Um carnaval que passou

Como são engraçadas as coisas. Há cerca de 15 anos dizia-se que o carnaval carioca estava morrendo. As escolas de samba faziam desfiles iguais na Sapucaí, e os blocos, bandas e outras manifestações de rua, estavam morrendo. Ali por volta de 1996, com o surgimento do Cordão do Boitatá, e de outras associações, como o Céu na Terra, em 2001, e muitos outros, o carnaval de rua voltou com força. Instituições tradicionais, como a Banda de Ipanema, os Barbas, o Simpatia e o Suvaco se fortaleceram, e os cariocas voltaram a querer passar o carnaval no Rio. E os turistas foram vendo que a folia de Momo no Rio é muito mais que o desfile das escolas de samba. Novos blocos foram surgindo, mas gente foi ficando na cidade, mais gente foi chegando a casa ano…
O fato é que hoje o carnaval de rua no Rio extrapolou todos os limites. Como somos porcos. A passagem de um bloco causa uma devastação digna de cenários de guerra. Guerra entre porcalhões. Passa o samba, fica toda a sorte de sujeira. O fedor é indescritível. Não há banheiro químico que dê jeito. Pior é ver que o consumo de cerveja é incentivado nesses blocos, combustível para mijões, brigões e outros idiotas.
Ao menos temos os blocos matinais, mais tranquilos, com clima de baile de clube, com  famílias reunidas, confete e serpentina, um ar de alegria, com as pessoas fantasiadas. Mas conforme o dia passa, a selvageria toma conta das ruas, homens bêbados agarram à força mulheres cambaleantes, gente vomita pelos cantos, alguns caem na sergeta, muitos são furtados, e não faltam brigas, garrafas quebradas… Um caos.
Por outro lado vemos o nascimento de novos blocos, com novas propostas. E essa onda de agremiações temáticas, tocando repertórios conhecidos e variados, de Beatles, Roberto Carlos, Wando e Raul Seixas, por exemplo, para citar os mais famosos e interessantes, é uma fórmula divertida, que tem a cara do carnaval. Grande bola dentro foi o surgimento do bloco Timoneiros da Viola.  Assim como é boa a ideia de migrarem alguns blocos para lugares mais abertos.
Precisamos de mais banheiros, e de mais policiamento, para prender mesmo quem mija na rua. Precisamos de menos vendedores de cerveja, e de mais organização do trânsito. Precisamos de mais educação, de mais campanhas de educação, de mais lixeiros no fim de cada bloco, e de mais lixeiras durante dos desfiles.
Esse ano, pela primeira vez, não fui a nenhum bloco. Estava num clima totalmente off-carnaval, aproveitei para descansar, relaxar. Espero no ano que vem estar mais animado com a festa. Mas esse foi um ano de reciclagem.  Quero ir aos blocos pela manhã, curtir um baile ou outro e voltar à Sapucaí, mas não para trabalhar.
Porque o desfile das escolas de samba, depois de um longo período marcado pela monotonia, parece estar melhor a cada ano. As escolas estão cada vez mais ousadas, com propostas diferentes, fazendo lindos carnais, marcados pelo equilíbrio. Ao mesmo tempo parece que os bicheiros estão se afastando definitivamente das escolas de samba (será?  Tomara). As obras que aumentaram o Sambódromo fizeram um bem danado, aumentando a capacidade e, por consequência, o calor humano.
As escolas fizeram bonito. A paradona histórica da Mangueira, com um samba que colou, cantado lindamente pelos componentes e peas arquibancadas, em maravilhosa comunhão. Tivemos o desfile antológico da Vila Isabel, falando de Angola, evocando a mística de Kizomba, um dos desfiles mais espetaculares da História. Vi a Portela renascer, fazer da águia uma fênix, e ser novamente, depois de anos, candidata ao título, com um enredo fabuloso falando de Clara Nunes, lembrando ainda outro desfile antológico da azul-e-branco de Madureira, em 1984, misturando a mesma cantora com Bahia, Paulo da Portela e Natal Quem não se lembra dos versos: “É cheiro de mato/ É terra molhada/ É Clara guerreira/ Lá vem trovoada  (eparrei!)”. Quem não lembra? A Unidos da Tijuca, e Paulo Barros, fazendo mais um desfile marcante, cheio de bom humor e irreverência, um show inteligente e bonito, surpreendente. O Salgueiro também foi com tudo, num desfile cheio de garra, lindo. Vimos duas escolas queridas, a União da Ilha e a São Clemente fazerem desfiles lindos. Vimos a Beija-Flor e a Grande Rio novamente apostarem em desfiles técnicos, belos e consistentes (que não me emocionam, mas preciso reconhecer o seu valor). Enfim, acho que foi lindo.
Para mim, a Mangueira não ganha, porque acho que vai perder uns pontos importantes em harmonia e bateria por conta da paradona (se não perder, pode ganhar).
É preciso reforçar que sou mangueirense, com imensa simpatia por muitas escolas (Portela, Império Serrano, Salgueiro, Unidos da Tijuca, União da Ilha, especialmente essas), mas para mim hoje ca campeão desse carnaval deveria ser a verde-e-rosa. Para mim, a ordem deveria ser essa:
1: Mangueira
2: Unidos da Tijuca
3: Vila Isabel
4: Portela
5: Salgueiro
Com o Império Serrano completando o time de escolas escalado para o Desfile das Campeãs, no próximo sábado. Lindo desfile, em homenagem justíssima a Dona Ivone Lara, essa Deusa do samba, majestade da Serrinha, Rainha dos terreiros.

