Archive for novembro \28\UTC 2011

Bar do Rangel, em Teresópolis: pé-sujo de verdade, com pernil, cupim e peito de boi fabulosos, e muito mais

28/11/2011
Na manhã seguinte, a quentinha ja fria com pernil acebolado e farofa de torresmo

No domingo da semana passada, num churrasco na casa de amigos, em Teresópolis, falávamos de botecos bem sujinhos com comida incrível.

Foi então que um convidado começou a listar as virtudes de um pé-sujo no Alto, o Bar do Rangel, ou do Luizinho, como seria mais conhecido (não estou 100% seguro a respeito dos nomes, porque não anotei nem fotografei: não esperava que iria escrever um post a respeito dele, mas estava tudo tão sensacional que preciso dividir com vocês a dica espertíssima). O torresmo era o assunto em questão, e veio à tona depois que eu louvei as virtudes do  Bar do Bigode, em Juiz de Fora, cuja especialidade é o torresmo, servido de três maneiras diferentes: a versão mais comum, para comermos feito pipoca, e perfeito para enobrecer caldinhos de feijão, feijodas e feijões-tropeiros, a chamada tira, uma fatia generosa, com boa quantidade de carne e, por fim, a ponta, a parte mais nobre, espécie de picanha do torresmo. Mas isso pode ser assunto para um outro post. Hoje o tema é  pé-sujo de Teresópolis.

O boteco está na Rua Gonçalo de Castro, mais precisamente no bairro do Ingá, pertinho do Colégio São Paulo, que fica do outro lado da rua. Não tem erro: é o bar que fica na esquina de uma viela, a Vila Santo Antônio, mais conhecida como Buraco da Gata. Você vai ver duas daquelas churrasqueiras que assam as carnes no bafo, uma espécie de varanda coberta, com duas ou três mesinhas, e um pequeno salão. Não tem erro. Repare no aroma. Uma delícia.

Pois assim que cheguei do Rio na sexta-feira passada, fui até lá dar um confere. Pedi uma cerveja e fiquei do lado de fora.

Logo, logo o Luizinho apareceu, não para falar comigo, mas para dar uma olhada nas carnes que assavam desde as 10h da manhã. Eram 14h30 aproximadamente, e elas ainda não estavam prontas, segundo ele percebeu. Tinha peito e cupim. Estava com um cheiro ótimo, misturando aromas defumados e carne gorda assando, que se não soubesse domque se tratava diria ser costela.

Gostei do lugar. Voltei mais tarde, depois de passar em casa e relaxar um pouco na sauna do Comary.

Fui buscar a filha na escola. E lá fomos nós ao Bar do Rangel. Como receberia um amigos em casa, com as filhas, e não estava muito disposto a cozinhar, além da curiosidade a respeito das carnes do Bar do Rangel, decidi encomendar umas coisinhas pro jantar.

Para me decidir entre o cupim e o peito de boi, pedi para provar os dois. Maria também:

– Humm, papai. Tá tão gostoso. Vou querer vir sempre aqui – ela disse.

Claro que eu topei.

Estava tão boas as duas carnes que pedi uma quentinha com metade de cada uma, no capricho. Fiquei tão animado, estava tão gostoso, que fui espiar o balcão, e nele havia uma daquelas vitrines aquecidas. Lá dentro da estufa, uma costela de boi e também um pernil de porco acebolado com aparência fantástica. Pedi os dois, para complementar a janta.

– Melhor levar só o pernil, a costela você prova outro dia, já parecida com o que você está levando – respondeu o Luizinho.

E quem sou eu para discordar?

Então, para complementar, pedi uma porção do tal torresmo que despertou o assunto, quase uma semana antes – sem me lembrar de que a farofa da casa era preparada com torresmo e batata palha, como tinha dito o sujeito, a quem serei eternamente grato por  ter me apresentado a esse boteco, pertinho da minha casa, lugar que nunca tinha chamado a minha atenção.

No fim, quando resolvi que iria saltear as carnes na frigideira na hora de servir, para dar uma esquentada, pedi uma cebola crua, explicando o propósito.

– Ah, posso te dar uma cebola, claro. Mas vamos fazer melhor. Vou capricar na quantidade de cebola do perfil, aí, você usa na hora de fazer o peito e o cupim, que tal?

Não tô dizendo que esse bar é demais!

Assim, foram quatro quentinhas: uma com peito e cupim, outra com pernil acebolado (com muita cebola), uma de torrresmo e outra de farofa. Somando com as duas garrafinhas de cerveja long neck que bebi enquanto esperava o preparo de tudo, mais um Tridents para a filha, e um copinho de Matte Leão, a minha conta ficou em R$ 50.

Até o meu camarada Raul, que jamais tinha provado um cupim, por causa da gordura, acbou experimentando, e adorou.

Comemos eu, a Maria, ele e as suas duas filhas, a Luana e a Bebel. Meu irmão chegou mais tarde, e também fez uma boquinha. Abrimos um Embocadero, belo tinto espanhol, e depois um Brabncaia, um Chianti Classico da melhor qualidade. Carnes tão deliciosas assim, mereciam vinhos à altura. Encerramos com a lúdica bouche de Noel, do Sofitel.

