Steve Jobs, Garcia & Rodrigues: não entendo tamanha comoção

Confesso que fiquei meio abestalhado com o culto a Steve Jobs quando o empresário americano morreu.
Fiquei com saudade dos tempos em que nossos ídolos eram Cartola, Ayrton Senna, Tom Jobim, Zico, Renato Russo, Jonh Lennon, Roger Waters (e David Gilmour), Michael Jordan…
Para mim, o Steve Jobs é só um empresário genial. Quando Cartola morreu é provável que não tenha saído uma linha sequer no The New York Times registrando o fato. Mas, como sabemos, Cartola é muito mais importante para a Humanidade do que Steve Jobs. Ouça-me bem, amor, o mundo é um moinho. Seus acordes valem mais que qualquer maçã, que qualquer Ipad. A Mangueira é mais que o Vale do Sicílio. Não entendi bem a comoção geral. Mas tudo bem, esse mundo é muito doido mesmo.
A veneração a Steve Jobs é uma prova de que o capitalismo tomou mesmo conta do mundo. Meus heróis morrerem de overdose, meus inimigos estão no poder. Ideologia, você sabe… Saudades dos meus ídolos.
Garrincha, cadê você?
Me lembrei do Steve Jobs ontem, ao notar uma verdadeira comoção diante de fato tão corriqueiro é irrelevante, o fechamento do Garcia & Rodrigues do Leblon.
O Facebook está se derretendo em lágrimas nas palavras dos órfãos desse restaurante-padaria-delicatessen. Caramba, o Garcia & Rodrigues é uma franquia. Tem loja na Barra, em São Paulo. E eles ainda querem abrir uma outra unidade no Leblon, menorzinha. Pra quê chorar, minha gente? Quer pão bom ali pelos lados do Leblon? É só chegar no Talho Capixaba, pertinho dali. E, cá entre nós, o Garcia original, o Janjão, está dando expediente ali no Lorenzo Bistrô, uma graça, uma delícia, uma delicadeza, comida pura, verdadeira, aconchegante. E, pão por pão, os do La Bicyclette, perto do Lorenzo, no Jardim Botânico, é bem melhor. A Escola do Pão também. Le Pain du Lapin.
Tudo bem que é uma troca ruim a chegada do Porcão e o fim do Garcia. Até porque, logo ali, em Ipanema, temos um Porcão, e outro ainda melhor, até pela vista, no Aterro do Flamengo. Mas também não é para tanto…

O que mais espanta é que, ao contrário do chororô pelo fim do Garcia, não vi quase ninguém lamentar o fim do Penafiel. O centenário restaurante da Saara, patrimônio carioca, fechou as portas há uns três anos. Pouca gente se manifestou. O Joaquim Ferreira dos Santos, o João Paulo Cuenca. Eu.
Do mesmo modo, A Paulistinha, clássico do Centro, destino dos mais sábos foliões depois do Bola Preta, berço do Berro da Viúva, reduto do samba, lar de bambas como o Mocyr Luz, que servia chope, bolinho de bacalhau e sacanagem, sim, sacanagem, os palitinhos de dente que espetavam salsichas, tomatinhos e coisinhas assim, que era servidos nas festas caseiras dos anos 1970 e 1970, e anda bastante sumido. O povo prefere Doritos com cheddar… Tem gosto pra tudo.

Mas, enfim, o Penafiel fechou as portas sem alarde. A Paulistinha também. O Le Coin deu lugar a uma casa de carnes sem caráter, sem pôsteres do Flamengo nas paredes, sem vida, sem flamenguistas, sem bossa, sem nada. Ninguém chorou… E, assim, amigos, infelizmente, caminha a humanidade. Chorando a morte de empresários, caindo em prantos pelo fechamento de um restaurante de rede.
Imagine se o Mc Donald’s vai a falência?
Nem quero imaginar…

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24 Respostas to “Steve Jobs, Garcia & Rodrigues: não entendo tamanha comoção”

  1. . Says:

    Bruno, me perdoe, mas discordo de praticamente tudo.

    Cada um tem os seus idolos. Nao cabe comparar um genio com o outro, nao existe um peso, uma medida, para dizer se cartola e’ melhor, ou pior, que outros. A sociedade e’ altamente complexa e precisa de pessoas criando e inovando em todos os aspectos da nossa vida.

