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Leiteria Mineira: ontem, hoje e amanhã, um clássico carioca

03/02/2012

Não sei quantas leiterias havia no Rio de Janeiro no começo do século passado. Desconfio que eram muitas. Sei que na virada do milênio, havia duas. Hoje, só sei de mais uma. Uma pena. Leiterias eram lugares que serviam cafés da manhã e almoços para a turma do Centro, de segunda a sexta, abrindo ali pelas 7h e fechando por volta das 18h, acompanhando o horário comercial da cidade.


Lembro-me perfeitamente do dia em que meu pai me levou para almoçar na Leiteria Mineira, casa que funcionava no edifício Avenida Central, em frente ao trabalho dele, advogado do BNDES. Isso deve ter, pelo menos, 20 anos.
Nesse mesmo almoço ele comentou a respeito de outra leiteria, essa instituição tão carioca que vai se perdendo: era a Leiteria Silvestre, instalada não muito longe, no número 115 da Rua São José. Nas visitas que fazia ao pai nos anos seguintes, estivemos mais algumas vezes juntos almoçando ali. Depois, a Leiteria Mineira se mudou para quase defronte, do outro lado da Avenida Rio Branco, instalando-se onde está hoje, no número 35 da Rua da Ajuda.
Já faz um bom tempo que a Leiteria Silvestre fechou as portas, uns dez anos, sufocada pelo fast food, pelos restaurantes a quilo, pelos nossos recentes maus hábitos alimentares.

Mas a Leiteria Mineira segue firme e forte, lotada no almoço de segunda a sexta, além de servir café da manhã (coalhada com ameixa, mingau de aveia, creme de maizena, arroz doce, coalhada e torradas Petrópolis). À tarde, há quem vá tomar um belo milk shake. Aproveitei uma reunião ali por aquelas bandas, mais precisamente no prédio vizinho, e fui comer rever o cardápio da casa.

Escolhi a “vitela assada com gnocchi”, apesar da advertência do garçom de que não se tratava de bezerro, mas sim de carne de peito de boi assada (por que não chamar de carne assada, então?), já que adoro esse corte, quando bem preparado.
Ele não demorou mais que dois minutos para trazer o meu prato. A carne assada estava mesmo ótima, saborosa, com tempero correto, uma delícia. Era o seu molho espesso que salvava o nhoque do fiasco completo, porque era massudo e grosseirão, faltava sabor. Mas com um pouco do molho, e um punhadinho de queijo ralado, dava para encarar.

Encerrei com um pudim delicioso, com gostinho de casa da avó.
Agora quero ir pela manhã, para provar o creme de maisena (servido com ameixa) que meu pai tanto falou bem quando puxei assunto com ele sobre a Leiteria Mineira. Onde mais comer mingau no Rio?
E na semana que vem aproveito uma consulta médica perto dali e volto para o almoço. Pode ser que peça a dobradinha à moda do Porto, que estava muito bonita, circulando pelo salão com boa frequência. Ou quem sabe, dependendo do meu estado de espírito, escolho a carne moída com um ovo e arroz. Também posso seguir a sugestão que me fizeram, e apostar no estrogonofe. Há boas chances, ainda, de escolher uma língua (com purê, provavelmente), um picadinho à moda indiana (feito com curry, é claro), ums costelinha de porco com feijão preto, arroz e farofa à brasileira, ou, ainda, um bom filé à Oswaldo Aranha. Sei lá, ainda que remotas, há alguma possibilidade de eleger o camarão com chuchu, em homenagem a Carmem Miranda. Sim, eu também “sou do camarão ensopadinho com chuchu!”, assim mesmo, com ênfase no vegetal que dá na serra. Não descarto, ainda, pedir um filé com dois ovos, com uma porção extra de fritas, outra de alho frito e, dependendo da fome, até uma farofinha. Pretendo encerrar com uma goiabada com queijo Minas. Ou que tal uma banana split?
Não sei o que vou pedir. Sei que vou viajar em lembranças antigas.

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Agora, o cardápio (basta clicar nas fotos para elas aumentarem de tamanho, facilitando a leitura).

Café da manhã.

Almoço, parte 1.

Almoço, parte 2.

Sobremesas etc.

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Ponte aérea gastronômica: porque comemos melhor no Rio do que em São Paulo

02/02/2012

Nelson Rodrigues era mesmo um gênio. Quando ele cunhou a frase “toda a unanimidade é burra” ele não criou apenas um dos grandes pensamentos da cultura brasileira, mas da humanidade. Quando leio ou escuto a ideia de que “se come melhor em São Paulo do que no Rio”, imediatamente me vem à cabeça a sábia frase.

