Archive for maio \31\UTC 2012

Entretapas vai abrir nova casa, desta vez no Jardim Botânico, com cardápio de almoço e espaço para vinhos

31/05/2012

Os alucinantes “huevos rotos”, um dos pratos deliciosamente simples e muito bem executados do Entretapas

Quando me perguntam qual é o melhor bar de tapas do Rio, eu respondo, sem pestanejar: Entretapas.
Tenho absoluta convicção de que mesmo na Espanha não é fácil encontrar um lugar com uma comida em tal alto nível.
Ao mesmo tempo, fico um pouco confuso. Acho o lugar tão bom, mas tão bom, que classificá-lo como bar de tapas me parece algo menor. É como classificar um maestro como trompetista.
O Entretapas, se for considerado como tal, é seguramente o melhor não do Rio, mas do Brasil. Talvez da América do Sul. Talvez das Américas, e do Caribe. É um bar de tapas impecável, onde tudo o que como é, no mínimo, muito bom, quando não, sensacional. É hoje um dos meus lugares preferidos aqui no Rio de Janeiro. Como bar de tapas, e como restaurante.
Porém, acho que a casa é mais que isso. É um señor restaurante. No nível dos melhores da cidade, quando se propõe a preparar pratos mais sérios, como é o caso da adorável bochecha de vitelo com purê de grão-de-bico, que alcança nível altíssimo: está no mesmo patamar dos grandes da cidade, como Le Pré Catelan, Gero, Olympe, Antiquarius, Quadrifoglio, D’Amici, endereços que sempre apostaram em pratos assim, uma carne assada lentamente, servida com molho da redução dos caldos do próprio cozimento, e algum tipo de vegetal, ou alguns tipos de vegetal, servidos em forma de purê, ou mesmo grelhados ou assados (há também quem prepare risoto, polentas ou massas para acompanhar).
Há coisas simples, que alcançam níveis altíssimo de acerto no preparo, caso do inacreditável “huevos rotos”, indecente (de tão gostosa) combinação entre batatas fritas, ovos com gema mole e linguiça.
O fato é que o Entretapas vai crescer. Ontem em me encontrei com a dupla Jan Santos, o chef, e Antonio Alcaraz, que tocam o restaurante, numa degustação de cavas maravilhosas da Juvé y Camps. Papo vai, papo vem, eles me contaram a boa nova: vão abrir mais um Entretapas, desta vez no Jardim Botânico (no número 94 da rua Saturnino de Brito. OU seria 84?). O restaurante vai abrir para almoço, e terá um espaço no segundo andar mais dedicado aos vinhos.
– Ali vamos poder servir pratos da cozinha espanhola. Coisas simples, como o que as pessoas comem no dia a dia. Peixe grelhado, paleta de cordeiro assada, e sempre um tipo de arroz – disse o Jan Santos, cheio de entusiasmo.
Pois eu, de cá, só posso ficar contente, e desejar boa sorte à dupla.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Adega Flor de Coimbra: tudo como antes na casa folclórica (e clássica) da Lapa

30/05/2012

A feijoada portuguesa, vendida a R$ 27, dá até para dois

Não visitava a Adega Pérola há uns quatro anos. Mas sabia que encontraria tudo igualzinho ao tempo em que almoçava lá regularmente, porque trabalhava no Centro, há uns 15 minutos de caminhada de lá.

Ia sempre. Como ao Nova Capela, ao Cosmopolita, ao Bar Brasil. Hoje preciso pegar um táxi para ir até lá. Desanima um pouco. Todo mundo fala da noite na Lapa. Mas almoçar no bairro é também uma maravilha. Esses clássicos são imortais. Deliciosos.


Como dizia, tudo continua como antes. O que significa dizer que sempre passar por lá vários gringos, e trabalhadores da região, para um almoço bom, bonito e barato.

Significa, ainda, dizer que continua na parede a placa que proíbe “beijo ousado”, peça folclórica da cultura carioca, que é sempre lembrada em pautas em datas como Dia dos Namorados (sim, falta imaginação aos jornalistas: em vez de se falar da comida boa e barata do lugar, falamos de um detalhe, a meu ver, irrelevante, no máximo, engraçadinho).

Há os quadros do Selarón, além daqueles que retaratam o Rio Antigo. Como um boteco carioca com B maiúsculo, tem um São Jorge a nos abençoar.

O fato é que a Adega Flor de Coimbra continua servindo vinhos ruins, e comida muito boa. Ao menos, há boas cervejas, e alguns vinhos, ao menos, dignos, ao contrário do tal Pérola Gaúcha, daqueles vinhos suaves que realmente não me agradam.



Enfim, se eles parassem de servir esse vinho, deixaria de ser Adega Flor de Coimbra. Ainda que poucos bebam, faz parte do folclore. É como se fosse a placa do beijo.


E, é claro, continuamos almoçando sob a bênção de São Jorge, e sob o manto de uma bandeira portuguesa. Adoro.


No meu almoço, revi – e saboreei – dois velhos conhecidos: os bolinhos de bacalhau, em formato comprido, com ficam ótimos com uma boa pimementinha, e a chamada “feijoada portuguesa”, com feijão branco, arroz, couve e farofinha. Custa R$ 27, e dá para dois homens, desde que não estejam famintos.