    Eu escuto Cartola ate hoje, e toda a minha colecao esta organizada no itunes; fico, sim, triste com a saida do garcia nao apenas porque nao encontrarei pao a campanha tao bom por perto, mas tambem porque o porcao nao eh compativel com o clima do baixo leblon, onde moro; e se o McDonalds falir, pode ter certeza que as consequencias serao pessimas, pois se trata de uma grande corporacao, listada na NYSE, empregando mais de 1,5 milhao de pessoas em 120 paises, alem de servir como lazer para as pessoas – ou seja, sao consequencias sociais e economicas serias, e vc pensando no seu estomago; e se o Penafiel estivesse funcionando, eu continuaria a ir la, a percorrer aque corredor para chegar, ao fim dele, nas panelas recheadas de surpresas, quentinhas, pronta para serem degustadas….mas nem por isso eu nego a genialidade do Jobs, porque deveria?

    De fato Jobs foi apenas um mero empresario genial, imagina se ele tivesse habilidade com o piano, pinceis ou mesmo com a bola de futebol, basquete?

    Cada um contribui da forma que pode. Em vez de ficar “abestalhado com o mundo meio doido que vivemos”, que tal voltar a fazer o que voce sabe, que e’ escrever sobre comida?

  2. I Says:

    Bruno, me perdoe, mas discordo de praticamente tudo.

    Cada um tem os seus idolos. Nao cabe comparar um genio com o outro, nao existe um peso, uma medida, para dizer se cartola e’ melhor, ou pior, que outros. A sociedade e’ altamente complexa e precisa de pessoas criando e inovando em todos os aspectos da nossa vida.

    Eu escuto Cartola ate hoje, e toda a minha colecao esta organizada no itunes; fico, sim, triste com a saida do garcia nao apenas porque nao encontrarei pao a campanha tao bom por perto, mas tambem porque o porcao nao eh compativel com o clima do baixo leblon, onde moro; e se o McDonalds falir, pode ter certeza que as consequencias serao pessimas, pois se trata de uma grande corporacao, listada na NYSE, empregando mais de 1,5 milhao de pessoas em 120 paises, alem de servir como lazer para as pessoas – ou seja, sao consequencias sociais e economicas serias, e vc pensando no seu estomago; e se o Penafiel estivesse funcionando, eu continuaria a ir la, a percorrer aque corredor para chegar, ao fim dele, nas panelas recheadas de surpresas, quentinhas, pronta para serem degustadas….mas nem por isso eu nego a genialidade do Jobs, porque deveria?

    De fato Jobs foi apenas um mero empresario genial, imagina se ele tivesse habilidade com o piano, pinceis ou mesmo com a bola de futebol, basquete?

    Cada um contribui da forma que pode. Em vez de ficar “abestalhado com o mundo meio doido que vivemos”, que tal voltar a fazer o que voce sabe, que e’ escrever sobre comida?

    • brunoagostini Says:

      Se o Jobs é fera, e o Mac Donald’s emprega mais de 1,5 milhão de pessoas, o Cartola emociona, emocionou e emocionará muito mais gente do que isso. Cartola é imortal. A Apple, não.
      Sobre o fim do seu comentário, para que eu volte a escrever de comida, me parece que você não conhece nem a cozinha típica pernambucana e nem sabe falar inglês. Cartola é um doce típico do estado nordestino, feito com banana e queijo de coalho com canela. Apple, custo a crer que não saibas, significa maçã em inglês. Portanto, falo de comida.

  3. paula Says:

    Bruno, sou fã dos seus textos e opiniões. Mas dessa vez tenho que descordar. Julgar a comoção do outro menor ou menos importante que a sua me causa estranhamento. Infelizmente não sou do tempo Penafiel. Sou do tempo do Garcia. Neste lugar, me envolvi afetivamente com funcionários e suas histórias, já chorei com eles, já ganhei sorrisos e cafézinhos com o inegualável financier acolhedores. Naquelas mesas eu sentava pra estudar, pra conversar, para afogar mágoas e sim, para tomar um vinho oferecido pelo adorável João Pedro com um delicioso sanduíche de brie. Todos os meus aniversários tiveram tortas do Garcia. Quantos lanchinhos eu comprei pra levar pra casa, quanta gente eu encontrava e ficava por horas ali sentada betando papo. Quanta gente importante na minha vida eu conheci. Entrava ali e me sentia feliz.
    Cada um sabe onde está sua emoção não é mesmo? E acredite, ela não merece ser colocada como boba ou menos válida que a de ninguém.
    Paula.