A ela associo outras: “Uma mentira contada mil vezes acaba virando verdade” é uma delas.

Pois é…

Quando muita gente grita a mesma coisa, é quase certo que estão erradas. Desconfie sempre desses comportamentos. Essas “verdades absolutas” geralmente não passam de grandes mentiras.

Outro dia, pelo Facebook, que virou um dos grandes palanques desses estranhos tempos modernos, eu li de uma jornalista paulistana que vive alhures a seguinte frase, que além de hipérbole, é mentirosa, vazia e, como metáfora, de uma pobreza inacreditável: “O Rio é um Saara gastronômico”.

Ela quis dizer que a cidade é um deserto em termos de boa comida. Genial!

Depois, a emenda ficou pior que o soneto, ao me responder, quando discordei dela: “para resumir o q penso do q vc diz é q não dá nem pra começar a discutir isso”.

Como assim? Não dá para discutir? Há quem duvide que 2 mais 2 sejam 4, como dizer que “nem dá para começar a discutir isso”. Isso parece aquela mãe, que diz para o filho: “Isso não pode porque não pode”. Ou o sujeito que não come jiló: “Não gosto porque não gosto”.

Como mal ela frequenta tanto o Rio quanto São Paulo, porque é “globetrotter”, é estranho que uma pessoa assim possa fazer esse tipo de juízo de valor. Mas faz. Como tanta gente faz. Muitos dos que dizem que “se come melhor em São Paulo do que no Rio” jamais estiveram nas duas cidades, e muitos menos cumpriram qualquer roteiro gastronômico em ambas. Mas afirmam categoricamente. É um comportamento de manada. Jornalistas, críticos gastronômicos e outros desajustados não são bois, mas às vezes se comportam como tal: é mais confortável trabalhar com conceitos consagrados, com menores chances de serem contestados. É mais fácil, menos trabalhoso, e isso expõe menos a gente. Difícil mesmo é ter opinião própria, discordar das massas.

Já estava há algum tempo para escrever sobre isso. O comentário de ontem foi só a deixa.

Não é preciso muito esforço para ver que, de uma maneira geral, come-se melhor, e até mais barato (apesar dos preços dos alugueis), no Rio do que em São Paulo. A cidade tem quatro restaurantes com três estrelas do Guia Quatro Rodas, contra dois de São Paulo (e a Locanda perdeu a terceira no ano passado, depois da saída do Danio, e apenas por isso, e não pela qualidade da comida). A melhor chef em atividade no Brasil, a que apresenta o trabalho mais consistente e atento ao que acontece no mundo, uma cozinha empírica, emotiva e surpreendente em toda a sua simplicidade, é Roberta Sudbrack, que fincou raízes ali no Jardim Botânico. O maior revolucionário da gastronomia do país é Claude Troisgros, que chegou ao Rio no fim dos anos 1970 e não mais saiu: virou rubro-negro, teve restaurante em Búzios e virou estrela de TV. Não preciso falar muito a respeito dele. E ainda tem o Danio Braga, que ensinou, via Rio de Janeiro, o brasileiro a beber vinho e comer bem, muito bem. Quer saber quel é o melhor restaurante do Brasil? Na minha humilde opinião, o Le Pré Catelan, do chef Roland Villard, ali em Copacabana, no Sofitel.

Aqui, veja bem, estamos tratando apenas de alta gastronomia. Não falamos simplesmente de comida boa. O time de restaurantes antigos e tradicionais do Rio tem uma importância fantástica na história dos sabores brasileiros. Difícil traçar paralelo com outras cidades.

Outra dessas bobagens que se diz é que São Paulo tem mais “tradição gastronômica” que o Rio. Meu Deus… As pessoas se esquecem que ali no comecinho dos anos 1980, quando os paulistas estavam habituados apenas às suas cantinas antiquadas, bebendo Chianti ordinário, o Danio Braga já estava aqui com o seu Enotria, e fundando a Associação Brasileira de Sommeliers, a ABS. Esse povo de memória curta (ou memória condicionada aos seus interesses) não se lembra que antes disso, ali no fim dos anos 1970, quando o Claude Troisgros já arrepiava as panelas cariocas, em Copacabana, os paulistas ainda acreditavam que cozinha francesa era petit pois, champignon e, vá lá, um tornedor au poivre. As pessoas se esquecem de tudo isso. E ainda tem o Paul Bocuse, né?