Ah, sim: e quem pede um almoço ainda ganha um tíquete, que dá direito a um copo de limonada ou um bolinho de bacalhau na próxima visita.

——————————-

Agora, o menu (para aumentar a imagem e facilitar a leitura, basta clicar na foto):

Os pratos executivos, os acompanhamentos e os sanduíches.

Vale a pena.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Palmito bebê, piracuí, farofa ácida e outras surpresas no novo menu da chef Roberta Sudbrack, que cada vez mais valoriza o sabor de cada ingrediente, e a originalidade de suas receitas

29/05/2012



Veja só como é curiosa a vida. A cozinha da Roberta Sudbrack me emociona.

Emoção, em tese, inspira. Mas encontro alguma dificuldade para expressar o que sinto ao provar os pratos criados por ela, especialmente quando ainda estão em fase embrionária, como no caso de ontem (na verdade, agora há pouco), quando ela apresentou a coleção 2012, o que seria uma espécie de desfile dos pratos que vão estar em cartaz nos próximos 12 meses no restaurante do Jardim Botânico.

A mesa estava linda. Hortênsias, cipós, muitos talheres.


Logo de cara provamos um consomê de casca de abóbora assada. Sim, casca de abóbora assada, e eu sequer precisava ser amante de abóboras para ficar tão contente de confortável.
Foi só um boas-vindas sem muita pretensão, ainda que delicioso.


Porque lindo mesmo foi ver repousar sobre a mesa o primeiro ato deste teatro gastronômico, onde a chef atua como diretora e roteirista, e os ingredientes, esses, sim, são os protagonistas.


São eles que brilham. Sobre cada prato servido repousa uma tira de papel, indicando do que se trata. O primeiro elemento vinha assim: “Flor de abobrinha, gema, raiz e…”. Para ler o resto, que estava oculto por uma dobra, tínhamos que ter a curiosidade de ver: “… e só”. Sem falar no toquezinho de flor de sal, presente em muitas receitas (até em doces), sublinhando os sabores de cada prato. Ah, raiz, no caso, eram fiapinhos crocantes de alho-poró, aparentemente passados em farinha e fritos. Gostoso pacas.
Pois a combinação entre flor de abobrinha, gema e raiz foi um belo abre-alas para o desfile de alegorias gustativas que veríamos a seguir.

Causou surpresa o encontro entre castanha-do-pará crua com cará, que virou uma base crocante e irregular, e aviú, esse camarãozinho miudinho típico do Pará. Sinfonia de sabores brasileiros com lastro amazônico, achamos ali o sabor da copa das árvores, da raiz, e dos rios.


Aos poucos a inspiração amazônica vai se revelando. Saboreamos uma burrata delicada temperada com piracuí (que é uma espécie de farinha de peixe seco) e ovas. Demais. Delicadeza e intensidade.

Explosão das ovas com a cremosidade da burrata.


À certa altura recebemos um prato onde reluz uma colher gelada sobre a qual repousa um bocado chamado “ostra vegetal”, na verdade uma combinação entre tomate e salsa, com textura próxima da do marisco, com frescor e acidez, e um leve toque salgado. Espetacular.


Eis que chega o prato que me causou maior espanto: “palmito bebê, tomate, basílico e… só” (prato delicado que aparece na foto.

Sim, todos os pratos tinham esse sobrenome “só”, anunciando a sua pureza.
Pois esse tal palmito bebê é uma novidade vinda de Angra dos Reis, resultado do cultivo de uma espécie que teria sido importada da Austrália, e que pode ser colhida com apenas um ano de vida. O talo, pequenino, foi servido cru, só com o tempero de tomate e manjericão que tão bem faz a ingredientes assim. Com textura crocante, sabor delicado, porém intenso, que remete a coco, o tal palmito foi um estrela da noite. Brilhou…

… elevado, ainda, pelo vinho acertadamente escolhido.


Em seguida, outro movimento digno de medalha de ouro: um ravióli recheado com purê de cará, temperado com piracuí crocante (foi frito) e um caldo de galinha sublime.

Um close!!! Clap clap clap!!!

O robalo fresco, com o interior quase cru, cozimento preciso que valoriza o seu frescor, chegou na companhia de tomate e jambu.

E o imenso frescor do peixe foi  acentuado, ainda, pela erva e pela boa acidez do tomate. E a flor… de sal. Uau!!!


E a queixada, ah, a queixada, último ato do circuito salgado, ganhou a escolta brilhante de uma “farinha ácida”, fruto de um resíduo do tucupi deixado propositalmente na farinha trazida de Belém, e tostada na cozinha da casa alaranjada do Jardim Botânico.


A tâmara que parecia hidratada boiava, aberta pela barriga, como uma tainha prestes a ser recheada, sobre um mar de chá preto, com o sabor delicioso do licuri, a nossa castanha mais especial entre todas. E a flor de sal, dando ainda mais relevo ao belo conjunto.

Além de delicioso, é um prato lindo: delicada composição. Arte. Equilíbrio. Harmonia.


