O cerco aos vinhos importados, e a nossa grandeza gastronômica ameaçada

O Brasil precisa tomar vergonha na cara. E o que tem a ver “o cerco aos vinhos importados, e nossa grandeza gastronômica ameaçada”, você pode se perguntar. Muita coisa. As duas coisas mostram como estamos atrasados. No momento em que começamos a fazer bons vinhos, com grandes empresas produzindo e exportando uma gama variada e consistente de estilos ao mesmo tempo em que surgem sem parar pequenas vinícolas, espalhadas por várias regiões, do Sul ao Nordeste, também andamos para trás, ameaçando essas mesmas conquistas. Num movimento orquestrado pelos gigantes do setor, o selo fiscal é mais um empecilho ao consumidor, inibindo a entrada de vinhos importados, um suplício para importadores e pequenos produtores, entrave burocrata e fiscal, uma tolice total. Não satisfeitas, Miolo, Salton, Valduga e companhia limitada agora tramam mais um golpe no enófilo, lutando pela aprovação de mais medidas contra a entrada de vinhos importados no Brasil, com aumento de impostos, salvaguardas etc.
Não aguentamos mais. E já está sendo organizada uma petição pública contra a medida (para ver, clique aqui).
O mundo do vinho está em polvorosa, e pipocam vários e-mails na minha caixa postal, com toda sorte de protesto.
Agora, faço o meu.
Vários movimentos estão se articulando para ir contra essas medidas todas. O que se passa no vinho, se passa igualmente com a gastronomia. Num momento em que todos olham para o Brasil, não conseguimos desenvolver como deveríamos a nossa rica gastronomia. Nossos restaurantes são os mais caros do mundo. É impressionante como pagamos caro muitas vezes para comer mal.
Estamos a anos de distância de outros países. A cozinha peruana é a bola da vez. Vejo casas de carne argentinas espalhadas por cidades dos EUA e Europa. Mas e o Brasil? Nada. Temos chefs se destacando, porque são guerreiros. Ser chef no Brasil é um ato de amor. Roberta Sudbrack, Claude Troisgros, Helena Rizzo, Rodrigo Oliveira, Paulo Barros, Luca Gozzani, Claudio de Freitas, Roland Villard, Alex Atala, Katia Barbosa, Frederic de Meyer, Kiko Faria, Felipe Bronze e tantos outros. Admiro essas pessoas. Lutam contra um sistema medonho, antiquado, colonizado, ignorante. Brasileiro não come miúdo. Brasileiro tem paladar distorcido, que valoriza os sabores doces, fáceis. As pessoas não comem mariscos. Jamais vão ter coragem de comer rins de vitela, ou chinchulines, ou jiló, e mesmo coisas simples e usuais, como cenoura, brócolis, são odiados pela maioria da população. Temos preconceito à mesa. Brasileiro gosta mesmo é de bife com fritas, big Mac e Coca-Cola. Infelizmente. Vejamos nossas feiras, que horror. Pouca oferta, e ninguém se preocupa com a sazonalidade dos produtos. Aos poucos vamos mudando, mas o ritmo é mais lento do que deveria. Nossa carne melhorou, e hoje até produzimos rúcula, aspargos frescos e cogumelos (parace piad, mas até pouco mais de dez anos atrás não havia nenhum dos três ingredientes por aqui: aspargos e champignon? Só conservas medonhas. Palmito idem). Sonho com o dia em que teremos restaurantes simples servindo robalo na brasa com palmito assado, farofa e arroz com coco fresco. Salivo imaginando baianas de acarajé perfumando as esquinas do Rio com aroma de dendê. Fico imaginando como seria bom ir à feira e comprar uma posta de filhote fresco, pescado ainda ontem nas águas escuras do Rio Negro. Seria muita utopia pensar em vieiras de Ilha Grande, ostras de Búzios, lagosta do Ceará, pitu de Paraty, tainha de Florianópolis, sururu do Recôncavo Baiano, pescada-amarela do Maranhão, surubim do Rio São Francisco e tantos outros pescados maravilhosos que habitam a nossa costa, seria demais querer comprar esses produtos frescos nas nossas feiras? Acho que não. Aviú, tucupi, paçoca de carne-seca, queijo Canastra, socol capixaba, farinha de puba do Maranhão, . Minha gente, vamos provar lombo com broto de samambaia, como em Diamantina, Minas Gerais. E pamonha de linguiça com queijo, lá de Pirenópolis, Goiás, e os doces de Goiás Velho (bênção, Cora Coralina). Doce de abóbora com coco, doce de mamão verde, goiabada cascão, em