E o melhor boteco? Poderia citar uns dez no Rio antes de chegar a alguns em São Paulo (Bar Leo, quem sabe…) que esteja no mesmo nível (e que não imite os botecos cariocas). Aquela papo de chope gourmet, por exemplo, é um desses equívocos… Tem gente que acha ótimo. Pois é…

Instituições como o Nova Capela, o Cosmopolita, o Bar Brasil, o Adonis, o Amendoeira, o Rio Minho, o Lamas, o Paladino e alguns outros não encontram paralelo em São Paulo em termos de charme, história e boa cozinha, comida à moda antiga, sem espaço para chefs vaidosos. Eu adoro, mas você pode achar ruim.

Ela diz que no Rio não tem bons “comedores”. Hummm, que frase estranha. Tenho uma piada para isso, que me foi contata por um paulista, aliás, mas prefiro ficar com ela para mim, porque esse é um blog de comida, e não de gracinhas, embora bom humor seja sempre ótimo, em qualquer lugar: numa cozinha, numa sessão plenária do STF ou na beira de praia.

Bons comedores???????????

Pior foi o título do post no Facebook, que deu origem a tudo: “Com sorte, o Rio de Janeiro – Saara gastronômico se comparado a SP – ganhará um restaurante de alto nível….” Pois então quer dizer que se o chef carioca escolher o Rio para abrir um restaurante é sorte da cidade??? Rá rá rá. Não seria o contrário, sorte dele abrir um restaurante no Rio de Janeiro em vez de São Paulo? Eu penso que sim… Deprimente é o depoimento do rapaz, que parece que não sabe nada…

Bem, é fácil perceber que não apenas na cidade, mas no interior e no litoral do Rio, come-se melhor que nos equivalentes paulistanos. Basta contarmos as estrelas do Guia Quatro Rodas, que é principal referência no assunto no Brasil (edição feita por paulistas, que se diga), para constatar que Petrópolis (e também Visconde de Mauá) tem muito mais estrelas do que Campos de Jordão, e Paraty e Búzios têm o mesmo desempenho em relação a Ilhabela e Ubatuba, ou seja lá com que cidades paulistas você queira comparar… Aliás, as únicas cidades do Brasil fora as capitais com restaurantes cotados com duas estrelas são Petrópolis, Teresópolis, Visconde de Mauá e Guarapari, essa última no litoral do Espírito Santo.

Enfim…

Sem falar que o Murakami, o Atala, a Helena Rizzo, os três principais chefs de São Paulo, estão doidos para vir para o Rio. E ainda tem o Paulo Barros, e tantos outros. Duro vai ser voltar para lá depois. Vão acabar ficando por aqui. Mas por que será que o contrário não acontece? Posso imaginar…

À certa altura, ela escreve: “os próprios chefs cariocas (ou radicados no Rio) q vc cita sao os primeiros a se frustrarem c a falta de bons restaurantes e bons COMEDORES no Rio. Ponto.”

Mas o quê?

Dá vontade de rir, mas fico preocupado com a irresponsabilidade da moça ao fazer o comentário. Ela deve ter as fontes dela, e talvez tenham dito algo do gênero, ou ela não soube decodificar a mensagem. O que eu ouço de donos de restaurantes, enólogos e hoteleiros, aqui no Brasil e em outros países, é justamente o contrário: que paulista gosta de esbanjar, e pagar caro por coisas ruins, e gosta de mostrar que está gastando muito dinheiro, e que o carioca é mais discreto, chique e elegante, que usa melhor o seu dinheiro, que bebe melhores vinhos, que tem mais conhecimento gastronômico. Será que eles dizem isso por que sou carioca? Talvez… Mas concordo com eles inteiramente.

Agora, é claro que em termos de diversidade e quantidade, não dá para competir. É provável que São Paulo tenha uns 30, 40 restaurantes realmente muito bons. O Rio pode ser que tenha uns 25, 30. Mas sempre vai ser assim: São Paulo é três vezes maior… embora seja dez vezes menos importante no cenário internacional.

Você pode até achar que se come melhor em São Paulo que no Rio. Mas não queira que eu concorde e nem deixe de me manifestar. Tô aqui para isso. Para falar do Rio, de comida, de viagens, de vinhos. Dava para escrever muito mais sobre o assunto, mas acho que o post está bem grandinho. E o sol está lindo lá fora, convidando a um mergulho. Lá vou eu. Até porque, é Dia de Iemanjá. Dia de festa no mar.