Fechamos com o chamado “leite frito … e só”, uma sobremesa daquelas que agradam crianças, adolescentes e adultos, que faz feliz os que gostam ou não de açúcar. É como se fosse uma massa de bom mingau, endurecido como polenta, e que recebe uma finalização em fritura, como se fosse rabada. Na verdade, é melhor que tudo isso, reunindo o que ada um desses pratos clássicos têm de melhor.

Em todo o seu aspecto acolhedor, a cozinha da Roberta Sudbrack sempre me instiga e provoca. E sempre surpreende.

Ingrediente é tudo. Desvendá-los é a glória.

Viva, viva!!!

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Lula com melancia, porco com jabuticaba e uma versão eterna do sanduba de pernil com abacaxi do Cervantes estão entre os destaques do novo menu do Oro

27/05/2012

O novo menu do Oro, vou te contar, é algo fora de série. Pela beleza, pelo frescor, pelo sabor e pela pureza dos ingredientes, pelas boas sacadas, pela criatividade, pela leveza e elegância, pelas homenagens que faz, pelas texturas e contrastes, pelo equilíbrio e cuidado.

É muito interessante poder acompanhar desde o seu início a carreira de grandes chefs, como pude fazer com o Felipe Bronze, e com a Roberta Sudbrack, que me parecem, ambos, viver as suas melhores fases, se posicionando em qualquer lista que se possa fazer como dois dos melhores restaurantes do Brasil.

Na semana passada fui convidado e conferir as novidades do cardápio da casa do Jardim Botânico, a primeira mudança mais profunda nessa cozinha orgânica e viva, e como tal, sempre com alterações. Algumas receitas foram se apurando. Outras nasceram.

O que mais me chamou a atenção nesta última visita foi a delicadeza. E o aspecto “conforto”, que me parecia a única coisa que faltava ao Oro. Aos poucos, o restaurante ficou mais confortável. Ganhou mais iluminação à noite. A equipe hoje joga bem entrosada, na cozinha e no salão. E isso se reflete na segurança do chef, que agora propõe um menu encharcado de frescor, que enobrece ainda mais muitos ingredientes brasileiros, e faz isso de modo delicado, elegante, saboroso.

O início foi promissor. Chamado “caju amigo” o amuse bouche é um pouco drinque e um pouco acepipe. Sentimos uma sabor apurado de caju, com a fruta passificada e com ela confitada, servida sobre gelo picado, numa garrafa cortada ao meio, com sabor alcoólico bem dosado.

Em seguida, apesar de tão cedo, o clímax da noite, o ápice: melancia prensada com tentáculos de lulas miúdas e frescas servidos crus, frescor evidenciado por um perfume enfumaçado de menta, que além de aromatizar causa lindo efeito cênico.

Este momento se tornou ainda mais sublime pela dupla que acompanhava o casamento inusitado entre lula e melancia sob a aliança da erva: um cone com massa de açaí recheado com tartare de filhote defumado, e uma brincadeira chamada “alho e cebola”, composição divertida que sobrepõe muitas variantes desses dois vegetais de sabor intenso, que tendem a se caramelizar naturalmente quando expostos ao fogo longamente.

Como dizia, convictamente, o ponto alto foi a combinação entre lula e melancia. Tá certo. Mas o segundo posto, a meu ver, indiscutivelmente cabe à barriga de porco com jabuticaba. Isso é sacanagem. Tão delicioso, é servido em pequena porção. Dá vontade de virar para o garçom e pedir 40. Mas, pensando bem, bom mesmo é esse certo mistério. Tô com saudades do porquinho, que tem seus sabores potencializados pelo caldo rico, que sugamos da louça transparente que serve de base para a carne.

Então, revisitei   um velho conhecido, o delicado profiteroles acompanhado de queijo da Ilha de Marajó com a bênção crocante de um licuri caramelizado de fazer parar o trânsito. Ô, sorte.

Também já conhecia o royale de foie gras, outra receita que o tempo tratou se apurar, deixando mais delicada a combinação de fígado gordo com maracujá, granola (embalada de maneira provocante em embalagem transparente e comestível) e frutas desidratadas a frio, preservando frescor e acidez.

Em seguida, lula, edamame, caviar de tapioca e vinagrete de tinta deste fruto do mar. Uau.

Prosseguimos com um naco de filhote que me remeteu imediatamente ao Pará. Para acompanhar este que está certamente entre os meus peixes preferidos, hommus de feijão Santarém (pausa para aplausos pela criação deste sublime e delicado acompanhamento: clap, clap, clap) e leite de castanhas.

Vamos em frente. Chega o prato batizado de carioquices. Que linda homenagem a botecos cariocas tão estimados. O Aconchego Carioca se faz representar por uma versão molecular de seu bolinho de feijoada, servido numa colher que explode na boca, dissolvendo o seu intenso sabor. Já a nobilíssima Alaíde aparece com o seu aclamado bolinho de aipim com camarão e catupiry, preparado de maneira um tanto mais cremosa e delicada. Por fim, o sanduba de pernil com abacaxi do Cervantes, em reinterpretação fabulosa, que faz a gente se esquecer completamente do original. Pena que não dá para ir comer sanduíche de pernil com um copo de chope, no Oro, as 4 da matina de uma madrugada qualquer. Que pena. Falando em chope, o trio de acepipes vem acompanhado de um copinho de chope, no caso, uma bebida não alcoólica com base de gengibre.

