, que servia chope, bolinho de bacalhau e sacanagem, sim, sacanagem, os palitinhos de dente que espetavam salsichas, tomatinhos e coisinhas assim, que era servidos nas festas caseiras dos anos 1970 e 1970, e anda bastante sumido. O povo prefere Doritos com cheddar… Tem gosto pra tudo.

Mas, enfim, o Penafiel fechou as portas sem alarde. A Paulistinha também. O Le Coin deu lugar a uma casa de carnes sem caráter, sem pôsteres do Flamengo nas paredes, sem vida, sem flamenguistas, sem bossa, sem nada. Ninguém chorou… E, assim, amigos, infelizmente, caminha a humanidade. Chorando a morte de empresários, caindo em prantos pelo fechamento de um restaurante de rede.
Imagine se o Mc Donald’s vai a falência?
Nem quero imaginar…

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