    • brunoagostini Says:

      Paula, não julgo a comoção de ninguém maior ou menor. Só acho que o garcia não merece tal comoção. Conheço muita gente da equipe, gosto do restaurante, acho ótimos os pães e a rotisseria. Mas, e daí? Perdemos casas muito mais importantes para a cidade, e ninguém chiou. É só isso. E o Penafiel fechou há três anos, portante, você é do tempo do Penafiel, sim. Um abraço

  4. paula Says:

    Perdão, *Discordar.

  5. Luciana Neiva Says:

    Já eu, concordo plenamente. Tá rolando um exagero…

  6. I Says:

    lucina neiva, pf. desenvolva o seu ponto

  7. Luana Rocha Says:

    Bruno, bem-vindo de volta!! Excelente texto, como sempre. Espero ler mais em breve! bjs

  8. Julio Calmon Says:

    Não só concordo. Fico aliviado também de saber que alguém ainda pensa como ser humano. E teve gente comparando Jobs a Lennon. Abraço!

  9. Léo Says:

    se o MD fechar não tem chororô porque não é “cool” comer lá, nem é na dias ferreira, nem custa caro…assim caminha a humanidade (digo, os cariocas…)

  10. Ivan Says:

    Bruno,

    Nobre responder ao meu comentário com educação e bom-humor. Perdoe-me pela minha leve ironia.

    São questões de ponto de vista.

    Aliás, tem uma boa entrevista no Globo hoje com o biógrafo autorizado do Jobs (Isaacson), dizendo que os maiores ídolos do cara são os artistas, Picasso, Dylan, e os Beatles.

    Ele tinha estrela, e como eu disse, comparar com outros gênios é exercício sem resultado, na verdade ele é um criador, humano, errou, copiou, e também se inspirou, e fez coisas geniais, fez arte, do jeito dele, mas fez.

    Ivan

  11. Carlos Alberto Barbosa da Silva Says:

    Acredito que o fechamento desse restaurante, deva ser levado em conta os empregos que serão extintos com o não aproveitamento desses profissionais na nova casa. Pessoas que deram muito de sua vida lá e que agora farão parte da fila de desempregados.

  12. Olivia Says:

    Bom dia, Bruno

    Moro em Salvador, sempre vou ao RJ e frequentava o Garcia & Rodrigues. Procurando uma explicação sobre o fechamento da Casa, dei de cara com seu belo texto. Para mim, uma resposta. Obrigada.