Estamos quase no fim, e chega o cordeiro com crocantes de pistache e damasco, inhame e zatar.

É como um prenúncio das sobremesas, que são uma festa.

Tem uma árvore de metal, chamada de “açaizeiro”, que traz uns gostosos docinhos com base nesta fruta. Junto nos chegou o “tudo sorvete”, composição com sundae, picolé e um trio de sorvetes (o de taperebá é algo extraordinário aos que gostam dessa fruta cheia de personalidade).

Ainda saí com um potinho de sorvete, para provar em casa: chamado “flocos do Brasil”, é feito com cupuaçu e sementes de cacau. Ainda não provei. Estou seguro de que vou gostar. Um regalo simpático, para não me deixar esquecer do jantar no Oro. Agradeço de coração, mas não seria necessário. O jantar de quinta já entrou para a galeria dos melhores do ano. Com louvor.

Dez, nota 10!

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

CT Trattorie, parte 2: uma nova visita, com novos pratos, erros e acertos (agora com as fotos do cardápio)

19/05/2012
A CT Trattorie tem um belo futuro pela frente, ao que me parece.
O cardápio está bem interessante (no final do post eu publico ele na íntegra), e o serviço, bastante simpático. O lugar é lindo. Mas a cozinha não pode dar mole assim, deixando o polpetone queimar, como aconteceu comigo esta semana.
Voltei à casa não só para ver com atenção o menu, mas também para poder publicá-lo aqui, coisa que havia prometido, mas não tinha conseguido cumprir ainda. Logo que escrevi o post sobre o recém-inaugurado restaurante, a primeira casa italiana de Claude Troisgros, no lugar do antigo 66 Bistrô, me cobraram o cardápio, como fiz recentemente na abertura de novos restaurantes aqui no Rio, entre o fim do ano passado e o começo desse (IrajáVieira Souto,  Bottega del Vino e Brigite’s e Quadrifoglio Caffè).
Na noite de terça jantei lá, bem tarde, perto da meia-noite. E ainda tinha boa quantidade de pessoas.
– Tem dado fila na porta. Teve gente esperando uma hora para jantar. Melhor vir em horários assim.
Também acho.
É boa a ideia de servir pichets de vinho: 375 ml a R$ 40 tá razoavelmente bom.
Já tinha lido sobre a polenta com ovo, e não haveria modo de me fazer mudar de ideia. Estava ótimo.
Gema mole.
Em seguida, para o prato principal, também já cheguei decidido: pediria o polpettone, coisa que adoro. A carne estava ótimo, o queiro gruyère dá um toque francês adequado, porque não derrete muito, e acrescenta bastante sabor. O molho de tomate tinha equilíbrio e bom tempero, acidez correta, e umas torradinhas bem colocadas. Mas a travessa não pode passar tanto tempo no forno de finalização a ponto de queimar totalmente as bordas. As batatinhas fritas, fininhas e com toque de alecrim, estavam ótimas como sempre, sequinhas, salgadinhas, crocantes.
Aproveito para responder a um questionamento do Jorge, que lá no blog Enoteca deixou uma boa pergunta, num post que tratava, entre outras coisas, da polêmica lista de melhores da revista inglesa Restaurant (para ler, clique aqui):

“Olá Bruno,
Concordo plenamente com você e acho que tradição é tradição.
Mas deixo um pergunta: o que você acha das “releituras” de pratos tradicionais? Um bom exemplo é “carbonara com carne seca” lançado recentemente numa nova trattoria. Pode até fazer o prato (não duvido que seja bom), mas podia batizar de outra forma, sem quebrar a tradição.
Abs,
Jorge Khauaja”
Jorge Khauaja, sem dúvida, tradição é tradição. Por mim, fora da Itália, e principalmente no Brasil, o chef pode chamar uma massa de carbonara, mesmo acrescentando algum ingrediente alheio à receita original. Se ele usa o nome carbonara, escrevendo isso claramente no menu, como é o caso, eu não vejo problema algum. O que não dá é um restaurante na Itália, especialmente os de Roma, chamarem de carbonara uma massa que leve carne-seca.
Qualquer restaurante, fora de seu local de origem, tem que se adaptar aos ingredientes do lugar onde está, ou pelo menos tem liberdade para fazer isso.
O que importa é que a comida seja boa, e nos dê prazer. Todo o resto, para mim, é bobagem.
Acho a CT Trattorie um restaurante que me parece tipicamente italiano, uma cantina, ou mesmo trattoria, como ele se chama. Comida simples, gostosa. Só não é barata, como nada é hoje no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro. Mas eu curti. Eu recomendo. Eu vou voltar. Um abraço

—————————————————————————————————
Agora, o menu (clique nas fotos para ampliar):
Primeiro, as entradinhas.
Depois, alguns pratos do 66, as especialidades, e as massas.
Na folha seguinte, os risotti, as carnes, aves, peixes e crustáceos, e os acompanhamentos para isso tudo.
Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Ix Bistrô em nova fase: Paulo Nicolay comanda os vinhos, e Gabriel Carvalho assume a cozinha (será que agora vai?)