caixa, claro… e com queijo, por favor. Doce de espécie, bolo de goma… Pirarucu, tambaqui, jaraqui, matrinxã, tucunaré…Catado de aratu na folha de bananeira. Dendê da Bahia de Todos os Santos, leite de coco fresco feito na hora. Pimenta malagueta, coentro. Pimenta de cheiro, murici, aroeira… E as frutas? Bacuri, siriguela, açaí… Frango com quiabo, maxixada, jabá com jerimum, sarapatel, galinha cabidela, chouriço… Chambaril. Guaimum.Tapioca. Requeijão. Manteiga Aviação. Vamos provar o manuê de bacia, o camarão casadinho, e ensopado de peixe com banana verde, de Paraty. Entrevero, sapecada… o pinhão. Bolinho de tubalhau, marisco lambe-lambe, pititinga, lambreta. Unha de caranguejo, caranguejo toc toc. Moqueca de siri mole. Pé-de-moleque, curau, mungunzá, canjica. Quentão, vinho quente, aguardente. E ver que o acarajé fica muito mais rico quando servido com caruru, não só com vatapá. Prove uma buchada de bode bem feita. E não tenha medo da linguiça picante de Bragança Paulista. Já provou xinxim de bofe? Certa vez, a baiana Dadá me serviu um. Deliciosamente inesquecível. Filé à Oswaldo Aranha, sopa Leão Veloso. Arroz de cuxá, tacacá, . Virado à paulista, tutu à mineira, churrasco à gaúcha, empadão goiano, moqueca capixaba… Lambari frito. Pudim de cachaça. E o cortado de palma, pirão de parida, godó de banana, receitas dos sertões, de nomes tão gostosos assim. Matula. Afogado, barreado. E os diminutivos? Escondidinho, arrumadinho, picadinho… Costelinha com canjiquinha, lombinho, camarão ensopadinho como… Chuchu. Caipirinha! Quanta delícias miúdas. Moela no molho de tomate, língua ao Madeira, dobradinha à moda do Porto… A grandeza dos miúdos. Bolo de rolo, queijo coalho de leite cru (com melado, por favor), queijo-manteiga. Caldo de piranha, lombo de jacaré, delícias pantaneiras. Pintado à urucum, e o famoso “hipoglos”, também chamado pacu assado. Cachaças, tiquiras… espíritos do Brasil. Vamos valorizar o que é nosso. Vamos levar a sério o que comemos e o que bebemos. Este ano o Peru será o primeiro país do mundo a ter um ministro da Gastronomia. O embaixador, sabemos, já existe há uns 15 anos, Gastón Acurio, quando a cozinha andima começou a ganhar destaque pelo mundo, apresentando produtos autênticos, receitas de personalidade, valorizando ingredientes locais. Por aqui, não podemos nem trazer queijo de minas feito com leite cru, como mandam as regras mais básicas da produção de laticínios de qualidade. Peixe fresco do Amazonas? É raro mesmo em Belém e Manaus, imagine por aqui… Mônica Rangel, do Gosto com Gosto, em Visconde de Mauá, produz linguiças fabulosas. Não pode vender para outros estados. Para alguém produzir linguiça com selo de inspeção federal precisa ter uma fábrica com entrada para caminhões… Para que, meu Deus? Muito claro, para proteger os gigantes do setor. Assim, vamos. Criando latifúndios que só produzem commodities, sem qualquer valor agregado, sem mão-de-obra relevante, com trabalho mecânico. Café, cacau e outros produtos que já foram referências brasileiras hoje são uma vergonha. Quem entende do assunto sabe que o cacau bom mesmo vem do Equador, e o café, da Colômbia. África, Caribe e América Central dominam, quando o assunto é qualidade, algo que um dia já foi nosso. Vejamos os pequenos produtores rurais da estrada Teresópolis-Friburgo, que cultivam lindos campos, repletos de alface, rúcula, couve, cebolinha, salsinha, e tantas outras folhas, e muitos outros legumes: cenoura, pimentão, beterraba… O que acontece ali? Eles vendem baratinho para grandes atravessadores, que descem a serra todos os dias abarrotados, ganhando mil por cento com o trabalho. Se pagam R$ 0,10 o pé de alface, vendem por R$ 1, e nós pagamos R$ 2. Não existe incentivo. Ninguém ensina a essas pessoas que se eles platarem beringelas e pimentões eles podem produzir uma linda caponata, e vender a preços mais razoáveis. Podem ganhar mais dinheiro. Não, ninguém ensina. Eles ficam ali, vendendo pés de alface a R$ 0,10… O Brasil, lamentavelmente, é assim…
Mas há esperança. Vamos começar ajudando a acabar com esse selo fiscal, e com mais esse vergonhoso imposto querem nos meter goela abaixo?