Mesmo alimentando seis pessoas no jantar, ainda assim sobrou pernil (esse tanto que aparece lá na foto do alto deste post, feita em casa, já na manhã de sábado).

Levei para o Rio as duas quentinhas. Para o almoço, esquentei na própria frigideira, liberando o caldo do tempero. Foi um lindo almoço, antes de viajar para a França (Alsácia e Paris). Ficou uma maravilha com uma taça do Santa Cristina 2009, um belo vinho toscano, com ótima relação custo-benefício, produzido pela Antinori.

Ainda sobrou um pouco de pernil e farofa. Antes de sair para o Galeão, dei a dica para o pai de que havia uma joia na frigideira – e mais de meia garrafa do Santa Cristina aberta (e que o vinho ficara maravilhoso com a carne). Também foi o almoço dele. Então, calcula comigo: com R$ 50, apenas R$ 50, cinco aldultos comeram fartamente (três na primeira noite, dois no almoço de ontem), e mais três crianças. Uma pechincha comovente. Vou atender, é claro, o pedido da Maria, para voltarmos sempre.

Entre outras razões, porque há muito a se provar: tem a tal costela, tem o camarão ao alho e óleo, tem o peixe frito…

O Bar do Rangel foi uma das maiores surpresas dos últimos tempos. Absolutamente imperdível.

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Codorna na Brasa cresce e (quase) desaparece, mas agora está melhor que antes

25/11/2011

Bem temperadas e assadas na churrasqueira a carvão, as avezinhas são fantásticas

Codorna na Brasa. O nome nome do lugar é esse, a especialidade da casa é essa. Até dá para pedir uma costelinha de porco, porque é muito boa também, ou quem sabe um galetinho. Mas o que faz desse boteco clássico de Jacarepaguá um recanto imperdível do Rio de Janeiro são mesmo as aves miúdas, servidas com farofinha. Boteco? Recanto? Bem, até pouco tempo o Codorna na Brasa sequer poderia ser chamado assim. Era uma espécie de puxadinho, às margens da Estrada Estrada Coronel Pedro Correia, em Jacarepaguá, logo no comecinho dela, perto do Autódromo. Mas uma das tantas obras que acontecem na cidade vai mexer na via, e acabou empurrando o Codorna na Brasa para os fundos do terreno. Não cheguei a visitar o lugar antes, mas por mais pitoresco e folclórico que fosse, não podia ser melhor. Está mais confortável, seguramente. Tem estacionamento. E continua lotado como sempre, com muitos artistas da TV Globo, porque o Projac não está muito longe dali. Ele cresceu e quase desapareceu da estrada, mas parece bem melhor atualmente.

Para acompanhar, além da cerveja, apenas limão, farofa e vinagrete: não tem talher, é para comer com mão, devorando até os ossinhos

Temperadas com alho, pimenta e ervas, numa fórmula secreta que o dono, o ex-fotógrafo Roberto Jacob jamais revelará, as codornas assam em fogo forte, ganhando uma pele tostada que só torna ainda mais crocante o processo, já que convém comer o bicho praticamente inteiro, devorando também os ossinhos… croc, croc, croc.

A costelinha de porco também é uma ótima pedida

Além das codornas a churrasqueira assa ótimos galetinhos e costelinhas de porco. Vale a pena variar. Mas na Codorna na Brasa a estrela são mesmo elas.

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O Giuseppe Grill e o resgate da maminha

24/11/2011

A maminha do Giuseppe Grill, apresentada em um prato especialmente para ela: delicadeza e suculência

Quando eu era pequeno não havia picanha aqui pelo Rio de Janeiro. A nobreza do churrasco era a maminha, uma carne magra, com uma pequena camada de gordura, e de sabor delicado, macia e suculenta, quando de boa procedência e bem preparada.

Nas churrasqueiras da família, quase sempre provisórias, montadas com tijolos no chão, a maminha era a estrela. Também era esse corte, da parte traseira do animal, um pedaço da alcatra, que mais brilhava quando eu ia com o avô à Churrascaria Carreta da Barra. Se não me falha a memória, foi no Porcão, há uns bons 20 ou 25 anos atrás, que fui apresentado à picanha, que até onde eu sei já era um corte comum tanto em São Paulo quanto no Rio Grande do Sul, mas não no Rio. Gostei. O resto dos cariocas também. E o que foi que aconteceu? A maminha foi deixada de lado.

Mas que pecado…

Pois na segunda-feira, ao almoçar  no Giuseppe Grill do Leblon com Giacomo Neri, dono da vinícola Casanova di Neri, em Montalcino, na Toscana (região com tradição nom preparo de carnes – a bisteca florentina é um clássico da gastronomia universal) eu tive uma imensa satisfação em recolocar a maminha em seu devido lugar de destaque entre as melhores carnes para um churrasco.

Olha só a foto. Só de ver podemos perceber o quanto estava boa. Macia, saborosa, suculenta, no ponto exato de cozimento, com uma casquinha bem tostada e o miolo rosado, cortada finamente. Uma delicadeza. Linda.