16/05/2012

O Paulo Nicolay é um dos caras que mais entendem de vinho no Brasil. DE vinho, e de comida. E de viagens enogastronômicas. Além de ser um ótimo papo.
Naturalmente, gosto muito de sua companhia, principalmente à mesa, onde discutimos questões profundas como os aromas balsâmicos de um Pinot Nero do Alto Adige, a delícia que é comer foie gras cru ao sal grosso, no Au Petite Sudouest, em Paris, ou mesmo a maneira mais indicada de se comer uma molleja, se assada inteira ou fatiada.
Há cerca de um mês e meio estávamos tentando coincidir as nossas agendas para um jantar no restaurante Ix, para qual ele trabalha hoje, dando consultoria de vinhos e de harmonização de cardápios.
Dei uma baita sorte, porque o nosso atraso em realizar o encontro acabou por me apresentar uma novidade: desde segunda-feira o chef do restaurante no terceiro piso do Shopping da Gávea é Gabriel Carvalho, filho do músico-gourmet Mu Carvalho.
Ainda não havia provado a sua cozinha em restaurantes nos quais ele passou. Lia e ouvia elogios. Acrecento mais um: o rapaz é uma simpatia.
E cozinha mesmo bem.
Jantei lá na segunda-feira mesmo. E ainda no primeiro dia deu para ver que, se ele conseguir se estabilizar ali, o restaurante pode crescer bastante.
Gabriel é um chef promissor. Estava tudo bem gostoso, com algumas boas soluções que muita gente não adota, como tirar um ossinho de cada par de costela de cordeiro, aglutinando mais carne ao redor de menos osso, e assim permitindo que o interior fica rosado no ponto ideal.

Começamos com um bom capuccino de cogumelos.


Depois a coisa ficou séria, com um bom foie gras, apresentado de duas maneiras: um belo escalope poelée e uma terrine. Ambos muitos bons, sabores e texturas elevadas pelos pães feitos na casa, especialmente uma torradinha bem tostada, do jeito que gosto.


Depois, um salmãozinho em crosta, com o inteior ainda cru, para me fazer repetir: do jeito que eu gosto.


Dali, partimos para o ataque aos tintos, saboreando um arroz de pato, igualmente bem resolvido, com uns crocantezinhos feitos com a pele da ave, que faziam toda a diferença.


Prosseguimos com umas costeletas de cordeiro, que acompanharam brilhantemente o Bordeaux. Neste prato o que me chamou a atenção foi a textura crocante do cuscuz que acompanhou as costeletas, lambuzadas em bom molho.
E, falando de vinhos, a consultoria do Nicolay fez bem ao Ix. Uma escolha acertada de rótulos, muitos vendidos em taças de 120, 150 e 180 ml, permite provarmos uns dois ou três a cada refeição.


Gostei (e indico) particularmente de dois: um fresco e elegante Pinot Noir italiano, da região do Alto Adige, o Kris 2010,…

…e um belo Bordeaux, o Château Lachesnaye 2007, um Cru Bourgeois de ótimo preço que apresenta o caráter típica da região, ambos vendidos a R$ 16 (120 ml). Uma beleza.
Eu fico torcendo para que agora a coisa decole. Tem que reclame de restaurantes de shoppings. Sem dúvida, não estão entre os meus lugares preferidos, mas é sempre bom saber que teremos onde comer bem depois do teatro ou do cinema, das compras com a família, ou quando a filha pede para ir brincar no parquinho. Eu apoio a proliferação de bons restaurantes em shoppings. E também na rua, claro. Porque, no fundo, no fundo, o que importa, mais que o lugar, é a comida. Restaurante em lugar agradável com comida mediana não me agrada. Restaurante feioso, em lugar esquisito, e nem estou me referindo a shoppings, mas com comida saborosa, esse, sim, eu topo.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Terê botequim, parte 3: o fim da trilogia de bares serranos, ao sabor de costela no bafo, bolinhos de bacalhau e linguiça artesanal

15/05/2012

Finalizando a trilogia Terê Botequim, apresento mais três botecos dignos de nota, que servem comida boa e barata, em ambientes simples (até que eu descubra outro bar que valha a pena). Lugares que poderiam perfeitamente estar listados em guias como o já clássico Rio Botequim, do meu amigo Guilherme Studart, que em suas duas últimas edições também passou a explorar o interior do estado.

São três lugares absolutamente distintos. O primeiro deles é a Linguiça do Padre, na estrada Teresópolis-Friburgo, que conheço de muitos outros carnavais. Ali, por volta de 1988, 1989, quando eu entrava na adolescência, era um passeio razoavelmente corriqueiro em família: ia para a Roça com o meu pai, com minha mãe, com meus tios e irmãos. O feijão pode ser cotado como um dos melhores que se tem notícia, com uma cremosidade exemplar, enriquecido com carnes. Uma coisa de doido. Hoje a especialidade da casa, às margens da rodovia, numa propriedade que também se dedica à agricultura hidropônica (depois de Epcot Center, num contexto experimental, foi ali que vi pela primeira vez essa moderna técnica de cultivo de alimentos), é o embutido que lhe batiza: trata-se de uma linguiça em forma de “U”, que pode ser comparada para levar para casa, ou consumida ali mesmo, de preferência ao lado do ótimo tutu. Vale a visita.