  13. João Luiz Garcia Says:

    Bruno,
    Você havia comentado comigo sôbre sua indignação .
    Faço aqui uma dualidade : agradeço aos elogios a mim , mas discordo da des- importancia do fato que sugeriste.
    Sou autor do projeto em todos os seus niveis, culpado tambem dos seus problemas iniciais.
    O Garcia apesar de seus tantos problemas me deu beneficios de respeito e prestigio que não estavam no programa inicial.
    O conceito em termos de varejo era inedito. Trazia os varios setores que podiam se entrever e multi- focar, trazendo um deslumbramento na largada ao cliente. conseguimos records em retenção na loja de ate 12 horas !!!
    Ancorou o Final do Leblon, que tinha outras caracteristicas em lazer e gastronomia. Hoje sucesso, atingindo valores superlativos em alugueis e luvas comerciais.
    O habito do café da manhã mais caprichado veio dai.
    O primeiro turning point da gastrô carioca deu-se com a turma Danio-Laurent-Claude-Zé Hugo, no inicio dos anos 80.
    Zé Hugo estava devagar, Laurent em Sampa, Claude idem, Danio na Serra e em buffets, e o Rio sofria nos anos pos Brizola, sequestros, favelização, etc… .
    O Garcia foi a virada do fim do seculo XX, uma outra retomada da cidade em termos gstronomicos.
    O Garcia teve um contexto muito mais amplo que o Penafiel, que era algo da época, um remanescente. Escrevi isto ao brtother Joaquim na época. Seu fechamento correspondia a perda da imporatncia do Saara, e dos riscos de se caminhar ate a Senhor dos Passos.
    O fechamento do Garcia é uma ruptura ao sucesso comercial e de entretenimento do final do Leblon. Este trecho da cidade terá que reiventar-se.
    Fui recebido com pompas no Payard em NYC, que me mostrou varias fotos que tirou na sua conceituação. Em Jericoacara, em Belem, tive a mesma ego-tripzinha, meus ” 5 minutos”….
    O Garcia vai morrer pois mataram a célula mater, tiraram o porta- aviões da esquadra, deixando só os navios, as fragatas que não são franqueadas.
    To triste a beça, minha chutada de balde, minha ousadia, meus anos de dedicação juntando cacos, fotos, croquis e ideias. Meu sonho foi-se.
    Me afastaram no inicio de 2000 pela minha incompetencia administrativa , bolei as pizzarias-gourmet e me dei bem, mas os creditos afetivos estavam no Garcia, que uma mistura diábolica que junta desosnestidade, incompetencia conceitual e gerencial, fizeram seu dever de casa, de ontem sepultar.
    Papo longo, aquele abraço. Grato !
    Janjão

    • brunoagostini Says:

      Mas janjão, você é o pai da criança, né? Pai é pai… Não enxergo essa relevância toda, e viva as opiniões divergentes. Um abraço

  14. João Luiz Garcia Says:

    Bruno,
    Escrevi algo ontem e estava postado hoje oela manhã.
    Como tenho que escrever algo para o Shopping Leblon sobre isto, o fim do Garcia,voltei ao seu blog, notando agora que meu ‘post’ não estava mais…
    Fui censurado ?
    Abs, Janjão Garcia

    • brunoagostini Says:

      Janjão, jamais deixei de aprovar um comebntário aqui. Mas quem escreve pela primeira vez passa por moderação, e ontem, dia cheio, não tive como ver o blog. abração

  15. Julio Castello Branco Says:

    Não concordo nem um pouco com o que você disse do Garcia. É um pedaço do Leblon que foi retirado. Era um marco no café da manhã, sem igual no Rio, sofisticado mas sem luxo. Não há outro local de café da manhã no Rio igual ao que foi o Garcia. Mas espero, segundo informações dos novos donos, que o café, a delicatessen, a padaria e a patisserie vão volytar com o mesmo padrão daqui a 4 meses. É um consolo para os fãs.
    Obrigado
    Julio Castello Branco

    • brunoagostini Says:

      caro, frequento o Garcia desde 1997. Mas o seu fechamento não me comove. Tomara que volte, mas se não voltar, paciência. E, a propósito, fica difícil falar em “novos donos”. Em primeiro lugar, já não são novos. Em segundo lugar, os donos não existem, são um grupo de investimentos, que, aliás, tem tentando a todo custo acabar com as marcas que compram. Uma pena.

  16. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

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  17. Pedro Landim Says:

    Boa, Bruno.

  18. Julio Castello Branco Says:

    Ainda bem que Deus criou mentes totalmente diferentes,do contrário o negativismo das pessoas já teria levado esta Terra para o brejo.
    Julio Castello Branco

  19. Yann Says:

    Mesmo muito depois do fato deixo meu comentário……. já foi tarde.
    Pode até ter sido um marco como disse o paipai da criança Janjão, mas ultimamente, estava fraaaaaaco.
    Me desculpem os amantes daquilo lá, mas já era mais que hora. Perdi a conta das vezes que fui péssimamente atendido por lá, não no restaurante que ia muito pouco e onde o João sempre fazia diferença, mas na frente mesmo.
    Até a qualidade e variadade já não eram as mesmas, além dos preços que estavam ridículos
    Para mim não faz a menor falta, tanto que nas outras filiais jamais botei os pés, mas sempre que passo perto não vejo nada relevante gastronomicamente. BTW: o pão era realmente muito bom

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