Foi uma das melhores carnes que comi nos últimos tempos, e olha que acabara de voltar do Uruguai.

Na próxima vez que eu voltar ao Giuseppe Grill, a picanha, o T-bone, o ojo de bife, a costela de boi, a paleta de cordeiro e a prime rib que me perdoem, mas eu vou mesmo é na maminha. Com farofa. E isso me basta para estar feliz.

Por fim, deixo um link para um bom vídeo do Marcos Bassi, ensinando a preparar esse corte.

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Saindo do forno O Guia do Gosto Carioca

22/11/2011

É com imenso orgulho e prazer que apresento o Guia do Gosto Carioca, que acaba de sair do forno, pela Editora Senac Rio.

Fiquei feliz com o resultado do trabalho, que me obrigou a ficar longe deste Rio de Janeiro a Dezembro pelos últimos meses. Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Selecionei os restaurantes, escrevi os textos, fiz as fotos. Espero que vocês gostem. Acho que ficou bonito e útil, gostoso de manusear, consultar.

Quero agradecer imensamente a Aline Duque Erthal, pela grande ajuda.

Aproveito a ocasião para retomar as atividades do blog – voltando à fórmula original que batizou este espaço. Vamos tratar do Rio, e só do Rio de Janeiro. Cidade e estado.

Claro que podemos cruzar a divisa com Minas Gerais ou São Paulo, em viagens de carro, seja pelas cidades históricas, seja pelo Litoral Norte.

As histórias de viagem decidi concentrar lá no Globo, ao vivo, principalmente na Enoteca, mas também no Blog de Bordo. E, posteriormente, nas páginas do jornal, nos demais posts que às vezes vão ao ar junto com cada edição impresa, reforçando o conteúdo.

Bem, é isso, essas são as novidades.

E vamos em frente!

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Morcilla, mi amor

10/11/2011

A sensacional morcilla do restaurante Fay Fay, no centrinho de Carmelo, no Uruguai,início do meu jantar de ontem

Conheci a morcilla no ano de 2000, na mesma viagem à Argentina que despertou a minha paixão pelo vinho, historinha que já contei lá na Enoteca. Foi amor à primeira vista. Fiquei apaixonado por esse embutido feito de sangua, gordura e temperos, com recheio cremoso, e muito saboroso. Como é bom.

Voltei de Buenos Aires encantado por una chica guapa, pela Malbec e também pelas achuras, os miúdos, assados na parrilla, como os riñones, os chinchilines e, principalmente, a molleja, além da morcilla, por aquila chamada morcela, que também se enquadra nesta categoria, embora não seja um órgão animal, mas um embutido (o mesmo vale para o chorizo, ou a nossa liguiça). Enfim, em um restaurante porteño, quando se fala em achuras estão incluídos esses embutidos.

Riñones, chinchulines e molleja só encontramos, inexplicavelmemte, nos restaurantes argentinos e uruguaios, que não param de surgir em São Paulo, mas infelizmente não no Rio de Janeiro.

Quando voltei ao Brasil naquele ano de 2000 podia matar as saudades da morcilla no antigo El Patio Porteño, na Lagoa, casa agradável que frequentei bastante. Mas não demorou muito a minha farra, logo o lugar fehou as portas.

Fiquei triste, sem ter mais onde comer uma boa morcilla na cidade. A churrascaria Fogo de Chão, para a minha alegria, serve o embutido, produzido artesanalmente em São Paulo, uma verdadeira maravilha, que seria capaz, sozinha, de me levar até o restaurante de Botafogo.

Mas não é todo dia que temos capital (afinal, o rodízio custa uns R$ 100) e fome para encarar um espeto corrido, como dizem no sul.

Daí a minha imensa alegria ao descobrir que o Bazzar está servindo uma receita com morcilla, que entrou no cardápio em homanagem à Daniel Boulud, que esteve no Rio no mês passado. Ali o embutido é servido sobre a ótima mostarda em grãos da casa, ao lado de uma panelinha de batata com cogumelos e alcaparras de virar a cabeça, uma ótima e deliciosa composição. Mas, como se sabe, alegria de pobre dura pouco. No caso, até o fim do estoque, comprado pela Cristiana Beltrão de um catalão que vive em São Paulo e produz artesanalmente as suas morcillas, que estão seguramente entre as melhores que já comi na vida.

– Comercialmente não é um prato viável, brasileiro não come morcela. Mas coloquei no cardápio de teimosa que sou. Então, o prato fica em cartas até acabar o lote comprado, mas ele pode voltar, porque sempre gostamos de mexer no menu, incluindo sugestões – disse a Cristiana Beltrão, que sugere Shiraz, Pinot Noir e naturalmente um bom Malbec argentino para harmonizar com a morcilla.

Já combinei de levar a minha mãe para ir almoçar lá. Eu vou pedir a morcilla, claro.

Tô no Uruguai. Esqueci de pegar uma foto do lindo prato do Bazzar. Na volta, no dia 17, eu atualizo esse post com a imagem, que me faz salivar.

Por enquanto ficamos com esta, tirada ontem, no restaurante Fay Fay, uma das melhores parrilas de Carmelo, no Uruguai.

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