O segundo lugar, chamado Custela do Manel, apesar de toda a sua aparência simples, é um dos melhores lugares que conheço para comer uma boa costela no bafo. A carne chega no ponto perfeito de cozimento e sal. Sim, desmanchando-se ao toque do garfo. Ou da colher, como queira.


Repara só.

Para acompanhar, basta pedir uma porção de farofa, puxada no alho frito, par perfeito. Muita gente, especialmente nos fins de semana, vai até lá para buscar o rango da família. Vai por mim: com R$ 50 dá para comprar carne para uma família numerosa, coisa de oito ou dez pessoas. Há outros cortes, como picanha, além de linguiça, mas o destaque fica mesmo por conta do costelão, vendido a peso. Aos domingos, e só neste dia, também são servidos um ótimo feijão tropeiro com torresmo e um razoável arroz de carreteiro. E da-lhe pimenta! Feita ali, é ótima. Acopanhamos tudo com uma boa Therezópolis Gold. Sim, a vida é bela.


Encerramos a série com um lugar bastante pitoresco, o Armazém do Portuga, um boteco que funciona no clube Casa de Portugal, no Centro da cidade. Há vidros coloridos, piso preto e branco, num ambiente que me remete à infância, e de que muito gosto. Acho bonito o lugar.


Ainda por cima, a painéis de azulejo típicos de Portugal, decoração que adoro.

Os bolinhos de bacalhau me parecem muito familiares, lembrando a receita da bisavó, diferente da combinação entre apenas entre o peixe e a batata, usando também outros temperos, com cebola, alho e pimentão, resultando uma massa cremosa que é frita sob a proteção de uma leve camada de farinha. Evidentemente que tudo fica melhor quando usamos azeite e pimenta.
Além dos bolinhos, há bons pratos com o peixe. E, nas noites de quinta a sábado, tem uma boa música ao vivo rolando.
Pois é. Descobri que Terê tem uma louvável seleção de botecos. E eu cá, sinto falta de outros dois lugares que bem poderiam estar aqui. Tenho saudades do Bar Ângelo, na Pracinha do Alto, onde comia lindos sundaes, bananas splits, baurus e escalopes ao molho madeira com arroz à piemontese. E também do miúdo Rei do Limão, o original, que funciona numa portinha, bem perto da Igreja de Santa Teresa. Além de caldinhos abençoads (até hoje é o melhor caldinho de feijão que já provei, e ainda tinha de mocotó, ervilha e inhame, entre outros, todos deliciosos) conservados quentes em garrafas térmicas a virine exibia moelas divnas, fatias de língua bovina, ambos afogados em um molho fantpastico, e uma rabada de parar o trânsito. Era baratinho, baratinho. Ia sempre. Iria até hoje. Pena, que pena que acabou. Muita pena.

E mais:
Terê botequim, parte 1
Terê botequim, parte 2

Índice de posts de cidades no estado do Rio de Janeiro: clique aqui.

A caminho da Roça teresopolitana, um coelho gostoso e baratinho: mais um capítulo da série Terê Botequim

10/05/2012

Teresópolis é a minha segunda casa. Tenho ido bastante desde o meio do ano passado, quando aluguei uma casa lá para poder visitar a filha, que mora na cidade, lugar que adoro, onde me sinto muito bem. No inverno que chega, gosto ainda mais – se bem que subir a serra no verão escapando do calor inclemente do Rio também é realmente delicioso.
Nessas idas constantes a Teresópolis tenho visitado alguns botecos bastante bons. Alguns deles eu listei na reportagem que saiu no Boa Viagem, republicada aqui em versão um pouco ampliada.

De lá para cá, descobri mais alguns lugares com esse perfil botequeiro, o Bar e Mercearia da Ponte, lé na localidade de Venda Nova, na gostosa zona rural teresopolitana, conhecida pelo adorável apelido de “Roça”. Quem me deu a dica foi o Serginho, da Riser Delikatessen, um dos lugares citados na minha matéria. Certo dia eu estava lá, e acabei comentando que gostava de comer coelho.
– Então, você que gosta de comer coelho, e que adora frequentar botequins, precisa conhecer uma moça lá em Venda Nova. Ela faz um coelho delicioso, e baratinho.
Ele fez um mapa para mim, mas nem é tão necessário, assim. Segundo em direção a Nova Friburgo, indo pela estrada Teresópolis-Friburgo, entramos à esquerda, em frente a igrejinha. É só ir direto. É bom ligar para se informar, e confirmar se a casa está aberta, e se tem coelho (os telefones são 21-2644-6032 e 21-9143-1537).
Na primeira vez que fui, embora fosse cedo, o coelho já tinha acabado (menos mal, aproveitei para visitar a Cremerie Genève, um pouco depois dali), mas o cheirinho de comida boa era uma tentação. Voltei dois dias depois, no feriado do Dia do Trabalhador (mas dessa vez, liguei antes, para encomendar).


O lugar é bastante simples. Adoro lugares assim. Quando cheguei, o cheirinho de comida boa, caseira, tomava conta do ambiente. Um cão simpático, e um capítulo da novela em cartaz em Vale a Pena Ver de Novo, me receberam muito bem (o cadelinha adoro coelho, e ficou rogando pelos ossos, devidamente concedidos pela dona). Pedi uma cerveja, e uma porçãozinha de coelho. Comi com imensa alegria a versão na panela, uma das três que a moça prepara (as outras duas são: assado ao forno e frito, algo meio à passarinho).