No mais… acho que nos próximos anos vai sempre ter confusão no desfile de São Paulo. Só assim eles chamam a atenção…

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8 Respostas to “Um carnaval que passou”

  1. Evelyn Says:

    Putz, Bruno!! Tá a fim de polemizar novamente??? rsrrsrsrsrsrrs… Deixe nós, paulistanos, enfrentarmos nossa vergonha sozinhos…

  2. Evelyn Says:

    Vixe, erro impagável… Reescrevendo: Deixe-nos, os paulistanos, enfrentarmos nossa vergonha sozinhos!!
    Beijo

  3. Jorge Says:

    Bruno, para quê esse final cara? O post estava ótimo, perfeito, totalmente de acordo.
    No final, essa história desnecessária novamente….
    Acho que já está ficando sem propósito não acha?

    • brunoagostini Says:

      Pô, Jorge, hoje foi apenas ironia… Não dá para ver que é só uma brincadeira? Acha mesmo que eu acredito que vai ter confusão todos os anos só por causa disso? Um abraço

      • brunoagostini Says:

        Caro, olhe a notícia que o Ancelmo passou:
        Ancelmo.Com @Ancelmocom

        · Open

        Faz sentido.Tumulto em apuração das Escolas SP rendeu 21 pontos à Globo. A maior audidiência do Carnaval paulista, até então, foi 17 pontos.

  4. Caio Says:

    Final perfeito Bruno.

  5. Gracie Says:

    Por tudo que vc relatou – em especial nos dois primeiros paragráfos – me mandei pro Vale do Matutu. Depois de 11 anos no Carnaval do Rio, me afastei e não me arrependi!

  6. pedro simões Says:

    poxa… tantos pontos de convergência na gastronomia e no carnaval… só mesmo o excelente desfile do império no acesso. a paradona da mangueira foi constrangedora. pela primeira vez, em 20 anos acompanhando os desfiles da sapucaí, vi uma escola atravessar. sim, atravessar como nos tempos dos desfiles da rio branco, da presidente vargas… a vila isabel foi soberana, incrível, carnavalesca, linda, vibrante. esta sim, garfadíssima por um desfile insosso da tijuca.
    abraços!

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