 

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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10 Respostas to “O cerco aos vinhos importados, e a nossa grandeza gastronômica ameaçada”

  1. leilabf Says:

    Esse texto merecia estar na primaira pagina de um jornal e na mesa dos nossos dirigentes, parabens, Leila Figueiredo

  2. Lica Says:

    Nossa, vc falou tudo. Eu não entendo esta palhaçada. Em relação ao vinho, a maioria das pessoas que conheço não consomem vinho nacional por puro preconceito, pois acham que a qualidade é inferior (e o preço exorbitante). Eu curto bastante alguns vinhos nacionais (Pizzato, Lidio Carraro, Dom Laurindo entre outros que não me recordo agora) e até dou preferência a eles, mesmo quando posso ter qualidade semelhante e menor preço em vinhos de outras nacionalidades. Acho o melhor caminho era dar aos produtores nacionais incetivos fiscais para que eles possam diminuir o preço e brigar em igualdade de condições, mas …. Bom, como protesto, deixarei de consumir os produtos das empresas citadas. Abraço grande e que a gente consiga impedir este absurdo.

  3. Ivan Londres Says:

    Bela mensagem. Belo “wake-up call”. A cadeia é muito cruel. Os alimentos processados, a reserva de mercado e a exploração dos pequenos produtores estão evidentes e todo mundo (aparentemente) vive bem com isso, é uma contra-cultura, uma inércia, leniência. Isso é um problema de saúde pública. Só a quantidade de sal que nos empurram goela abaixo já justifica. Compre um kilo de acém moído e faça vc mesmo os melhores, mais baratos e mais nutritivos hamburgers. Quanto aos vinhos, é mesmo uma palhaçada, isso sem falar do abuso de poder do ministério da agricultura, que aleatóriamente e ilegamente segura remessas nos portos…

  4. Jorge Roberto Khauaja Says:

    Bruno,
    Parabéns pelo artigo, é o início de uma longa discussão que vai muito além de barreiras protecionistas a um único produto.
    Acho que passa pelo regionalismo ainda muito forte (“gaúcho só gosta de carne”, “no nordeste só se come peixe”, etc.), preconceito dos restaurantes – quantos tem uma real carta de vinhos nacionais?
    Mudar isso é um trabalho que passa por diversas ações, desde melhorar a educação alimentar do público consumidor, passando pela liberdade total dos mercados até derrubar o lobby dos grandes.
    Abs,

  5. Paulo Nicolay Says:

    Parabéns Bruno, é isso aí!!!…..será que um dia chegaremos lá ?….eu as vezes perco a esperança, pois só vejo as coisas andarem na contramão!

    Abs..

  6. Kamila Ferraz Says:

    Ótimo post Bruno. Eu já assinei a petição e estou fazendo propaganda com meus amigos para assinarem tb. Mandei e-mail para a associação de vinicultores que apoiam esse devaneio, com crítica pesada a falta de qualidade e de boas ações de marketing que poderiam facilmente ajudar a aumentar as vendas. Daqui a pouco estaremos fadados a consumir apenas o que a “indústria” quiser nos ofertar, pagando muito caro para isso. Temos que protestar e não deixar isso acontecer.

  7. Renata Says:

    Esse texto é um “ode” à comida brasileira. Parabéns!!! Sobre a comida peruana, de fato, ela é riquíssima e na minha humilde opinião, uma das melhores do mundo!!!!

  8. Álvaro Cézar Galvão Says:

    Bruno, impressiona a riqueza de detalhes da postagem, sua brilhante verve.Sou defensor dos mesmos tems.
    abraços de luz

  9. Wilmar do Valle Barbosa Says:

    Belo texto, bela lembrança do que temos de maravilhoso em nossa culinária. O arroz de cuxá, ah, o arroz de cuxá com posta de peixe frito!!

    Essa galera da grande vinícula brasileira é lamentável. Te juro: se sair este imposto, nunca mais vou tomar um gole de vinho feito no Brasil!!!

  10. Ricardo Says:

    Que aula de gastronomia brasileira!!!
    Não entendo essa vergonha do brasileiro em alimentar-se de maneira tradicional com uma comida mais saudável que crie valor à economia regional. Moro em Recife e aqui os pratos típicos tem que ser “desconstruídos” em restaurantes de inspiração francesa para serem palatáveis!
    Sinto falta de arroz vermelho, doce de laranja, “quebra-queixo” de castanha-de-cajú, manuê, uma tapioca crocante com coco e coalho. Por que não se cria um “bar de tapas” com petiscos brasileiros ou um “wine bar” com vinhos nacionais com margem de lucro razoável para que não seja tão caro?
    Essa demanda tem que partir do consumidor pois do contrário, teremos sempre mais do mesmo como nas praças de alimentação dos shoppings espalhados pelo Brasil.

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