– Meu marido, que já faleceu, adorava coelho. Viemos para cá e começamos a fazer. Aqui tem tradição nisso. Muita gente cria e saber cozinhar – me disse a senhorinha, cujo nome anotei, mas não tô achando aqui agora.


Estava delicioso. Carne tenra e delicada, tempero correto e alguma suculência, algo que não se espera de um coelho, já que este simpático bichinho costuma a ter a carne bem ressacada quando não está diluída em algum tipo de molho, como ragú. A conta? Ah ah ah ah ah ah. Dá vontade de rir. Paguei R$ 10,50, incluindo a cerveja. Quem quiser pode levar para casa o coelho (já pronto, ou abatido).
Depois da matéria do Boa Viagem eu também revisitei outros lugares que já conheciam, mas não havia incluído na matéria: a Custela do Manel, que faz carnes na brasa muito boas e baratinhas; a Linguiça do Padre, outro desses deliciosos endereços da Roça, onde comemos tuto à mineira, feijoada e uma linguiça feita ali muito boa; e o Armazém do Portuga, que tem boa comida, boa música ao vivo à noite, e fica agradavelmente instalado em um clube, a Casa de Portugal, em um ambiente, digamos, bastante pitoresco.
Mas acho que o post, que era para juntar os quatro lugares, já ficou longo demais. Então, amanhã, ou durante o fim de semana, eu publico um textinho amarrando os três lugares. Valeu?

E mais:
Terê botequim, parte 1
Terê botequim, parte 3

 

Índice de posts de cidades no estado do Rio de Janeiro: clique aqui.

O menu tradicionalista e delicioso do chef Rafa Costa e Silva no Venga

09/05/2012


O Venga estava mesmo precisando dar um tapa no menu. Apesar de mudar regularmente, o cardápio do bar espanhol não vinha me emocionando muito. Fiquei uns dois anos sem ir.
Gosto do lugar, mas não andava entusiasmado em ir até lá, mesmo morando a cinco minutos de caminhada do segundo – e maior – endereço do Venga, em Ipanema.
Quando recebi o convite para o lançamento do novo cardápio da casa, criação do chef carioca Rafa Costa e Silva, que depois de uns oito anos no exterior, tempo que o fez ter sotaque de gringo, volta ao Rio de Janeiro, onde pretende abrir um restaurante.
Enquanto isso, vai sentindo o terreno fazendo trabalhos assim como este.
Foi uma noite animada, entre amigos, com bom papo regado a bons vinhos, e um cardápio realmente muito bom. Simples, mas com ótimos ingredientes, e execução precisa.
– A nossa ideia não foi fazer algo próximo do Mugaritz, mas sim o que a gente comia nas nossas folgas, o que preparávamos para nós mesmo – conta o chef, em referência ao seu último restaurante no exterior, em San Sebastiá, no País Basco, cidade que é refência em gastronomia.
São 11 pratos no total: dez salgados, e um doce.


Tudo começou ao sabor da ensaladilla rusa (R$ 14), um potinho com salada de batatas com pepino em conserva, azeitona, cebola roxa e anchovas, muito bom, e que ficaria ainda melhor com mais uma carga do peixe salgado. Para dar um croc croc, e até servir de talher, levando a comida à boca, havia uns palitinhos bem-vindos, tipo grissini.


Depois, uma tenção chamada pintxo euskadi (R$ 14), formosa composição: uma base de torrada de bom pão, crocante, crocante, frito no azeite, coberto com alioli de cebolinha francesa, pimiento de piquillo e ovo. A glória da simplicidade, cuja composição de cores presta homanagem ao País Basco. Merece hino em louvor.


A etapa seguinte foo a brandada de bacalao (R$ 16), um creme feito com o peixe servido com chips de batatas. Bom.


Marisqueiro que sou, curti imensamente os tigres (R$ 16), que são mexilhões com jamón e bechamel, servidos na própria casca. Beleza.


Cremoso, o falso risotto (R$ 18) era feito com massa tipo “orzo”, que eu chamaria de risoni, com jamón e parmesão.


Esses primeiros cinco seriam as entradinhas. Agora, os pratos principais, servidos em pequenas porções, que se diga.
Outro dos meus preferidos foi a minihamburguesa de atún (R$ 27), no formato ideal para ser devidamente abocanhando, para se comer com as mãos, temperado com molho de pimiento de piquillo. Para quem gosta, um complemento providencial, lâminas de pepino numa espécie.


E fomos em frente, degustando o bacalao en piperrada (R$ 28), que vem a ser um bastãozinho empanado de bacalhau servido com um refogado de pimentões e cebola.


Parti para dentro dos calamares en su tinta (R$ 27), que são lulas cozidas em sua própria tinta, servidas com tortinha de arroz salteadas.


Foi então que chegou o meu preferido da noite, extamente ao lado do pintxo euskadi: a castilla de cerdo (R$ 20) era uma costelinha de porco assada perfeitamente, caramelizada, agarrada ao osso, claro, acompanhada de uma compota de maçã verde que fez toda a diferença. Deu vontade de pedir bis. Fiquei com vergonha, e fui em frente.