Dizer que “se come melhor em São Paulo do que no Rio” é moleza. Difícil é o contrário. E daí? Eu digo. E olha que sei do que tô falando…

Mas isso é só uma opinião, a minha opinião. Até prefiro que a sua não seja igual. Como dizia, porque toda a unanimidade…

ATUALIZAÇÃO:
Não Sou apenas eu. Estamos dando uma nota no site do Boa Viagem, com as listas de melhores do ano de 2011, segundo os leitores do Trip Advisor. Na lista de melhores cidades gastronômicas das Américas do Sul e Central, Buenos Aires ganhou e o Rio ficou em nono lugar. E São Paulo??? Sequer aparece na lista… Como bem disse a Fernanda Dutra aqui do meu lado: “Nem é você, são milhões de leitores do Trip Advisor que estão dizendo”. Pois é… 🙂
http://www.tripadvisor.com/TravelersChoice-Food-cTop10-g291958

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Casa Carandaí abre as portas no Jardim Botânico: pão pão, queijo queijo (e muito mais)

01/02/2012

Como eu dizia na segunda-feira passada
Não param de abrir boas novidades no cenários gastronômico carioca. Depois do Quadrifoglio Caffe, do Irajá, do Vieira Souto, da  Bottega del Vino e do Brigite’s, é a vez da Casa Carandaí, inaugurada ontem na rua Lopes Quintas, no jardim Botânico, pelo casal Nick Cartolano e João Luiz Garcia, o Janjão, donos do Lorenzo Bistrô, a poucos passos dali, nessa mesma rua, esquina com Visconde de Carandaí (sacou de onde veio o nome da nova casa?).

Nova casa mesmo. A Casa Carandaí funciona numa agradável casinha antiga.

É uma Deli com “D” maiúsculo, embora não seja muito grande. Mas tem tudo o que precisamos: padaria, rotisserie, uma ótima seleção de produtos gastronômicos e de rótulos de vinho.

Um dos destaques é uma câmara de maturação de queijos, a primeira desse tipo que se tem notícia por aqui (pelo menos em estabelecimento comercal).

Ali ficam alguns exemplares muito especiais, produzidos aqui mesmo no Brasil.

Agora, um close em parte dessa maravilhsa oferta que valoriza os nossos produtos.

Um dos destaques é esse Canastra aí de cima, que com a maturação ganha em sabor, ficando com mais intensidade. Como esse eu já conheço bem, deixei para uma próxima vez, preferi investir em novidade. Então, comprei dois queijos: um mineiro, o Serra do Salitre, e um paulista (cujo nome não me recordo, e eu achei uma delícia, e uma pechincha, porque custa R$ 22 o quilo: “mais barato que queijo prato”, lembra o simpático atendente), que aperece na primeira foto dos queijos, aquele embrulhadinho em papel.


No setor de rotisserie encontramos uma boa seleção de pratos prontos, como saladas,…

…quiches, terrines…

…e até pato confit embalado à vácuo,…

…além de massas frescas que só precisam ser cozidas repidamente e molhos para elas.

Eu comprei um polpetone, uma quiche de espinafre com ricota, devidamente degustadas (muito boas) na lanchonete do jornal, esquentadas no microondas) e dos dois queijos já citados.

Nessa mesma linha encontramos um belo frango assado, que a julgar pela aparência e  perfume, está entre os melhores exemplares dessa clássica refeição aqui pela cidade do Rio. Só senti falta da farofinha, e não me lembrei de perguntar se tinha.

A padaria promete, e confirma a vocação do jardim Botânico como celeiro de muitos dos melhores pães da cidade, porque afinal ali estão a Escola do Pão, a la Bicyclette e também o Le Pain du Lapin.

Provei quatro pães, e achei todos ótimos, com destaque para o chamado “da casa” (o segundo da esquerda para a direita na foto acima, que mostra os exemplares disponíveis para uma provinha) …

…e da baguete, saborosa e com casquinha crocante, como gostamos (comi um belo pedaço, sem manteiga nem nada, com grande prazer, imaginando como seria aqui quentinho, com um belo pedaço de manteiga derretendo por cima)

A seleção de azeites, acetos, conservas variadas, queijos, embutidos,…

…carnes curadas e…

…outras gosturas é bárbara.

No mezanino temos o setor dedicado aos vinhos.

Com uma espiadela rápida, vi muitos rótulos interessantes.
Provavelmente a partir de março vai funcionar, nos fundos, um café, com mesinhas espalhadas em um terraço.
Tem tudo para dar certo.
Eu adorei.

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