Para minha sorte o próximo prato, e último do percurso salgado, manteve o alto nível: a carrillera de buey (R$ 27) tinha um toquezinho de brasilidade: a bochecha de boi de cozimento exemplar no vinho tinto foi servido com purê de batata baroa (e não mandioquinha, como escrito no menu: isso é palavra de paulista, carioca fala baroa, ou o nome completo, batata baroa. É o mesmo que chamar meio-fio de guia, carteira de motorista de carta, contra-cheque de holerite, monografia de TCC, menina de mina ou sanduíche de lanche… Será que o menu é o da filial paulista do Venga?). O toque de mestre, no caso, foi acrescentar ao purê cremoso “trocitos” de chorizo, originando mais um acompanhamento adequado, mas fundamental na composição da receita.


Fechamos com o flan (R$ 12), um pudim de leite enriquecido com redução de laranja e um toque de flor de sal.
Bravo!
Seguramente, desde que o Venga abriu as portas no Leblon, foi a melhor refeição que fiz ali.
Depois, ainda ficamos na calçada, falando de comidas, de premiações, de estrelas, de jornalistas que agem de má fé, dos absurdos preços dos imóveis no Rio de Janeiro, de sócios
Eu tinha implicado com o Rafa Costa e Silva há um tempinho atrás, porque ele teria dado depoimentos um tanto questionáveis a respeito da gastronomia carioca, dignos de que não conhece a realidade da cidade. Conversando com ele vi que não foi nada disso. O problema era outro, os interlocutores. Entende?
Bem-vindo ao Rio, chef.
Acho que você merece viver aqui, na cidade de São Sebastião. Com todo o respeito a San Sebastián…

 

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Bar da Portuguesa: uma esquina lusitana com espírito carioca, com certeza

07/05/2012
Quando vou ao bar da Portuguesa, em Ramos, a R$ 50 de corrida de táxi da Zona Sul, saio sempre pensando: não existe um boteco que seja mais boteco do que esse. Para começar, fica numa esquina. Do Subúrbio.
Tem um altar para São Jorge, e mesas espalhadas pela calçada. A frequência mescla com absoluto equilíbrio os bebuns que não podem faltar em botequim que se preze, com famílias reunidas, grupos de amigos barrigudos com camisas de times de futebol, moças formosas, moradores do bairro com forasteiros atraídos pelo excelente repertório de comidas, e as cervejas, sempre geladas.
E, como não poderia deixar de ser, existe uma pimenta deita na casa muito da boa, e o serviço transita entre o mau humorado e a mais pura simpatia, como manda a regra.
E tem jiló. Boteco que se preze tem que servir jiló, mesmo que seja apenas uma vez por semana, no caso do bar da Portuguesa, aos domingos, quando é preparado um magnífico jiló recheado com carne-seca, com amargor equilibrado, e uma bela fatia de carne-seca lá dentro. Saca só os talhes. Demais!
Podemos gastar uma tarde de domingo ali facilmente, entre outras razões porque neste dia, e só neste dia, é servido um torresmo maravilhoso, crocante, salgadinho e saboroso, com boa proporção de carne.
Tem até passarinho, no caso, uma calopsita tão vaidosa, que ficou se exibindo para mim, quando comecei a fazer as fotos dela, e reclamou, aos gritos, quando terminei a sessão de cliques.
Das mesas altas que ficam dentro do pequeno salão, tomado por várias geladeiras abarrotadas de cervejas, inclusive uma improvável Meteor, francesa, produzida na Alsácia. Eu fiquei na Brahma mesmo, ótima companhia para os petiscos, que observamos sair da cozinha copiosamente, para serem ajeitados na vitrine aquecida.
Os bolinhos de bacalhau estão entre os mais pedidos, e basta provar um para ver as razões: massa saborosa, com bom tempero, casquinha levemente crocante. É regar com pimenta e partir para o abraço. Ainda no quesito bolinho, essa tradição tão carioca, os de aipim com recheio de camarão (na foto) são dignos de antologia, não apenas pelo recheio abundante e saboroso, mas especialmente por conta da massa, de uma cremosidade admirável. Tudo ali parece pedir uma boa pimenta para acompanhar.

Na mesma vitrine  podemos encontrar, ainda, sardinhas sequinhas, frescas e deliciosas, que chegam em grupos de cinco, aproximadamente, e não esquentam muito tempo no balcão, logo ocupando lugar de destaque nas mesas da clientela. E as empadas que ficam ali também são dignas de atenção, assim como os pastés (em ambos os casos, peça de camarão).

No momento, por conta de um festival de botecos, está em cartaz a fritada do Seu Hélio, de bacalhau, um espetáculo que serve bem duas pessoas por módicos R$ 15. Uma pechincha deliciosa.

Se domingo é dia de jiló com carne seca, e de carne assada, as quintas é servida sopa de siri e, às sextas, mocotó e, aos sábados, tem salada de bacalhau, e punheta, feita com o mais lusitano dos peixes.

Quer entender o que é um boteco carioca? Então, uma visita do Bar da Portuguesa se faz mais que necessário. A alma dos botequins reside ali.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.